kraken

August 30, 2017 § Leave a comment

não me devo preocupar com os dias
apenas com os caranguejos se ficam longe da costa

regressá-los húmidos ao mar – um objetivo útil,
pensar sobre esse tempo – uma futilidade -, uma vez que imperceptível do cosmos

assim, melhor guardá-los dentro dos gestos plúvios

no entanto, dias há em que me preocupo
percebo o quanto desperdiço a vida a pensar nisto de agir
no tempo em que alguém – na minha ausência -, surripia uma estrela para um lavatório

triste e ridículo – eu sei -, como tudo o mais

que importa?

faço por sobreviver – e sobrevivo -, a esta tristeza de barco no mar
com toda a culpa hasteada de não salvar nada, nem a mim mesma (o que não lamento)

de tudo inconsolavelmente inútil como isto e ainda mais o que não escrevi,
escreverei um dia ou atrever-me-ei a pensar,
igualmente dependurado na humidade do espaço

enfim – bichos, monstros e náufragos –, solúveis velas

resta-me pois, unicamente
a esperança de a meu tempo sucumbir no nada
sorridente e com todos os nomes que não salvei vazios na boca

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missiva para o líquido amor

August 23, 2017 § Leave a comment

Garden of the Words_ de Makoto Shinkai

amor, estou no limite do estio e tudo seca

preciso de ti mais do que nunca,
saber se vens para dizê-lo aos bichos soterrados
aos insetos que agasalho dentro desta humidade amarga que me resta

dantes chovias, era de flores

agora sou côncava e ácida nas tuas vértebras

unto-as com a sombra do meu corpo antigo,
embebido na memória da tua água inquieta

no entanto, reservo ainda no peito a lembrança irrespirável do arco que pulsava a nossa impaciência

e digo-te que assim é, sabendo que não basta,
que descarnas este corpo outrora místico e embriagado da religião da tua boca

não é mais o mesmo

é réplica agora, multiplicidade de significados e estados

vegeto relentos incertos com gestos inábeis
e não sei mais qual de mim sou eu no teu sentido

certo dia, de imensa e dupla, serei por certo uma cidade infecunda e apartada do mar
que desmoronará dentro do teu silêncio com todos estes rostos que construí
antes de qualquer um de nós se aproximar e reconhecer, antes do fim,
da tua chuva respirável e com sentido ainda, humedecer em mim qualquer sopro de vida

preciso de ti agora mais do que nunca
antes de encerrarem todos os portos e partires de vez

no passado, nada disto acontecia ou me preocupava

a vida pestanejava e habitava o imo das coisas
as pedras sem arestas rebolavam nuas as marés sem tempo

pensava em ti com a clareza das fontes e das paisagens
e todas as estações estavam certas dentro dos relógios

agora não
tudo mudou
vesti-me e tornei-me violenta

sou demasiadas de mim agora

no medo, já não te distingo o rosto entre os espelhos
e neste desfasamento triste, sei que conjeturas sobre mim também

qual de nós é o genuíno eu
qual em nós é o genuíno amor

são vãs, estas palavras, eu sei

mas se puderes, ainda, responde-me sem muitas vozes

pois tentarei perceber qual de mim te escuta

se assim o entenderes, revelarás qual de ti me pertence
e aproximar-nos-emos líquidos e desarmados
pela derradeira vez

é que preciso urgentemente de reconhecer-te nesta cidade

se é a tua voz que escuto entre os ruídos
se esta humidade que sinto, tua inquietude

se és tu, líquido amor na minha língua
se eu que me dissolvo entre as ruínas

querosene men

August 17, 2017 § Leave a comment

o querosene men, é dândi e internacional

compõe o pescoço, direciona os olhos
antes de afiar a língua na lâmina da folha para incendiar os mortos
deslizá-los encetados e húmidos pela fibra roxa do lábio
partir deles no sentido dos próprios ossos perfurando-lhes a carne
tomando-lhes as manhas

o querosene men, autoflagela-se e autocontamina-se

olha, treme, cheira, lambe e deglute vagarosamente, ou aceleradamente
ou intermitentemente a partir das suas presas das suas vísceras

depois, vertiginoso e farto
dirige-se ajoelhado para os precipícios do poema
para enforcar-se nos parágrafos da própria alma

assim procede, retrocede e emerge
oleaginoso pela cútis do canal do verso a parecer-lhe que viaja
furtivo até à medula das dores, a remar no sentido contrário do próprio sangue
aparafusando a fé à própria morte

o querosene men é inevitavelmente um sonhador
um condenado, padecente de todas as doenças
todos os ódios, todos os medos e amores

delirante, pulsa continentes e estados submersos a trote de fantasmas galvanizados

encavalitado nos ecos das ininterruptas vozes
enforca-se sobre o cadafalso dos inatingíveis significados

o querosene men martiriza-se
e unha-se em formicações ininterruptas

alimenta as chagas incuráveis que descola da pele para achar-se vivo
sobreviver no código indecifrável da própria dor

é por isso um sádico masoquista
um fornicador seletivo e natural, crónico manipulador da própria casta

é simplesmente a destilação fantasmagórica da própria solidão

orgulhoso, crava os dentes dos outros no próprio peito e ri e entristece-se
e veleja assim escancarado e exposto
ensanguentado o barco de todas as palavras que desconhece
todos os nomes dentro de todos nomes
arrasto de avejões à trela do próprio corpo

mente, finge e maravilha-se

assombrado, ascende à superfície da própria carne
e degusta nas lâminas intermitentes a própria sombra

e aporta
e regurgita no embargo da noite, distinto e intraduzível
uma âncora acocorada no cerne do tempo

o querosene men,
traz o passado suspenso no anzol dos lábios
que coagula e deslaça no cuspo, no álcool da própria bebedeira

o presente, humedecido no canto embriagado do olho

e chora

e quando chora acredita
e quando ri desconfia
e quando é dândi e sério na sua dor, enternece-se e lambe-se,
venera-se escorado de vísceras

cautela com ele,
com o querosene men
pois é igualmente mentiroso e mortificador
um exumador
um incurável e incompreendido morto-vivo desterrado do próprio fundo
um incendiário triste
um ávido usurpador do espaço-tempo
um inculpável contaminador das massas

cautela, com a insanável cura que artimanha
com a insuprível contaminação
com a propagação da fome que apregoa
com os inúmeros e inúmeras compo
e decom – posições da espécie

em pé, sentado, deitado
ele é sempre ele mesmo e os outros,
o constante revirar da prata nos espelhos
o coma no fundo dos lagos
o lado oculto da galáxia,
das caves da terra na exumação dos corpos

no delírio das próprias luzes, sucumbe antes do fumo

o querosene men
é incurável e perigoso,
anoitece insaciado dentro da própria insónia com uma gota de sangue no canto do lábio
que lambe interruptamente no medo de qualquer réstia de açúcar

é impossível caçar, deter o querosene men

no delírio das luzes, sucumbe antes do fumo
com todos os relógios parados dentro do peito

o querosene men
incendeia a própria culpa na cave pura da palavra
e desmorona a saída para arder por dentro

baixa-mar

August 5, 2017 § Leave a comment

o tempo que leva a baixa-mar
é o mesmo da humidade dos teus olhos

assim, mal chego
despeço-me de ti e dos bichos

dormem agora o fundo complexo das horas e das palavras
e resguardam o amor submerso

tenho a impaciência das marés no cálculo impreciso dos baixios
e desconfio-me às vezes presa na rebentação,
outras vezes rebentação apenas

angustio, mas despreocupo-me logo
pois nada é previsível e seguro dentro e fora do mar e do amor
como o reflexo dos olhos e a liquidez das palavras

como tal
provavelmente, quando o mar me descobre calo-me
e tu, fechas-me nua dentro da humidade dos teus olhos
onde sobrevivo na profundidade,
onde ovulo versos por construir

e faço coisas inimagináveis onde nascem e desovam as espécies
que nem eu sei, apenas tu o mar e o amor
quando desço até ti a superfície vertiginosa
no mesmo instante em que te cumprimento e aos bichos
e me despeço

rete

July 23, 2017 § Leave a comment

vejo algumas vezes o amor no lago abstraído dos teus olhos

se mergulho peixes daqui para aí
se vão ao fundo e voltam
não me dizem
fica no segredo do amor

também
como nadaria eu os teus peixes dentro dos meus lagos tristes
caso os houvesse?

que lhes daria de comer à superfície turva da minha fome?

penso nisto e nos cardumes possíveis e quase cego

não fossem as tuas pálpebras fecharem-se logo
não restariam peixes
ou outra qualquer humidade para a cenestesia líquida do amor

Ode-ic-atória de ló

July 22, 2017 § Leave a comment

Tenham ló,
Tenham ló irmãos, tenham ló
Tenham pão irmãs
Tenham dó
Tenham de fantasmas, forasteiros e fãs

Tenham de ló e de cá
Desta diversificação de gente
De suas vãs euforias tristes
Suas alegres fornadas

E fé, tenham fé também
Muita fé
E deixem-se de pé à ré da cozedura
Que a vida mura – e trolaró -, é de muitos nadas
Que a vida é dura e cresce e empurra
E a morte é cura fina que mirra e mata
E a poesia floresce e o sonho jura

Calma que vamos
Já vamos
Já vamos de saída e de má catadura
Vamos por onde viemos
Vamos pela mesma rua

E calma
Muita calma que sorrimos, ainda
Que a pressa entontece mas não derruba

Não nos empurrem, vá lá
Vá ló, calminha
Não nos desliguem o forno, a alma
Que ainda vai morno, e ela dobrada no livro
A aquecer docemente a poesia
A fervilhar na boca

Olhai só como vibro
Olhai ló como chovo
Escorro um poema
Como ri e carpe a hora louca

Calma

Comemos e sabemos que faz falta o pão
Faz falta a boca para comer
E o sonho para mastigar
E o corpo para foder
E a poesia para abraçar
Beijar na boca e morrer

Vamos, mas vamos de coração escancarado
Ao colo folheado e quente dos sentimentos
A poesia na chucha da mama a mamar o mundo
A babar semente
A apertar a gente num botão que liga e desliga o sangue
A prosa, o verso, a rima, o branco da folha
A tinta que expande

Calma
Calma que vamos
Prometemos e vamos
E vamos já

Já sentimos as mãos e o caminho
Os passos de mansinho
A poesia no sopro da respiração

Não sentes?
Ora apalpa lá

Já somos dessa mão o friso no desamparo
Já refreamos o riso para parecermos sérios
Já reprimimos tudo e abalamos

E nada disto é partir, sabemos
parece mas não é, é música

Somos de ferro e de fogo
Temos sangue de bicho e água no pelo
Babamos o ranho na levedura do pano
Na ranhura do lábio
Na dobradura do sexo

Vamos erguer ramos para outras árvores
Vamos povoar outro campo de raízes
Vamos ser e não ter de ser felizes

Tenham dó do ló do pão
Dó da casa do ló do chão
Ló do dó
Dó do só
Dó de sermos eternos petizes

Ai que nos dói à vela os cozinhados
Moí-nos ainda os ossos pelo crescente do rosto
Tudo que basta para crescer a gente da massa crua
Da mesa nua ainda a balançar a casa
Os náufragos de rebuscada fantasia
Nos espelhos baços da flostria

Porque se levamos no cós a poesia
Que comprime brava a tripa
Solta da palavra a voz
É porque nos permite a ousadia

E os berros são cá do fundo do peito
Do alto do pensamento
Do desaguar da perna

Mas não falemos mais disto
Levemos no sangue os nós e o pó na asa
O pó que voa e tem distância
Que o tempo hoje é de benzedura

Vamo-nos ló
Que a vida é dura
E a poesia é raça
E a vida mura
E a vida mirra
E a vida acesa
E a vida caça
E a vida é uma birra do caralho
Vamos teimá-la e sê-lo
Desabrochar de qualquer ira
De qualquer fuso, de qualquer uso
Vamo-nos com ela e o orvalho
Trovar para outro lado
Despejar os ventos
Rebentar as águas
Afugentar as mágoas

Cabisbaixos fermentar no bucho o pão
Da gente por aqui ainda emparedada
Dos fantasmas na fôrma do coração
A fermentar nos olhos a massa de estrelas

Tenham ló da hora metalizada,
Estilizada, alheia, nua, crua, de panaceia
Da casa pelo telhado de lua prateada
Que é tempo de sairmos despidos
Nus para a rua dos presentes e passados
Fazer pão na esplanada doutro tempo
Com tempo cozer pão noutro lado do fado
Mastigar outras fontes de levedura
Que a vida é aço e a mão ainda pelo crescente
Tanto chupa como cresce a gente
A salivar o ovo aromático
A forma untada na banca
Inclinada da gente enfarinhada
A espirrar de mansinho à porta

Tenham ló
Tenham lá ló desta fraqueza de ser pão
Que arrota de ser doce por dentro e por fora
Que o mundo é da gente que parte amarga
E a arte a ilharga pelos caminhos de lume e fôrma
Que vai no forno do coração a dar à corda

Vai agora

Tenham ló de mim, de nós, da poesia fofinha
Derretida nas bocas salivadas do sonho ocre
Dos fantasmas do tempo no branco da linha
Na linha do bicho torneada

Ó que medonho, tremo, fedo – sei ló -, cago-me

Tenham ló da casa dos dias fartos
Da fartura dos nossos dias de pão temperado
Dos nossos corações amarelinhos e fofinhos,
E parvos, e risonhos e magoadinhos
Ou esquentados, corações de ferro e brasa

Céu prateado e lua e cinza
E cotovelos pousados no riso dos dentes da música
Trauteados de enlevamento

Ó que belo
Assim nós amalgamados, unidos no fermento da mesma massa

Tenham só, de ló os queijos espalmados
Na tábua deste forno ao relento da madrugada
De peitos escancarados e as línguas transparentes
Vocábulos fatiados de açúcar

E contamos o tempo desta hora emparedada e livre

Alapemo-nos irmãos de ló em ló o nosso germe
Apalpemo-nos de palavras e rimas e desalinhos
Apalpemo-nos de papel em riste, lábios nos lábios
A nossa saliva misturada

Apalpemo-nos de peito e espada e pensamento
Aos fantasmas encavalitados nos cavalos destas paredes
Que descem sobre nós inclinados
As frontes enrubescidas
A memória num ombro descaído
Um projétil na vértebra irrespirável
Da nossa mama ainda presa no fogão

Mamemos agora todos juntos nesta despedida de irmãos
Uma, duas mamas, as que houver bem cheias, transbordantes
O fim da festa, a algazarra na parra do leite, ainda
Pela derradeira hora de ló
Dispamo-nos da casa de mansinho
De preconceitos
E saiamos de prato devagarinho para a rua nua
Para o outro lado do espaço gemer as dores, as cores
O calor da inacabada cozedura
A massa mole e a fôrma nos bigodes da farinha
E a mó a remoer a boca fora da pedra do tempo

Apalpemo-nos irmãos sem palavras
Obscenamente perfurados de dedos
De ló em ló de gestos, música e palavras
Os peitos e os cus nus ao vento da esplanada
Sentados a aplaudirmos as lâminas da despedida

E respiremo-nos boca a boca no retrato da casa
O barro saudosista em castelo de estrelas

Olhai-as lá em cima, olhai
A resistência a tostar-nos o crânio desenformado ainda
Os testículos na tinta resiliente a fervilhar meninos
Os óvulos no brilho dos olhos acocorados

Já somos crescidos

Olhai as estrelas
Como brilham

Olhai-as e abri as asas – já
Eclodi do ovo
Escancarai as pernas
Poetas de copos entornados ao peito

Vertei a ultimíssima seiva
Abri-vos obscenamente
Um pão em brasa
E gemei o ultimíssimo gemido da vida desnudada

O corpo ao léu pelo ló da casa

*

(para Ismael Calliano)

as meninas no descarrilamento do amor

June 20, 2017 § Leave a comment

as meninas sangrentas
esbofetearam-se uma noite inteira por culpa do amor

até caras cósmicas gigantes vermelhas
no sangue incandescente do amor

as mãos esventradas, esferas espalmadas no súbito impacto
da estepe árida sedenta do amor

dobradas nas cervicais da culpa
tremeram
até golpearem as línguas na faca das palavras interditas

amor
amor
amor

acidentais na velocidade

primeiro no medo, enroladas e húmidas
depois nos gestos, bafejadas e tímidas

íntimas e íntimas e mudas e rápidas

as meninas sangrentas
acordaram antes do sono antes da estação do amor
por culpa da culpabilidade do amor
e tentaram recompor-se
à cabeça dorida, vergada sobre o ombro descarrilado do amor
um comboio estropiado na penumbra a gotejar óleo no linho

gemeram e bocejaram no unto a carne
o sangue
a dor

e depois
de mãos soltas, verteram o tédio no mijo

ohhhhh – demoradamente, muito longamente, elas
quentes na noite!

no mijo desnatado da noite
das cabeças quebradas
dos corações forasteiros
dos comboios descarrilados nas planícies profundas

nocturnas como o sangue
abafadas como o sangue
verdes como o nada

as meninas esvaziaram-se completamente

depois perfuraram o corpo deitadas sobre a linha da viagem
até atingirem a rendição sem retorno

as mãos para cima e para baixo no descarrilamento
as mãos para fora e para dentro do descarrilamento
as mãos para cima e para baixo pelo descarrilamento
as mãos completamente descarriladas – Oh!
desvairadas pelo arrasto estremunhado da paisagem nocturna

noite acima, noite dentro
como traças baças e vento

e deixaram-se assim gemer uma noite inteira entre as estações
a tentar recompor a dobra dolorosa do pescoço,
levitá-lo do vinco, alinhá-lo no farelo dos ossos

depois pentear as riças do cabelo antes da estação enervante do amor
antes se enervarem mesmo
antes do amor nervoso na estação
antes delas lá, na estação nervosa
elas e o amor
uníssono nervo estacionado

um pescoço um mastro, o cabelo uma vela na transpiração
lambida do amor alinhado

até lá, uma noite inteira inchada e infinita
um comboio latejante na tempestade

e nelas um pente pela dobra da coxa, um lanho pelo fundo do ventre
a acenar ainda a velocidade pretérita
imparável no espaço atravessado da noite descarrilada
das palavras ulceradas da terra por descobrir

e a íris rasgada no vidro da máquina despedaçada
desfocada sobre a paisagem
a língua golpeada na trepidação do dente nocturno
do dente feio no recorte da vontade por concluir
amarelo linho, amarelo lua, amarelo bexiga, amarelo larva

amarelo tempo

as meninas sangrentas ergueram-se ácidas e amarelas e esfarrapadas
e arrastaram-se remelosas e ajoelhadas para o descarrilamento

trôpegas
foram lacrimejar húmidas na linha
desfalecer o rosto dormente e comichoso no ferro

Oh! É frio o amor? – entreolharam-se e morderam-se

os pescoços inclinados no vértice do ombro da viagem
a escutar de orelha o leite da coxa a trepidar pela linha
a travessia da noite a escorrer pela veia do carril

vem aí! deitem-se!
às pernas pelos tornozelos aguilhoados do amor

e
noite dentro, noite fora, dor por dentro, dor na hora
pensamento, tempo-hora, sangue dentro, leite fora
no pensamento impaciente do amor

no ferro frio da linha quebrada do amor
pelos círculos distendidos do amor

no amarelo mijo do amor

do comboio descarrilado na obstrução coagulada do amor

sangue vivo do amor
sem estação

noctis

June 1, 2017 § Leave a comment

se me deito, rompo as vértebras e lanço-te os braços do peito
e tu olhas-me, indolente e doce
e caças-me os pulsos e suspendes-me na noite
das tuas cordas invisíveis

e eu fico assim dependurada dessa ideia um tempo infinito
de ser a tua pupa estelar oscilante no espaço
com a minha carne iluminada por dentro do teu silêncio

se vibro e gemo pelos meandros dessa tua calma
tu torces-me vagarosamente na obstinação do vazio
até que dum repuxo expludo e verto-me de seiva luminosa
um coágulo de leite que do ventre se deixa orbitar
parir um rio pela via láctea das tuas mãos transparentes
de anéis pela cintura das horas húmidas

e dissolvo-me sobre a tua fronte inexplorada

sabes bem
que trago comigo nebulosas virgens amamentadas de medos

com elas sobrevoo a tua permissão e colonizo-a
e à tua carne convulsa de mansidão inventada

porque o meu corpo é um astro no sustentáculo do amor

e tu sabes
que somos vestes instintivas no interregno das poeiras

assim, antes da obscuridade, permito-me horas a imaginar
que velocíssima detono galáxias à tua frente e que me habitas

horas suspensas na fruta que amadureço à tua porta

aflijo-me muitas vezes com isto dos teus mistérios
com as marés das minhas profundidades tontas

mas depois tu revisitas-me tímido e tranquilizo-me

de saber que quando me deito
já te encontras à minha espera dentro da noite

~

May 9, 2017 § Leave a comment

sabes

ainda vejo cinema de madrugada

os filmes de que já não sabes
enquanto tuas mãos vagas se aproximam de estrelas nuas
ou espremidas de sucos para perfurar-me o corpo

chegam lambidas de astros, estiradas de cortinas e vidro
húmidas como o silêncio e a penumbra do imaginário

palavras descerradas que ecoam na minha boca a tua nudez

uma cidade inteira acesa e obscena, erguida como um trevo que contorço
vagarosamente esventro no gume da língua
transplanto para a tua reconstrução

e a tua cabeça renasce, descobre-me e vem descendente
descabela de folhas tristes doer-me como um coágulo agridoce
ou uma árvore no pasmo de um acampamento incendiado
enquanto dispo rápida as unhas no linho e deito-me molhada
suavemente sobre a tua cinza, sob o teu bico lunar

primeiro uma sombra tímida de pedra
depois só carne sob os teus olhos de pássaro

a natureza inteira condensada no teu peito de cera

leite na pele das minhas mãos embebidas

ainda vejo cinema de madrugada e abandono-me, distendo-me
perco-me das legendas a que não retorno para não desmoronar-te
nem às frases que falam de ti sem saberem que existes

e as palavras na tua voz de dialetos estrangeiros, falácias
com que me arrastas até quase dentro, quase avesso, quase nada

néones e poeira estelar

porque em tempos fui fada – disseste-me -,
agora que sou vento e um vestido suspenso no telhado

quando adormeço, ainda me sobressalta esse pano sacudido nas telhas,
os teus dedos a desabotoar a aragem imaginária
a assediar o meu barro no deserto anoitecido
e prender-me os pulsos e a suspender-me árida nos anzóis do espaço,
no gesso da memória silenciada

e eu flutuo,
deixo-me levar pelo vazio dessa violência pura

cíclica

fases e marés

para perdoar o que não sei de ti antes de adormecer
rever e reescrever continuadamente nossas curtas-metragens

statum

April 2, 2017 § Leave a comment

arrasto certa tristeza ininterrupta comigo

por isso, descerro fontes das mãos que não cessam

mas isto que importa senão a mim que choro?
se os outros velam suas próprias fontes desconhecidas?
se os outros de gume em riste trajam a mudez das águas?

importa apenas saber que passo e que algures alguma coisa não seca
permanece na estação da origem

porque de resto, prossigo viagem para estendais longínquos
de cesto na mão pelo crescente da lua

ninguém sabe, mas levo a estender novamente os panos

levo-os eternamente molhados na direção do sol

lá, onde a felicidade existe dependurada numa mola frágil
suspenderei o ferro desse linho

a ninguém importa, mas fá-lo-ei prostrada, morosamente

depois, continuarei com o peso do sangue nos braços
a estender os ossos

a que horas te incendeias?

March 30, 2017 § 2 Comments

Não me leves a lançar papagaios se não te incendeias

A propósito, quando te incendeias?
Quando é o vento sul?

Já lancei demasiadas luas contra esta demolição

Por isso, tens lume contra esta ruína?

Vens ordenhar as marés? a humidade pelo sopé da montanha?

Tremo o rastilho na reconstrução e o sexo arde na mão incendiada

Vá lá,
quero explodir estes campos antes do vento norte,
ordenhar uma lua inteira na noite e doer-me

Trazes lume para parirmos depressa esta ave?

É que é urgente incendiar,
acertar as horas no fósforo da língua

March 21, 2017 § Leave a comment

alvarelhos

se voltassem atrás as estações seria outono ainda,
mesmo na canícula do dia

e nós os dois pousados numa esplanada de silêncio,
chávenas e cadeiras apenas

esse dialecto puro antes da boca

e estanquidade apenas

essa natureza inocente

uma madrugada inteira demorada e nua

seríamos nós
que as palavras são um cadafalso
às vezes

e às vezes dois atilhos ou um punhado de areia

e os gestos quase sempre uma demolição precoce

assim tenho o telhado pousado sobre o meu rosto de terra
e a mobília flutua a casa, verde na decoração das árvores

e um rio de carpete fria atravessa um cão

ladro-lhe daqui uma espada
rápida

responder não me responde, já se foi

não morre
que do meu respiro não me faço entender

que língua é esta que eu falo?
que palavras descrevem estes meus gestos?
que gestos são estes que desconheço?

de que sou feita agora? de onde me chega esta permanência?

não respirarei cedo, já sei,
porque reservo-me um tempo de hibernação para as estações inóspitas

aquelas de pássaros invertidos por paragens líquidas

e tenho medo que gele e tenho medo da alquimia do espaço

assim, a bicharada escarafuncha frenética uma fuga pelos alicerces,
velocíssima

terá de resistir-me depois de atravessar o mundo inteiro para respirar
terá de construir uma jangada de um fosso e atirar-se

soltar uma asa de sangue duma pedra,
um sopro de dentro da humidade de um tronco

que eu terei de ser novamente árvore ou casca
depois voar as lágrimas como se fossem chuva para beber

munir os pés de tempestades e soltar-me da terra sob a casa

mas só se das cinzas explodir qualquer folha,
qualquer nuvem de qualquer memória,
qualquer telha intacta ainda

encarnada

autem

March 1, 2017 § 1 Comment

gif

a felicidade tem uma luminescência tua que dança comigo
campos rodados de flores e árvores nas minhas carnes noturnas
lagos que perfuro embriagada das tuas mãos

todas as madrugadas cuido
todas as madrugadas são solares e deito-me na tua calma,
lavro o teu tempo no meu campo orbicular de flores

são as estações pelo júbilo transpirado e circular,
circunscritas,
de ti circunspecto como o sonho a infância e a tarde

e todos os lobos interiores sitiados neste lume ululam,
celebram para lá das fronteiras clareiras novas

e se me assustas
construo depressa uma casa e largo-lhe dentro um sol,
solto a pelagem da matilha e estremeço por dentro

porque sou quase gente quando mordo ou quando agonizo,
injurio-me e entristeço-me

sou simples, é isso

simples como tu
quando demoras o tempo exato de eu engolir o que sinto

o mesmo que levo a apaziguar qualquer padecimento

o amor

o amor trespassado de trilhos e feras tresmalhadas

caçamos ou fugimos?

todas as madrugadas festejo-te e danço-me
enquanto te interrogo sobre como vão os campos

e respondes-me sempre com o teu silêncio
que vão bem e que estão preenchidos de códigos e flores

e grito reconstruída essa felicidade num contorno de lágrima
o projétil perfurado no meu peito inaugurado de vítima

porque existires às vezes basta-me

e do telhado cresço uma janela espontânea que não vês
de onde me vejo escancarada numa ave que chega daí,
às vezes um inseto desgovernado na luz que me tange,
morre logo depois como a lonjura

um movimento que morre como eu morro

são as tuas mãos que me fecham me perdoam e salvam,
tremem o contentamento e ressuscitam-no do medo
enquanto descerro os lábios para beijar-te

acho que me conheces bem e ao meu paladar

somos velocíssimos nesta dança obscena
e a felicidade esta fera amestrada e amedrontada,
e as nossas línguas lavradas pelo mesmo lanho ferido

e evaporamos campos e lagos néones, etéreos
e voláteis que quase perecemos neles

nus inauguramos a espécie
e nada mais importa que esta embriaguez sobressaltada

desfalecer para reconstruir de novo

goteira

January 20, 2017 § Leave a comment

200w

a minha casa é de vento

no sopro dos teus telhados

em alicerces de carne

 

e agora tenho-me suspensa dos teus pássaros líquidos

que ordenham sombras pelas cornijas

 

assim a porta suada na minha mão

janelas soltas no peito da passarada

e o batente um grão pelas empenas

 

assim comecei pelo telhado

assim deito-me nua na construção

assim do chão a minha boca sob a goteira

assim minha fome entornada de penas

assim aves sobre os ossos da terra

 

todos os dias penso que descem a pique

todos os dias me semeio de erva

todos os dias planam a sementeira

todos os dias uma gota para a minha sede

um jorro de leite e uma lua exangue

uma noite de espasmo e um espectro de ave

um telhado de medo e um dique de sangue

opsis

January 5, 2017 § Leave a comment

200w-1

as meninas sangrentas
na macropsia do cosmos
ampliam as córneas e emanam
árvores pelo barro dos vasos
polvos pela prata dos espelhos

sexo ovíparo nos relógios

as meninas sangrentas
na micropsia do espaço
burilam miragens nas veias,
espancam as mãos sobre o ventre
e contorcem ébrias o corpo,
arrastam, puxam, eclodem e perfuram
a carnação esventrada sob o linho

se no microespaço da macrofobia
as meninas lacerassem deveras
a carne no deleite da língua,
a sedução pungente da inocência,
vertessem a seiva inteira dos bichos,
vazassem das margens um rio de leite

se no macroespaço do microsegundo
gozassem de instinto nuas a dimensão
rubra, o metrónomo descompassado,
o corpo das estrelas e dos peixes
num estupro interplanetário em simetria,
um lanho pelo sugadouro dum beijo

amariam com a febre do ódio as pedras
e cavariam a terra na hipóxia dos ossos,
o mênstruo na sublimação das fontes,
a baba transpirada pela bainha
dos deuses famintos e húmidos
na aridez enrubescida dos demónios

~~~~~~

December 8, 2016 § Leave a comment

giphy-2

visto-me de palavras e o poema veste-se de mim
geminado numa pele só que cresce sozinha
de vestes inventadas de mim nua, corpo e malha
escrevinhada, alma miudinha e rabiscada

dispo-me de palavras e tenho de fingir-me adornada,
não posso despojar-me assim de todas as letras e dizer-me
branca, desguarnecida, desconhecida em mim a reconhecer-me
a lerem-me nas minhas letras, a alma triste e despojada

sempre me aborrece escolher a roupa que vestir
sempre me afadigam os poemas de letras quaisquer

geralmente pego no que está mais a jeito,
geralmente no amor que é da míngua o meu peito

teria sido bem melhor ter nascido vestida
de roupa e de poemas e de feitio,
não ter de estar sempre a escrever-me
a ler-me e a mentir-me, a aquecer-me
de palavras rasgadas e de frio

melhor ainda seria viver descoberta, não ter de fugir-me,
andar sempre de mim a esconder-me, nem sol, nem lua,
de mim constantemente a procurar-me e a vestir-me,
de achar-me sempre só e sempre nua

cibus

November 30, 2016 § Leave a comment

gif-vento

Como se não fosse por ti
de caminhos crescerem as árvores e as casas e o universo respirável,
e não chegasses para explodir o mundo depois dos beijos,
de tudo tão enlevado e triste e supremo e verde
com cães nas ruas a ladrar às fadas

Que nos fazes depois da luz, da carne, da semente, da ave no cabelo
à bomba que nos pões no bolso?

Treme-me a mão a latejar-me o peito

Para onde te arrumas depois de ofegares, explodirmos,
e aos destroços, o pente, os olhos nas feridas?

Já não eram eu sei, nunca fomos, seremos, depois de despidos
os relógios impossíveis tão só a tua liberdade licenciosa,
musgo e sarna na pedra a martelar as línguas
até desfazer-se a pele, azedarmos o leite na perna
o dialeto menstrual avançar exércitos silenciosos

Trazes-nos já estupradas com valas no peito?
o teu perfume na baba ainda? a lamber-nos o joelho,
as mamas em cataratas de fogo no júbilo do teu sémen?

Estou à mesa e uma toalha de sangue,
cotovelos e um garfo no olho impaciente
Para onde olhas? Que enxergas debochado?
as nossas bocas quentes, quase? o mundo afogado
a mastigar-nos ronceiro, açucarado nesta festa quente?

Somos húmidas no teu celário, sei sinto
pulsar a costura das planícies contínuas,
lagos parados e tu a mexer-nos as cavernas
as folhas escuras no útero

Ainda assim dás-nos de comer sob os incêndios?
nem que fome e espinhas sempre? e a sede inflamável?

nimirum II

November 25, 2016 § Leave a comment

orion-nebula

nos dias brancos tudo de mim está despejado
não me leio nos dias brancos,
não me escrevo insisto-me, desentendo-me e fujo-me
nos dias brancos
e perco-me nos estados dos meus desertos desertos
de alguém pelos desertos calados cedo
na branquitude, longe no desassossego,
aqui no vazio perto, indefinido na resposta impossível
de mim a perguntar-me, a ignorar-me de saber-me interna
extrínseca nos dias brancos a procurar-me em tudo,
nos outros em silêncio a procurarem-se em mim

sou deles o silêncio todo do meu silêncio
sou deles os dias brancos dos meus dias brancos,
das minhas perguntas nas perguntas deles
brancas nos dias em que temo não regressar

temo sempre a demora que temem de mim em não voltar

elas

November 18, 2016 § Leave a comment

elas

chegam do esquecimento
e é só subir-me a terra à unha
escalar-me um caracol no osso

são elas embrionárias atiradas às veias
um balancé de teias e andaço
um chicote de carne que não medra

elas de árvores incendiadas nos bolsos
dos aventais a roer caroços
na cinza
a bolsar metais

arregaçai cotão dobrai o aço
afiançai as meias no traço dos dentes

e estendo-lhes a perna o braço
a sombra
mordei-me
fazei-me lá depressa esse ninho

e que mais?

e levam o tempo todo da viagem
no cuspo do itinerário
a escavar-me um leito
até que lhes dou um jeito
até que lhes consigo e respiro
uma cordilheira num fosso
um horário no peito estacionado
e deito-me
e gritam-me de o ver parado

não entendem a estação
querem mesmo é tomar-me à força
a pele
sacudir-me de mãos
rodar-me parafusos de dedos no cabelo
e lamber-me as entranhas do coração
e babar-me de lava demoradamente
demoradamente um quisto por dentro
um penteado novo
um laço para a viagem com mãos de sangue
e um pente em cunha
e um travessão de ferro
calmamente transpirado a descer-me um rio
de ferrugem a planície no rosto
com pássaros dentro e um ovo
e pedras encalhadas

por quem me tomam?
por quem me dispo
a penugem?

e tomam-me o gosto contorcido
e penteiam-me as águas
e é só deitar-me nelas de espelhos
o amor breve e desconchavado
a lama num bafo molhado num mamilo
e um rio de leite

feridas no tempo que mamam
e chichi desassossegado
num lago tranquilo

acoplar

November 8, 2016 § 2 Comments

jason-decaires-taylor_redemption

nos dias desassossegados desato a profundidade,
desamarro os peixes dos pés para soltar as aves
e os barcos ascendem cardumes velocíssimos ao firmamento

nesse tempo,
se me morde uma pedra engulo uma árvore
e orbito endoidecida os ninhos do mar a levitar-me
a pele pulmonar na prata dum espelho
até desaguarem pássaros nas estrelas,
romper um coágulo num navio

como é? rasgo agora o peito
já que o chão mordeu-me o pé?

o mar na maré da coxa é uma lua húmida,
sorve-me a água por dentro das marés,
jorra-me o sangue pelas narinas
descabelo-me de bichos

se respirar fortemente sangrarei um monte? uma planície? um cavalo?
planetas acoplarão no avesso destas ilhas?
serei habitável sem ardis e velas?

sinto sede,
uma anémona a latejar no arco da boca
fendida na fonte das papilas a crescer um lago,
a língua a tremer um cometa no vazio

será um ovo?

como é? engulo agora? desaguo a espécie agora?

arrasto o lábio via láctea acima?

haeresis

November 4, 2016 § Leave a comment

sereia quadrada

tenho sempre de ir buscar alguma coisa
trazer-me alguém

de livre vontade não venho,
de boa vontade nunca escrevo um poema

em verdade detesto-o sempre
como um filho enjeitado a quem perdi o jeito
na heresia da impossibilidade
na inquietude do nome

assim trago-me arrastada pelo cabelo
a pele lapidada e muda

já pedi que me viesse buscar
mas não venho

e isto não interessa a ninguém,
sequer me incomoda esse espaço
porque trago sempre uma pedra para morder,
um escorpião e uma duna com tempo no lábio

descabelada de bichos, guardo a culpa
de areia e vento reprimido,
o deserto inteiro na tempestade do olho,
a língua no remoinho da poeira

mas preferiria a asfixia
a tomar deste vício de lamber-me

assim cuspo o poema como mijo
e viro-me do avesso imediata

o que queria mesmo era o fundo do mar

o que queria mesmo era a ataraxia cósmica,
rebentar um barco solar no peito
uma sereia instintiva nos ossos
e uma viagem inteira sem retorno

queria mesmo era levar-me
alguma coisa sem dono para qualquer lugar

existir por lá sem qualquer estado
sem identidade e em paz não regressar

Shishi

September 22, 2016 § Leave a comment

koma_inu

Koma-inu
lamento Koma-inu
ter falado das nossas cidades,
agora vanidades loucas,
agora estrangeiros as visitam,
ninguém no templo,
ninguém nas vigias,
paredes trôpegas com luas nos pés
trepam às janelas ruas

lamento sob as pálpebras
ter falado das nossas cidades

abre a boca e morde os navios,
depressa os teus dentes nas velas
um soluço trespassado de mastros

abre a boca e lambe-me Koma-inu
abre a boca e sorve-me
quente e húmida os olhos oblíquos,
raridades no peito

tudo tão simples como o medo,
anzóis ao fundo das ruas,
a cidade costurada de veias,
a cidade um frangalho de redes,
raízes e peixes no oco das árvores
a espreitar florestas

lamento, Shishi, Koma-inu
olha as minhas mãos nuas,
olha a minha boca cerrada

se abrir novamente, cedo,
leva-me a rasto dos templos
no teu dorso azul assim mesmo,
nas mandíbulas traçada e vadia
a ganir nua as penas
as escamas e um rio num atilho

puxa-me numa laçada só
o pescoço,
o cabelo Koma-inu

água

os teus dentes de vidro
uma quilha nos ossos

depois sacode-me e larga-me,
larga-me longe e sem lamentos

muito longe
muito longe de ti e dos templos,

das metrópoles

infimis

September 13, 2016 § Leave a comment

lugar

baba nebulosa a rocha no céu profundo,
pardacento o deus mortiço na minha boca

de areias, de baba e mar, de sal e espuma
é feito de pedra o céu, e o meu chão de bruma

insígnia

August 2, 2016 § Leave a comment

 “Come of Things”, 2010, Del Kathryn Barton

“Come of Things”, 2010, Del Kathryn Barton

os mundos vivem na perplexidade das fadas e dos príncipes
encantados

é na subtileza das flores mágicas que se desenha o encantamento que nos leva até lá

quer isto dizer, que a magia dos sonhos cresce dentro das pessoas
e que umas viajam até dentro das outras com os braços carregados de flores
e que por isso não existimos, imaginamos apenas

e árvores residem dentro de barrigas gigantes

só recuando muito,
muito até lá atrás, conseguimos tocar a realeza,
trazer pela mão até cá fora o mundo despido

e quer isto dizer que somos prevaricadores
e que muito digo fora dessa barriga

que ainda que visite, ame e me enleve,
jamais permanecerei por premissas alheias,
trarei flores desses lugares para decorar meus fundos turvos,
de poder acontecer calcar canteiros entre as deslocações,
exterminar espécies raras

depois condenar-me por isso

de viajar carregada de cestos,
ter os pés arrastados de raizeiros,
entardecer de mãos dadas com o Sol,
esquecer o caminho de abrir os olhos e de regressar

e doer-me tudo por dentro
como um parto incurável e iminente

como a perfeição
e os ossos

quod

July 28, 2016 § Leave a comment

Silent-evolution _ Jason deCaires Taylor

Silent-evolution _ Jason deCaires Taylor

trouxe do mar as tuas lágrimas
e agora são cardumes dentro dos teus olhos
a fazer as marés
e as tuas mãos de estrelas a explodir doiradas
as minhas festas de algas e bichos
nos teus cabelos profundos que hoje penteei longamente
no tempo das ondas e das laminárias
fora do tempo dos teus gestos

talvez isto queira dizer que está tudo certo

e

está tudo certo

e o mundo é equilibrado mesmo triste

e a espuma nada mais que uma nuvem pousada no teu lábio lacrimoso

vem um peixe e come-a
e uma onda na borda da gruta que as tuas mãos apanha

é o deus ao sabor das águas e das marés

hoje não trouxe pedras comigo para não mexer na casa

não mexi

e os peixes na correnteza certa

e a tua boca esfaimada o teu destino

carapaça

July 6, 2016 § Leave a comment

The-Void-Jason-deCaires-Taylor

o mar leva-me

tenho essa impressão de que vou

a minha vontade inventada de lugares dentro dos olhos,
o movimento na correnteza do sangue

penso docemente e verto-me em direcção à foz

temos sempre a mania de trazer pessoas arrastadas nas coisas para o pé de nós,
uma mesa, uma cadeira, um leito, e elas

cada coisa que falta uma mordaça sobre o tempo

deitámo-nos e adormecemos de corpos,
umas costas, uma cabeça, um ombro inclinado, uma mão
e até parece que regressam perfumados à nossa culpa

é assim o mar dentro e fora da cabeça aos abraços, às facadas

e nada sabemos sobre as coisas, se querem vir, imensas

que lhes interessa nós? contrariadas dentro dos nossos bolsos?

e toda a gente perdida a lamber a palma suada da mão, até ao osso,
beijos de achas, até largarmos a memória, sacudirmo-nos da dor masoquista

e toda a gente a correr livremente em direcção à água, ao rasto húmido da medula

os mortos já não nos querem, recomeçam algures sem nós

ainda assim insistimos,
ainda assim da minha janela um binóculo invertido
fecho os olhos e atiro a minha rede esfarrapada de línguas

um mar sorvido num segundo com tudo dentro
nem sei como consigo um oceano inteiro pelo canto do olho

arrastar um gigante para dentro de um peito tão pequeno

o mar a espancar os pés rua acima comigo de balde ao peito,

truca, truca, truca, truca
o granito a martelar-me as veias

uns chinelos de praia, um robe e uma pá
é suposto doer-me?

as coisas que pensamos e mexemos de saudade e culpa
as nossas mãos que atravessam tudo de varandas e jazigos
os nossos dedos pregados de nuvens e açúcar inventado
que chupamos de facas

depois, quando anoitecemos besuntados de invenções
o lábio desfalecido, cortado de libélulas, fuzilado de dentes-de-leão

a língua quase a tanger-lhes o voo, o espaço
até adormecermos a crosta de uma lua distante

somos crucifixos mais pesados que pedras enterradas no tempo

truz, truz,
– quem é?
(é o mar)

– se quiseres recuo,
posso um deserto também, de um cavalo marinho uma manada seca

chamamos coisas demasiado grandes para nos afogarmos nelas
riscamos trilhos demasiado estreitos para desentendimentos
e as coisas gigantes dentro de nós pequenos

não abro nem fecho a porta e o mar nem dentro nem fora

sabes, bato palmas e chovo búzios do avental ainda
e as crianças ao colo das ondas têm corações de espuma

– um dia vais fugir-me e deixar-me seca também?

e o mar no meio da sala com peixes abertos nos braços

já moravas cá dentro nos meus castelos, eu sabia

um caranguejo súbito de pinças na cortina
de faca na colher da mão,
– corto-te a língua!

isso pode acontecer, isso é o futuro

teimamos viver em longínquas casas submersas

– corto-te o sexo, corto-te um dedo

os caranguejos sabem coisas vitais que desconheço,
por isso temo

um peixe maior no reposteiro
– não cortas nada, e não cortou

fodam-se as carapaças!

e urinei sem que soubessem amarelo limão

eu quase guelras, quase barbatanas, quase caranguejo
e o caranguejo a fugir, quase gente

estou na casa submersa

reconheces-me?

kama

June 28, 2016 § Leave a comment

Rati and Kamadeva

por onde andas amor?
por que caminhos principescos nos cruzamos de contas coloridas?

são tantos os teus templos e tão vastos os teus retiros

tão amplos os teus domínios

tão floridas as tuas vestes e refulgentes

pergunto-me muitas vezes, qual é a tua cor no meu cabelo?
somos de que jardim, de que ave e de que tempo?

não deste, tenho a certeza

mas reconheço-te nas preces
teus gestos de seda desfraldada que esvoaça
qualquer sopro de vela quando zarpa o mar na despedida
e a minha boca engolida de espuma,

aberta ainda

que sabor reconhecível de bicho no gosto dos teus dedos?

misturámo-nos como?

de onde vimos que não chegamos ainda não chegaremos nunca?

e sempre a tua mão instintiva à minha porta
teu corpo desabotoado na minha língua

e o meu sono, o silêncio nas tuas asas

um dia saberei quem és, o teu nome inteiro

quando já tiveres partido de flor na mão
a tua corola um sol aberto sobre o navio

a cúpula preenchida de um templo novo

é que, não és deste reino

não és deste reino

só por isso

vezes

June 22, 2016 § Leave a comment

dejdetritos.jpg

às vezes é tão escusado tentar o poema
que proveitosamente vou estender a roupa

nunca as palavras descem tão docemente o pano,
mascam tão suculentas as molas

assim fosse inocente a minha velocidade no verso,
uma veia de arame na língua aquosa da lã

mas não é
nem eu sou esse líquido

sou um estendal emperrado e ferruginoso,
um arame varado de ovos na passagem súbita do eco

porque tenho comigo a inutilidade de esculpir os ossos
na estreiteza da vala uma vontade assassina
porque toco e morro,
morro e continuo entre os mortos

mortos empolados encadeados no meu pescoço,
achincalhados de vento para colher vertigens,
assediar o passado e escrever sobre o inatingível
e quase na asfixia entendê-los

mas que engano que engano
como perco tempo a imaginar assobios
a imaginar que aconteço

tão escusado isto que tento, tão supérfluo
incitar qualquer palavra que só diz o que quer
sequer uma malha

antes varrer clareiras longínquas a imaginar entendimentos

assim estenderei roupa e varrerei clareiras longínquas
perfuradas de vazios, rodeadas de delitos

eu

quero expulsar os poemas de todos os cantos
sob o mobiliário abrir-lhes a boca dentro do pó,
pernoitar a língua nesse espiráculo seco

matá-los, esquecê-los, deixarem-me, sucumbir

é que ando de facas na mão a assassinar sentidos

se ao menos um golpe no lábio e sangue
e a dor a única verdade confiável

vivo de apalpadelas dúbias de flatulências sóbrias

assim não acreditem em nada nem nisto porque minto
velocíssima à tangência do medo e temo tudo
e a minha mentira uma deslocação veloz

sou pó

mas antes chovesse artérias pelo tecido

rosas de maio

May 8, 2016 § 2 Comments

rosas de maio

as rosas de maio
florescem nas torres mais altas
dos homens mais altos, das sementes mais fundas

por isso,
os homens galopavam rápido,
montavam bestas na perseguição da terra,
desbravavam de cascos a trajetória,
as veias na pulsação da humanidade

e chegavam com bestas nos braços,
os ossos quebrados de cestos de flores

eram tais homens que edificavam o mundo,
martelavam ferozes o futuro na leveza das pétalas,
os caules que sustentavam os saltos,
impulsionavam as subidas

eram eles os plantadores dos jardins mais altos e inalcançáveis
exatamente os mesmos plantadores de hoje

e as torres, essas, fixos planaltos,
balançavam os corações das corolas,
crianças plantadas num vento maternal, embaladas,
o peito azul leitoso na liberdade

porque partiam contínuos, irrefletidos, instintivos e puros

partiam permanentemente ainda que não voltassem

velocíssimos, trabalhavam excelsos essa lonjura
a proximidade da alma à essência da terra

partiam vagos mas seguros, montados no coração das vagas

e galgavam as próprias torres com a carne ferida
aberta de lava, até ao último perfume inocente,
a última gota de sede

e tudo era sanguinário, preciso e belo

a formusura brotada do sangue e da luta

e tudo era corações de fogo a proteger

e tudo por um futuro isento e assegurado

e tudo eram eles
e eles dentro de tudo eram tudo

as rosas de maio nas torres mais altas dos homens mais homens

era assim

e as crianças cresciam das bermas e aproximavam-se

não tinham medo das torres nem dos homens de lume

escalavam a pedra e a carne como botões verdes,
e equilibravam-se felizes,
bailarinas sobre as vigias levitadas,
o corpo imaculado entre as roseiras,
o peito ao longo dos parapeitos de luz

assim penso que era

como penso agora as mesmas as torres, ainda,
só que mais baixas dos homens mindinhos,
das sementes mais deslavadas e desvalidas

os homens
que ainda galgam canteiros espelhados de serranias

ainda os mesmos,
dos mesmos fantasmas,
ainda deles as mesmas torres,
delas o corpo da poeira e da folia

e as bestas saudosas, as mesmas ainda,
velocíssimas, recuadas, retraídas,
a arriscar o retorno por atalhos de melaço

um dia vão encontrar-se lá trás com este futuro

e as rosas ainda delas, fotográficas e sublimes
a ajardinar o passado gigante nos retratos

e as crianças, bailarinas ainda,
mas tristes entre as valas,
as cortinas das giestas,
intermitentes na prata do cascalho

têm os olhos postos nos cascos das bestas
e não os tiram, que elas não mexem

se pudesse regá-las a elas e às rosas sem ser de sal,
pela única, derradeira esperança do derradeiro campanário

a gota ainda latejante do inerte, ainda o mesmo plantador

talvez ainda uma semente que restasse,
uma roseira por brotar na pedra de qualquer torre

ma

May 1, 2016 § Leave a comment

irises in the garden_Claude Monet 1900

pergunto-me algumas vezes
sobre os teus jardins aí no céu

se ao fundo ainda têm bananeiras
dum continente passado

se abrigam os morcegos que sobressaltam a noite,
põem asas nos nossos cabelos espantados

e nós rimos, rimos muito,
rimos ainda
a semente que plantaste de açúcar,
a gotejar rodada de ananás nas nossas bocas,
a tua eternidade doce no eco da nossa voz

e levantamos o rosto à tua procura,
continuamente,
o espelho dos teus olhos soltos pela casa,
os teus gestos depois da janela da cozinha

perguntamo-nos ainda, com quem falavas, mãe?
falas ainda?

e as tuas mãos a mexer a banca, a revolver a louça,
os talheres, cardumes de peixes perfumados,
e pombos verdes,
mais verdes ainda

a retocares as cores de tudo, eterna,
o oceano dos nossos sonhos nos lábios

quando fechamos os olhos, ainda somos nós
no sabão, e ainda és tu, mãe
quente

e as nossas mãos pelo corpo da tua presença
escorregam-nos para dentro do peito

seremos por quanto tempo ainda,
os nomes desconhecidos nas tuas preces

não sabemos

mas sabemos,
quando te ajoelhas a perfurar uma nuvem
a plantar uma flor desconhecida no teu céu novo,
o teu cão a inquietar os afazeres dos anjos,
porque afinal era branco,
nem era lavrador nem nada,
mas quis ir contigo na mesma semana,
no coração guardar a fúria das flores da tua saia,
trepar raios solares como trepava janelas

dizia,

– bem haja cão, que foste amado -,

que chove aqui mãe,
do teu jardim

chove o suficiente,
uma chuva miudinha que quase não se sente

mas sabemos que és tu que andas a regar,

e abrimos a boca para a tua nuvem,
e refrescamos de chuva a nossa sede

elas

April 5, 2016 § Leave a comment

rua

Os candelabros estão dentro das pedras e pousam

Das mãos inocentes têm essa leveza de seda levitada,
De saliva que desce

Assim, estão altos e acessos a descer sobre a mesa,
Assim flutuam o pensamento do abstrato ao plano

E ficam ao lado do branco dos bibes costurados

São a presença iluminada no ovo granítico,
Com as suas crianças à mesa a segurar-lhes o ferro,
O pé frio soldado na mão para que não fuja a luz,
Para que fique a engordar o teto, a tremeluzir no sangue,
Nas faces da alma na casa

Não se possa nunca abrir uma janela que não é,
Possa-se num descuido transformar a lucidez em nada,
A luz misturada na luz artificial das traças

Os candelabros, flutuam gotas de sol nos olhos inocentes
E a casa fica cheia de brilho porque as crianças dentro,
Não largam das mãos de leite o pé, e sustêm a respiração
Que vem da luz, que pestanejam de pureza, distraídas

E o ovo de pedra, arrolado pelas bermas, escalda,
Cicatriza o caminho e as ervas daninhas com esse calor

Porque não é o Sol que aquece as pedras nos dias quentes,
São as crianças a segurar nas mesas os candelabros
Com os pulsos firmes e as janelas fechadas

April 3, 2016 § Leave a comment

mundo

Nos recônditos lugares julgo que te pressinto – ressuscitas estrelas,
Da profundidade de tudo, da carne a rasar os poços das tuas mãos,
Estrelas
Pelo emaranhado do cabelo a derramar o universo de oceanos,
Continentes leitosos e utópicas excentricidades

E arrasas tudo, o espaço dentro desses lugares que mudam de tempo,
A conjuntura permanente que durmo e tu cinzelas de bichos e jardins,
O meu sangue pelas tuas galáxias
Incapacitado de procriar

Por que insistes? Por que desistes?
Por que ergues metrópoles nos meus desertos que abandono?
Entalhas árvores e animais velozes que trespassam mas não ficam
De instantâneos que são,
Comigo de paredes, de vértebras, de vísceras, de espelhos

Porque insistes, se não permites permanecer?
Porque te acercas contínuo, derreado de cestos entornados de fruta?
Transbordados de água? Ofuscados de luz?
E persegues-me,
E estupras-me sem que saiba sequer que fujo, que me nego?

Quando penso nisto, desprendo-me da matéria inteligível das coisas,
Penso em ti,
Demoradamente penso-te como um astro antigo e perdoo-te,
E minimizo-me,
Porque subitamente povoas-me de fósseis e animais extintos,
Ergues da minha incapacidade travessias e incêndios novos

E os meus olhos, a minha vontade,
Emergem de dentro de ti esquecidos, deslembrados das anteriores torturas,
Aplacados de embriões que edificam a noite, esculpem desfiladeiros
Singulares e urgentes

E amo-te,
Torno-me uma vez mais, habitável

Instantaneamente amo-te sobre o fundo costurado e triste,
Inabalável de metrópoles evoluídas e altíssimas

Porque a beleza é um amor inconstante
E o amor uma beleza triste

.

March 2, 2016 § Leave a comment

sangrentas

o silêncio escreve frases completas
na distância da proximidade perfeita

deixo-me no sossego das coisas
embalada de relógios naturais

as noites misturadas de dias
ausentes dos limites e dos abismos

a tangência a pertença possível,
a dúvida a plenitude perfeita

dos ponteiros as horas inexistentes,
do relógio inventado a verdade pura

não existem compassos para o tempo
nem nomes pronunciáveis

de nada vale tentar o inexplicável,
traduzir dialetos alienígenas

calo-me e digo o que não sei,
distancio-me e pertenço ao desconhecido

a viagem é quando me esqueço,
a estância um embuste qualquer

delação

February 17, 2016 § Leave a comment

invisibilidade

escrevo porque é inútil
e imoral,

e a vontade infértil como um vaso sem terra

e eu a regá-lo demoradamente de sulcos,
a comprimir a carne nos gestos,
de chover-me das mãos os ossos dentro do barro,
inatingíveis de não conseguir acompanhar-me,
escorregar-me pelo avesso da pele

derreter-me, uma cera tépida

e ser dos passos saídas sem pé para lugar nenhum

e escrever espelhos fugidios de lábios,
línguas frias de prata

mais ou menos uma queda interminável

tentativas sem olhos e sem asas

uma lagarta, uma floresta, uma boca

quimeras

insolências húmidas

planícies, longe

escrever inábil

é isso

defecar obscena em pleno voo

e um grito

luxação

January 12, 2016 § Leave a comment

Desenho de Egon Schiele

Desenho de Egon Schiele

Parto do amor mas regresso sempre
Demitida o sopro, o suor, a mágoa,
As pernas nuas pelo vestido
Como se na corrida me chovesse
E o vento nos joelhos me entornasse,
Despida fosse a cor da minha roupa
A roupa fosse a dor de estar vestida
E o sangue pela carne transbordasse
A velocidade louca de ser água
Na fonte do ardor, endoidecida

rito

January 12, 2016 § Leave a comment

rito

Amo pessoas como careço de chuva
Para purgar as pedras do meu fundo,
O fundo embriagado da minha terra,
Aves debruadas de nuvens e caravelas
De seda e músculo, sanguínea, cardíaca,
Burilada de instinto e de medo
Os sulcos mapeados por onde não passo
Enrubescida as noites pelos dias
Como se amando no peito renunciasse
Toda a água de transbordar a fonte
E a dor na asfixia me privasse
Do jorro da nascente que não bebo
Do amor que transpiro e não faço

lugar

January 12, 2016 § Leave a comment

lugar

o meu amor tem joelhos de montanhas

quando o sol implode a tarde no ventre
as minhas pernas descarnam árvores rápidas,
azuis, folhas no algodão da chuva

assim, evaporo quente o hálito no pó,
desfolho meus vales no sal e lambo a planície,
húmida no açúcar dos insetos

as aves desaguam na língua os espelhos,
janelas húmidas que latejam vento,
lábios pela arcada do astro

se arrastar um braço desvio um rio,
a nascente desventro um bando tórrido na boca,
chovo sol no bico das aves

o meu amor é transbordado de margens,
migrações e ilhas levitadas de fôlego
e as minhas mãos lapidadas de peixes

o meu amor é de cardumes resvalado,
de vales pela seiva das flores que defloram,
fundeiam as minhas montanhas invertidas

acrobata

December 2, 2015 § Leave a comment

elas

Se soubesse por onde deambulam,
Que caravana as leva, que pavor me distancia,
Iria buscá-las de manadas, rédeas e unhas,
Trazer-me a mim de bestas pelos cabelos,
E prender-lhes os pulsos, chicoteá-las de erva
Até os cascos sangrarem de musgo o medo,
Doer-lhes na garganta o grito da minha chuva
Por dentro uma cascata de pedras

Vergo-me, fundeio os braços nos poços
Para caçar-lhes a pele, a sede, as línguas,
Espremer-lhes das órbitas o breu do sangue,
Cegar-lhes as minhas noites por dentro,
Lambidas de espelhos e luas

As cidades ruem, cedo desabam alcoolizadas
Nos bibes, delas encavalitadas nas raízes do peito
Derretidas de fruta e leite desnatado

Já lhes rasguei as rendas, esgacei as tranças,
Deixei-as nuas, desmoronadas numa parede,
Convulsas numa encruzilhada de ruas

Já lhes trilhei os dedos de fendas e portas,
Os gritos latejados em dobradiças de fogo

Vão mudas nos escombros, vão tortas,
Retalhadas de esquinas, lapidadas
De luzeiros e sombras e vitrinas,
Jangadas pelos telhados

Ainda tentam fábulas esfarrapadas nos cirros,
O olhar levitado nos corcéis de espuma,
Planícies esfarrapadas de trilhos e baba

Só quero tanger-lhes a hora, sugar-lhes a boca,
Asfixiá-las na cinza evaporada do meu hálito,
Assassiná-las e despedir-me apunhalada,
Atravessada de vértebras insanáveis

Depois, ausentar-me de coxas desfolhadas de mãos,
Cambaleada de âncoras em golfadas de mênstruo

Abandonar a metrópole na puerícia do circo

cabra

November 17, 2015 § Leave a comment

cabra16

quero escrever-te, desenhar-te
cabra oblíqua, interruptamente,
imersa no relógio do dia estuprado e nu,
uníssono no código,
até te perderes de repetir-te,
eu repetir-me no símio, na mascarra do corpo,
decifrares a minha mão na aceleração dos ossos,
a tua ausência bestial, de ti belíssima e húmida
cabra obtusa, liquefeita e seráfica maga
neste desfasamento lunático, lunar

tenho a minha mão espremida na carne,
sentes? é a minha boca perra, parda na besta,
ávida, famélica e trémula no encantamento simiesco,
pendular na tua distância cavalgada de membros,
ossos, suor e sémen

lambo o sal, a rede do teu pulso,
sentes? é a minha língua vagarosa, pulsar, ébria,
carnal pelo ressuado sanguinolento,
enleada nesta expiação frívola, estrábica,
geminada

sabes que existo?
sabes quem somos? a que pertencemos?
a que tempo? e porquê, cabra?
que me és? em que espaço te encobres?
em que deserto nos cruzamos? deleitamos,
colidimos no mesmo símio?
tomamos do mesmo instinto exacerbado?

~

November 8, 2015 § Leave a comment

brisa

tenho uma brisa num vaso
na minha casa em ruínas
é nessa brisa que voo
meu corpo pelo telhado
no bico dessas esquinas

e uma asa na boca
se o vento crescer deste lado

e a parede que escorre
de fendas pelo empedrado
é o meu andaço que chove
dum varandim recuado

e a minha língua que treme
as asas pela fachada
é essa ave que morre
em mim a dor transpirada

sangue e soja

October 26, 2015 § Leave a comment

octo

Quem é
o instigador do polvo
dentro, fora da minha cabeça?

Quem vem
sem rasgar, amaranhar a rede do meu sangue,
trespassar a coifa da minha pele,
endiabrar em mim o bicho,
acirrá-lo de fogo
sem mirrá-lo de sal,
sem cegá-lo de fumo,
sem matar-me de sede?

Quem vem
suavíssimo pelo jorro,
sub-reptício pela mufla,
submerso e ébrio pela seiva
tatuar meu rumo?

Quem vem
de longe, do fundo, do fim
estropiar o bicho,
sem estuprar-me a mim?

Quem sabe
a estirpe desse gérmen,
de que dor se alimenta,
de que dor se presenteia,
de que dor se finda o começo?

Quem sabe
a origem, o ovo, a polpa, a pupa,
o ardor, o medo?

Quem determina o parentesco?
Quem determina a presa?

Que interessa?

E a quem,
se a luta é tarde ou cedo?

Se sou,
Se esse polvo existe?

Se o incito e temo?

astrolábio

October 18, 2015 § Leave a comment

sea

Nos dias fastidiosos, zarpo de mim os navios,
Trepo o mastro e dispo da amarra o vestido

Que me importa o leme, se as velas?
Se mergulho nua, descabelada as marés

Que me interessa o cosmolábio, se o peito?
O farol resvalado no estrabismo da rota

Abalo o meu casco na náusea do berço

Isso, nos dias morosos pela minha pressa

Porque o mar é distante e fundo na minha ilha
É salgado e doce, carnívoro no meu sangue

Porque parto sem saber se aporto, se adormeço,
Se regresso incólume as vértebras na quilha

se

October 13, 2015 § Leave a comment

pássaro

ai de mim

se adivinhasse o sangue dessas flores,
até onde perfuram os ganchos as borboletas,
até onde atravessam as asas a ferrugem dos ossos,
as canoas entre as empenas do meu sangue

até onde rasgo a carne entre a farpa das unhas,
até onde os meus chicotes na órbita dos medos,
até onde tudo perdido por uma nesga de perfeição

até onde me levam estas velas loucas? os mastros?
até quando demora na pele este vento? o cabelo?

se soubesse a música longínqua desse espaço
ínfimo, a forma geométrica velocíssima desse tempo,
talvez adormecesse de vez o meu peito na folha,
a boca apertada num ramo inteiro de uma árvore,
e lambesse longamente essa casca até ao infinito,
molhada de açúcar e fruta explodida de espelhos,
a lágrima da viagem no crescente prateado da retina

e o céu todo um suco vertido no espasmo da língua,
e o mar hibernado um lençol de muco e redes

e saísse por aí a chover o meu telhado num dilúvio de penas,
um bando de casas nas asas breves dos passarinhos,
apenas para esculpir jardins na sebe das paredes
e adormecer amorosa os meus ovos no arco desses ninhos

Planeta 127

October 11, 2015 § 1 Comment

127

Esfrangalha o tule no óleo das madrugadas
Chicotadas de mercúrio, de pele e muco

Talvez seja nesse tempo uma fada verdadeira
Oculta sob o código da saia, uma rameira
Levitada do nada, no firmamento dos ossos
A explodir da boca escancarada uma estrela,
Um planeta habitável na órbita desconhecida
E um chicote de línguas súbito pela galáxia,
Repetido, convulso, escorrido de membros,
Lambido de vidros, cicatrizado nela, estrábica,
Escorrida e húmida de chuva, presenteada,
Estuprada de pele, de túneis e de medos

Talvez saiba já e não saiba ainda, a fórmula
Mágica e bêbada de espasmos e de segredos
Revolva por isso possuída a tara encapelada,
Deleitosa, o mar febril dos gestos que a despem,
As mãos que a estraçalham, depois a tecem

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July 10, 2015 § Leave a comment

não quero nem saber
se quedam as aves mortas,
se expiram os poetas,
se choram meninos as fraldas frias

podem até navios transbordados de corpos
chegar para lavrar de carne os campos,
esventrar de mastros a serrania,
mirrar de sangue as fontes,
uma peste que não cura

podem tudo
podem tudo

tudo, que aguardarei ver do meu amuo,
fleumática

que nem um fado poderá a alegoria
deste meu estado que moí

vou deitar-me de nada, de ossos
de barriga a rilhar um godo,
a espernear o que penso e não digo,
mais cavernosa que uma endoscopia
neste meu arrufo enraizado

e não quero nem saber o fundo, o dia,
a pele da baba na pedra dura,
tudo mais que resvala e geme
tudo mais que sepulta e mura

se a barriga me dói no godo,
na boca a goma escorrega,
se esfrego o ventre vazio
se tomo na boca a pedra

é porque vou tresmalhada
nesta embolia de terra

canícula

June 9, 2015 § Leave a comment

canícula

Importa resgatar
o bafo das ervas e dos bichos,
dilatar os lagos no peito,
espelhos pulmonares

Deus sonolento, alonga-se,
languidamente incendeia e lambe

Talvez durma, talvez finja, babe
sob o manto, ressonos pela paisagem,
a língua espreguiçada sob o astro,
a boca atravessada, absorta,
o assédio inflamado num bocejo,
um vidro trémulo derretido de cuspe
e cores, dele carnívoro pela canícula,
ébrio, um enxame purulento,
formigas empolhadas

Ambíguo esse tempo da divindade
pelo estio, meu olho gravítico, vomitado
pelo rasgo da pálpebra,
de esguelha uma renda dourada
de aranhas vibratórias e poeira

Ei-lo, e
aplausos de patos na lagoa, palmas
levitadas da palha e asas nos cabelos,
meu lábio fendido na fivela alada,
no impulso lancetado das larvas
na margem, comichosos de credos
e suores, ovos e sémen

Talvez adormeça luras nessa melopeia,
a humidade sombria dos escorpiões
nas dobras da carne, trilhe a pele
ao Deus entre as queimadas
desafogue a mordaça e borrife
a embocadura escovada de terra,
um grito sacudido de insetos, cuspe
acidulado

Se puxar o corpo talvez incite e sangre,
solte os pulsos das fitas entrincheiradas, os rios,
as algemas sacudidas e arraste uma montanha,
desfiladeiros e escarpas, margens
para os vales do corpo

Entupir-me de árvore e raízes, isso,
uma galáxia até ficar um fosso do avesso,
uma mão inteira funda na minha boca,
um planeta descido num braço

O Deus inquieto, ancorado no osso
antes das veias, antes da superfície,
antes que diga, tente
transpor o espiráculo,
expire

May 31, 2015 § Leave a comment

azul

os olhos, a brevidade da ave

o céu, esse poema azul

mas que importa a cor?
se as cortinas, as palavras
lâminas, iniquidades
anoitecidas,
improviso instantâneo,
violentado,
um estupro e a morte
azul e solar

ter olhado e só por isso, o futuro
vindimado na passagem

para que cultivar espadas e flores
nas cinzas, levitar palavras exoneradas?

recuso-me a explicar este crime
uma única vez, a lápide

foi essa ave na abóbada
o cadafalso

algemem-me por isto que não respondo

a ave já abandonou o céu

sequer excrescências, testemunho,
sequer ossadas

que importa?

humo

May 26, 2015 § Leave a comment

sacro
o amor, nos espectros da noite

podem passar anos sobre esse lugar,
árvores, depois das estações para lá do céu
continuamente pássaros, cerúleos
continuamente o avesso
do rio, um leito de sangue

deito-me descoberta de lua e uma janela

pode desabar um astro e perfurar-me a carne,
um vidro pelo rendilhado das veias, dentro
cardumes brotados e abelhas da pedra

o candeeiro arde cortinas nos olhos

descerro a boca num vaso para esse amor

os tapetes, pele fustigada e vendas
desobedecem aos sentidos, no linho
brotam cascatas de joalharia

vou deitar-me, as pernas vazias de mãos

facas morrem os cabos nos estendais

podem passar muitos gestos, tempo

triturarei a fruta, vendada no fogo,
no barro desse amor

lírio

April 13, 2015 § Leave a comment

lírios

Chego sempre atrasada, como se partisse
Lírios do campo, molestas noturnas, purulentas,
Sóis giratórios de estrelas petrificadas

Desabrigada desses guarda-chuvas, sou das bocas
Cálices de refresco, a sombra mofenta das laranjas rasgadas

Chove, para atravessar os campos agora, boiá-los,
Às úlceras pelas corolas, beber a seiva dos caules

Descalça, todos os dias a fuga que me repete,
Entrega molhada à mesma porta que espanco

Não estou para atender-me e isso é triste,
Desconhecer-me assim desnudada, a aldraba

A cor dos lírios esborrata-se no breu dos olhos,
Suco derramado pela quitina das asas, a gema

As flores acenam mãozinhas decepadas nos vidros,
Resvalam gemidos de pele no espelho das jarras

Não abro, sacudo-me

Seguro-me ao napron, palmilho a janela,
A transparência dos dedos trilhados pela casa

Tenho a porta trancada em mim, e essa dor
Deslocada da cor como uma fonte vazada

Dentro, não conseguirei nunca entrar, nunca,
Transpirar o pigmento húmido da terra

Chego, continuamente,
Como se escapasse ao descampado, nele

À porta, ininterruptamente, tinta estalada dos campos,
Os talos, as pernas escorridas de folhas,
Línguas agitadas pelo batente

Chego sempre atrasada como se fugisse uma saia,
Hasteasse uma bandeira, ofegante o ventre,
Tivesse perdido os braços no lanço dos pés e me batesse

Tenho-me amordaçada de flores, rendida,
Chicotes verdes, rasgos de lírios pelos tornozelos