feng shui bovidae

November 20, 2018 § Leave a comment

sem horas para voltar
as vacas viajam pela noite fluorescente

da montanha, em direção ao mar
deslocam-se velocíssimas, plácidas
tão transcendentes e crédulas
com os dentes rilhados na metafísica do amor

porque as vacas, quando ascendem amorosamente ao dorso do dragão
atravessam com ele, e nele a pele
o coração descerrado do feng shui
que as transporta nas longíssimas viagens que fazem

porque as vacas místicas fazem longas distâncias
amando profundamente os trilhos
e todos os espaços abertos e fundamentais

como tal
enquanto o fazem, assim, magníficas
suspensas na insanidade que se distende
sonham vagamente que são felizes
desde o sangue à terra espiritual

planando altíssimo a imensidão instintiva
no sentido enigmático do fascínio e da carne
enquanto ruminam suspensas a vida
agarradas ao açúcar

porque as vacas espirituais são doces

tão doces quanto violentas e amargas
como todas as coisas belas
e inexplicavelmente puras

como o dragão que idolatram
trespassa-as e incendeia-as na noite
com seu inflamável fôlego

com ele rompem o ar desde o cume mais alto
ao colo do medo impulsionador
e projetam-se absortas contra o início
contra todas as torres subitamente erguidas e esventradas
com o seu cio muito puro e vertiginoso
inaugurando os corpos
ferindo a pele nas arestas do betão antigo
sangrando súbitas janelas na pulsação

e mugem
mugem altíssimo

sempre que o dragão ruge
elas mugem e abrem-se

e ele atravessa o espaço

corta-as ao meio da luz
e elas sangram
no alto espiráculo dos grandes arranha-céus
antes da fome as impelir sobre o abismo no sentido do mar
no sentido do amor, do medo, e da transgressão
que tremem desde o cerne animalesco
do vento e da água hiperfísica
contra todas as perplexidades

ele ruge

elas mugem

e o dragão inclina-se sobre elas
que abrem as bocas e sorvem o hálito penetrante
com o cio ultranatural das fêmeas contagiadas
descerrando pacientemente as pernas sob o dorso
inclinadas para trás
atirando o peito de encontro às constelações
inebriadas no álcool cristalino da alucinação

metafisicamente felizes desde as funduras do amor
com o arco das vértebras em chamas
sob o tórax escaldante do bicho
enquanto sorvem arqueadas o sal
a espuma incandescente
o suco imaturo dos grandes campos alagados e antigos

ruminam e exorcizam delicadamente os peixes
para perpetuar a correnteza da espécie
uma montanha inteira e sôfrega
enrolada no arco da língua
suspensa nas órbitas geminadas
para que não se esgote nunca o suco transcendente
da incompreensível humidade da terra e do amor

pensam tudo isto
e desfalecem os flancos de encontro ao sangue do poente
prostradas
e com o sonho nas mãos da noite a latejar
bebendo todas as horas num só trago de felicidade

com tempo
e sem tempo para voltar

Advertisements

as meninas no descarrilamento do amor

November 15, 2018 § Leave a comment

joshyeston.com

as meninas sangrentas
esbofetearam-se uma noite inteira por culpa do amor

até caras cósmicas gigantes vermelhas
no sangue incandescente do amor

as mãos esventradas, esferas espalmadas no súbito impacto
da estepe árida sedenta do amor

dobradas nas cervicais da culpa
tremeram
até golpearem as línguas na faca das palavras interditas

amor
amor
amor

acidentais na velocidade

primeiro no medo, enroladas e húmidas
depois nos gestos, bafejadas e tímidas

íntimas e íntimas e mudas e rápidas

as meninas sangrentas
acordaram antes do sono antes da estação do amor
por culpa da culpabilidade do amor
e tentaram recompor-se
à cabeça dorida, vergada sobre o ombro descarrilado do amor
um comboio estropiado na penumbra a gotejar óleo no linho

gemeram e bocejaram no unto a carne
o sangue
a dor

e depois
de mãos soltas, verteram o tédio no mijo

ohhhhh – demoradamente, muito longamente, elas
quentes na noite!

no mijo desnatado da noite
das cabeças quebradas
dos corações forasteiros
dos comboios descarrilados nas planícies profundas

nocturnas como o sangue
abafadas como o sangue
verdes como o nada

as meninas esvaziaram-se completamente

depois perfuraram o corpo deitadas sobre a linha da viagem
até atingirem a rendição sem retorno

as mãos para cima e para baixo no descarrilamento
as mãos para fora e para dentro do descarrilamento
as mãos para cima e para baixo pelo descarrilamento
as mãos completamente descarriladas – Oh!
desvairadas pelo arrasto estremunhado da paisagem nocturna

noite acima, noite dentro
como traças baças e vento

e deixaram-se assim gemer uma noite inteira entre as estações
a tentar recompor a dobra dolorosa do pescoço,
levitá-lo do vinco, alinhá-lo no farelo dos ossos

depois pentear as riças do cabelo antes da estação enervante do amor
antes se enervarem mesmo
antes do amor nervoso na estação
antes delas lá, na estação nervosa
elas e o amor
uníssono nervo estacionado

um pescoço um mastro, o cabelo uma vela na transpiração
lambida do amor alinhado

até lá, uma noite inteira inchada e infinita
um comboio latejante na tempestade

e nelas um pente pela dobra da coxa, um lanho pelo fundo do ventre
a acenar ainda a velocidade pretérita
imparável no espaço atravessado da noite descarrilada
das palavras ulceradas da terra por descobrir

e a íris rasgada no vidro da máquina despedaçada
desfocada sobre a paisagem
a língua golpeada na trepidação do dente nocturno
do dente feio no recorte da vontade por concluir
amarelo linho, amarelo lua, amarelo bexiga, amarelo larva

amarelo tempo

as meninas sangrentas ergueram-se ácidas e amarelas e esfarrapadas
e arrastaram-se remelosas e ajoelhadas para o descarrilamento

trôpegas
foram lacrimejar húmidas na linha
desfalecer o rosto dormente e comichoso no ferro

Oh! É frio o amor? – entreolharam-se e morderam-se

os pescoços inclinados no vértice do ombro da viagem
a escutar de orelha o leite da coxa a trepidar pela linha
a travessia da noite a escorrer pela veia do carril

vem aí! deitem-se!
às pernas pelos tornozelos aguilhoados do amor

e
noite dentro, noite fora, dor por dentro, dor na hora
pensamento, tempo-hora, sangue dentro, leite fora
no pensamento impaciente do amor

no ferro frio da linha quebrada do amor
pelos círculos distendidos do amor

no amarelo mijo do amor

do comboio descarrilado na obstrução coagulada do amor

sangue vivo do amor
sem estação

rete

October 29, 2018 § Leave a comment

vejo algumas vezes o amor no lago abstraído dos teus olhos

se mergulho peixes daqui para aí
se vão ao fundo e voltam
não me dizem

fica no segredo do amor

também
como nadaria eu os teus peixes dentro dos meus lagos tristes
caso os houvesse?

que lhes daria de comer à superfície turva da minha fome?

penso nisto e nos cardumes possíveis e quase cego

não fossem as tuas pálpebras fecharem-se logo
não restariam peixes
ou outra qualquer humidade para a cenestesia líquida do amor

baixa-mar

October 23, 2018 § Leave a comment

o tempo que leva a baixa-mar
é o mesmo da humidade dos teus olhos

assim, mal chego
despeço-me de ti e dos bichos

dormem agora o fundo complexo das horas e das palavras
e resguardam o amor submerso

tenho a impaciência das marés no cálculo impreciso dos baixios
e desconfio-me às vezes presa na rebentação,
outras vezes rebentação apenas

angustio, mas despreocupo-me logo
pois nada é previsível e seguro dentro e fora do mar e do amor
como o reflexo dos olhos e a liquidez das palavras

como tal
provavelmente, quando o mar me descobre calo-me
e tu, fechas-me nua dentro da humidade dos teus olhos
onde sobrevivo na profundidade,
onde ovulo versos por construir

e faço coisas inimagináveis onde nascem e desovam as espécies
que nem eu sei, apenas tu o mar e o amor
quando desço até ti a superfície vertiginosa
no mesmo instante em que te cumprimento e aos bichos
e me despeço

ms III

October 19, 2018 § Leave a comment

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

assim, viaja de umas para as outras
dilata-se nas veias, irrompe da carne
verte pulsar sobre as coisas

e destas por sobre a pele até ao imo dos ossos
como as cinzas e o soro da reconstrução

as meninas sangrentas emergem da correnteza
saltam diretamente da medula dos ossos para as janelas descerradas da casa
íntimas, molhadas, voltadas para o universo nu
do fluxo para o aquário do mundo

– é uma lua vermelha – dizem, apontam o céu de dento da contemplação

o sangue das meninas sangrentas é a matéria da contemplação

– é um boca redonda por sobre o mundo, um conceito antes do nome
– não é
– o nome é uma invenção e a lua é uma língua enrolada
desentendem-se enquanto juntas e acocoradas observam os astros
discutem o mar, a terra, as constelações e outras coisas aparentemente menores

ou entendem-se
e juntas atiram velharias contra o mundo como casas abandonadas
relógios desregulados, bonecas decapitadas, corações vendados
signos avariados, viagens acidentais
cartas incendiadas e/ou certos poemas desmembrados

– não é uma invenção. é um coágulo em chamas que dói
como as palavras mudas que ardem permanentemente dentro de nós

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

– é uma dor em achas como um deus ultracongelado
– um peixe?
– não. um bode num lugar muito antigo e frio

e concordam que deus bale muito e que arde como o fogo e o gelo
e os cornos
como a dor da carne em florestas longínquas
até ser atirado fora com as velharias

pensam nisto com as mãos espremidas dentro do avesso da carne
à procura de plenitude por dentro e por fora do sangue
de dentro e de fora da dor e da desarrumação,
com os peitos descolados e quentes estendidos sobre o peitoril,
um mapa que distendem para procurar caminhos nas veias que escapam, confundem-se, apodrecem
formam vermes que gotejam sobre os pés num abandono em ruínas

– é aqui o céu. está aqui neste lugar. aqui
e olham todas no sentido interior, depois para cima
e depois fixamente nos olhos e na desconfiança

e odeiam-se e amam-se e acariciam-se e ferem-se
da boca ao ânus e do ânus à língua velozes e ágeis
cada vez mais rápidas da boca ao ânus e do ânus à língua
cada vez mais exaustas
e vazias
desgastadas de perplexidades

– não é uma lua. é o amor que arde como um sol
– como as palavras e os gestos rebentados que nunca deveriam ter acontecido
– como aquela constelação de ser tão clara e pura

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do espaço
– é um bode que ascende o circulo dos cornos depois desce no sentido da terra
– tem um rabo de peixe. deveria de nadar com a luz no sentido do infinito
– as escamas são as estrelas da fuga

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do medo na reedificação do deus
– é um lago escuro onde o amor é irrespirável e desconhecido.

e sacodem as mãos frenéticas para soltar os peixes, as dúvidas, os caminhos
os sentimentos difusos de dentro do pensamento sem quebrá-lo
com os dedos em chamas por sobre a pele, por dentro da noite estilhaçada
mastigando os gemidos por entre as coisas ainda vivas
como as felicidades, os sonhos, a saudade e as doces palpitações

– é o petróleo que arde as palavras que se transformam em árvores transparentes
– como os brinquedos das inconsciências, evaporados
que ascendem e mergulham na lua
– e que fervem no seu interior e que desabarão sobre o mundo

o sangue das meninas sangrentas ferve o caos
dentro da obstipação e dos gestos desregulados como uma lua vermelha

– é um coágulo. é um coágulo. transpira. não olhem que vai rebentar
– é o céu que abre o cu
– viu-nos e cairá sobre nós como as palavras mortas e os deuses falsos
– fechem a janela ao cu celeste depressa
e tapam os ouvidos umas às outras com escuridões cantilenas e gritos

trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, là …

até à contração de todos os espiráculos naturais, de tudo o que pensam
temem e experimentam, que existe de mais cruel, porco e obsceno
até ao derrame do encantamento sobre o esquecimento
com que se erguem as paredes mais fortes e os muros mais espessos
como o passado enfadonho e as ruínas para o futuro mais triste

– vamos comer rebuçados, beber água e fazer chichi
e retiram-se molhadas e quentes para o interior doce e amarelo das coxas

vão baloiçar-se, urinar e pentear-se longamente e à tristeza
com o açúcar que lhes resta,
umas às outras as cabeças doloridas de tentarem tudo
com os olhos dilatados de tentarem a lua de sangue depois fugirem dela

e enquanto chupam e urinam na noite
babam-se e choram os rebentamentos
beijam-se e acariciam-se com os medos

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do esquecimento
de terem acreditado que as coisas que amavam eram para sempre
que era possível reter o amor

– o amor era um rio amarelo e quente que fervia
– era um sol antes de nascer o dia, o amor
– era o petróleo das palavras que ardiam o sentido, o amor

e batem com as mãos sobre as bocas para não dizer mais infelicidades
e batem com os pulsos abertos a arder por sobre o petróleo do peito
para não sentir mais nada
e enterram os dedos duros dentro das vaginas para não deixar escapar as flores
– deixem lá. deixem sair que é um jardim. abram
e distendem os vales por sobre a planície do recolhimento expulsando das entranhas todas as paisagens interiores

– é chichi.
– não é. estamos dentro do sangue. são flores
– e deus é um espiráculo. as bonecas fugiram. ascendem carregadas. cavalgam decapitadas o dorso do signo
– olhem olhem. retornam à pureza da constelação. entrarão na lua com as quinquilharias e os cestos transbordados de flores

– deus vai apanhá-las. vai caçá-las e desfaze-las em pó
e fecham os olhos para não ver as bonecas de encontro ao abismo
nuas, carregadas e cegas, cobertas de flores

– é sangue. a matéria inexplicável do amor – pensam
enquanto o deus sorve, rumina, bafeja, seca, esfarela a carne e os objetos desperdiçados entre as pétalas rubras das flores que deram à margem com as cabeças cegas, escaparam infecundas ao interior espremido das coxas

– é sangue. a matéria inexplicável do amor
enquanto deus arfa, transpira, esfrega tudo com a fricção da loucura
com a excitação e o êxtase supremo da criação

– deus é orgásmico. deus é um sádico que vir-se-á terrífico sobre nós, sobre o mundo
– como as palavras? como o leite? como o fogo?
– como o sangue interior que não cumpriu o seu curso
– como as palavras que não aconteceram, as brancas que ditam o fim
e erguem-se nuas sobre a corrente

– é o fim
– é o início
o sangue das meninas sangrentas é matéria prima indistinta de deus e do amor

a descerram as pernas para absorver a noite, o deus, o leite, o jardim imaginário

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima da reconstrução
trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, lá …

ut

October 13, 2018 § Leave a comment

ai de mim
se adivinhasse o sangue dessas flores
até onde perfuram os ganchos as borboletas
até onde atravessam as asas a ferrugem dos ossos
as canoas entre as empenas do meu sangue
até onde rasgo a carne entre a farpa das unhas
até onde os meus chicotes na órbita dos medos
até onde tudo perdido por uma nesga de perfeição

até onde me levam estas velas loucas? os mastros?
até quando demora na pele este vento? o cabelo?

se soubesse a música longínqua desse espaço ínfimo
a forma geométrica velocíssima desse tempo
talvez adormecesse de vez o meu peito na folha
a boca apertada num ramo inteiro de uma árvore
e lambesse longamente essa casca até ao infinito
molhada de açúcar e fruta explodida de espelhos
a lágrima da viagem no crescente prateado da retina
e o céu todo um suco vertido no espasmo da língua
e o mar hibernado um lençol de muco e redes
e saísse por aí a chover o meu telhado num dilúvio de penas
um bando de casas nas asas breves dos passarinhos
apenas para esculpir jardins na sebe das paredes
e adormecer amorosa os meus ovos no arco desses ninhos

ita

October 10, 2018 § Leave a comment

porque existem aves existem olhos
pés porque existem caminhos
só tem de existir o vento
porque sem respirar não vou
não choro não preencho o corpo
as pedras na dor do espaço

porque existem árvores e sangro
porque existe céu e tropeço
de tudo tão curvo e tão baço
de tudo estar sempre a morrer
tudo o que está sempre a chegar
que apenas quando alguém me pensa
no instante em que alguém me quer
pertenço a algum lugar

autem

September 30, 2018 § Leave a comment

o hálito bafeja os cabelos – quero-te
e as fontes vertem por sobre a carnação – quero-te

é o fim
é o recomeço

enlaça-te em mim Capricórnio de palmas descerradas
o corpo até ao imo da dúvida – quero-te

quero-te desde as raízes submissas às mãos hábeis
peixes doces ou feras desgovernadas
plumagem ou prumos, dentes ou cordas
portos
soturnidades

vem por dentro de mim Escorpião
destranco os ossos e a pele às sedas
o mapa vertebral aos bichos pulmonares

aproxima-te

chegai-vos ambos por sobre e dentro
antes de atingiram o leito as bestas no berço do retorno
enquanto ainda incautas e crédulas
ébrias à tona do susto para respirar

apanho-lhes a língua e pronto
arranco-a das bocas à superfície do deslumbramento
alimento-me dessa humidade mélica do refúgio

porque são as paredes os braços e os gestos aguados
os rios que seguem o sentido puro da aceleração

assim toma-me e observa-me bem
como te deslizo as mãos pela negritude
escorregas-me e ascendo lívida das pinças aos espelhos

sou o teu firmamento de prata agora – olha-me fixamente
estou a galope do teu joelho montada no pasmo
abro os braços – cavalgo selvaticamente
ininterruptamente sou asas – o meu corpo é vento
transpira-me enquanto ascendo ao vértice lunar

galopo no teu joelho
galopo-te

sou uma égua selvagem e uma égua triste
uma onda tresmalhada no alto mar
uma lágrima de espada contra o golpe

agarra-me pelas guelras ou pelas crinas
desde a crista de espuma não me deixes voar
puxa-me com força da montanha
coloca-me por sobre o teu dorso luzidio

cavalgarei nua de fascínios e ideias – juro
entalada na manada das árvores pela correnteza
pelos cumes a plantar margens na berma dos rios
até à costura do medo e dos teus gestos
porque sou uma jangada e sou um barco à deriva

na pulsação terrífica sou o naufrágio
a velocidade a pique do embate do precipício

apanha-me desse lado do mar da areia perdida
e ancora-me às pedras no pulso da ilha
enquanto é tempo e espaço
tão somente eu e tu pelo descarrilamento do amor

abre o peito Escorpião desde os primeiros orifícios
que deitar-me-ei noturna sobre o abandono
embalada sob a pele de todos os silêncios antigos
coberta das imagens embrionárias

sou uma árvore transparente – olha como caminho
desenha-me os frutos desde a partida para a fome líquida

somos primeiramente os bichos depois as luminescências
temos de acender-nos por dentro desde a nudez das raízes

sou uma égua selvagem e uma égua triste
uma onda no alto mar uma lágrima de espada

agarra-me pelas crinas da crista de espuma
não me permitas naufragar
puxa-me da montanha à superfície da manhã
sem nunca me soltares Capricórnio da noite convulsa

tenho esta carta-constelação que te iliba e salva
com que alumiarei o esquife da despedida
suturarei em pranto condoídas deslocações
de termos partido sem termos chegado ainda
aos verdadeiros símbolos dos inóspitos lugares

que incompreensível que triste meu amor tudo isto
não termos levitado a tempo o mar nos braços
erguido os navios a pique da lua e deixá-los lá

não termos pescado naturalmente a leveza
as estrelas de dentro da simplicidade

o que é isto, o que foi, de que somos feitos agora?

tenho o peso do leito mais fundo sob a asfixia

de que ideia se fazem estas descobertas?
onde pouso as mãos neste interregno da manobra?
para que poente esvoaçam as borboletas?
abro a boca para que atrevimento, que asas ou que cores?
quem desenha o arco da ponte para a travessia?

eu sei eu sei, devemo-nos ao recolhimento

somos demasiado rebuscados para estas simples humanidades

descansemos pois Capricórnio-Escorpião ancorados
por sobre o suor das breves pedras
com os pulsos abertos para o futuro
o sangue a verter desde a fonte interior do tempo

e usemos as línguas contra as escoriações

lambo-me agora – vês?
é o meu peito contra os vendavais

lambemo-nos pois
lambemo-nos intermitentemente neste deserto solar
enquanto o sal derrete a vertigem da paisagem
e as línguas secam sob o mercúrio do sonho

ardo no alto da tamareira do amor sou uma vela nua

a minha chama ascende
a minha cera dilui-se a caminho da terra

olha como os nossos bichos além se misturam soltos
como atravessam transviados uma manada triste

é o vento, é o fogo – não – são eles, somos nós

se pudesse a resiliência da forma – segurá-la,
o meu braço um porto, uma foz, uma derrocada,
um deslizamento, lava, núcleo, astro, fim

dar-lhes-ia uma festa daqui tão longamente
tão docemente um coração para deter o instante
tão longe e tão cruel e tão rápido

se fosse terra serena e tu brisa de seda
deitar-me-ia sob os cascos da fuga
para que me ferissem e parasse

seria então mais simples entender as miragens
crescer das perfurações as flores extintas

assim termino

sem despedidas diluo-me no recolhimento
e desisto-me plácida e suavemente por sobre a memória

beijo-te daqui para sempre Muriel – quero-te
abro-te a minha boca – olha – quero-te
é um sol ou um lago ou ar apenas – quero-te
impercetível luminosidade – quero-te

beija-me tu daí Capricórnio do espiráculo do amor – quero-te

que talvez tenha sido em nós a plenitude – quero-te
e a culpa do deserto este inesperado oásis – quero-te

do Escorpião – quero-te

clic

September 21, 2018 § Leave a comment

afinal era amor, vinha atrasado
nas asas fragmentadas do panapaná

agora já está deitado, calado e triste
acordá-lo é talvez rasgar a floresta
tão somente para o deixar fugir
não mais voltar

montis

September 13, 2018 § Leave a comment

tumblr_static_original.gif

a pedra batia o sino no alto da luz da cabeça da mulher
no tempo em que ela embalava as palavras
cobria-se com a humidade da tarde antes da noite fluorescente
com as mãos cruzadas no peito como árvores antigas
ou lagos adormecidos ou elfos ou faunos ou fadas
com o rosto voltado para o interior da magia das flores musicais
que ele semeava longe, longamente, docemente para ela
pelas margens descerradas da paciência

e a pedra que batia tão alto e tão forte no cume da escuridão
era cada vez mais elevada e inaudível
e o bulício feria e rasgava a noite completa
sangrava constelações pelas horas místicas da espera

e a pedra acontecia desde o homem da montanha
à mulher que corria livre no sentido do rasgo inexplicável
para dentro do futuro ao mesmo tempo que resvalava na luz
torcia os pés nas margens dos poços intermitentes

oh! cairei cairemos – gritava de dentro do eco da cabeça
com a língua gretada no sentido das estações
estendida para a insustentável sede vespertina

oh! essa dor esta dor na saliva do distanciamento
e lambia e lambia as feridas pelas horas da convalescença
para amolecer a carne e humedecer a fome na aceleração

poderei cair cairemos – sabia e dizia certas vezes sorridente
com os braços descerrados em asas ou em peixes ou em línguas
ou em vento pelo dorso luzidio de um potro tresmalhado
ao mesmo tempo que tentava agarrá-lo pelos flancos
puxá-lo para si deitar-se nele ou com ele nos descampados
onde suaria e inspiraria e rasparia os próprios cascos
nos lábios suturados e fragmentados da terra alienígena

poderemos quem sabe quem diz pertencer ao mesmo coração das pedras
bater com elas assim duras dentro da gente desemparedada
abrir estas fontes evaporadas de espuma sobrenatural

e enquanto pensava ou dizia ou fazia tudo isto, temia
e gritava tão terrificamente que brotavam fontes na montanha
do homem entre as pedras fluorescentes a plantar corações
que ficavam a brilhar com as estrelas até não existir mais espaço
entre elas os dias e as palavras no pensamento e no amor
como beijos geminados ou desfalecimentos da quimera

e crescia e crescia tudo abrindo e fechando tudo
abrindo-se e fechando-se como um pulmão magoado
um coração estelar abrindo e fechando as válvulas feridas da noite
com os olhos enfraquecidos das horas solares
estalando tudo nos ossos vibratórios da transpiração do amor

e a pedra batia tão forte tão fortemente e tão dura
que por vezes era tão mole e tão líquida que sangrava areia do peito
na resiliência do amor que nela corria e em torno de si mesma
a rodar a rodar os desertos nos espelhos das miragens

a pedra que trespassava o tempo para ecoar nas paragens distantes
dentro de todos os relógios para cobrir todos os desacertos
das caçadas violentas de encontro à felicidade impossível

vamos cair cairemos falava ela ou cantava ou chorava tanto faz
que é tudo a mesma coisa nesta vida o resto inventamos nós
– enquanto acelerava abria a boca no arco duma clave
para que ele acertasse o compasso da pauta nua do encantamento
entrasse despido pela aragem sincera da respiração
pelos trilhos acidentados do deslumbramento

que a pedra batia batia-lhes tão alto e tão forte nos sentimentos
dele tão longe que o medo um lanho uma porta entreaberta
dele tão perto e dentro de todas as pedras da casa incendiada
dela quase tão antiga quanto uma ruína desde as raízes
uma nuvem ou um lago que levita no vapor que embebe os telhados
pelo ciclo da água transcendental da espécie

tudo isto dele para que ela entrasse desde o dia acidental
por debaixo do ruído da cidade nua e escalasse as paredes
a mulher que procurava e se despia para entender-se
desde os pés do pensamento ao batente do coração

a mulher e o homem e a pedra
uma montanha altíssima que escalavam juntos
tão elevados tão profundamente até ao infinito
para esculpir em uníssono
todas as formas graníticas do genuíno amor

trago flores

August 24, 2018 § Leave a comment

abre
sou eu
trago flores

a solidão tem andado a perseguir-me
e os bichos, cá fora
estão cada vez mais ferozes das horas mortas que lhes tem dado a comer

alguns têm asas nas patas e dão dentadas no céu
sobem o ar pela espinha da fé e chove sangue nos rios

outros têm facas nos ossos e lapidam os corpos
até nenhum inteiro sobre a vida de dentro para fora

a solidão sempre à espreita a desmembrar-me pelas esquinas
olha – já me falta uma perna

o dia chegará em que permanecerei queda
esquecerei também o caminho desta porta
uma pedra sobre as coisas

será no fim das estações quando a solidão desligar o sol
e o avesso do dia uma grande escuridão

abre antes que anoiteça
trago flores
o passado não quis vir acho que são amantes ele e a solidão

vi-os de mãos dadas na floresta
vi-os amantizados de ideias a fornicar arrependimentos
e gemiam, oh como gemiam, suavam inteiras florestas tropicais
um masoquismo que alaga, esparge-se
cria tumores que não curam

a solidão apareceu esgadelhada e levou-me esta unha
deste dedo aqui da campainha – olha, incompleto que já não chama
doí-me desde a vontade à ideia que me trouxe
doí-me tudo a partir deste miserável dedo
o corpo a latejar um relógio onde não estás

olha as flores como murcham
uma já perdeu a cabeça de bater neste pulso
que esta gota de sangue a caminho da terra tem o aroma do fim

sei que tens jarras no centro da casa para alegrar os medos
ouço-os rir agora ou será que choram?

nunca sei de que lado ri a dor de que lado mói o prazer
de que lado ama a morte ou morre o amor
de que olhos em que olhos nos reconhecemos

mas vejo a ponta de um jardim a escorregar do teu telhado
como continuas zeloso e doméstico

no entanto esqueceste-te de limpar os vidros
tão foscos que não vejo para dentro para trás desse interior

no entanto sei que estás que dormes, é com a vida?

essa também tem falhado muito dorme demais ou não dorme nada
tem descorado as cores e está tudo pálido e poluído

trago um saco de lixo que pesa muito
dobra-me a fé pelo arco dos ossos
sou uma ponte por onde não passo
vergo-me sob mim

trago um saco de lixo que pesa muito
que vem a transbordar de medos e exterminações

sei que tens um poço aí dentro para acabar com tudo isto
atiro viro costas e fim
acabou é passado e uma escuridão sem fundo

abre que pesa
abre que doí-me o corpo desde a ponta deste dedo
desde a falta da garra para esventrar o mundo

envelhecem-me as raízes sem retorno por isso abre
que aqui deste lado está tudo entornado
e a solidão vive em contínuos desaterros

em pouco tempo veremos o vazio de um lado ao outro do mundo
o olho despejado do amor

abre abre depressa enquanto ainda o vejo
enquanto ainda o amo
tenho medo destes alçapões tão transparentes que a solidão constrói
destrói ao redor da tua casa

como anda com as horas a tecê-los ou com a vida
ou com a morte

trago flores oh como são tão lindas
se demorares morrerão e nenhuma cor
baterei com o rosto na terra e nenhuma dor
romperei os joelhos nos ossos e sangue transparente
de peito na pedra arrastar-me-ei a chamar o mundo e não virá

está por acaso contigo dessa janela a ver-me assim prostrada?

olha olha a minha boca como beija
olha a minha língua como pende a sede
amo-te quero-te antes que me dilua em sangue
um lago vermelho um mar rubro interior um coágulo

doí-me esta facada nas costas este rasgo enorme
que não sara o fundo

sei que tens jeito para curar lugares amaciares insânias

os teus dedos finos e trémulos curativos pela superfície
torcidos pela espinha adentro

abre agora que faz frio
enquanto a solidão anda em fornicações

fornicaremos também
deitamo-nos no quarto do fundo depois da jarra
o mais escuro para que não nos vejam as corolas
discretos nesta relação

cuidarei do jardim e limparei os vidros
para veremos melhor a vida como fode cá fora

assim terás inspiração para matar mais horas
ainda que sucumba tudo

olha a minha boca lê o meu aviso
o meu silêncio nos lábios como fede

a -mo -te

abre
mostra-me o peito

aceita as flores

nebula

August 22, 2018 § 2 Comments


há um olho no jardim do nevoeiro que vê tudo

vê a linha com que fio o pensamento
vê suas razões costuradas na pedra
desta minha espécie de sono ou caminho
ou sonho intermitente de lã e areia

há esse olho que fia poeiras de um coração dormente
de pequenas pedras com pulsação interior

basta-lhe aceder à cegueira pela porta dos ovos
acender o fundo das cinzas nas franjas do amor
que logo se embriagam as pedras desde as raízes
eclodem veias das fontes de neblina
e eu acedo

e o olho explica-se:
o jardim é invisível e levita
porque é do interior que se harmoniza a luz
germinam e ascendem as flores incandescentes
com suas corolas de indissolúveis cores

e eu acredito
e pestanejo as pedras no jardim do nevoeiro
com um olho cambaleante pela linha cega
pela pulsação ajardinada e líquida do amor

laica

July 26, 2018 § Leave a comment

justtellmeyourheartsdesire.tumblr.com


sem diferença entre as coisas
ver e amar é sempre uma questão de proximidade
superfície e profundidade

assim
importa-me mais a velocidade que inexistentes distâncias
e resilientes matérias

ser amorosamente instintiva e itinerante

basta

rosas de maio

May 1, 2018 § 1 Comment

tumblr.com

as rosas de maio
florescem nas torres mais altas
dos homens mais altos, das sementes mais fundas

por isso,
os homens galopavam rápido,
montavam bestas na perseguição da terra,
desbravavam de cascos a trajetória,
as veias na pulsação da humanidade

e chegavam com bestas nos braços,
os ossos quebrados de cestos de flores

eram tais homens que edificavam o mundo,
martelavam ferozes o futuro na leveza das pétalas,
os caules que sustentavam os saltos,
impulsionavam as subidas

eram eles os plantadores dos jardins mais altos e inalcançáveis
exatamente os mesmos plantadores de hoje

e as torres, essas, fixos planaltos,
balançavam os corações das corolas,
crianças plantadas num vento maternal, embaladas,
o peito azul leitoso na liberdade

porque partiam contínuos, irrefletidos, instintivos e puros

partiam permanentemente ainda que não voltassem

velocíssimos, trabalhavam excelsos essa lonjura
a proximidade da alma à essência da terra

partiam vagos mas seguros, montados no coração das vagas

e galgavam as próprias torres com a carne ferida
aberta de lava, até ao último perfume inocente,
a última gota de sede

e tudo era sanguinário, preciso e belo

a formusura brotada do sangue e da luta

e tudo era corações de fogo a proteger

e tudo por um futuro isento e assegurado

e tudo eram eles
e eles dentro de tudo eram tudo

as rosas de maio nas torres mais altas dos homens mais homens

era assim

e as crianças cresciam das bermas e aproximavam-se

não tinham medo das torres nem dos homens de lume

escalavam a pedra e a carne como botões verdes,
e equilibravam-se felizes,
bailarinas sobre as vigias levitadas,
o corpo imaculado entre as roseiras,
o peito ao longo dos parapeitos de luz

assim penso que era

como penso agora as mesmas as torres, ainda,
só que mais baixas dos homens mindinhos,
das sementes mais deslavadas e desvalidas

os homens
que ainda galgam canteiros espelhados de serranias

ainda os mesmos,
dos mesmos fantasmas,
ainda deles as mesmas torres,
delas o corpo da poeira e da folia

e as bestas saudosas, as mesmas ainda,
velocíssimas, recuadas, retraídas,
a arriscar o retorno por atalhos de melaço

um dia vão encontrar-se lá trás com este futuro

e as rosas ainda delas, fotográficas e sublimes
a ajardinar o passado gigante nos retratos

e as crianças, bailarinas ainda,
mas tristes entre as valas,
as cortinas das giestas,
intermitentes na prata do cascalho

têm os olhos postos nos cascos das bestas
e não os tiram, que elas não mexem

se pudesse regá-las a elas e às rosas sem ser de sal,
pela única, derradeira esperança do derradeiro campanário

a gota ainda latejante do inerte, ainda o mesmo plantador

talvez ainda uma semente que restasse,
uma roseira por brotar na pedra de qualquer torre

remus

April 30, 2018 § Leave a comment

aminoapps.com

porque amamos demasiado o impossível
colocámo-nos céleres na boca do amor,
nus e do avesso para fora da carne
só para beijar na língua o precipício
trilhar o lábio no dente da escuridão
rapidamente desentender essa dor que aguçamos,
descemos mélicos pela escoriação
no fio frágil do sangue

amamos

e porque somos ininterruptos
essa dor masoquista insiste
persiste na aceleração das aves
no prazer delineado pela semente açucarada,
a avidez vertiginosa no bico da quimera

aves pré-históricas, flores carnívoras, feras desenfreadas
somos nós, rápidos

amamos

e porque amamos demasiado a loucura,
de sofrer trajados essa cegueira
guia para as funduras do peito
pelos atalhos das cidades encantadas,
brotamos pássaros azuis dos gestos ávidos
e cardumes fluorescentes da tremura do pânico,
e povoamos o céu com toda a felicidade desse medo

amamos

e assim na fome, pela foz diluída do esquecimento
o coração leitoso atravessa o oceano dentro da espera
sozinho na barca latejante do início
mais tenro que a rendição transparente do corpo
mais doce que a humidade gotejante do amor
mais crente que o amor imagina
que o amor leitoso pelas ondas da invisibilidade

viaja o impossível
ao encontro do amor

no desespero do amor

e imagina tudo possível
enquanto rema

e se

April 20, 2018 § 3 Comments

weheartit.com

e se as flores forem mesmo assim, floridas
e o azul do céu na transparência, verdadeiro
e o firmamento distante e preenchido, infinito
dentro da essência volátil do amor, inteiro

e se os campos foram mesmo planícies
e os mares profundidade, exercício e espuma
e os peixes, as cores que a minha alma insiste
do teu peito ondulado no meu ser de bruma

e se o tempo for miragem da verdade refletida
e se o espaço for coragem num atalho sem saída
e se eu for mesmo eu, e tu fores tu, na hora louca

e se o ar que respiro, inspirar o ar da tua boca
e se o teu corpo for a minha manta consumida
e se o amor for mesmo assim nesta medida

nuvens

April 11, 2018 § 1 Comment

Garden of the Words_ de Makoto Shinkai

vejo cavalos a galopar no céu
desalmadamente avançam impelidos pelo vento
um é mais cinzento que o outro
um é mais claro e mais lento
outro que se lhes junta é escuro como breu

consigo não perdê-los de vista, se me esforço e tento
se me esqueço do que se intromete neste cavalgar etéreo
se busco mais longe que o olhar e me concentro

são cavalos bravos, depreendo
livres, estou certa que são
fogem assustados do escuro que os persegue
temem perder as formas nas bocas da escuridão
vai na frente um branco solto e leve

ora avançam, ora recuam de repente
depende do jeito que o olhar pressente
se a vontade almeja e a alma pode
se contorno as curvas ao redor
se fixo, se espero simplesmente

o que é escuro como pez, levanta de uma vez as patas no ar, brioso
furioso relincha num silêncio assustador e tenebroso
arrebata os companheiros de cavalgada e desfá-los em espuma
depois, como uma duna ao sopro natural, abandona-se
dilui-se aos poucos, triste como o sal do meu olhar a desistir na trovoada
e chove
chove e retumba fortemente

que pena, penso, tanta vontade transformada em nada
tanta água diluída contra a minha cena denodada
tanta história levada num só momento
tanto tempo disperso de cabeça airada
tanta bravura apartada num esparso movimento

chove
azul a um canto que se move
uma nesga de crina de cavalo branco, ainda varre o céu com desencanto
esboça o infinito para lá dos meus ensaios
do meu cinzel despedaçado pelos cascos
agora, meus cavalos são baios, entre raios de sol, perdidos
no deserto azul do meu embuste, absorvidos, já não os vejo

deslindo apenas coxins de algodão suspensos de um lustre santo
do quadro que fiz e desfiz só resta um pranto

que pena, penso, ter-se varrido tudo
não ter sequer ficado uma almofada de espuma
uma duna onde repousar meu pensamento escuso
com que moldar uma ovelha tresmalhada
talvez um campo florido onde ponha tudo
uma montanha de neve onde impera o frio
um rio azul rodeado de algodão
um rosto, de um corpo a mão
um desejo a rodear o sonho com um fio

nimirum II

March 19, 2018 § 2 Comments

se voltassem atrás as estações,
seria verão ainda

e nós os dois prostrados

e silêncio apenas

esse dialecto puro

e estanquidade apenas
essa natureza inocente

uma tarde inteira demorada e muda

que as palavras são um cadafalso
às vezes

e às vezes um atilho

e os gestos uma demolição precoce,
quase sempre

tenho sombra do telhado pousada sobre o rosto da terra

a mobília segue na decoração das árvores,
verde

um rio de carpete que corre e atravessa um cão

ladro-lhe daqui

do meu respiro não me faço entender

que língua é esta que eu falo?
que palavras descrevem os meus gestos?
de que sono sou feita?

não respirarei tão cedo eu sei,
os pássaros pela estação trocada

a bicharada escarafuncha uma fuga pelos alicerces,

terá de resistir-me depois de atravessar o mundo para respirar

terá de construir uma jangada de um fosso,
uma asa de sangue duma pedra,
um sopro dum sufoco

depois voar lágrimas como se fosse chuva
a minar-me os pés e soltar-me a terra sob a casa

se das cinzas se soltar qualquer nuvem
de qualquer tempo

inutilidade

March 12, 2018 § 4 Comments

source

meu poema é longe
como as aves dos braços e os peixes das mãos
porque nado o vazio e afundo-me,
voo as palavras e dissipo-me

não me leiam então ou às minhas penas
embebidas em sangue evaporado
são astros condenados de um universo estanque,
estrelas mortas de luz despedida

nem viajem as lágrimas dos meus dedos,
cuspo mudo do meu leito infecundo,
órbita desconhecida

imaginem apenas que não sou
nem ave, nem peixe – sou pedra
e essa pedra soterrada um verme que mirrou,
que agora é úlcera no coração da terra

elas

March 8, 2018 § Leave a comment

as mulheres acordam e logo partem para as montanhas mais altas

ainda com os pés nos alicerces da casa
atravessam as planícies entre o quarto e a cozinha,
brotam nuas com a água dos desfiladeiros
nos gestos com que preparam o chá e recebem as manhãs

uma pele finíssima descola-se à medida que correm, atravessam a luz
despem-se no vento das divisões da casa
ultra e supranaturais

as mulheres acordam já montadas em altíssimas e velocíssimas éguas
com a nudez dos cascos pousada sobre o dorso do dia
e cavalgam enquanto estendem a roupa sobre as muralhas fugidas do passado
inclinadas sobre os abetos
com suas bocas esventradas sobre as sementes

as mulheres bruxuleantes
as mulheres mais trémulas
em pontas sobre o arame da vida atravessam as miragens
equilibram-se na vertigem do medo
tão delicadamente que aprumam o fio do horizonte com os desertos
de todas as coisas abandonadas

as mulheres com suas ancas musicais esculpem dunas para embalar os filhos

se alguém as reconhece na alucinação
é apenas porque repetem o futuro
estão na reconstrução do círculo dos relógios parados

e é já noite segura quando chegam nos comboios descarrilados
a pele enrugada da faina e um laço púrpura de sonho na pulsação

e é já noite profunda dentro de todas as horas
quando põem a mesa ainda com as pernas abertas na paisagem
os olhos pelo avesso do mundo

as mulheres

só mesmo antes de adormecerem amarradas à fome
recolhem às entranhas os bichos dos descampados
húmidos e mergulhados na sonolência do sexo
onde mamam luas enormes até nascer a manhã

e enquanto se alimentam e ausentam
as mulheres ainda estendem os braços ao comprido dos rios
salvam a leveza das poeiras e a flutuação das superfícies
escarafuncham as luras dos peixes com que humidificam o ventre
a carne alumiada da noite penetrante

as mulheres são rios e pássaros
nidificam aves contínuas no leito descontinuado das espécies

é delas o destino das longas e incompreensíveis distâncias
correr, resgatar novos e inesperados seres do pó da casa
reconstruir da louça o cristal das cidades inventadas
ordenhar dos próprios ossos o leite sobrenatural

~

February 12, 2018 § Leave a comment

Tenho pena da pena da praia fria
da ave desse céu que esfarrapou
agora que a sinto e sei que é minha
molesta-me esta asa que quebrou

Daí este seu céu, meu lar distante
daí este meu mar em desalinho
da praia tão vazia e a ave errante
da pena, meu presídio nesse dia

Se ao menos esta asa e não voar
se ao menos esta dor e não ter pena
ser ave desta areia e naufragar

Talvez a noite e a praia menos fria
a pena, a Lua à vela a marear
do céu o breu na asa em euforia

heart

February 4, 2018 § Leave a comment

joshyeston.com

por vezes o tempo é tão longe
que a distância que meço nos olhos já passou
e eu ainda penso que me alcanço
no espaço em que me vejo e já não estou

iter

January 31, 2018 § Leave a comment

ebaumsworld.com

eis a beleza abrupta do início
pequeno barco na rota dos pés

dá-me a tua mão verde para o aplauso
para navegar o começo
que é do princípio que me dispo
que é da partida que te colho
qualquer palavra muda na faina

eis que partimos, musicais pedras,
espécies intraduzíveis, corais
ao fundo dos peixes das flores

eis muitas ilhas à esquina do amor

escarpado fim

dá-me a tua mão azul magnífica
e não te apresses solar, náufrago
na jangada de luz
na violência feliz de aportar

guardo comigo a obstinação solene de uma árvore
o mastro atravessado no peito da planície
e a quilha ao leme da respirável terra

assim, espero-te
rasgada pela costura do mar,
boca desfraldada, o teu dedo a prumo da paisagem
martelo húmido à vela no cabelo

eis que somos deuses e inauguramos juntos esta miragem

eis o navio à proa do sortilégio das marés

deixa-te inábil, sobreposto
na barcola da pele em que me largo

e que te prenda apenas o vento vertical 
a veia na inquietação do sangue

guio-me pelo fluxo dos teus lábios
pelo pulso dos teus olhos
e emerjo à tona instintiva das vagas com a memória
essa fome espumada no vício da tua língua

assim, cobre-me de cuspo ou espuma ou febre
e estende-me as cinzas em inflamáveis gestos
um braço, um ramo eternamente jovem até à ilha do fim
onde firme os estes dentes no nervo da terra descarnada

que é violenta a planície do amor
e embriagado o arrasto no respiradouro da paisagem

e eu, sou pulmonar no convés da fraga

se respirares devagarinho bem ao de leve
decifrarei no hálito o caminho,
entrarei mar adentro pela fenda nua,
a ferida aberta da largada

quæ

January 28, 2018 § Leave a comment

não estou suficientemente só
não estou suficientemente acompanhada
não estou nem sou definida
serei de qualquer coisa nada

o que escrevo não me pertence
por isso não me releio
não quero pensar que existo
nas pausas em que me odeio

se rimo é porque estou triste
se não é porque me condeno
escrevo o que em mim desiste
no cúmulo do meu veneno

leda

January 18, 2018 § 4 Comments

nos dias gatafunhados
de letras que não desvendo,
não leio
e não escrevo,
desenho numa folha um sonho
de um dia um cavalo negro

e fico todo o tempo assim,
curvada, tombada sobre o esquisso,
a cavalgar de júbilo
a madrugada no meu colo, o peito
na braveza dos cascos,
no batimento alvoroçado,
de tanto que gosto dele
e o vejo belo,
na noite dos meus olhos,
se os tenho ou não fechados
dele cavalo negro,
dele luzidios,
que até lhe cresço ao acaso
umas asas negras,
de serem assim escuras
as minhas penas

mastigação do amor

December 22, 2017 § 1 Comment

todos os dias passo pelo coração chiclete

está esmagado nas traseiras do meu apartamento

se espreitar da janela do meu quarto não o vejo
mas se fechar bem os olhos sei-o de cor
como a memória

na luz, passo apressada por ele como as horas
mas não o calco, sob pena de magoá-lo, obrigá-lo a morrer
mais longe do que a morte e os ponteiros
o meu amor apegado ao granito do amor cada fez mais fino e rápido

passam os gatos ao redor da forma e do meu pensamento
e as pombas contornam distraidamente o coração outrora doce,
umas vezes solar e colante, outras vezes entre estalidos
como o amor dentro dos olhos quando dá um passo e recua
ou se despede

outras vezes é simplesmente molhado e profundo,
mergulha até dentro da pedra e evapora-se
desaparecendo do lado de lá da rua do esquecimento

outras vezes é apenas desistente sob o luar,
geralmente quando anoitece
e as luzes da rua desligam-se com as pessoas
e os prédios enfurecem-se mais altos e incompreensíveis

houve um dia em que os gatos pararam para cheirar o coração
e as pombas para bicarem-no e desfazerem-no

o amor estava bem agarrado e não conseguiram

nesse dia doeu-me muito e não soube bem porquê
se por ciúme se por medo
se por desconfiar da aderência súbita do amor

sempre tive ciúme do instinto e pavor da fome,
desconfiança destas severas configurações,
como os gatos temem as chicletes e as patas ancoradas
e as pombas os bicos atados à teimosia da matéria

ainda assim
julgo certos desses dias favoráveis
enquanto indago o tempo e o abstrato,
o coração límpido e desconhecido,
o granito estendido como um leito desatado e vertiginoso

desconheço a flexibilidade,
a sofreguidão da língua, a violência da fé

está visto,
colo-me à ideia e passo demasiado tempo a mastigar,
a rodear irremediáveis formas

demasiado tempo à procura de granito onde me deitar

sempre que anoitece, demoro a encontrar a consistência

arrumo os ponteiros dentro dos gatos que dormem sobre os pneus, e
entrego às pombas o esquecimento da insónia do amor,
com elas despreocupadas com estas minhas fúteis elasticidades

e enquanto esgravatam frenéticas os ninhos nos beirais
rodo lentamente o corpo e as penas para não me doer,
e desenho corações pelo meio do medo e mio

o granito lá fora escuta-me e geme também,
escala a perna da cama com o coração negro ao peito a latejar

fico a olhá-los,
à pulsação no interior dos olhos verticais do gato

estou deitada sobre a chiclete da noite – penso,
enquanto repito baixinho de olhos fechados que acredito na forma,
que acredito no tempo

que urge acreditar na consistência negra da mastigação
até adormecer

ou até ser dia

domes-ti-cidades

November 10, 2017 § Leave a comment

stoker

stoker


nos dias de mendicidade
limito-me a fazer barrelas do passado
a limpar os vidros do futuro
a requentar o presente com o lume dos outros

dedico-me a domar-me pela tua cidade

com os bichos ao peito
fazer-lhes festas com o pé
lamber-lhes o pelo com o sexo
dar-lhes de mamar a minha língua

estou de passagem
pelas pequenas grandes humidades alheias

prosseguir é masturbar-me com o tempo na aspiração do espaço varrido da casa

como tal, nos dias miseráveis
limpo as cinzas dos cigarros que não fumo
faço nuvens para regar os vasos

mendigo-me
e dou-me esmolas
venho-me no pó e nas sopas da má catadura

~

October 27, 2017 § Leave a comment

plantar barcos de flores em agras de viagem
apenas para singrar nos olhos as marés
içar corolas à boca solar do desconhecido

depois, talvez numa nuvem prenhe
na lambedura espumosa de um mastro
entenda deus um caule afiado de raiz temerosa

e apenas de sentir-se assim desconsiderado
chova enfartado qualquer estrela sobre o convés
retempere o campo do peito semeando-o de luz

e o vento de feição restaure de verde a maresia
a fé nas mãos sinistradas do estaleiro do amor

kraken

August 30, 2017 § Leave a comment

não me devo preocupar com os dias
apenas com os caranguejos se ficam longe da costa

regressá-los húmidos ao mar – um objetivo útil,
pensar sobre esse tempo – uma futilidade -, uma vez que imperceptível do cosmos

assim, melhor guardá-los dentro dos gestos plúvios

no entanto, dias há em que me preocupo
percebo o quanto desperdiço a vida a pensar nisto de agir
no tempo em que alguém – na minha ausência -, surripia uma estrela para um lavatório

triste e ridículo – eu sei -, como tudo o mais

que importa?

faço por sobreviver – e sobrevivo -, a esta tristeza de barco no mar
com toda a culpa hasteada de não salvar nada, nem a mim mesma (o que não lamento)

de tudo inconsolavelmente inútil como isto e ainda mais o que não escrevi,
escreverei um dia ou atrever-me-ei a pensar,
igualmente dependurado na humidade do espaço

enfim – bichos, monstros e náufragos –, solúveis velas

resta-me pois, unicamente
a esperança de a meu tempo sucumbir no nada
sorridente e com todos os nomes que não salvei vazios na boca

missiva para o líquido amor

August 23, 2017 § Leave a comment

Garden of the Words_ de Makoto Shinkai

amor, estou no limite do estio e tudo seca

preciso de ti mais do que nunca,
saber se vens para dizê-lo aos bichos soterrados
aos insetos que agasalho dentro desta humidade amarga que me resta

dantes chovias, era de flores

agora sou côncava e ácida nas tuas vértebras

unto-as com a sombra do meu corpo antigo,
embebido na memória da tua água inquieta

no entanto, reservo ainda no peito a lembrança irrespirável do arco que pulsava a nossa impaciência

e digo-te que assim é, sabendo que não basta,
que descarnas este corpo outrora místico e embriagado da religião da tua boca

não é mais o mesmo

é réplica agora, multiplicidade de significados e estados

vegeto relentos incertos com gestos inábeis
e não sei mais qual de mim sou eu no teu sentido

certo dia, de imensa e dupla, serei por certo uma cidade infecunda e apartada do mar
que desmoronará dentro do teu silêncio com todos estes rostos que construí
antes de qualquer um de nós se aproximar e reconhecer, antes do fim,
da tua chuva respirável e com sentido ainda, humedecer em mim qualquer sopro de vida

preciso de ti agora mais do que nunca
antes de encerrarem todos os portos e partires de vez

no passado, nada disto acontecia ou me preocupava

a vida pestanejava e habitava o imo das coisas
as pedras sem arestas rebolavam nuas as marés sem tempo

pensava em ti com a clareza das fontes e das paisagens
e todas as estações estavam certas dentro dos relógios

agora não
tudo mudou
vesti-me e tornei-me violenta

sou demasiadas de mim agora

no medo, já não te distingo o rosto entre os espelhos
e neste desfasamento triste, sei que conjeturas sobre mim também

qual de nós é o genuíno eu
qual em nós é o genuíno amor

são vãs, estas palavras, eu sei

mas se puderes, ainda, responde-me sem muitas vozes

pois tentarei perceber qual de mim te escuta

se assim o entenderes, revelarás qual de ti me pertence
e aproximar-nos-emos líquidos e desarmados
pela derradeira vez

é que preciso urgentemente de reconhecer-te nesta cidade

se é a tua voz que escuto entre os ruídos
se esta humidade que sinto, tua inquietude

se és tu, líquido amor na minha língua
se eu que me dissolvo entre as ruínas

querosene men

August 17, 2017 § Leave a comment

o querosene men, é dândi e internacional

compõe o pescoço, direciona os olhos
antes de afiar a língua na lâmina da folha para incendiar os mortos
deslizá-los encetados e húmidos pela fibra roxa do lábio
partir deles no sentido dos próprios ossos perfurando-lhes a carne
tomando-lhes as manhas

o querosene men, autoflagela-se e autocontamina-se

olha, treme, cheira, lambe e deglute vagarosamente, ou aceleradamente
ou intermitentemente a partir das suas presas das suas vísceras

depois, vertiginoso e farto
dirige-se ajoelhado para os precipícios do poema
para enforcar-se nos parágrafos da própria alma

assim procede, retrocede e emerge
oleaginoso pela cútis do canal do verso a parecer-lhe que viaja
furtivo até à medula das dores, a remar no sentido contrário do próprio sangue
aparafusando a fé à própria morte

o querosene men é inevitavelmente um sonhador
um condenado, padecente de todas as doenças
todos os ódios, todos os medos e amores

delirante, pulsa continentes e estados submersos a trote de fantasmas galvanizados

encavalitado nos ecos das ininterruptas vozes
enforca-se sobre o cadafalso dos inatingíveis significados

o querosene men martiriza-se
e unha-se em formicações ininterruptas

alimenta as chagas incuráveis que descola da pele para achar-se vivo
sobreviver no código indecifrável da própria dor

é por isso um sádico masoquista
um fornicador seletivo e natural, crónico manipulador da própria casta

é simplesmente a destilação fantasmagórica da própria solidão

orgulhoso, crava os dentes dos outros no próprio peito e ri e entristece-se
e veleja assim escancarado e exposto
ensanguentado o barco de todas as palavras que desconhece
todos os nomes dentro de todos nomes
arrasto de avejões à trela do próprio corpo

mente, finge e maravilha-se

assombrado, ascende à superfície da própria carne
e degusta nas lâminas intermitentes a própria sombra

e aporta
e regurgita no embargo da noite, distinto e intraduzível
uma âncora acocorada no cerne do tempo

o querosene men,
traz o passado suspenso no anzol dos lábios
que coagula e deslaça no cuspo, no álcool da própria bebedeira

o presente, humedecido no canto embriagado do olho

e chora

e quando chora acredita
e quando ri desconfia
e quando é dândi e sério na sua dor, enternece-se e lambe-se,
venera-se escorado de vísceras

cautela com ele,
com o querosene men
pois é igualmente mentiroso e mortificador
um exumador
um incurável e incompreendido morto-vivo desterrado do próprio fundo
um incendiário triste
um ávido usurpador do espaço-tempo
um inculpável contaminador das massas

cautela, com a insanável cura que artimanha
com a insuprível contaminação
com a propagação da fome que apregoa
com os inúmeros e inúmeras compo
e decom – posições da espécie

em pé, sentado, deitado
ele é sempre ele mesmo e os outros,
o constante revirar da prata nos espelhos
o coma no fundo dos lagos
o lado oculto da galáxia,
das caves da terra na exumação dos corpos

no delírio das próprias luzes, sucumbe antes do fumo

o querosene men
é incurável e perigoso,
anoitece insaciado dentro da própria insónia com uma gota de sangue no canto do lábio
que lambe interruptamente no medo de qualquer réstia de açúcar

é impossível caçar, deter o querosene men

no delírio das luzes, sucumbe antes do fumo
com todos os relógios parados dentro do peito

o querosene men
incendeia a própria culpa na cave pura da palavra
e desmorona a saída para arder por dentro

baixa-mar

August 5, 2017 § Leave a comment

o tempo que leva a baixa-mar
é o mesmo da humidade dos teus olhos

assim, mal chego
despeço-me de ti e dos bichos

dormem agora o fundo complexo das horas e das palavras
e resguardam o amor submerso

tenho a impaciência das marés no cálculo impreciso dos baixios
e desconfio-me às vezes presa na rebentação,
outras vezes rebentação apenas

angustio, mas despreocupo-me logo
pois nada é previsível e seguro dentro e fora do mar e do amor
como o reflexo dos olhos e a liquidez das palavras

como tal
provavelmente, quando o mar me descobre calo-me
e tu, fechas-me nua dentro da humidade dos teus olhos
onde sobrevivo na profundidade,
onde ovulo versos por construir

e faço coisas inimagináveis onde nascem e desovam as espécies
que nem eu sei, apenas tu o mar e o amor
quando desço até ti a superfície vertiginosa
no mesmo instante em que te cumprimento e aos bichos
e me despeço

rete

July 23, 2017 § Leave a comment

vejo algumas vezes o amor no lago abstraído dos teus olhos

se mergulho peixes daqui para aí
se vão ao fundo e voltam
não me dizem
fica no segredo do amor

também
como nadaria eu os teus peixes dentro dos meus lagos tristes
caso os houvesse?

que lhes daria de comer à superfície turva da minha fome?

penso nisto e nos cardumes possíveis e quase cego

não fossem as tuas pálpebras fecharem-se logo
não restariam peixes
ou outra qualquer humidade para a cenestesia líquida do amor

Ode-ic-atória de ló

July 22, 2017 § Leave a comment

Tenham ló,
Tenham ló irmãos, tenham ló
Tenham pão irmãs
Tenham dó
Tenham de fantasmas, forasteiros e fãs

Tenham de ló e de cá
Desta diversificação de gente
De suas vãs euforias tristes
Suas alegres fornadas

E fé, tenham fé também
Muita fé
E deixem-se de pé à ré da cozedura
Que a vida mura – e trolaró -, é de muitos nadas
Que a vida é dura e cresce e empurra
E a morte é cura fina que mirra e mata
E a poesia floresce e o sonho jura

Calma que vamos
Já vamos
Já vamos de saída e de má catadura
Vamos por onde viemos
Vamos pela mesma rua

E calma
Muita calma que sorrimos, ainda
Que a pressa entontece mas não derruba

Não nos empurrem, vá lá
Vá ló, calminha
Não nos desliguem o forno, a alma
Que ainda vai morno, e ela dobrada no livro
A aquecer docemente a poesia
A fervilhar na boca

Olhai só como vibro
Olhai ló como chovo
Escorro um poema
Como ri e carpe a hora louca

Calma

Comemos e sabemos que faz falta o pão
Faz falta a boca para comer
E o sonho para mastigar
E o corpo para foder
E a poesia para abraçar
Beijar na boca e morrer

Vamos, mas vamos de coração escancarado
Ao colo folheado e quente dos sentimentos
A poesia na chucha da mama a mamar o mundo
A babar semente
A apertar a gente num botão que liga e desliga o sangue
A prosa, o verso, a rima, o branco da folha
A tinta que expande

Calma
Calma que vamos
Prometemos e vamos
E vamos já

Já sentimos as mãos e o caminho
Os passos de mansinho
A poesia no sopro da respiração

Não sentes?
Ora apalpa lá

Já somos dessa mão o friso no desamparo
Já refreamos o riso para parecermos sérios
Já reprimimos tudo e abalamos

E nada disto é partir, sabemos
parece mas não é, é música

Somos de ferro e de fogo
Temos sangue de bicho e água no pelo
Babamos o ranho na levedura do pano
Na ranhura do lábio
Na dobradura do sexo

Vamos erguer ramos para outras árvores
Vamos povoar outro campo de raízes
Vamos ser e não ter de ser felizes

Tenham dó do ló do pão
Dó da casa do ló do chão
Ló do dó
Dó do só
Dó de sermos eternos petizes

Ai que nos dói à vela os cozinhados
Moí-nos ainda os ossos pelo crescente do rosto
Tudo que basta para crescer a gente da massa crua
Da mesa nua ainda a balançar a casa
Os náufragos de rebuscada fantasia
Nos espelhos baços da flostria

Porque se levamos no cós a poesia
Que comprime brava a tripa
Solta da palavra a voz
É porque nos permite a ousadia

E os berros são cá do fundo do peito
Do alto do pensamento
Do desaguar da perna

Mas não falemos mais disto
Levemos no sangue os nós e o pó na asa
O pó que voa e tem distância
Que o tempo hoje é de benzedura

Vamo-nos ló
Que a vida é dura
E a poesia é raça
E a vida mura
E a vida mirra
E a vida acesa
E a vida caça
E a vida é uma birra do caralho
Vamos teimá-la e sê-lo
Desabrochar de qualquer ira
De qualquer fuso, de qualquer uso
Vamo-nos com ela e o orvalho
Trovar para outro lado
Despejar os ventos
Rebentar as águas
Afugentar as mágoas

Cabisbaixos fermentar no bucho o pão
Da gente por aqui ainda emparedada
Dos fantasmas na fôrma do coração
A fermentar nos olhos a massa de estrelas

Tenham ló da hora metalizada,
Estilizada, alheia, nua, crua, de panaceia
Da casa pelo telhado de lua prateada
Que é tempo de sairmos despidos
Nus para a rua dos presentes e passados
Fazer pão na esplanada doutro tempo
Com tempo cozer pão noutro lado do fado
Mastigar outras fontes de levedura
Que a vida é aço e a mão ainda pelo crescente
Tanto chupa como cresce a gente
A salivar o ovo aromático
A forma untada na banca
Inclinada da gente enfarinhada
A espirrar de mansinho à porta

Tenham ló
Tenham lá ló desta fraqueza de ser pão
Que arrota de ser doce por dentro e por fora
Que o mundo é da gente que parte amarga
E a arte a ilharga pelos caminhos de lume e fôrma
Que vai no forno do coração a dar à corda

Vai agora

Tenham ló de mim, de nós, da poesia fofinha
Derretida nas bocas salivadas do sonho ocre
Dos fantasmas do tempo no branco da linha
Na linha do bicho torneada

Ó que medonho, tremo, fedo – sei ló -, cago-me

Tenham ló da casa dos dias fartos
Da fartura dos nossos dias de pão temperado
Dos nossos corações amarelinhos e fofinhos,
E parvos, e risonhos e magoadinhos
Ou esquentados, corações de ferro e brasa

Céu prateado e lua e cinza
E cotovelos pousados no riso dos dentes da música
Trauteados de enlevamento

Ó que belo
Assim nós amalgamados, unidos no fermento da mesma massa

Tenham só, de ló os queijos espalmados
Na tábua deste forno ao relento da madrugada
De peitos escancarados e as línguas transparentes
Vocábulos fatiados de açúcar

E contamos o tempo desta hora emparedada e livre

Alapemo-nos irmãos de ló em ló o nosso germe
Apalpemo-nos de palavras e rimas e desalinhos
Apalpemo-nos de papel em riste, lábios nos lábios
A nossa saliva misturada

Apalpemo-nos de peito e espada e pensamento
Aos fantasmas encavalitados nos cavalos destas paredes
Que descem sobre nós inclinados
As frontes enrubescidas
A memória num ombro descaído
Um projétil na vértebra irrespirável
Da nossa mama ainda presa no fogão

Mamemos agora todos juntos nesta despedida de irmãos
Uma, duas mamas, as que houver bem cheias, transbordantes
O fim da festa, a algazarra na parra do leite, ainda
Pela derradeira hora de ló
Dispamo-nos da casa de mansinho
De preconceitos
E saiamos de prato devagarinho para a rua nua
Para o outro lado do espaço gemer as dores, as cores
O calor da inacabada cozedura
A massa mole e a fôrma nos bigodes da farinha
E a mó a remoer a boca fora da pedra do tempo

Apalpemo-nos irmãos sem palavras
Obscenamente perfurados de dedos
De ló em ló de gestos, música e palavras
Os peitos e os cus nus ao vento da esplanada
Sentados a aplaudirmos as lâminas da despedida

E respiremo-nos boca a boca no retrato da casa
O barro saudosista em castelo de estrelas

Olhai-as lá em cima, olhai
A resistência a tostar-nos o crânio desenformado ainda
Os testículos na tinta resiliente a fervilhar meninos
Os óvulos no brilho dos olhos acocorados

Já somos crescidos

Olhai as estrelas
Como brilham

Olhai-as e abri as asas – já
Eclodi do ovo
Escancarai as pernas
Poetas de copos entornados ao peito

Vertei a ultimíssima seiva
Abri-vos obscenamente
Um pão em brasa
E gemei o ultimíssimo gemido da vida desnudada

O corpo ao léu pelo ló da casa

*

(para Ismael Calliano)

as meninas no descarrilamento do amor

June 20, 2017 § Leave a comment

as meninas sangrentas
esbofetearam-se uma noite inteira por culpa do amor

até caras cósmicas gigantes vermelhas
no sangue incandescente do amor

as mãos esventradas, esferas espalmadas no súbito impacto
da estepe árida sedenta do amor

dobradas nas cervicais da culpa
tremeram
até golpearem as línguas na faca das palavras interditas

amor
amor
amor

acidentais na velocidade

primeiro no medo, enroladas e húmidas
depois nos gestos, bafejadas e tímidas

íntimas e íntimas e mudas e rápidas

as meninas sangrentas
acordaram antes do sono antes da estação do amor
por culpa da culpabilidade do amor
e tentaram recompor-se
à cabeça dorida, vergada sobre o ombro descarrilado do amor
um comboio estropiado na penumbra a gotejar óleo no linho

gemeram e bocejaram no unto a carne
o sangue
a dor

e depois
de mãos soltas, verteram o tédio no mijo

ohhhhh – demoradamente, muito longamente, elas
quentes na noite!

no mijo desnatado da noite
das cabeças quebradas
dos corações forasteiros
dos comboios descarrilados nas planícies profundas

nocturnas como o sangue
abafadas como o sangue
verdes como o nada

as meninas esvaziaram-se completamente

depois perfuraram o corpo deitadas sobre a linha da viagem
até atingirem a rendição sem retorno

as mãos para cima e para baixo no descarrilamento
as mãos para fora e para dentro do descarrilamento
as mãos para cima e para baixo pelo descarrilamento
as mãos completamente descarriladas – Oh!
desvairadas pelo arrasto estremunhado da paisagem nocturna

noite acima, noite dentro
como traças baças e vento

e deixaram-se assim gemer uma noite inteira entre as estações
a tentar recompor a dobra dolorosa do pescoço,
levitá-lo do vinco, alinhá-lo no farelo dos ossos

depois pentear as riças do cabelo antes da estação enervante do amor
antes se enervarem mesmo
antes do amor nervoso na estação
antes delas lá, na estação nervosa
elas e o amor
uníssono nervo estacionado

um pescoço um mastro, o cabelo uma vela na transpiração
lambida do amor alinhado

até lá, uma noite inteira inchada e infinita
um comboio latejante na tempestade

e nelas um pente pela dobra da coxa, um lanho pelo fundo do ventre
a acenar ainda a velocidade pretérita
imparável no espaço atravessado da noite descarrilada
das palavras ulceradas da terra por descobrir

e a íris rasgada no vidro da máquina despedaçada
desfocada sobre a paisagem
a língua golpeada na trepidação do dente nocturno
do dente feio no recorte da vontade por concluir
amarelo linho, amarelo lua, amarelo bexiga, amarelo larva

amarelo tempo

as meninas sangrentas ergueram-se ácidas e amarelas e esfarrapadas
e arrastaram-se remelosas e ajoelhadas para o descarrilamento

trôpegas
foram lacrimejar húmidas na linha
desfalecer o rosto dormente e comichoso no ferro

Oh! É frio o amor? – entreolharam-se e morderam-se

os pescoços inclinados no vértice do ombro da viagem
a escutar de orelha o leite da coxa a trepidar pela linha
a travessia da noite a escorrer pela veia do carril

vem aí! deitem-se!
às pernas pelos tornozelos aguilhoados do amor

e
noite dentro, noite fora, dor por dentro, dor na hora
pensamento, tempo-hora, sangue dentro, leite fora
no pensamento impaciente do amor

no ferro frio da linha quebrada do amor
pelos círculos distendidos do amor

no amarelo mijo do amor

do comboio descarrilado na obstrução coagulada do amor

sangue vivo do amor
sem estação

noctis

June 1, 2017 § Leave a comment

se me deito, rompo as vértebras e lanço-te os braços do peito
e tu olhas-me, indolente e doce
e caças-me os pulsos e suspendes-me na noite
das tuas cordas invisíveis

e eu fico assim dependurada dessa ideia um tempo infinito
de ser a tua pupa estelar oscilante no espaço
com a minha carne iluminada por dentro do teu silêncio

se vibro e gemo pelos meandros dessa tua calma
tu torces-me vagarosamente na obstinação do vazio
até que dum repuxo expludo e verto-me de seiva luminosa
um coágulo de leite que do ventre se deixa orbitar
parir um rio pela via láctea das tuas mãos transparentes
de anéis pela cintura das horas húmidas

e dissolvo-me sobre a tua fronte inexplorada

sabes bem
que trago comigo nebulosas virgens amamentadas de medos

com elas sobrevoo a tua permissão e colonizo-a
e à tua carne convulsa de mansidão inventada

porque o meu corpo é um astro no sustentáculo do amor

e tu sabes
que somos vestes instintivas no interregno das poeiras

assim, antes da obscuridade, permito-me horas a imaginar
que velocíssima detono galáxias à tua frente e que me habitas

horas suspensas na fruta que amadureço à tua porta

aflijo-me muitas vezes com isto dos teus mistérios
com as marés das minhas profundidades tontas

mas depois tu revisitas-me tímido e tranquilizo-me

de saber que quando me deito
já te encontras à minha espera dentro da noite

~

May 9, 2017 § Leave a comment

sabes

ainda vejo cinema de madrugada

os filmes de que já não sabes
enquanto tuas mãos vagas se aproximam de estrelas nuas
ou espremidas de sucos para perfurar-me o corpo

chegam lambidas de astros, estiradas de cortinas e vidro
húmidas como o silêncio e a penumbra do imaginário

palavras descerradas que ecoam na minha boca a tua nudez

uma cidade inteira acesa e obscena, erguida como um trevo que contorço
vagarosamente esventro no gume da língua
transplanto para a tua reconstrução

e a tua cabeça renasce, descobre-me e vem descendente
descabela de folhas tristes doer-me como um coágulo agridoce
ou uma árvore no pasmo de um acampamento incendiado
enquanto dispo rápida as unhas no linho e deito-me molhada
suavemente sobre a tua cinza, sob o teu bico lunar

primeiro uma sombra tímida de pedra
depois só carne sob os teus olhos de pássaro

a natureza inteira condensada no teu peito de cera

leite na pele das minhas mãos embebidas

ainda vejo cinema de madrugada e abandono-me, distendo-me
perco-me das legendas a que não retorno para não desmoronar-te
nem às frases que falam de ti sem saberem que existes

e as palavras na tua voz de dialetos estrangeiros, falácias
com que me arrastas até quase dentro, quase avesso, quase nada

néones e poeira estelar

porque em tempos fui fada – disseste-me -,
agora que sou vento e um vestido suspenso no telhado

quando adormeço, ainda me sobressalta esse pano sacudido nas telhas,
os teus dedos a desabotoar a aragem imaginária
a assediar o meu barro no deserto anoitecido
e prender-me os pulsos e a suspender-me árida nos anzóis do espaço,
no gesso da memória silenciada

e eu flutuo,
deixo-me levar pelo vazio dessa violência pura

cíclica

fases e marés

para perdoar o que não sei de ti antes de adormecer
rever e reescrever continuadamente nossas curtas-metragens

statum

April 2, 2017 § Leave a comment

arrasto certa tristeza ininterrupta comigo

por isso, descerro fontes das mãos que não cessam

mas isto que importa senão a mim que choro?
se os outros velam suas próprias fontes desconhecidas?
se os outros de gume em riste trajam a mudez das águas?

importa apenas saber que passo e que algures alguma coisa não seca
permanece na estação da origem

porque de resto, prossigo viagem para estendais longínquos
de cesto na mão pelo crescente da lua

ninguém sabe, mas levo a estender novamente os panos

levo-os eternamente molhados na direção do sol

lá, onde a felicidade existe dependurada numa mola frágil
suspenderei o ferro desse linho

a ninguém importa, mas fá-lo-ei prostrada, morosamente

depois, continuarei com o peso do sangue nos braços
a estender os ossos

a que horas te incendeias?

March 30, 2017 § 2 Comments

Não me leves a lançar papagaios se não te incendeias

A propósito, quando te incendeias?
Quando é o vento sul?

Já lancei demasiadas luas contra esta demolição

Por isso, tens lume contra esta ruína?

Vens ordenhar as marés? a humidade pelo sopé da montanha?

Tremo o rastilho na reconstrução e o sexo arde na mão incendiada

Vá lá,
quero explodir estes campos antes do vento norte,
ordenhar uma lua inteira na noite e doer-me

Trazes lume para parirmos depressa esta ave?

É que é urgente incendiar,
acertar as horas no fósforo da língua

March 21, 2017 § Leave a comment

alvarelhos

se voltassem atrás as estações seria outono ainda,
mesmo na canícula do dia

e nós os dois pousados numa esplanada de silêncio,
chávenas e cadeiras apenas

esse dialecto puro antes da boca

e estanquidade apenas

essa natureza inocente

uma madrugada inteira demorada e nua

seríamos nós
que as palavras são um cadafalso
às vezes

e às vezes dois atilhos ou um punhado de areia

e os gestos quase sempre uma demolição precoce

assim tenho o telhado pousado sobre o meu rosto de terra
e a mobília flutua a casa, verde na decoração das árvores

e um rio de carpete fria atravessa um cão

ladro-lhe daqui uma espada
rápida

responder não me responde, já se foi

não morre
que do meu respiro não me faço entender

que língua é esta que eu falo?
que palavras descrevem estes meus gestos?
que gestos são estes que desconheço?

de que sou feita agora? de onde me chega esta permanência?

não respirarei cedo, já sei,
porque reservo-me um tempo de hibernação para as estações inóspitas

aquelas de pássaros invertidos por paragens líquidas

e tenho medo que gele e tenho medo da alquimia do espaço

assim, a bicharada escarafuncha frenética uma fuga pelos alicerces,
velocíssima

terá de resistir-me depois de atravessar o mundo inteiro para respirar
terá de construir uma jangada de um fosso e atirar-se

soltar uma asa de sangue duma pedra,
um sopro de dentro da humidade de um tronco

que eu terei de ser novamente árvore ou casca
depois voar as lágrimas como se fossem chuva para beber

munir os pés de tempestades e soltar-me da terra sob a casa

mas só se das cinzas explodir qualquer folha,
qualquer nuvem de qualquer memória,
qualquer telha intacta ainda

encarnada

autem

March 1, 2017 § 1 Comment

gif

a felicidade tem uma luminescência tua que dança comigo
campos rodados de flores e árvores nas minhas carnes noturnas
lagos que perfuro embriagada das tuas mãos

todas as madrugadas cuido
todas as madrugadas são solares e deito-me na tua calma,
lavro o teu tempo no meu campo orbicular de flores

são as estações pelo júbilo transpirado e circular,
circunscritas,
de ti circunspecto como o sonho a infância e a tarde

e todos os lobos interiores sitiados neste lume ululam,
celebram para lá das fronteiras clareiras novas

e se me assustas
construo depressa uma casa e largo-lhe dentro um sol,
solto a pelagem da matilha e estremeço por dentro

porque sou quase gente quando mordo ou quando agonizo,
injurio-me e entristeço-me

sou simples, é isso

simples como tu
quando demoras o tempo exato de eu engolir o que sinto

o mesmo que levo a apaziguar qualquer padecimento

o amor

o amor trespassado de trilhos e feras tresmalhadas

caçamos ou fugimos?

todas as madrugadas festejo-te e danço-me
enquanto te interrogo sobre como vão os campos

e respondes-me sempre com o teu silêncio
que vão bem e que estão preenchidos de códigos e flores

e grito reconstruída essa felicidade num contorno de lágrima
o projétil perfurado no meu peito inaugurado de vítima

porque existires às vezes basta-me

e do telhado cresço uma janela espontânea que não vês
de onde me vejo escancarada numa ave que chega daí,
às vezes um inseto desgovernado na luz que me tange,
morre logo depois como a lonjura

um movimento que morre como eu morro

são as tuas mãos que me fecham me perdoam e salvam,
tremem o contentamento e ressuscitam-no do medo
enquanto descerro os lábios para beijar-te

acho que me conheces bem e ao meu paladar

somos velocíssimos nesta dança obscena
e a felicidade esta fera amestrada e amedrontada,
e as nossas línguas lavradas pelo mesmo lanho ferido

e evaporamos campos e lagos néones, etéreos
e voláteis que quase perecemos neles

nus inauguramos a espécie
e nada mais importa que esta embriaguez sobressaltada

desfalecer para reconstruir de novo

goteira

January 20, 2017 § Leave a comment

200w

a minha casa é de vento

no sopro dos teus telhados

em alicerces de carne

 

e agora tenho-me suspensa dos teus pássaros líquidos

que ordenham sombras pelas cornijas

 

assim a porta suada na minha mão

janelas soltas no peito da passarada

e o batente um grão pelas empenas

 

assim comecei pelo telhado

assim deito-me nua na construção

assim do chão a minha boca sob a goteira

assim minha fome entornada de penas

assim aves sobre os ossos da terra

 

todos os dias penso que descem a pique

todos os dias me semeio de erva

todos os dias planam a sementeira

todos os dias uma gota para a minha sede

um jorro de leite e uma lua exangue

uma noite de espasmo e um espectro de ave

um telhado de medo e um dique de sangue

opsis

January 5, 2017 § Leave a comment

200w-1

as meninas sangrentas
na macropsia do cosmos
ampliam as córneas e emanam
árvores pelo barro dos vasos
polvos pela prata dos espelhos

sexo ovíparo nos relógios

as meninas sangrentas
na micropsia do espaço
burilam miragens nas veias,
espancam as mãos sobre o ventre
e contorcem ébrias o corpo,
arrastam, puxam, eclodem e perfuram
a carnação esventrada sob o linho

se no microespaço da macrofobia
as meninas lacerassem deveras
a carne no deleite da língua,
a sedução pungente da inocência,
vertessem a seiva inteira dos bichos,
vazassem das margens um rio de leite

se no macroespaço do microsegundo
gozassem de instinto nuas a dimensão
rubra, o metrónomo descompassado,
o corpo das estrelas e dos peixes
num estupro interplanetário em simetria,
um lanho pelo sugadouro dum beijo

amariam com a febre do ódio as pedras
e cavariam a terra na hipóxia dos ossos,
o mênstruo na sublimação das fontes,
a baba transpirada pela bainha
dos deuses famintos e húmidos
na aridez enrubescida dos demónios

~~~~~~

December 8, 2016 § Leave a comment

giphy-2

visto-me de palavras e o poema veste-se de mim
geminado numa pele só que cresce sozinha
de vestes inventadas de mim nua, corpo e malha
escrevinhada, alma miudinha e rabiscada

dispo-me de palavras e tenho de fingir-me adornada,
não posso despojar-me assim de todas as letras e dizer-me
branca, desguarnecida, desconhecida em mim a reconhecer-me
a lerem-me nas minhas letras, a alma triste e despojada

sempre me aborrece escolher a roupa que vestir
sempre me afadigam os poemas de letras quaisquer

geralmente pego no que está mais a jeito,
geralmente no amor que é da míngua o meu peito

teria sido bem melhor ter nascido vestida
de roupa e de poemas e de feitio,
não ter de estar sempre a escrever-me
a ler-me e a mentir-me, a aquecer-me
de palavras rasgadas e de frio

melhor ainda seria viver descoberta, não ter de fugir-me,
andar sempre de mim a esconder-me, nem sol, nem lua,
de mim constantemente a procurar-me e a vestir-me,
de achar-me sempre só e sempre nua

cibus

November 30, 2016 § Leave a comment

gif-vento

Como se não fosse por ti
de caminhos crescerem as árvores e as casas e o universo respirável,
e não chegasses para explodir o mundo depois dos beijos,
de tudo tão enlevado e triste e supremo e verde
com cães nas ruas a ladrar às fadas

Que nos fazes depois da luz, da carne, da semente, da ave no cabelo
à bomba que nos pões no bolso?

Treme-me a mão a latejar-me o peito

Para onde te arrumas depois de ofegares, explodirmos,
e aos destroços, o pente, os olhos nas feridas?

Já não eram eu sei, nunca fomos, seremos, depois de despidos
os relógios impossíveis tão só a tua liberdade licenciosa,
musgo e sarna na pedra a martelar as línguas
até desfazer-se a pele, azedarmos o leite na perna
o dialeto menstrual avançar exércitos silenciosos

Trazes-nos já estupradas com valas no peito?
o teu perfume na baba ainda? a lamber-nos o joelho,
as mamas em cataratas de fogo no júbilo do teu sémen?

Estou à mesa e uma toalha de sangue,
cotovelos e um garfo no olho impaciente
Para onde olhas? Que enxergas debochado?
as nossas bocas quentes, quase? o mundo afogado
a mastigar-nos ronceiro, açucarado nesta festa quente?

Somos húmidas no teu celário, sei sinto
pulsar a costura das planícies contínuas,
lagos parados e tu a mexer-nos as cavernas
as folhas escuras no útero

Ainda assim dás-nos de comer sob os incêndios?
nem que fome e espinhas sempre? e a sede inflamável?

pluma

December 5, 2018 § Leave a comment

Tenho pena da pena da praia fria
da ave desse céu que esfarrapou
agora que a sinto e sei que é minha
molesta-me esta asa que quebrou

Daí este seu céu, meu lar distante
daí este meu mar em desalinho
da praia tão vazia e a ave errante
da pena, meu presídio nesse dia

Se ao menos esta asa e não voar
se ao menos esta dor e não ter pena
ser ave desta areia e naufragar

Talvez a noite e a praia menos fria
a pena, a Lua à vela a marear
do céu o breu na asa em euforia

~~

November 30, 2018 § Leave a comment

tenho uma brisa num vaso
na minha casa em ruínas

é nessa brisa que voo
meu corpo pelo telhado
no bico dessas esquinas

e uma asa na boca
se o vento crescer deste lado

e a parede que escorre
de fendas pelo empedrado

é o meu andaço que chove
dum varandim recuado

e a minha língua que treme
as asas pela fachada

é essa ave que morre
em mim a dor transpirada