sperare

August 14, 2020 § Leave a comment

esperar-te

é de certa forma alimentar-me
fazer da memória última água para partir

amar-te

algumas vezes solar
algumas vezes aquática
algumas vezes prateada entre os espelhos

pacifico-me, atravesso-me, abasteço-me

importa apenas saber regressar ao local do culto
com a fome reflectida no encantamento
das últimas humidades por onde andei

e as mãos preenchidas de luz para te contar

insomnia

June 24, 2020 § Leave a comment

porque custa-lhe adormecer
a noite escolhe ler o livro do amor
que começa no capítulo da memória e
termina no capítulo da insónia
salta sempre o capítulo das probabilidades para saber o fim

a noite extrapola os significados do dia adensando-os de metáforas
entristecendo a memória que vai fazer um chá

a noite enquanto espera lê os capítulos por escrever
subitamente desentendendo tudo do amor
e o chá da memória arrefecer

então o amor sente um frio terrível e incompreensível
levanta-se e vai ao armário buscar um cobertor
para aquecer a história e adormecer

domes-ti-cidades

June 4, 2020 § Leave a comment

stoker

stoker


nos dias de mendicidade
limito-me a fazer barrelas do passado
a limpar os vidros do futuro
a requentar o presente com o lume dos outros

dedico-me a domar-me pela tua cidade

com os bichos ao peito
fazer-lhes festas com o pé
lamber-lhes o pelo com o sexo
dar-lhes de mamar a minha língua

estou de passagem
pelas pequenas grandes humidades alheias

prosseguir é masturbar-me com o tempo na aspiração do espaço varrido da casa

como tal, nos dias miseráveis
limpo as cinzas dos cigarros que não fumo
faço nuvens para regar os vasos

mendigo-me
e dou-me esmolas
venho-me no pó e nas sopas da má catadura

viridi

April 30, 2020 § Leave a comment

é quando te reencontro que recomeça a primavera
mesmo com a estação confinada no parque e
as aves a perguntarem felizes pela nossa ausência
a que respondo do fruto da resposta insondada
que na espera, a medo, vou florindo nossas aves
esvoaçando no amor a vontade arborizada

domum

April 7, 2020 § Leave a comment

agora que os dias fecharam
o mundo é uma grande noite clara
e a distância
chega com a luz com que reconstruo a casa

se não fosse esse gesto
simples
da natureza entrar com o sol desde as fundações
para restaurar do medo as profusas fachadas inúteis

e eu
inesperadamente entender a intimidade de tudo
para lá deste hábito natural de possuir a construção

se não fossem os pássaros
nidificarem súbitos no beiral da fragilidade
a respiração delicada de uma relíquia antiga

se não fosse preciso fechar-me para decifrar o invisível

diria ainda do mundo um habitáculo de irrecuperáveis viagens

do mar
uma fotografia com maresia
desde o filtro das marés ao arco-íris sem retorno

diria verdadeiras inutilidades puras
de telhados sem alicerces sobre argamassa movediça

não fosses tu vida visitares-me
rapidamente com a morte
calares-me

fechares-me nos dias

e eu

abrir-me

o pai

March 20, 2020 § Leave a comment

o pai

no céu continua os planos de poupança

poupar discussões, poupar sono, poupar paciência

tem todas as mesas, todas as bancas, todas a petisqueiras no céu

o pai tem todo o vinho e todo o fumo e toda a alegria que pode ter

o pai não gasta um tostão no céu porque é tudo de graça

o pai tem uma coleção de pássaros que o seguem para todo o lado
galinhas, patos, pombas e um melro velho que um dia fugiu

o pai tem uma coleção de animais selvagens, macacos e leões

o pai tem África inteira sobre as nuvens

o pai viaja sem pagar entre os países
não tem de comprar bilhete

o pai, do céu, aciona os despertadores dos relógios na Terra
põe o rádio alto pela manhã, bate palmas para acordar e levantar toda a gente

o pai quer trabalho para toda gente e toda a gente a trabalhar

resmunga

resmunga

depois junta-se aos anjos para uma cartada e
ganha sempre

depois

senta-se numa interminável mesa a petiscar sandes de presunto, bolinhos de bacalhau

aos pés, uma grande grade de cerveja

e os olhos brilhantes, brilhantes

um sorriso eterno e descansado nos lábios
uma vídeo cassete de vida selvagem

pisca o olho e dá uma gargalhada

está feliz

está 100%

ponto

March 7, 2020 § Leave a comment

pega

estou cansada de andar por dentro deste livro
sem as tuas mãos dadas às palavras

tudo são caminhos desconhecidos sem o teu olhar
tudo são lugares inóspitos capítulos sem rumo

mas se me deres o teu corpo ao virar da página
talvez consiga ler nas entrelinhas
a história de lugares habitados
por onde me possuís entre os parágrafos
arborizados da viagem

segura

carne vale

February 25, 2020 § Leave a comment

despes-me e reconheço-te
visto-me desde a tua pele interior

e agora que me tomas os pulsos
a veste desde o avesso e puxas
as veias com que costuro o meu corpo
fantasias-me?

agora que rompes estes fechos
abres-me a carne desde o começo
vertes teu traje sobre o meu vale
pergunto desmascarada à perfeição

amor
quando tocamos de corpo?

o amor

February 15, 2020 § Leave a comment

amor

do amor
todos os dias sou do amor

do amor a chama a perseguir-me

dele sempre

ainda que de mim queira morrer-me
do medo que vivo as estações resolvidas
os dias regulados desconjuntados dos meus

que careço na alma a perfeição momentânea do amor na irritação dos dias cinzelados para as coisas

as coisas penhoradas nos dias inexistentes
as invenções felizes nos calendários tristes

sou do amor quando penso o nome

o amor que tange os meus dias irresolutos
contraditórios e acidentais

o amor nos dias incompletos e imprevistos
o amor verdadeiro que me encontra

reconheço-o e desfruta-me
torcionário suave na morte que me aplica

terno da minha efémera serventia

o amor

odds

February 6, 2020 § Leave a comment

talvez os pássaros

aplique aos pássaros esta amorfia

que careço a seda da ave que falho
o deslizamento migratório que escapa

sou a bruma
sou a bruma que encobre
mas eles o sol negro que alucinam
que o meu fantasma no lago tem olhos
passa os dias a contemplar a treva

no limite, resta a superfície a espelhar-me a face
a paisagem aquática
essa que é o prenúncio geminado

talvez o fazedor saiba o metal das aves
já que sabe de cor pedras e valas
lê os lodos e as sedas e as miragens

nada disso o intimida

talvez saiba de mim qualquer vertigem
compreenda esta bruma irrespirável
a faca contínua na atmosfera
o metal que transpiro

falo do resvalar laminado
da luz lacerada na carne da fronte
porque depois só o rosto
ainda mais indecifrável, submerso
a ferida aberta sem língua

os pássaros debicam fruta na árvore
enquanto planam o tempo da descida
escorrem o doce dos bicos antes do voo
careço desse açúcar

logram o meu olhar desfocado de crosta
adocicado de sangue

orbes sem pálpebras na desfocagem do bando
no afogamento do suco

se atiro os braços agora esta dor contorcida
desce a sombra condoída sobre o espelho
e a minha boca húmida ávida cresce um poço

abandono a cabeça

vejam só as aves como voam
contorcem-se naquela velocidade negra tão suave, melodiosa
dançam como a paz e o silêncio da morte
um maná de penas de ossos e de força
o bando inteiro o céu

vejam só
como dançam, seduzem

tu, açulador de sentidos sente-me a garganta os pássaros

que vivencias? tomas da minha boca rasgada

como voam ondulam negros as lanças
como lhes espero as asas

alguns, ainda pelo canto do olho debicam bagos na árvore serenos
antes da chuva dentro das minhas mãos
antes da acidez do medo adormecer

não tarda nada nenhum na árvore
todos dentro de mim

não tarda nada outra massa
outra massa que ondula

e este vestígio de sangue no lábio

alquimia

January 23, 2020 § Leave a comment

ainda não ergui as paredes da nossa cidade
ou galguei as muralhas
mas quero

um mapa quente apertado na mão e um punhado de vento suado
e tu pelas vigias

e eu pela mão das paredes carregada de versos
transpirada de bichos

escorrego-te os olhos
circundo-te

sentes o meu verde o meu vento?

é a minha face arrastada de pele pelas tuas poeiras

se abrires a boca, muito – um oásis
-, respiras-me e perfuro o teu barro

todas as pedras que trago dentro
chegarão para construir torres altíssimas para os nossos pássaros que ainda não chegaram

mas vejo-os daqui – como planam, esperam
atravessam devagar o céu até morrerem, pacientes
a escuridão dentro dos olhos
arrastados de planícies pelo azul que não existe

a eternidade desce com o Sol – alquimista -,
e tenho os peixes nas mãos para nadar o ouro
o fundo na seiva das raízes

se descer com eles a correnteza
as veias até à profundidade
as minhas escamas pelas tuas folhas
até aos alicerces do que ainda não começou

agarras-me forte pelos cabelos para que não fuja?
algemas-me os braços ao mesmo sonho antes que adormeça?

banhas-me de luz antes da noite?

luxação

January 13, 2020 § Leave a comment

Parto do amor mas regresso sempre
demitida o sopro o suor a mágoa
as pernas nuas pelo vestido
como se na corrida me chovesse
e o vento nos joelhos me entornasse
despida fosse a cor da minha roupa
a roupa fosse a dor de estar vestida
e o sangue pela carne transbordasse
a velocidade louca de ser água
na fonte do ardor endoidecida

saudações natalícias

December 24, 2019 § Leave a comment

natal marcela

natal lídia

seja lá o que isso for
desejo-vos daqui da cozinha

enquanto esticas a perna
e tu distendes o braço
deixa-lo tombar sobre as águas
eu golpeio um dedo da cor do garrote do velho inventado

uma faca
um lago que escorre da carne para o sifão
da dor para o esquecimento
dos homens para o mundo

do meu dedo acordado para o natal ferido
um lago que mirra como já morremos todos

que eu não tenho oferendas
do teu pé tão descalço marcela
do teu peito tão nu e culposo lídia
do natal tão vazio de naturalidade

rasguei o pano e agora esta cavidade enorme por onde entra e sai o mundo

entras tu à procura do teu natal esta é a tua casa entra
que chegue pela noite dentro coberto de braços

e tu a espreitares esse outro
aproximado da paisagem dos sonhos coberto de acenos

misturo-os e é o natal exato perfeito que não existe

é o mundo que entra para nataliciamente foder-nos
enquanto esticas a perna e tu distendes o braço

eu descolo o peito

aqui o bacalhau é mediano como os homens
crescido como os sonhos
egoísta como a fome

e as azeitonas mistas todo o ano no vértice do meu dedo
rodam

que não cessa o natal ferido uma espinha sem dorso
um hematoma sem fundo

que eu não tenho prendas do teu pé tão descalço
do teu peito tão pisado e nu sob a frontalidade

desse nome tão vazio que escorre para o sifão sangrento
que entope o mundo da mesma janela

gemei que já vou depois disto tudo desculpabilizar-vos tratar-me

enxaguar-me desta miscelânea de esforços

natal natal marcela paciência
passar-te a mão assim tão levemente
subir-te o corpo como a uma estrela
enquanto lá fora a noite aumentada deste furto
um bréu que esconde o sangue

é o natal lídia a pentear-te o cabelo como um polvo

depois do natal limpar a barba ao linho

tchau até pró ano despedir-me, despedir-se
o mundo atrás do pano
a culpa o garrote no ralo do sifão da pressa
enquanto esticas a perna e tu distendes o braço

natal natal palmas
sobe e cai já se foi

até pró ano

agora é a louça e o menino na banca da imaginação retalhado

podes despir-te Marcela que não te vê
já enxaguei a banca e estou quase

quase seca quase morta quase aí para lembrar esquecer de novo
este golpe mediano como tudo

a cor do sangue
o mundo a sair já exangue

natal marcela podes deitar-te acabou

deitemo-nos sob o luar da janela
as duas as três eu inteira do sifão para fora

lídia recolhe as tuas mãos geladas
mete-as depressa à boca aquece-as com o teu avesso
que a tua boa vontade é egoísmo e baba e óleo
e o meu sangue quente já mirrou no pano

e o sonho é um barco afugentado longínquo
um trenó puxado por peixes cravado de trilhos

natal depressa
natal perdemo-nos

que o mundo mirra por fora do teu nome
o amanhã some-se sob o casco da rena
o meu dedo na tua boca marcela lambe
o pano sobre o teu peito Lídia morde

o teu nome um rio de sangue do meu dedo
frio como o menino que escorre

amanhã lavo os tachos ou nunca
que o mundo é tão sujo lavo antes a estrela
enquanto esticas a perna e tu distendes o braço

que se lixe a louça e estes maus cozinhados

venham antes jericos vacas e ovelhas marchar sobre tudo isto

animais extintos ou desconhecidos mais natalícios por isso

uma jangada de bichos do meu dedo para o sifão para salvar o menino
o mundo num rasgo, num golpe natalício por nascer ainda

lavo antes os dentes e depois se ainda natal e apetecer-me
ou melhor tudo menos natal e todos salvos até o próprio deus,
podemos sempre juntas foder-nos para aquecer esta quadra
até o dedo exangue festejar o reinício

que o sonho voltará sempre amanhã lídia para o jantar para o lambermos
já disse
porque nada se concretiza desta vontade golpeada

chega-te a esta fogueira já a estas achas de raiva
vem acender o corpo arder a casa inteira e estendê-la ao mundo
o nosso lume um oceano natalício do sifão para fora

podes despir-te marcela que não te vê

natal natal e o menino na crista da onda palmas

na prancha do dedo
no fluxo do sangue

até esquecermos tudo isto
esta necessidade plástica de nomear nascimentos

desmontemos a árvore para uma verdadeira
a casa para um lar natural

ainda que nós sempre as mesmas e de faca em riste

a lembrar o escusado natal
com este dedo ferido

noctis

December 13, 2019 § 4 Comments

se me deito, rompo as vértebras e lanço-te os braços do peito

e tu olhas-me indolente e doce

e caças-me os pulsos e suspendes-me na noite
das tuas cordas invisíveis

e eu fico assim dependurada dessa ideia um tempo infinito
de ser a tua pupa estelar, oscilante no espaço
com a minha carne iluminada por dentro do teu silêncio

e se vibro e gemo pelos meandros dessa tua calma
tu torces-me vagarosamente na obstinação do vazio
até que dum repuxo expludo e verto-me de seiva luminosa

um coágulo de leite que do ventre deixa-se orbitar
parir um rio pela via láctea das tuas mãos transparentes

anéis pela cintura das horas húmidas

e dissolvo-me sobre a tua fronte inexplorada

sabes bem
que trago comigo nebulosas virgens amamentadas de medos e que
com elas sobrevoo a tua permissão e colonizo-a
e à tua carne convulsa de mansidão inventada

porque o meu corpo é um astro no sustentáculo do amor

e tu sabes
que somos vestes instintivas no interregno das poeiras

assim, antes da obscuridade, permito-me horas a imaginar
que velocíssima detono galáxias à tua frente e que me habitas

horas suspensas na fruta que amadureço à tua porta

aflijo-me muitas vezes com isto dos teus mistérios

com as marés das minhas profundidades tontas

mas depois tu revisitas-me tímido e tranquilizo-me
de saber que quando me deito
já te encontras à minha espera dentro da noite

inépcia

December 8, 2019 § Leave a comment

é domingo

sou um oceano emparedado a nado do silêncio

água contra pedra ida contra regresso

e esta barbatana encravada no ombro
igualzinha à tua asa presa
é um peixe roxo por dentro do osso

atiro o coágulo numa braçada de água contra a ave estacionada

mas é domingo e a velocidade é uma espinha

o mar é náufrago das marés
ida contra pedra regresso contra água

evapora-se

na manhã engaiolada em que o amor é uma âncora

os cardumes dormem e as aves não desovam

aliena

November 6, 2019 § Leave a comment

stoker

stoker


não sou do vento não sou da chuva
não sou sequer do tempo de mim mesma
nem das flores eu sou nem sou da música
nem das árvores nem dos olhos nem dos gestos

não sou da existência torpe, sôfrega e vencida
aquela que se entende próxima, segura e certa
não sou do pensamento compreendida
não sou mais que uma ilha longe terra deserta

se julgam que me podem então não sou
se julgam que me sabem então não dou
sou mais longe que o longe onde não estou

se entendem que me entendem então eu minto
se entendem que me mostro então pareço
sou mais longe que o espaço que desconheço

cadunt

October 27, 2019 § Leave a comment

a tua cor chega do interior da pele como o outono

a terra abre a sua boca húmida de sangue, deita-se para trás
solta a sua língua silenciosa com que escava a terra e ascende às árvores

assim mais ou menos como eu
quando me distenso lânguida sob o teu corpo
cavas um vale profundo por mim adentro que ergo e rejuvenesço
como se a terra levitasse

chegasses súbito de dentro da estação primeira
comigo já assim madura, colhida do tempo
pousada sobre a palma infantil da tua mão
uma semente oferecida e evaporada

demasiado simples esta idade das coisas
como a natureza se aproxima e se retrai
recobra e se renova a si mesma
como chegas e inicio-me

penso

se a terra recomeça também tu me regressas à primavera
com árvores açucaradas enterradas no peito
quando te aproximas folhagem, fruto, semente
para remexeres-me desde as raízes

a terra abre-se e tu colhes-me
do ramo mais alto com o vento estacionado, inclinas-te
vagarosamente
num recorte de azul ensolarado para povoares de seiva o meu sexo

desaguas, chegado de todos os lados como a transpiração
para me tomares como um fruto inseguro obediente à luz
uma árvore ruborizada
uma árvore de sangue
uma árvore aquática
uma boca atónita
contra um solo de carne entorpecida
delicadamente brotada para o espaço firme da tua plantação

a natureza move-se, tu tocas-me, eu acordo
pela altura certa de já ter crescido um extenso pomar
de todas as sementes inesperadas que experimentamos

serem já demasiadas as árvores para visitar
os frutos demasiado altos para colher

estarei perdida meu amor nesta imensidão
ou reencontrada nesta terra tão fértil para compreender

chega-te por isso e ocupa-me mesmo assim, ensanguentada
que este nosso outono é de terra, raro e perene

é tão macio e tão doce, como se chovesse sol de dentro dos frutos para a nossa boca
e engolíssemos juntos o açúcar gerado da felicidade
de nossas línguas emaranhadas
fechássemos os olhos sob a luz e adormecêssemos
brotados da ampla planície que retornou despida
ao colo da estação extenuada que deu fruto

sabes
acho que somos deste campo aberto
duas ocultas primaveras nuas

lignum

October 9, 2019 § 3 Comments


escreve uma árvore
escreve-me uma árvore e desenha-me um poema
escreve-me uma árvore, folhas, letras manuscritos de palavras
uma sublimação esverdeada, livre e espontânea
escreve-me umas asas
uma montanha que voa
uma montanha elevada e uma árvore tamanha
frondosa alta e recortada
uma copa farta à deriva num vendaval de letras
um pincel à toa de palavras
deslavado em calhetas

desenha-me essa árvore desenha-me um poema
uma pauta musical de chuva
aves abrigadas no arvoredo
ninhos
versos
telhados espelhados na brisa
apanha-os e descansa-os
coloca-os na segurança do refúgio assinalado
no teu mapa escorrido
nessa árvore
no meu universo plantado na ramagem
escreve escreve
escreve-me um livro
rematado
complexo
escreve-me um trilho
uma estrada
sentida e gigante que entenda
verso a verso
folha a folha
água a água
um aguaceiro de verde e sombra matizado
escreve-me uma árvore
descreve-a alteada
cavada em mim
submersa na minha tempestade de abetos e silêncio

desenha-me
isso
devagar
devagar desenha-me
desenha-me
escreve-me assim verde e alta e molhada
o caminho
o firmamento pintalgado
estrelas e sol
vazio e luar
a árvore nua
a árvore recortada e acordada na noite
delineada e vigilante
e a tua mão em desatino na escuridão
escreve-me uma floresta de livros e de sossego
uma fuga repentina das prateleiras e dos medos
das frases encasteladas
a árvore
tempestade de folhas e neblina
tu
um tapete de terra molhada e mansidão e nervos
cores e purpurina
o mapa das estradas
estreitos e nadas
escreve-me essa árvore
escreve-a e desenha-me um poema
a árvore que eu quero
que adivinho pura
seiva
a árvore pungente e inadiável
a árvore altíssima
verde arreigada no teu nome
escreve-me um poema
um ninho
colmatado
perfeito arborizado
a tua ausência em desalinho entrelaçada nas raízes

horis

October 4, 2019 § Leave a comment

as minhas horas
são feitas de espaço e de paisagem

não há medida nas minhas horas
não há aragem

os ponteiros são passos

as anotações esquissos

as minhas horas são letras
são estrupícios

não há espaço nas minhas horas
não há medida

nas minhas horas não há chegada não há partida

sei de cor o tempo do meu espaço
sei de cor a hora

sei de cor o tempo de cada ausência
se chegar demora

minhas horas sequer são minhas
sequer são tuas

as minhas horas são apenas letras
são apenas vento

não há mistério nas minhas horas
não há loucura

as minhas horas sequer existem
sequer as tento

as minhas horas são almas livres
são argumento

não há urgência nas minhas horas

só conjuntura

observatorio

September 12, 2019 § Leave a comment

plantar barcos de flores em agras de viagem
apenas para singrar nos olhos as marés

içar corolas à boca solar do desconhecido

depois talvez numa nuvem prenhe
na lambedura espumosa de um mastro
entenda deus um caule afiado de raiz temerosa

e apenas de sentir-se assim desconsiderado
chova enfartado qualquer estrela sobre o convés
retempere o campo do peito semeando-o de luz

e o vento de feição restaure de verde a maresia
a fé nas mãos sinistradas do estaleiro do amor

um

August 30, 2019 § Leave a comment


bem

vou ali

colher uma flor

olhar um pássaro
observar um barco
apanhar uma pedra
escutar um rio

tudo isto eu farei indo simplesmente ali
como quem fica a imaginar apenas que vai

e entretanto passa um bando
que não vi

sobre um rio que não escutei

estava no meio do jardim que não vi
a procurar entre as pedras que não sei

bem

como não fui
regressei sem a água e sem a flor
sem o pássaro que levou a pedra que não apanhei

corri mas estava sozinha e não me mexi

que agora existem todos sem mim
que já não vou
desisti

floração

August 22, 2019 § Leave a comment

enquando te falo deste jardim e das suas espécies
divagas sobre as flores antigas dos campos vedados protegidos dos vendavais

nada posso contra a antiguidade ou contra essas raízes que se perpetuam frágeis
e nada tenho contra os relógios estagnados das paredes oblíquas

seguro o meu vento com o peito aberto arrasto das pedras evaporadas
enquanto agarro estas nuvens desde as ruínas com que regarei a suavidade
das líquidas florações

e enquanto tudo se alaga por dentro e por fora dos gestos
em círculos de miragens doces a pique do céu
os botões tenros que guardo aqui sob a tua luz descendente
que ainda não sabem o nome verdadeiro das florescências
esbatem-se no campo aberto das bocas descerradas e caramelizam-se solares
enquanto chove
devagar
a par dos rios vagarosos que se deixam levar por dentro dos olhos
ao mar da rebentação

porém
tenho sérias dúvidas como sérios contentamentos
sobre estas e aquelas irreflectidas plantações
de que são feitas
o que retiram da pele remexida desta terra
de que forma a tua sombra se curva sobre as corolas
encosta o peito às vértebras da felicidade
docemente ou condoído
frívolo ou amedrontado

de que jeito se encaracolam os corações no frio da solidão
as folhas sob o sol terno do teu olhar desgarrado
a musica do teu riso à sombra da hesitação

até onde se distendem as raízes desde os abetos dos teus dedos
a contorcer a dor por dentro do inatingível

qual o verdadeiro sabor que goteja da tua sede lenta sobre esta aridez partilhada

quando te falo de amor humedeço-me por dentro
enquanto falas do tempo com sementes dispersas e aquáticas no olhar que
enrolo na boca desde o teu sexo
para desbravar a pele entre as deslocações nestas minhas nossas
furtivas semeaduras de irrepetíveis estações

e sei tudo isto a remo dos ponteiros dos teus dedos

que tudo leva o seu rumo e que nada nos pertence mas que tudo de ti me completa
enquanto sais para regar os campos antigos nas horas concebidas
comigo deste lado de mão dada aos trémulos rebentos da primavera

se me perguntam se demoras digo-lhes que não, que sim, talvez que sim
que sim mas que falta quase sempre uma estação por dentro da saudade
que é uma sede indecisa numa brisa que se dilata por dentro do verão
e se sacia lenta da espera condescendente e húmida

que ao virar da esquina o futuro vem de rio cansado ao colo
a arrastar os pés pela margem mais embebida do mar
de olhos fixos no fim

digo-lhes isto para que chorem
ou me chorem
ou talvez ainda para escutar-me nervosamente
que se acertarem o teu nome por dentro da água ensanguentada do coração
terão um dia um lugar assinalado no mapa da floração

ou não

mea

July 18, 2019 § 3 Comments

espero-te sempre

meu amor

como um verão inseguro
a par da estação

a tocar-me tão ao de leve

tu

meu amor

e o presente
sempre um tempo que não chegou

assim anoiteço

assim me embalo nesta tremura

no desfasamento destas nossas proximidades

meu amor

ou então
no gesto de uma pedra ao mar por atirar

quero dizer com isto que me faltas

que mergulho sôfrega meu amor

de dentro do gesto contra o vazio
nesta granítica solidão sem balanço

enquanto o sol brilha o teu rosto inatingível
e pareces-me verdadeiramente verão

e o mar um quase inaudível rumor
da tua voz submersa

assim sou eu
e estou
a esperar o teu gesto preso à contemplação tangente

meu amor
meu amor

cibus

July 5, 2019 § 2 Comments

gif-vento

como se não fosse por ti
de caminhos crescerem as árvores e as casas e o universo respirável
e não chegasses para explodir o mundo depois dos beijos
de tudo tão enlevado e triste e supremo e verde
com cães nas ruas a ladrar às fadas

que nos fazes depois da luz, da carne, da semente, da ave no cabelo
à bomba que nos pões no bolso?

treme-me a mão a latejar-me o peito

para onde te arrumas depois de ofegares, explodirmos
e aos destroços, o pente, os olhos nas feridas?

já não eram eu sei, nunca fomos, seremos, depois de despidos
os relógios impossíveis tão só a tua liberdade licenciosa
musgo e sarna na pedra a martelar as línguas
até desfazer-se a pele, azedarmos o leite na perna
o dialeto menstrual avançar exércitos silenciosos

trazes-nos já estupradas com valas no peito?
o teu perfume na baba ainda? a lamber-nos o joelho,
as mamas em cataratas de fogo no júbilo do teu sémen?

estou à mesa e uma toalha de sangue,
cotovelos e um garfo no olho impaciente
para onde olhas? que enxergas debochado?
as nossas bocas quentes, quase? o mundo afogado
a mastigar-nos ronceiro, açucarado nesta festa quente?

somos húmidas no teu celário, sei sinto
pulsar a costura das planícies contínuas,
lagos parados e tu a mexer-nos as cavernas
as folhas escuras no útero

ainda assim dás-nos de comer sob os incêndios?
nem que fome e espinhas sempre? e a sede inflamável?

domes-ti-cidades

June 7, 2019 § Leave a comment

stoker

stoker


nos dias de mendicidade
limito-me a fazer barrelas do passado
a limpar os vidros do futuro
a requentar o presente com o lume dos outros

dedico-me a domar-me pela tua cidade

com os bichos ao peito
fazer-lhes festas com o pé
lamber-lhes o pelo com o sexo
dar-lhes de mamar a minha língua

estou de passagem
pelas pequenas grandes humidades alheias

prosseguir é masturbar-me com o tempo na aspiração do espaço varrido da casa

como tal, nos dias miseráveis
limpo as cinzas dos cigarros que não fumo
faço nuvens para regar os vasos

mendigo-me
e dou-me esmolas
venho-me no pó e nas sopas da má catadura

fusus

May 10, 2019 § Leave a comment

o teu amor
é de incontestável silêncio
e apneia de luz

assim, quando te distancias eu escureço

seguro o teu rosto como uma candeia
com que atravesso a noite bamboleando o teu nome

à medida que suturo os gestos

os teus ombros
as tuas pernas
o teu sexo nos passos

enquanto comprimo a tua cabeça entre as minhas coxas

para alumiar o amor

para ordenhar o caminho

rosas de maio

May 1, 2019 § 2 Comments

tumblr.com


as rosas de maio
florescem nas torres mais altas
dos homens mais altos, das sementes mais fundas

por isso,
os homens galopavam rápido,
montavam bestas na perseguição da terra,
desbravavam de cascos a trajetória,
as veias na pulsação da humanidade

e chegavam com bestas nos braços,
os ossos quebrados de cestos de flores

eram tais homens que edificavam o mundo,
martelavam ferozes o futuro na leveza das pétalas,
os caules que sustentavam os saltos,
impulsionavam as subidas

eram eles os plantadores dos jardins mais altos e inalcançáveis
exatamente os mesmos plantadores de hoje

e as torres, essas, fixos planaltos,
balançavam os corações das corolas,
crianças plantadas num vento maternal, embaladas,
o peito azul leitoso na liberdade

porque partiam contínuos, irrefletidos, instintivos e puros

partiam permanentemente ainda que não voltassem

velocíssimos, trabalhavam excelsos essa lonjura
a proximidade da alma à essência da terra

partiam vagos mas seguros, montados no coração das vagas

e galgavam as próprias torres com a carne ferida
aberta de lava, até ao último perfume inocente,
a última gota de sede

e tudo era sanguinário, preciso e belo

a formusura brotada do sangue e da luta

e tudo era corações de fogo a proteger

e tudo por um futuro isento e assegurado

e tudo eram eles
e eles dentro de tudo eram tudo

as rosas de maio nas torres mais altas dos homens mais homens

era assim

e as crianças cresciam das bermas e aproximavam-se

não tinham medo das torres nem dos homens de lume

escalavam a pedra e a carne como botões verdes,
e equilibravam-se felizes,
bailarinas sobre as vigias levitadas,
o corpo imaculado entre as roseiras,
o peito ao longo dos parapeitos de luz

assim penso que era

como penso agora as mesmas as torres, ainda,
só que mais baixas dos homens mindinhos,
das sementes mais deslavadas e desvalidas

os homens
que ainda galgam canteiros espelhados de serranias

ainda os mesmos,
dos mesmos fantasmas,
ainda deles as mesmas torres,
delas o corpo da poeira e da folia

e as bestas saudosas, as mesmas ainda,
velocíssimas, recuadas, retraídas,
a arriscar o retorno por atalhos de melaço

um dia vão encontrar-se lá trás com este futuro

e as rosas ainda delas, fotográficas e sublimes
a ajardinar o passado gigante nos retratos

e as crianças, bailarinas ainda,
mas tristes entre as valas,
as cortinas das giestas,
intermitentes na prata do cascalho

têm os olhos postos nos cascos das bestas
e não os tiram, que elas não mexem

se pudesse regá-las a elas e às rosas sem ser de sal,
pela única, derradeira esperança do derradeiro campanário

a gota ainda latejante do inerte, ainda o mesmo plantador

talvez ainda uma semente que restasse,
uma roseira por brotar na pedra de qualquer torre

remus II

April 17, 2019 § Leave a comment

aminoapps.com

porque amamos demasiado o impossível
colocámo-nos céleres na boca do amor,
nus e do avesso para fora da carne
só para beijar na língua o precipício
trilhar o lábio no dente da escuridão
rapidamente desentender essa dor que aguçamos,
descemos mélicos pela escoriação
no fio frágil do sangue

amamos

e porque somos ininterruptos
essa dor masoquista insiste
persiste na aceleração das aves
no prazer delineado pela semente açucarada,
a avidez vertiginosa no bico da quimera

aves pré-históricas, flores carnívoras, feras desenfreadas
somos nós, rápidos

amamos

e porque amamos demasiado a loucura,
de sofrer trajados essa cegueira
guia para as funduras do peito
pelos atalhos das cidades encantadas,
brotamos pássaros azuis dos gestos ávidos
e cardumes fluorescentes da tremura do pânico,
e povoamos o céu com toda a felicidade desse medo

amamos

e assim na fome, pela foz diluída do esquecimento
o coração leitoso atravessa o oceano dentro da espera
sozinho na barca latejante do início
mais tenro que a rendição transparente do corpo
mais doce que a humidade gotejante do amor
mais crente que o amor imagina
que o amor leitoso pelas ondas da invisibilidade

viaja o impossível
ao encontro do amor

no desespero do amor

e imagina tudo possível
enquanto rema

autem II

March 27, 2019 § Leave a comment

weheartit.com

a felicidade tem uma luminescência tua que dança comigo
campos rodados de flores e árvores nas minhas carnes noturnas
lagos que perfuro embriagada das tuas mãos

todas as madrugadas cuido
todas as madrugadas são solares e deito-me na tua calma,
lavro o teu tempo no meu campo orbicular de flores

são as estações pelo júbilo transpirado e circular,
circunscritas,
de ti circunspecto como o sonho a infância e a tarde

e todos os lobos interiores sitiados neste lume ululam,
celebram para lá das fronteiras clareiras novas

e se me assustas
construo depressa uma casa e largo-lhe dentro um sol,
solto a pelagem da matilha e estremeço por dentro

porque sou quase gente quando mordo ou quando agonizo,
injurio-me e entristeço-me

sou simples, é isso

simples como tu
quando demoras o tempo exato de eu engolir o que sinto

o mesmo que levo a apaziguar qualquer padecimento

o amor

o amor trespassado de trilhos e feras tresmalhadas

caçamos ou fugimos?

todas as madrugadas festejo-te e danço-me
enquanto te interrogo sobre como vão os campos

e respondes-me sempre com o teu silêncio
que vão bem e que estão preenchidos de códigos e flores

e grito reconstruída essa felicidade num contorno de lágrima
o projétil perfurado no meu peito inaugurado de vítima

porque existires às vezes basta-me

e do telhado cresço uma janela espontânea que não vês
de onde me vejo escancarada numa ave que chega daí,
às vezes um inseto desgovernado na luz que me tange,
morre logo depois como a lonjura

um movimento que morre como eu morro

são as tuas mãos que me fecham me perdoam e salvam,
tremem o contentamento e ressuscitam-no do medo
enquanto descerro os lábios para beijar-te

acho que me conheces bem e ao meu paladar

somos velocíssimos nesta dança obscena
e a felicidade esta fera amestrada e amedrontada,
e as nossas línguas lavradas pelo mesmo lanho ferido

e evaporamos campos e lagos néones, etéreos
e voláteis que quase perecemos neles

nus inauguramos a espécie
e nada mais importa que esta embriaguez sobressaltada

desfalecer para reconstruir de novo

opium

March 7, 2019 § Leave a comment

todas as flores se tornam incompreensíveis sem a tua presença

como barcos subitamente avistados repentinamente submersos

naufragam vazias no betão

quero dizer que é o amor
e que simultaneamente me angustio com a fragilidade das distâncias

e porque existem flores
tenho saudades e outras coisas indecifráveis como pedras, folhas
caules e raízes à deriva na solidão

papoilas
cujas pétalas são a tua língua que se repete
de encontro ao céu da minha boca
e a humidade uma chuva lenta num lugar de insanidade

assim tento entender a ordem do mundo
alternando a ordem das flores num campo aberto incendiado

qual é a primeira papoila? sendo tu sangue na planície inóspita?

e espero
e espero
e espero
enquanto o amor dá voltas às raízes escalando o caule da vida

depois desisto

de serem mudas as coisas dentro delas mesmas e das repostas
e os barcos terem já partido ou nunca sequer terem chegado

para que lado se move a flor na estanqueidade do sonho?
para que lado verte a seiva do nosso amor?
para que lado caminham as raízes do coração?

sendo tu primitivo caule, fonte da inaudível saudade

e tu papoila
amor à procura de terra nesta miragem de chão

iter I

February 9, 2019 § 1 Comment

ebaumsworld.com


eis a beleza abrupta do início
pequeno barco na rota dos pés

dá-me a tua mão verde para o aplauso
para navegar o começo
que é do princípio que me dispo
que é da partida que te colho
qualquer palavra muda na faina

eis que partimos, musicais pedras,
espécies intraduzíveis, corais
ao fundo dos peixes das flores

eis muitas ilhas à esquina do amor

escarpado fim

dá-me a tua mão azul magnífica
e não te apresses solar, náufrago
na jangada de luz
na violência feliz de aportar

guardo comigo a obstinação solene de uma árvore
o mastro atravessado no peito da planície
e a quilha ao leme da respirável terra

assim, espero-te
rasgada pela costura do mar,
boca desfraldada, o teu dedo a prumo da paisagem
martelo húmido à vela no cabelo

eis que somos deuses e inauguramos juntos esta miragem

eis o navio à proa do sortilégio das marés

deixa-te inábil, sobreposto
na barcola da pele em que me largo

e que te prenda apenas o vento vertical
a veia na inquietação do sangue

guio-me pelo fluxo dos teus lábios
pelo pulso dos teus olhos
e emerjo à tona instintiva das vagas com a memória
essa fome espumada no vício da tua língua

assim, cobre-me de cuspo ou espuma ou febre
e estende-me as cinzas em inflamáveis gestos
um braço, um ramo eternamente jovem até à ilha do fim
onde firme os dentes no nervo da terra descarnada

que é violenta a planície do amor
e embriagado o arrasto no respiradouro da paisagem

e eu, sou pulmonar no convés da fraga

se respirares devagarinho bem ao de leve
decifrarei no hálito o caminho,
entrarei mar adentro pela fenda nua,
a ferida aberta da largada

remus

February 1, 2019 § Leave a comment

aminoapps.com

porque amamos demasiado o impossível
colocámo-nos céleres na boca do amor,
nus e do avesso para fora da carne
só para beijar na língua o precipício
trilhar o lábio no dente da escuridão
rapidamente desentender essa dor que aguçamos,
descemos mélicos pela escoriação
no fio frágil do sangue

amamos

e porque somos ininterruptos
essa dor masoquista insiste
persiste na aceleração das aves
no prazer delineado pela semente açucarada,
a avidez vertiginosa no bico da quimera

aves pré-históricas, flores carnívoras, feras desenfreadas
somos nós, rápidos

amamos

e porque amamos demasiado a loucura,
de sofrer trajados essa cegueira
guia para as funduras do peito
pelos atalhos das cidades encantadas,
brotamos pássaros azuis dos gestos ávidos
e cardumes fluorescentes da tremura do pânico,
e povoamos o céu com toda a felicidade desse medo

amamos

e assim na fome, pela foz diluída do esquecimento
o coração leitoso atravessa o oceano dentro da espera
sozinho na barca latejante do início
mais tenro que a rendição transparente do corpo
mais doce que a humidade gotejante do amor
mais crente que o amor imagina
que o amor leitoso pelas ondas da invisibilidade

viaja o impossível
ao encontro do amor

no desespero do amor

e imagina tudo possível
enquanto rema

receptum

January 23, 2019 § Leave a comment

justtellmeyourheartsdesire.tumblr.com

agora meu amor
é simples

é olhar em frente para andar para trás

e quer isto dizer
trazer o mar à fonte impossível pela borda do peito
mergulhar os olhos para lavar as mãos
correr para esconder o corpo

porque agora
meu amor
em que me vês
não sabes que ainda sou invisível

e que o silêncio é uma espécie de recuo
para encontrar-te

noctem

January 17, 2019 § 2 Comments

era noite

o coração das meninas sangrentas subia e descia a roupa nos espelhos
como gatos vermelhos, pintados de azul
pintados de amor, desfolhados de vidros e flores

era noite
e as magnólias abriam bocas pelas frestas carne
que abriam e fechavam olhos nos olhos
nos lagos da noite, como lábios feridos
como pernas descontroladas no vento

lábios que pendiam e lambiam a água na água do vento para matar a sede
pernas que corriam e procuravam caminhos e se perdiam
portas por onde entravam e saiam corações húmidos, ou gatos exaltados que afligiam
ou membros desconjugados que suavam
ou sonhos submersos que emergiam, que subiam
que desciam torres que pousavam

era noite

e o coração das meninas sangrentas batia a pique nas constelações
rodava maçanetas dentro e fora da bruma para deixar entrar a luz aquática do mundo
abrir o espaço ao espaço descerrado do amor

era noite

e os gatos subiam e desciam irrequietos o suor, o cuspo, os braços
o êxtase por dentro e nas pausas da apneia transpirada do amor
das mãos nas mãos doces, perfumadas do amor

era noite e era o amor

e as magnólias cintilantes nas mãos, nas janelas
levitavam na bruma a alumiar uma dor antiga
que o tempo de portas e de gatos e de bocas e de humidades esbateu

era noite

e o coração delas batia de encontro às paredes
às esquinas para acalmar a urgência

rasgava-lhes o peito pelo rasgo do medo para deixar entrar o amor
ou deixar sair o amor para respirar lá fora uma árvore ou uma flor de sangue
por onde os corações e os gatos fugiam e regressavam do tempo por dentro e fora da bruma

era noite e o coração das meninas sangrentas pulsava as magnólias
que o amor regava desde os olhos dos lagos geminados,
até às árvores magníficas das raízes mais profundas

magnólias húmidas que se dilatavam, distendiam, subiam e tocavam

e os bichos, apenas vultos de luz
ou de flores luminosas sem tontas inquietações

era noite

noite pura

e os corações dilatavam-se na bruma, beijavam-se longamente
latejavam as cabeças dos gatos velocíssimas
até libertarem dos peitos vagidos por entre as poeiras mais secas das esquinas mais cortantes

as meninas respiravam na noite
enquanto os gatos arqueados subiam e desciam, amassavam, sentavam-se sobre os peitos, estendiam-se, espreitavam pelos umbigos para ver de onde a aflição do amor nascia
mergulhavam as cabeças dentro da carne aberta, para acalmarem os martelos das flores
das mãos polarizadas no êxtase

era noite escuríssima

e barrigas pulsavam, tocavam-se, subiam e desciam brancas como a lua
levitavam o instinto até às constelações,
mergulhavam até aos abismos mais inexplicáveis da frágil humanidade

era noite e as meninas procuravam dentro do sonho a boca do amor

com as mãos, com as línguas, remexiam a humidade mais levitada das margens
enquanto os gatos espetavam as unhas na entrada do nascimento à espera das sementes

era noite
e a boca do amor andava por dentro das veias, desde a cabeça até aos pés a latejar
a beijar as paredes mais íntimas, as superfícies mais leitosas, rendilhadas e interiores da pele

e a boca sempre que beijava dilatava-se dentro delas que empinavam os ventres
arqueavam as costas
faziam uma ponte por onde o amor atravessava quente as vértebras
a carne incendiada no sentido livre do espírito

é noite e não conseguimos dormir – diziam -, não conseguimos, não conseguiremos
porque as unhas dos gatos, às vezes
apanham os cabelos sedosos do amor que vem à tona do sangue para respirar

podem matá-lo só de vê-lo, tocar-lhe,
mesmo que no sentido único e puro do amor

era noite, uma puríssima e inexplicável
espelhada noite de magnólias fluorescentes na torre envidraçada do amor

as meninas pulsavam, distendiam e fletiam os joelhos até os ossos atingirem a luz
ferirem os olhos aguado do amor, quando este fixava os olhos dilatados do coração
que subia e descia cadeiras e mesas de animais puros
arqueados
sobre a ansiedade de beijar a boca velocíssima do amor
bater nas esquinas as descobertas com chicotes de ossos e sangue

se o sonho transbordasse subitamente a pulsação, jorrasse pelo umbigo – pensavam -,
um grande lago de sangue verteria da vontade
e os corações sem unhas passariam a nado sob o arco do corpo em direção à luz

e tapavam os olhos com as mãos abertas

e o amor escutava-as a abrir e a fechar suas válvulas de aguadas bocas

soltava sementes rosadas, desejos saciados do chão ao mais longínquo espaço

e as magnólias nas árvores despidas dos jardins abriam gestos perfeitos
de perfumadas florações de encontro à felicidade

era noite
e as primeiras magnólias abriam e fechavam a boca de encontro a todas as janelas temerosas
como anémonas flutuantes no aquário do mundo

era noite
e as meninas sangrentas transpiravam rios que com as mãos puxavam até ao pescoço para se cobrirem,
afogarem o tempo do amor que as beijava dos pés à cabeça
com os corações nos gatos a latejar, a subir e a descer as paredes de magnólias brancas, crescidas de luares
e arvores a esbracejar a velocidade do amor e das sementes a espreitar de todos os poros

era noite era noite
e a noite transpirava uma bruma sobrenatural para amaciar a sede

era noite e bebiam da fonte acabada de jorrar

era noite era noite
e não beberam tudo
dos gatos dependurados nas magnólias, nas janelas, à porta dos umbigos
ou a espiar pelo arco das vértebras
pelo almofadado das bocas
pelo emaranhado das veias
a subir e a descer no sentido do caminho da berma verdejante do amor

era noite e nunca mais escurecia para deixar adormecer as magnólias
o amor no lago de sangue a tanger-lhes as bocas
entrar-lhes pelas vaginas
pousar-lhes no peito infinitas festas amorosas

noite de magnólias
noite de magnólias doces

gatos que espiavam luas húmidas
mãos tão entorpecidas na vontade
que pousavam gestos à janela espelhada da mais bela e inexplicável escuridão

apneia

January 10, 2019 § Leave a comment


meu amor
quero saber
quando correremos com o vento nas mãos para apanhar os pássaros?

vejo além um
depois daquela altíssima torre
a resvalar a tua mão aberta sobre a minha barriga

olha
como bate as asas velocíssimo que parece parado
com um coração quente no bico para meter à boca
e um relógio no peito para segurar as horas

vá lá
meu amor

é verão

solta-te dessa parede sobre o meu corpo
alcança-lhe o voo
detém a estação

o teu gesto a pique do meu ventre para apanhar os rios
trazê-los de fontes à superfície húmida dos teus gestos
descerrar os caminhos ocultos desta cidade
erguer uma altíssima árvore para regar as palavras
e esculpir um ninho

encosto-me às paredes para escutar a metrópole
chamar a ave

perguntar-te

achas que entende a velocidade deste meu mapa?

elas

December 19, 2018 § Leave a comment

tumblr_static_original.gif

as mulheres acordam e logo partem para as montanhas mais altas

ainda com os pés nos alicerces da casa
atravessam as planícies entre o quarto e a cozinha,
brotam nuas com a água dos desfiladeiros
nos gestos com que preparam o chá e recebem as manhãs

uma pele finíssima descola-se à medida que correm, atravessam a luz
despem-se no vento das divisões da casa
ultra e supranaturais

as mulheres acordam já montadas em altíssimas e velocíssimas éguas
com a nudez dos cascos pousada sobre o dorso do dia
e cavalgam enquanto estendem a roupa sobre as muralhas fugidas do passado
inclinadas sobre os abetos
com suas bocas esventradas sobre as sementes

as mulheres bruxuleantes
as mulheres mais trémulas
em pontas sobre o arame da vida atravessam as miragens
equilibram-se na vertigem do medo
tão delicadamente que aprumam o fio do horizonte com os desertos
de todas as coisas abandonadas

as mulheres com suas ancas musicais esculpem dunas para embalar os filhos

se alguém as reconhece na alucinação
é apenas porque repetem o futuro
estão na reconstrução do círculo dos relógios parados

e é já noite segura quando chegam nos comboios descarrilados
a pele enrugada da faina e um laço púrpura de sonho na pulsação

e é já noite profunda dentro de todas as horas
quando põem a mesa ainda com as pernas abertas na paisagem
os olhos pelo avesso do mundo

as mulheres

só mesmo antes de adormecerem amarradas à fome
recolhem às entranhas os bichos dos descampados
húmidos e mergulhados na sonolência do sexo
onde mamam luas enormes até nascer a manhã

e enquanto se alimentam e ausentam
as mulheres ainda estendem os braços ao comprido dos rios
salvam a leveza das poeiras e a flutuação das superfícies
escarafuncham as luras dos peixes com que humidificam o ventre
a carne alumiada da noite penetrante

as mulheres são rios e pássaros
nidificam aves contínuas no leito descontinuado das espécies

é delas o destino das longas e incompreensíveis distâncias
correr, resgatar novos e inesperados seres do pó da casa
reconstruir da louça o cristal das cidades inventadas
ordenhar dos próprios ossos o leite sobrenatural

lactea

December 13, 2018 § Leave a comment

nos dias desassossegados desato a profundidade,
desamarro os peixes dos pés para soltar as aves
e os barcos ascendem cardumes velocíssimos ao firmamento

nesse tempo,
se me morde uma pedra engulo uma árvore
e orbito endoidecida os ninhos do mar a levitar-me,
a pele pulmonar na prata dum espelho
até desaguarem pássaros nas estrelas,
romper um coágulo num navio

como é? rasgo agora o peito
já que o chão mordeu-me o pé?

o mar na maré da coxa é uma lua húmida,
sorve-me a água por dentro das marés,
jorra-me o sangue pelas narinas
descabelo-me de bichos

se respirar fortemente sangrarei um monte? uma planície? um cavalo?
planetas acoplarão no avesso destas ilhas?
serei habitável sem ardis e velas?

sinto sede,
uma anémona a latejar no arco da boca
fendida na fonte das papilas a crescer um lago,
a língua a tremer um cometa no vazio

será um ovo?

como é? engulo agora? desaguo a espécie agora?

arrasto o lábio via láctea acima?

feng shui bovidae

November 20, 2018 § Leave a comment

sem horas para voltar
as vacas viajam pela noite fluorescente

da montanha, em direção ao mar
deslocam-se velocíssimas, plácidas
tão transcendentes e crédulas
com os dentes rilhados na metafísica do amor

porque as vacas, quando ascendem amorosamente ao dorso do dragão
atravessam com ele, e nele a pele
o coração descerrado do feng shui
que as transporta nas longíssimas viagens que fazem

porque as vacas místicas fazem longas distâncias
amando profundamente os trilhos
e todos os espaços abertos e fundamentais

como tal
enquanto o fazem, assim, magníficas
suspensas na insanidade que se distende
sonham vagamente que são felizes
desde o sangue à terra espiritual

planando altíssimo a imensidão instintiva
no sentido enigmático do fascínio e da carne
enquanto ruminam suspensas a vida
agarradas ao açúcar

porque as vacas espirituais são doces

tão doces quanto violentas e amargas
como todas as coisas belas
e inexplicavelmente puras

como o dragão que idolatram
trespassa-as e incendeia-as na noite
com seu inflamável fôlego

com ele rompem o ar desde o cume mais alto
ao colo do medo impulsionador
e projetam-se absortas contra o início
contra todas as torres subitamente erguidas e esventradas
com o seu cio muito puro e vertiginoso
inaugurando os corpos
ferindo a pele nas arestas do betão antigo
sangrando súbitas janelas na pulsação

e mugem
mugem altíssimo

sempre que o dragão ruge
elas mugem e abrem-se

e ele atravessa o espaço

corta-as ao meio da luz
e elas sangram
no alto espiráculo dos grandes arranha-céus
antes da fome as impelir sobre o abismo no sentido do mar
no sentido do amor, do medo, e da transgressão
que tremem desde o cerne animalesco
do vento e da água hiperfísica
contra todas as perplexidades

ele ruge

elas mugem

e o dragão inclina-se sobre elas
que abrem as bocas e sorvem o hálito penetrante
com o cio ultranatural das fêmeas contagiadas
descerrando pacientemente as pernas sob o dorso
inclinadas para trás
atirando o peito de encontro às constelações
inebriadas no álcool cristalino da alucinação

metafisicamente felizes desde as funduras do amor
com o arco das vértebras em chamas
sob o tórax escaldante do bicho
enquanto sorvem arqueadas o sal
a espuma incandescente
o suco imaturo dos grandes campos alagados e antigos

ruminam e exorcizam delicadamente os peixes
para perpetuar a correnteza da espécie
uma montanha inteira e sôfrega
enrolada no arco da língua
suspensa nas órbitas geminadas
para que não se esgote nunca o suco transcendente
da incompreensível humidade da terra e do amor

pensam tudo isto
e desfalecem os flancos de encontro ao sangue do poente
prostradas
e com o sonho nas mãos da noite a latejar
bebendo todas as horas num só trago de felicidade

com tempo
e sem tempo para voltar

as meninas no descarrilamento do amor

November 15, 2018 § Leave a comment

joshyeston.com

as meninas sangrentas
esbofetearam-se uma noite inteira por culpa do amor

até caras cósmicas gigantes vermelhas
no sangue incandescente do amor

as mãos esventradas, esferas espalmadas no súbito impacto
da estepe árida sedenta do amor

dobradas nas cervicais da culpa
tremeram
até golpearem as línguas na faca das palavras interditas

amor
amor
amor

acidentais na velocidade

primeiro no medo, enroladas e húmidas
depois nos gestos, bafejadas e tímidas

íntimas e íntimas e mudas e rápidas

as meninas sangrentas
acordaram antes do sono antes da estação do amor
por culpa da culpabilidade do amor
e tentaram recompor-se
à cabeça dorida, vergada sobre o ombro descarrilado do amor
um comboio estropiado na penumbra a gotejar óleo no linho

gemeram e bocejaram no unto a carne
o sangue
a dor

e depois
de mãos soltas, verteram o tédio no mijo

ohhhhh – demoradamente, muito longamente, elas
quentes na noite!

no mijo desnatado da noite
das cabeças quebradas
dos corações forasteiros
dos comboios descarrilados nas planícies profundas

nocturnas como o sangue
abafadas como o sangue
verdes como o nada

as meninas esvaziaram-se completamente

depois perfuraram o corpo deitadas sobre a linha da viagem
até atingirem a rendição sem retorno

as mãos para cima e para baixo no descarrilamento
as mãos para fora e para dentro do descarrilamento
as mãos para cima e para baixo pelo descarrilamento
as mãos completamente descarriladas – Oh!
desvairadas pelo arrasto estremunhado da paisagem nocturna

noite acima, noite dentro
como traças baças e vento

e deixaram-se assim gemer uma noite inteira entre as estações
a tentar recompor a dobra dolorosa do pescoço,
levitá-lo do vinco, alinhá-lo no farelo dos ossos

depois pentear as riças do cabelo antes da estação enervante do amor
antes se enervarem mesmo
antes do amor nervoso na estação
antes delas lá, na estação nervosa
elas e o amor
uníssono nervo estacionado

um pescoço um mastro, o cabelo uma vela na transpiração
lambida do amor alinhado

até lá, uma noite inteira inchada e infinita
um comboio latejante na tempestade

e nelas um pente pela dobra da coxa, um lanho pelo fundo do ventre
a acenar ainda a velocidade pretérita
imparável no espaço atravessado da noite descarrilada
das palavras ulceradas da terra por descobrir

e a íris rasgada no vidro da máquina despedaçada
desfocada sobre a paisagem
a língua golpeada na trepidação do dente nocturno
do dente feio no recorte da vontade por concluir
amarelo linho, amarelo lua, amarelo bexiga, amarelo larva

amarelo tempo

as meninas sangrentas ergueram-se ácidas e amarelas e esfarrapadas
e arrastaram-se remelosas e ajoelhadas para o descarrilamento

trôpegas
foram lacrimejar húmidas na linha
desfalecer o rosto dormente e comichoso no ferro

Oh! É frio o amor? – entreolharam-se e morderam-se

os pescoços inclinados no vértice do ombro da viagem
a escutar de orelha o leite da coxa a trepidar pela linha
a travessia da noite a escorrer pela veia do carril

vem aí! deitem-se!
às pernas pelos tornozelos aguilhoados do amor

e
noite dentro, noite fora, dor por dentro, dor na hora
pensamento, tempo-hora, sangue dentro, leite fora
no pensamento impaciente do amor

no ferro frio da linha quebrada do amor
pelos círculos distendidos do amor

no amarelo mijo do amor

do comboio descarrilado na obstrução coagulada do amor

sangue vivo do amor
sem estação

rete

October 29, 2018 § Leave a comment

vejo algumas vezes o amor no lago abstraído dos teus olhos

se mergulho peixes daqui para aí
se vão ao fundo e voltam
não me dizem

fica no segredo do amor

também
como nadaria eu os teus peixes dentro dos meus lagos tristes
caso os houvesse?

que lhes daria de comer à superfície turva da minha fome?

penso nisto e nos cardumes possíveis e quase cego

não fossem as tuas pálpebras fecharem-se logo
não restariam peixes
ou outra qualquer humidade para a cenestesia líquida do amor

baixa-mar

October 23, 2018 § Leave a comment

o tempo que leva a baixa-mar
é o mesmo da humidade dos teus olhos

assim, mal chego
despeço-me de ti e dos bichos

dormem agora o fundo complexo das horas e das palavras
e resguardam o amor submerso

tenho a impaciência das marés no cálculo impreciso dos baixios
e desconfio-me às vezes presa na rebentação,
outras vezes rebentação apenas

angustio, mas despreocupo-me logo
pois nada é previsível e seguro dentro e fora do mar e do amor
como o reflexo dos olhos e a liquidez das palavras

como tal
provavelmente, quando o mar me descobre calo-me
e tu, fechas-me nua dentro da humidade dos teus olhos
onde sobrevivo na profundidade,
onde ovulo versos por construir

e faço coisas inimagináveis onde nascem e desovam as espécies
que nem eu sei, apenas tu o mar e o amor
quando desço até ti a superfície vertiginosa
no mesmo instante em que te cumprimento e aos bichos
e me despeço

ms III

October 19, 2018 § Leave a comment

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

assim, viaja de umas para as outras
dilata-se nas veias, irrompe da carne
verte pulsar sobre as coisas

e destas por sobre a pele até ao imo dos ossos
como as cinzas e o soro da reconstrução

as meninas sangrentas emergem da correnteza
saltam diretamente da medula dos ossos para as janelas descerradas da casa
íntimas, molhadas, voltadas para o universo nu
do fluxo para o aquário do mundo

– é uma lua vermelha – dizem, apontam o céu de dento da contemplação

o sangue das meninas sangrentas é a matéria da contemplação

– é um boca redonda por sobre o mundo, um conceito antes do nome
– não é
– o nome é uma invenção e a lua é uma língua enrolada
desentendem-se enquanto juntas e acocoradas observam os astros
discutem o mar, a terra, as constelações e outras coisas aparentemente menores

ou entendem-se
e juntas atiram velharias contra o mundo como casas abandonadas
relógios desregulados, bonecas decapitadas, corações vendados
signos avariados, viagens acidentais
cartas incendiadas e/ou certos poemas desmembrados

– não é uma invenção. é um coágulo em chamas que dói
como as palavras mudas que ardem permanentemente dentro de nós

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

– é uma dor em achas como um deus ultracongelado
– um peixe?
– não. um bode num lugar muito antigo e frio

e concordam que deus bale muito e que arde como o fogo e o gelo
e os cornos
como a dor da carne em florestas longínquas
até ser atirado fora com as velharias

pensam nisto com as mãos espremidas dentro do avesso da carne
à procura de plenitude por dentro e por fora do sangue
de dentro e de fora da dor e da desarrumação,
com os peitos descolados e quentes estendidos sobre o peitoril,
um mapa que distendem para procurar caminhos nas veias que escapam, confundem-se, apodrecem
formam vermes que gotejam sobre os pés num abandono em ruínas

– é aqui o céu. está aqui neste lugar. aqui
e olham todas no sentido interior, depois para cima
e depois fixamente nos olhos e na desconfiança

e odeiam-se e amam-se e acariciam-se e ferem-se
da boca ao ânus e do ânus à língua velozes e ágeis
cada vez mais rápidas da boca ao ânus e do ânus à língua
cada vez mais exaustas
e vazias
desgastadas de perplexidades

– não é uma lua. é o amor que arde como um sol
– como as palavras e os gestos rebentados que nunca deveriam ter acontecido
– como aquela constelação de ser tão clara e pura

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do espaço
– é um bode que ascende o circulo dos cornos depois desce no sentido da terra
– tem um rabo de peixe. deveria de nadar com a luz no sentido do infinito
– as escamas são as estrelas da fuga

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do medo na reedificação do deus
– é um lago escuro onde o amor é irrespirável e desconhecido.

e sacodem as mãos frenéticas para soltar os peixes, as dúvidas, os caminhos
os sentimentos difusos de dentro do pensamento sem quebrá-lo
com os dedos em chamas por sobre a pele, por dentro da noite estilhaçada
mastigando os gemidos por entre as coisas ainda vivas
como as felicidades, os sonhos, a saudade e as doces palpitações

– é o petróleo que arde as palavras que se transformam em árvores transparentes
– como os brinquedos das inconsciências, evaporados
que ascendem e mergulham na lua
– e que fervem no seu interior e que desabarão sobre o mundo

o sangue das meninas sangrentas ferve o caos
dentro da obstipação e dos gestos desregulados como uma lua vermelha

– é um coágulo. é um coágulo. transpira. não olhem que vai rebentar
– é o céu que abre o cu
– viu-nos e cairá sobre nós como as palavras mortas e os deuses falsos
– fechem a janela ao cu celeste depressa
e tapam os ouvidos umas às outras com escuridões cantilenas e gritos

trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, là …

até à contração de todos os espiráculos naturais, de tudo o que pensam
temem e experimentam, que existe de mais cruel, porco e obsceno
até ao derrame do encantamento sobre o esquecimento
com que se erguem as paredes mais fortes e os muros mais espessos
como o passado enfadonho e as ruínas para o futuro mais triste

– vamos comer rebuçados, beber água e fazer chichi
e retiram-se molhadas e quentes para o interior doce e amarelo das coxas

vão baloiçar-se, urinar e pentear-se longamente e à tristeza
com o açúcar que lhes resta,
umas às outras as cabeças doloridas de tentarem tudo
com os olhos dilatados de tentarem a lua de sangue depois fugirem dela

e enquanto chupam e urinam na noite
babam-se e choram os rebentamentos
beijam-se e acariciam-se com os medos

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do esquecimento
de terem acreditado que as coisas que amavam eram para sempre
que era possível reter o amor

– o amor era um rio amarelo e quente que fervia
– era um sol antes de nascer o dia, o amor
– era o petróleo das palavras que ardiam o sentido, o amor

e batem com as mãos sobre as bocas para não dizer mais infelicidades
e batem com os pulsos abertos a arder por sobre o petróleo do peito
para não sentir mais nada
e enterram os dedos duros dentro das vaginas para não deixar escapar as flores
– deixem lá. deixem sair que é um jardim. abram
e distendem os vales por sobre a planície do recolhimento expulsando das entranhas todas as paisagens interiores

– é chichi.
– não é. estamos dentro do sangue. são flores
– e deus é um espiráculo. as bonecas fugiram. ascendem carregadas. cavalgam decapitadas o dorso do signo
– olhem olhem. retornam à pureza da constelação. entrarão na lua com as quinquilharias e os cestos transbordados de flores

– deus vai apanhá-las. vai caçá-las e desfaze-las em pó
e fecham os olhos para não ver as bonecas de encontro ao abismo
nuas, carregadas e cegas, cobertas de flores

– é sangue. a matéria inexplicável do amor – pensam
enquanto o deus sorve, rumina, bafeja, seca, esfarela a carne e os objetos desperdiçados entre as pétalas rubras das flores que deram à margem com as cabeças cegas, escaparam infecundas ao interior espremido das coxas

– é sangue. a matéria inexplicável do amor
enquanto deus arfa, transpira, esfrega tudo com a fricção da loucura
com a excitação e o êxtase supremo da criação

– deus é orgásmico. deus é um sádico que vir-se-á terrífico sobre nós, sobre o mundo
– como as palavras? como o leite? como o fogo?
– como o sangue interior que não cumpriu o seu curso
– como as palavras que não aconteceram, as brancas que ditam o fim
e erguem-se nuas sobre a corrente

– é o fim
– é o início
o sangue das meninas sangrentas é matéria prima indistinta de deus e do amor

a descerram as pernas para absorver a noite, o deus, o leite, o jardim imaginário

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima da reconstrução
trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, lá …

ut

October 13, 2018 § Leave a comment

ai de mim
se adivinhasse o sangue dessas flores
até onde perfuram os ganchos as borboletas
até onde atravessam as asas a ferrugem dos ossos
as canoas entre as empenas do meu sangue
até onde rasgo a carne entre a farpa das unhas
até onde os meus chicotes na órbita dos medos
até onde tudo perdido por uma nesga de perfeição

até onde me levam estas velas loucas? os mastros?
até quando demora na pele este vento? o cabelo?

se soubesse a música longínqua desse espaço ínfimo
a forma geométrica velocíssima desse tempo
talvez adormecesse de vez o meu peito na folha
a boca apertada num ramo inteiro de uma árvore
e lambesse longamente essa casca até ao infinito
molhada de açúcar e fruta explodida de espelhos
a lágrima da viagem no crescente prateado da retina
e o céu todo um suco vertido no espasmo da língua
e o mar hibernado um lençol de muco e redes
e saísse por aí a chover o meu telhado num dilúvio de penas
um bando de casas nas asas breves dos passarinhos
apenas para esculpir jardins na sebe das paredes
e adormecer amorosa os meus ovos no arco desses ninhos

ita

October 10, 2018 § Leave a comment

porque existem aves existem olhos
pés porque existem caminhos
só tem de existir o vento
porque sem respirar não vou
não choro não preencho o corpo
as pedras na dor do espaço

porque existem árvores e sangro
porque existe céu e tropeço
de tudo tão curvo e tão baço
de tudo estar sempre a morrer
tudo o que está sempre a chegar
que apenas quando alguém me pensa
no instante em que alguém me quer
pertenço a algum lugar