mea

July 18, 2019 § 2 Comments

espero-te sempre

meu amor

como um verão inseguro
a par da estação

a tocar-me tão ao de leve

tu

meu amor

e o presente
sempre um tempo que não chegou

assim anoiteço

assim me embalo nesta tremura

no desfasamento destas nossas proximidades

meu amor

ou então
no gesto de uma pedra ao mar por atirar

quero dizer com isto que me faltas

que mergulho sôfrega meu amor

de dentro do gesto contra o vazio
nesta granítica solidão sem balanço

enquanto o sol brilha o teu rosto inatingível
e pareces-me verdadeiramente verão

e o mar um quase inaudível rumor
da tua voz submersa

assim sou eu
e estou
a esperar o teu gesto preso à contemplação tangente

meu amor
meu amor

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cibus

July 5, 2019 § 1 Comment

gif-vento

como se não fosse por ti
de caminhos crescerem as árvores e as casas e o universo respirável
e não chegasses para explodir o mundo depois dos beijos
de tudo tão enlevado e triste e supremo e verde
com cães nas ruas a ladrar às fadas

que nos fazes depois da luz, da carne, da semente, da ave no cabelo
à bomba que nos pões no bolso?

treme-me a mão a latejar-me o peito

para onde te arrumas depois de ofegares, explodirmos
e aos destroços, o pente, os olhos nas feridas?

já não eram eu sei, nunca fomos, seremos, depois de despidos
os relógios impossíveis tão só a tua liberdade licenciosa
musgo e sarna na pedra a martelar as línguas
até desfazer-se a pele, azedarmos o leite na perna
o dialeto menstrual avançar exércitos silenciosos

trazes-nos já estupradas com valas no peito?
o teu perfume na baba ainda? a lamber-nos o joelho,
as mamas em cataratas de fogo no júbilo do teu sémen?

estou à mesa e uma toalha de sangue,
cotovelos e um garfo no olho impaciente
para onde olhas? que enxergas debochado?
as nossas bocas quentes, quase? o mundo afogado
a mastigar-nos ronceiro, açucarado nesta festa quente?

somos húmidas no teu celário, sei sinto
pulsar a costura das planícies contínuas,
lagos parados e tu a mexer-nos as cavernas
as folhas escuras no útero

ainda assim dás-nos de comer sob os incêndios?
nem que fome e espinhas sempre? e a sede inflamável?

domes-ti-cidades

June 7, 2019 § Leave a comment

stoker

stoker


nos dias de mendicidade
limito-me a fazer barrelas do passado
a limpar os vidros do futuro
a requentar o presente com o lume dos outros

dedico-me a domar-me pela tua cidade

com os bichos ao peito
fazer-lhes festas com o pé
lamber-lhes o pelo com o sexo
dar-lhes de mamar a minha língua

estou de passagem
pelas pequenas grandes humidades alheias

prosseguir é masturbar-me com o tempo na aspiração do espaço varrido da casa

como tal, nos dias miseráveis
limpo as cinzas dos cigarros que não fumo
faço nuvens para regar os vasos

mendigo-me
e dou-me esmolas
venho-me no pó e nas sopas da má catadura

fusus

May 10, 2019 § Leave a comment

o teu amor
é de incontestável silêncio
e apneia de luz

assim, quando te distancias eu escureço

seguro o teu rosto como uma candeia
com que atravesso a noite bamboleando o teu nome

à medida que suturo os gestos

os teus ombros
as tuas pernas
o teu sexo nos passos

enquanto comprimo a tua cabeça entre as minhas coxas

para alumiar o amor

para ordenhar o caminho

rosas de maio

May 1, 2019 § 1 Comment

tumblr.com


as rosas de maio
florescem nas torres mais altas
dos homens mais altos, das sementes mais fundas

por isso,
os homens galopavam rápido,
montavam bestas na perseguição da terra,
desbravavam de cascos a trajetória,
as veias na pulsação da humanidade

e chegavam com bestas nos braços,
os ossos quebrados de cestos de flores

eram tais homens que edificavam o mundo,
martelavam ferozes o futuro na leveza das pétalas,
os caules que sustentavam os saltos,
impulsionavam as subidas

eram eles os plantadores dos jardins mais altos e inalcançáveis
exatamente os mesmos plantadores de hoje

e as torres, essas, fixos planaltos,
balançavam os corações das corolas,
crianças plantadas num vento maternal, embaladas,
o peito azul leitoso na liberdade

porque partiam contínuos, irrefletidos, instintivos e puros

partiam permanentemente ainda que não voltassem

velocíssimos, trabalhavam excelsos essa lonjura
a proximidade da alma à essência da terra

partiam vagos mas seguros, montados no coração das vagas

e galgavam as próprias torres com a carne ferida
aberta de lava, até ao último perfume inocente,
a última gota de sede

e tudo era sanguinário, preciso e belo

a formusura brotada do sangue e da luta

e tudo era corações de fogo a proteger

e tudo por um futuro isento e assegurado

e tudo eram eles
e eles dentro de tudo eram tudo

as rosas de maio nas torres mais altas dos homens mais homens

era assim

e as crianças cresciam das bermas e aproximavam-se

não tinham medo das torres nem dos homens de lume

escalavam a pedra e a carne como botões verdes,
e equilibravam-se felizes,
bailarinas sobre as vigias levitadas,
o corpo imaculado entre as roseiras,
o peito ao longo dos parapeitos de luz

assim penso que era

como penso agora as mesmas as torres, ainda,
só que mais baixas dos homens mindinhos,
das sementes mais deslavadas e desvalidas

os homens
que ainda galgam canteiros espelhados de serranias

ainda os mesmos,
dos mesmos fantasmas,
ainda deles as mesmas torres,
delas o corpo da poeira e da folia

e as bestas saudosas, as mesmas ainda,
velocíssimas, recuadas, retraídas,
a arriscar o retorno por atalhos de melaço

um dia vão encontrar-se lá trás com este futuro

e as rosas ainda delas, fotográficas e sublimes
a ajardinar o passado gigante nos retratos

e as crianças, bailarinas ainda,
mas tristes entre as valas,
as cortinas das giestas,
intermitentes na prata do cascalho

têm os olhos postos nos cascos das bestas
e não os tiram, que elas não mexem

se pudesse regá-las a elas e às rosas sem ser de sal,
pela única, derradeira esperança do derradeiro campanário

a gota ainda latejante do inerte, ainda o mesmo plantador

talvez ainda uma semente que restasse,
uma roseira por brotar na pedra de qualquer torre

remus II

April 17, 2019 § Leave a comment

aminoapps.com

porque amamos demasiado o impossível
colocámo-nos céleres na boca do amor,
nus e do avesso para fora da carne
só para beijar na língua o precipício
trilhar o lábio no dente da escuridão
rapidamente desentender essa dor que aguçamos,
descemos mélicos pela escoriação
no fio frágil do sangue

amamos

e porque somos ininterruptos
essa dor masoquista insiste
persiste na aceleração das aves
no prazer delineado pela semente açucarada,
a avidez vertiginosa no bico da quimera

aves pré-históricas, flores carnívoras, feras desenfreadas
somos nós, rápidos

amamos

e porque amamos demasiado a loucura,
de sofrer trajados essa cegueira
guia para as funduras do peito
pelos atalhos das cidades encantadas,
brotamos pássaros azuis dos gestos ávidos
e cardumes fluorescentes da tremura do pânico,
e povoamos o céu com toda a felicidade desse medo

amamos

e assim na fome, pela foz diluída do esquecimento
o coração leitoso atravessa o oceano dentro da espera
sozinho na barca latejante do início
mais tenro que a rendição transparente do corpo
mais doce que a humidade gotejante do amor
mais crente que o amor imagina
que o amor leitoso pelas ondas da invisibilidade

viaja o impossível
ao encontro do amor

no desespero do amor

e imagina tudo possível
enquanto rema

autem II

March 27, 2019 § Leave a comment

weheartit.com

a felicidade tem uma luminescência tua que dança comigo
campos rodados de flores e árvores nas minhas carnes noturnas
lagos que perfuro embriagada das tuas mãos

todas as madrugadas cuido
todas as madrugadas são solares e deito-me na tua calma,
lavro o teu tempo no meu campo orbicular de flores

são as estações pelo júbilo transpirado e circular,
circunscritas,
de ti circunspecto como o sonho a infância e a tarde

e todos os lobos interiores sitiados neste lume ululam,
celebram para lá das fronteiras clareiras novas

e se me assustas
construo depressa uma casa e largo-lhe dentro um sol,
solto a pelagem da matilha e estremeço por dentro

porque sou quase gente quando mordo ou quando agonizo,
injurio-me e entristeço-me

sou simples, é isso

simples como tu
quando demoras o tempo exato de eu engolir o que sinto

o mesmo que levo a apaziguar qualquer padecimento

o amor

o amor trespassado de trilhos e feras tresmalhadas

caçamos ou fugimos?

todas as madrugadas festejo-te e danço-me
enquanto te interrogo sobre como vão os campos

e respondes-me sempre com o teu silêncio
que vão bem e que estão preenchidos de códigos e flores

e grito reconstruída essa felicidade num contorno de lágrima
o projétil perfurado no meu peito inaugurado de vítima

porque existires às vezes basta-me

e do telhado cresço uma janela espontânea que não vês
de onde me vejo escancarada numa ave que chega daí,
às vezes um inseto desgovernado na luz que me tange,
morre logo depois como a lonjura

um movimento que morre como eu morro

são as tuas mãos que me fecham me perdoam e salvam,
tremem o contentamento e ressuscitam-no do medo
enquanto descerro os lábios para beijar-te

acho que me conheces bem e ao meu paladar

somos velocíssimos nesta dança obscena
e a felicidade esta fera amestrada e amedrontada,
e as nossas línguas lavradas pelo mesmo lanho ferido

e evaporamos campos e lagos néones, etéreos
e voláteis que quase perecemos neles

nus inauguramos a espécie
e nada mais importa que esta embriaguez sobressaltada

desfalecer para reconstruir de novo

opium

March 7, 2019 § Leave a comment

todas as flores se tornam incompreensíveis sem a tua presença

como barcos subitamente avistados repentinamente submersos

naufragam vazias no betão

quero dizer que é o amor
e que simultaneamente me angustio com a fragilidade das distâncias

e porque existem flores
tenho saudades e outras coisas indecifráveis como pedras, folhas
caules e raízes à deriva na solidão

papoilas
cujas pétalas são a tua língua que se repete
de encontro ao céu da minha boca
e a humidade uma chuva lenta num lugar de insanidade

assim tento entender a ordem do mundo
alternando a ordem das flores num campo aberto incendiado

qual é a primeira papoila? sendo tu sangue na planície inóspita?

e espero
e espero
e espero
enquanto o amor dá voltas às raízes escalando o caule da vida

depois desisto

de serem mudas as coisas dentro delas mesmas e das repostas
e os barcos terem já partido ou nunca sequer terem chegado

para que lado se move a flor na estanqueidade do sonho?
para que lado verte a seiva do nosso amor?
para que lado caminham as raízes do coração?

sendo tu primitivo caule, fonte da inaudível saudade

e tu papoila
amor à procura de terra nesta miragem de chão

iter I

February 9, 2019 § 1 Comment

ebaumsworld.com


eis a beleza abrupta do início
pequeno barco na rota dos pés

dá-me a tua mão verde para o aplauso
para navegar o começo
que é do princípio que me dispo
que é da partida que te colho
qualquer palavra muda na faina

eis que partimos, musicais pedras,
espécies intraduzíveis, corais
ao fundo dos peixes das flores

eis muitas ilhas à esquina do amor

escarpado fim

dá-me a tua mão azul magnífica
e não te apresses solar, náufrago
na jangada de luz
na violência feliz de aportar

guardo comigo a obstinação solene de uma árvore
o mastro atravessado no peito da planície
e a quilha ao leme da respirável terra

assim, espero-te
rasgada pela costura do mar,
boca desfraldada, o teu dedo a prumo da paisagem
martelo húmido à vela no cabelo

eis que somos deuses e inauguramos juntos esta miragem

eis o navio à proa do sortilégio das marés

deixa-te inábil, sobreposto
na barcola da pele em que me largo

e que te prenda apenas o vento vertical
a veia na inquietação do sangue

guio-me pelo fluxo dos teus lábios
pelo pulso dos teus olhos
e emerjo à tona instintiva das vagas com a memória
essa fome espumada no vício da tua língua

assim, cobre-me de cuspo ou espuma ou febre
e estende-me as cinzas em inflamáveis gestos
um braço, um ramo eternamente jovem até à ilha do fim
onde firme os dentes no nervo da terra descarnada

que é violenta a planície do amor
e embriagado o arrasto no respiradouro da paisagem

e eu, sou pulmonar no convés da fraga

se respirares devagarinho bem ao de leve
decifrarei no hálito o caminho,
entrarei mar adentro pela fenda nua,
a ferida aberta da largada

remus

February 1, 2019 § Leave a comment

aminoapps.com

porque amamos demasiado o impossível
colocámo-nos céleres na boca do amor,
nus e do avesso para fora da carne
só para beijar na língua o precipício
trilhar o lábio no dente da escuridão
rapidamente desentender essa dor que aguçamos,
descemos mélicos pela escoriação
no fio frágil do sangue

amamos

e porque somos ininterruptos
essa dor masoquista insiste
persiste na aceleração das aves
no prazer delineado pela semente açucarada,
a avidez vertiginosa no bico da quimera

aves pré-históricas, flores carnívoras, feras desenfreadas
somos nós, rápidos

amamos

e porque amamos demasiado a loucura,
de sofrer trajados essa cegueira
guia para as funduras do peito
pelos atalhos das cidades encantadas,
brotamos pássaros azuis dos gestos ávidos
e cardumes fluorescentes da tremura do pânico,
e povoamos o céu com toda a felicidade desse medo

amamos

e assim na fome, pela foz diluída do esquecimento
o coração leitoso atravessa o oceano dentro da espera
sozinho na barca latejante do início
mais tenro que a rendição transparente do corpo
mais doce que a humidade gotejante do amor
mais crente que o amor imagina
que o amor leitoso pelas ondas da invisibilidade

viaja o impossível
ao encontro do amor

no desespero do amor

e imagina tudo possível
enquanto rema

receptum

January 23, 2019 § Leave a comment

justtellmeyourheartsdesire.tumblr.com

agora meu amor
é simples

é olhar em frente para andar para trás

e quer isto dizer
trazer o mar à fonte impossível pela borda do peito
mergulhar os olhos para lavar as mãos
correr para esconder o corpo

porque agora
meu amor
em que me vês
não sabes que ainda sou invisível

e que o silêncio é uma espécie de recuo
para encontrar-te

noctem

January 17, 2019 § 2 Comments

era noite

o coração das meninas sangrentas subia e descia a roupa nos espelhos
como gatos vermelhos, pintados de azul
pintados de amor, desfolhados de vidros e flores

era noite
e as magnólias abriam bocas pelas frestas carne
que abriam e fechavam olhos nos olhos
nos lagos da noite, como lábios feridos
como pernas descontroladas no vento

lábios que pendiam e lambiam a água na água do vento para matar a sede
pernas que corriam e procuravam caminhos e se perdiam
portas por onde entravam e saiam corações húmidos, ou gatos exaltados que afligiam
ou membros desconjugados que suavam
ou sonhos submersos que emergiam, que subiam
que desciam torres que pousavam

era noite

e o coração das meninas sangrentas batia a pique nas constelações
rodava maçanetas dentro e fora da bruma para deixar entrar a luz aquática do mundo
abrir o espaço ao espaço descerrado do amor

era noite

e os gatos subiam e desciam irrequietos o suor, o cuspo, os braços
o êxtase por dentro e nas pausas da apneia transpirada do amor
das mãos nas mãos doces, perfumadas do amor

era noite e era o amor

e as magnólias cintilantes nas mãos, nas janelas
levitavam na bruma a alumiar uma dor antiga
que o tempo de portas e de gatos e de bocas e de humidades esbateu

era noite

e o coração delas batia de encontro às paredes
às esquinas para acalmar a urgência

rasgava-lhes o peito pelo rasgo do medo para deixar entrar o amor
ou deixar sair o amor para respirar lá fora uma árvore ou uma flor de sangue
por onde os corações e os gatos fugiam e regressavam do tempo por dentro e fora da bruma

era noite e o coração das meninas sangrentas pulsava as magnólias
que o amor regava desde os olhos dos lagos geminados,
até às árvores magníficas das raízes mais profundas

magnólias húmidas que se dilatavam, distendiam, subiam e tocavam

e os bichos, apenas vultos de luz
ou de flores luminosas sem tontas inquietações

era noite

noite pura

e os corações dilatavam-se na bruma, beijavam-se longamente
latejavam as cabeças dos gatos velocíssimas
até libertarem dos peitos vagidos por entre as poeiras mais secas das esquinas mais cortantes

as meninas respiravam na noite
enquanto os gatos arqueados subiam e desciam, amassavam, sentavam-se sobre os peitos, estendiam-se, espreitavam pelos umbigos para ver de onde a aflição do amor nascia
mergulhavam as cabeças dentro da carne aberta, para acalmarem os martelos das flores
das mãos polarizadas no êxtase

era noite escuríssima

e barrigas pulsavam, tocavam-se, subiam e desciam brancas como a lua
levitavam o instinto até às constelações,
mergulhavam até aos abismos mais inexplicáveis da frágil humanidade

era noite e as meninas procuravam dentro do sonho a boca do amor

com as mãos, com as línguas, remexiam a humidade mais levitada das margens
enquanto os gatos espetavam as unhas na entrada do nascimento à espera das sementes

era noite
e a boca do amor andava por dentro das veias, desde a cabeça até aos pés a latejar
a beijar as paredes mais íntimas, as superfícies mais leitosas, rendilhadas e interiores da pele

e a boca sempre que beijava dilatava-se dentro delas que empinavam os ventres
arqueavam as costas
faziam uma ponte por onde o amor atravessava quente as vértebras
a carne incendiada no sentido livre do espírito

é noite e não conseguimos dormir – diziam -, não conseguimos, não conseguiremos
porque as unhas dos gatos, às vezes
apanham os cabelos sedosos do amor que vem à tona do sangue para respirar

podem matá-lo só de vê-lo, tocar-lhe,
mesmo que no sentido único e puro do amor

era noite, uma puríssima e inexplicável
espelhada noite de magnólias fluorescentes na torre envidraçada do amor

as meninas pulsavam, distendiam e fletiam os joelhos até os ossos atingirem a luz
ferirem os olhos aguado do amor, quando este fixava os olhos dilatados do coração
que subia e descia cadeiras e mesas de animais puros
arqueados
sobre a ansiedade de beijar a boca velocíssima do amor
bater nas esquinas as descobertas com chicotes de ossos e sangue

se o sonho transbordasse subitamente a pulsação, jorrasse pelo umbigo – pensavam -,
um grande lago de sangue verteria da vontade
e os corações sem unhas passariam a nado sob o arco do corpo em direção à luz

e tapavam os olhos com as mãos abertas

e o amor escutava-as a abrir e a fechar suas válvulas de aguadas bocas

soltava sementes rosadas, desejos saciados do chão ao mais longínquo espaço

e as magnólias nas árvores despidas dos jardins abriam gestos perfeitos
de perfumadas florações de encontro à felicidade

era noite
e as primeiras magnólias abriam e fechavam a boca de encontro a todas as janelas temerosas
como anémonas flutuantes no aquário do mundo

era noite
e as meninas sangrentas transpiravam rios que com as mãos puxavam até ao pescoço para se cobrirem,
afogarem o tempo do amor que as beijava dos pés à cabeça
com os corações nos gatos a latejar, a subir e a descer as paredes de magnólias brancas, crescidas de luares
e arvores a esbracejar a velocidade do amor e das sementes a espreitar de todos os poros

era noite era noite
e a noite transpirava uma bruma sobrenatural para amaciar a sede

era noite e bebiam da fonte acabada de jorrar

era noite era noite
e não beberam tudo
dos gatos dependurados nas magnólias, nas janelas, à porta dos umbigos
ou a espiar pelo arco das vértebras
pelo almofadado das bocas
pelo emaranhado das veias
a subir e a descer no sentido do caminho da berma verdejante do amor

era noite e nunca mais escurecia para deixar adormecer as magnólias
o amor no lago de sangue a tanger-lhes as bocas
entrar-lhes pelas vaginas
pousar-lhes no peito infinitas festas amorosas

noite de magnólias
noite de magnólias doces

gatos que espiavam luas húmidas
mãos tão entorpecidas na vontade
que pousavam gestos à janela espelhada da mais bela e inexplicável escuridão

apneia

January 10, 2019 § Leave a comment


meu amor
quero saber
quando correremos com o vento nas mãos para apanhar os pássaros?

vejo além um
depois daquela altíssima torre
a resvalar a tua mão aberta sobre a minha barriga

olha
como bate as asas velocíssimo que parece parado
com um coração quente no bico para meter à boca
e um relógio no peito para segurar as horas

vá lá
meu amor

é verão

solta-te dessa parede sobre o meu corpo
alcança-lhe o voo
detém a estação

o teu gesto a pique do meu ventre para apanhar os rios
trazê-los de fontes à superfície húmida dos teus gestos
descerrar os caminhos ocultos desta cidade
erguer uma altíssima árvore para regar as palavras
e esculpir um ninho

encosto-me às paredes para escutar a metrópole
chamar a ave

perguntar-te

achas que entende a velocidade deste meu mapa?

elas

December 19, 2018 § Leave a comment

tumblr_static_original.gif

as mulheres acordam e logo partem para as montanhas mais altas

ainda com os pés nos alicerces da casa
atravessam as planícies entre o quarto e a cozinha,
brotam nuas com a água dos desfiladeiros
nos gestos com que preparam o chá e recebem as manhãs

uma pele finíssima descola-se à medida que correm, atravessam a luz
despem-se no vento das divisões da casa
ultra e supranaturais

as mulheres acordam já montadas em altíssimas e velocíssimas éguas
com a nudez dos cascos pousada sobre o dorso do dia
e cavalgam enquanto estendem a roupa sobre as muralhas fugidas do passado
inclinadas sobre os abetos
com suas bocas esventradas sobre as sementes

as mulheres bruxuleantes
as mulheres mais trémulas
em pontas sobre o arame da vida atravessam as miragens
equilibram-se na vertigem do medo
tão delicadamente que aprumam o fio do horizonte com os desertos
de todas as coisas abandonadas

as mulheres com suas ancas musicais esculpem dunas para embalar os filhos

se alguém as reconhece na alucinação
é apenas porque repetem o futuro
estão na reconstrução do círculo dos relógios parados

e é já noite segura quando chegam nos comboios descarrilados
a pele enrugada da faina e um laço púrpura de sonho na pulsação

e é já noite profunda dentro de todas as horas
quando põem a mesa ainda com as pernas abertas na paisagem
os olhos pelo avesso do mundo

as mulheres

só mesmo antes de adormecerem amarradas à fome
recolhem às entranhas os bichos dos descampados
húmidos e mergulhados na sonolência do sexo
onde mamam luas enormes até nascer a manhã

e enquanto se alimentam e ausentam
as mulheres ainda estendem os braços ao comprido dos rios
salvam a leveza das poeiras e a flutuação das superfícies
escarafuncham as luras dos peixes com que humidificam o ventre
a carne alumiada da noite penetrante

as mulheres são rios e pássaros
nidificam aves contínuas no leito descontinuado das espécies

é delas o destino das longas e incompreensíveis distâncias
correr, resgatar novos e inesperados seres do pó da casa
reconstruir da louça o cristal das cidades inventadas
ordenhar dos próprios ossos o leite sobrenatural

lactea

December 13, 2018 § Leave a comment

nos dias desassossegados desato a profundidade,
desamarro os peixes dos pés para soltar as aves
e os barcos ascendem cardumes velocíssimos ao firmamento

nesse tempo,
se me morde uma pedra engulo uma árvore
e orbito endoidecida os ninhos do mar a levitar-me,
a pele pulmonar na prata dum espelho
até desaguarem pássaros nas estrelas,
romper um coágulo num navio

como é? rasgo agora o peito
já que o chão mordeu-me o pé?

o mar na maré da coxa é uma lua húmida,
sorve-me a água por dentro das marés,
jorra-me o sangue pelas narinas
descabelo-me de bichos

se respirar fortemente sangrarei um monte? uma planície? um cavalo?
planetas acoplarão no avesso destas ilhas?
serei habitável sem ardis e velas?

sinto sede,
uma anémona a latejar no arco da boca
fendida na fonte das papilas a crescer um lago,
a língua a tremer um cometa no vazio

será um ovo?

como é? engulo agora? desaguo a espécie agora?

arrasto o lábio via láctea acima?

feng shui bovidae

November 20, 2018 § Leave a comment

sem horas para voltar
as vacas viajam pela noite fluorescente

da montanha, em direção ao mar
deslocam-se velocíssimas, plácidas
tão transcendentes e crédulas
com os dentes rilhados na metafísica do amor

porque as vacas, quando ascendem amorosamente ao dorso do dragão
atravessam com ele, e nele a pele
o coração descerrado do feng shui
que as transporta nas longíssimas viagens que fazem

porque as vacas místicas fazem longas distâncias
amando profundamente os trilhos
e todos os espaços abertos e fundamentais

como tal
enquanto o fazem, assim, magníficas
suspensas na insanidade que se distende
sonham vagamente que são felizes
desde o sangue à terra espiritual

planando altíssimo a imensidão instintiva
no sentido enigmático do fascínio e da carne
enquanto ruminam suspensas a vida
agarradas ao açúcar

porque as vacas espirituais são doces

tão doces quanto violentas e amargas
como todas as coisas belas
e inexplicavelmente puras

como o dragão que idolatram
trespassa-as e incendeia-as na noite
com seu inflamável fôlego

com ele rompem o ar desde o cume mais alto
ao colo do medo impulsionador
e projetam-se absortas contra o início
contra todas as torres subitamente erguidas e esventradas
com o seu cio muito puro e vertiginoso
inaugurando os corpos
ferindo a pele nas arestas do betão antigo
sangrando súbitas janelas na pulsação

e mugem
mugem altíssimo

sempre que o dragão ruge
elas mugem e abrem-se

e ele atravessa o espaço

corta-as ao meio da luz
e elas sangram
no alto espiráculo dos grandes arranha-céus
antes da fome as impelir sobre o abismo no sentido do mar
no sentido do amor, do medo, e da transgressão
que tremem desde o cerne animalesco
do vento e da água hiperfísica
contra todas as perplexidades

ele ruge

elas mugem

e o dragão inclina-se sobre elas
que abrem as bocas e sorvem o hálito penetrante
com o cio ultranatural das fêmeas contagiadas
descerrando pacientemente as pernas sob o dorso
inclinadas para trás
atirando o peito de encontro às constelações
inebriadas no álcool cristalino da alucinação

metafisicamente felizes desde as funduras do amor
com o arco das vértebras em chamas
sob o tórax escaldante do bicho
enquanto sorvem arqueadas o sal
a espuma incandescente
o suco imaturo dos grandes campos alagados e antigos

ruminam e exorcizam delicadamente os peixes
para perpetuar a correnteza da espécie
uma montanha inteira e sôfrega
enrolada no arco da língua
suspensa nas órbitas geminadas
para que não se esgote nunca o suco transcendente
da incompreensível humidade da terra e do amor

pensam tudo isto
e desfalecem os flancos de encontro ao sangue do poente
prostradas
e com o sonho nas mãos da noite a latejar
bebendo todas as horas num só trago de felicidade

com tempo
e sem tempo para voltar

as meninas no descarrilamento do amor

November 15, 2018 § Leave a comment

joshyeston.com

as meninas sangrentas
esbofetearam-se uma noite inteira por culpa do amor

até caras cósmicas gigantes vermelhas
no sangue incandescente do amor

as mãos esventradas, esferas espalmadas no súbito impacto
da estepe árida sedenta do amor

dobradas nas cervicais da culpa
tremeram
até golpearem as línguas na faca das palavras interditas

amor
amor
amor

acidentais na velocidade

primeiro no medo, enroladas e húmidas
depois nos gestos, bafejadas e tímidas

íntimas e íntimas e mudas e rápidas

as meninas sangrentas
acordaram antes do sono antes da estação do amor
por culpa da culpabilidade do amor
e tentaram recompor-se
à cabeça dorida, vergada sobre o ombro descarrilado do amor
um comboio estropiado na penumbra a gotejar óleo no linho

gemeram e bocejaram no unto a carne
o sangue
a dor

e depois
de mãos soltas, verteram o tédio no mijo

ohhhhh – demoradamente, muito longamente, elas
quentes na noite!

no mijo desnatado da noite
das cabeças quebradas
dos corações forasteiros
dos comboios descarrilados nas planícies profundas

nocturnas como o sangue
abafadas como o sangue
verdes como o nada

as meninas esvaziaram-se completamente

depois perfuraram o corpo deitadas sobre a linha da viagem
até atingirem a rendição sem retorno

as mãos para cima e para baixo no descarrilamento
as mãos para fora e para dentro do descarrilamento
as mãos para cima e para baixo pelo descarrilamento
as mãos completamente descarriladas – Oh!
desvairadas pelo arrasto estremunhado da paisagem nocturna

noite acima, noite dentro
como traças baças e vento

e deixaram-se assim gemer uma noite inteira entre as estações
a tentar recompor a dobra dolorosa do pescoço,
levitá-lo do vinco, alinhá-lo no farelo dos ossos

depois pentear as riças do cabelo antes da estação enervante do amor
antes se enervarem mesmo
antes do amor nervoso na estação
antes delas lá, na estação nervosa
elas e o amor
uníssono nervo estacionado

um pescoço um mastro, o cabelo uma vela na transpiração
lambida do amor alinhado

até lá, uma noite inteira inchada e infinita
um comboio latejante na tempestade

e nelas um pente pela dobra da coxa, um lanho pelo fundo do ventre
a acenar ainda a velocidade pretérita
imparável no espaço atravessado da noite descarrilada
das palavras ulceradas da terra por descobrir

e a íris rasgada no vidro da máquina despedaçada
desfocada sobre a paisagem
a língua golpeada na trepidação do dente nocturno
do dente feio no recorte da vontade por concluir
amarelo linho, amarelo lua, amarelo bexiga, amarelo larva

amarelo tempo

as meninas sangrentas ergueram-se ácidas e amarelas e esfarrapadas
e arrastaram-se remelosas e ajoelhadas para o descarrilamento

trôpegas
foram lacrimejar húmidas na linha
desfalecer o rosto dormente e comichoso no ferro

Oh! É frio o amor? – entreolharam-se e morderam-se

os pescoços inclinados no vértice do ombro da viagem
a escutar de orelha o leite da coxa a trepidar pela linha
a travessia da noite a escorrer pela veia do carril

vem aí! deitem-se!
às pernas pelos tornozelos aguilhoados do amor

e
noite dentro, noite fora, dor por dentro, dor na hora
pensamento, tempo-hora, sangue dentro, leite fora
no pensamento impaciente do amor

no ferro frio da linha quebrada do amor
pelos círculos distendidos do amor

no amarelo mijo do amor

do comboio descarrilado na obstrução coagulada do amor

sangue vivo do amor
sem estação

rete

October 29, 2018 § Leave a comment

vejo algumas vezes o amor no lago abstraído dos teus olhos

se mergulho peixes daqui para aí
se vão ao fundo e voltam
não me dizem

fica no segredo do amor

também
como nadaria eu os teus peixes dentro dos meus lagos tristes
caso os houvesse?

que lhes daria de comer à superfície turva da minha fome?

penso nisto e nos cardumes possíveis e quase cego

não fossem as tuas pálpebras fecharem-se logo
não restariam peixes
ou outra qualquer humidade para a cenestesia líquida do amor

baixa-mar

October 23, 2018 § Leave a comment

o tempo que leva a baixa-mar
é o mesmo da humidade dos teus olhos

assim, mal chego
despeço-me de ti e dos bichos

dormem agora o fundo complexo das horas e das palavras
e resguardam o amor submerso

tenho a impaciência das marés no cálculo impreciso dos baixios
e desconfio-me às vezes presa na rebentação,
outras vezes rebentação apenas

angustio, mas despreocupo-me logo
pois nada é previsível e seguro dentro e fora do mar e do amor
como o reflexo dos olhos e a liquidez das palavras

como tal
provavelmente, quando o mar me descobre calo-me
e tu, fechas-me nua dentro da humidade dos teus olhos
onde sobrevivo na profundidade,
onde ovulo versos por construir

e faço coisas inimagináveis onde nascem e desovam as espécies
que nem eu sei, apenas tu o mar e o amor
quando desço até ti a superfície vertiginosa
no mesmo instante em que te cumprimento e aos bichos
e me despeço

ms III

October 19, 2018 § Leave a comment

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

assim, viaja de umas para as outras
dilata-se nas veias, irrompe da carne
verte pulsar sobre as coisas

e destas por sobre a pele até ao imo dos ossos
como as cinzas e o soro da reconstrução

as meninas sangrentas emergem da correnteza
saltam diretamente da medula dos ossos para as janelas descerradas da casa
íntimas, molhadas, voltadas para o universo nu
do fluxo para o aquário do mundo

– é uma lua vermelha – dizem, apontam o céu de dento da contemplação

o sangue das meninas sangrentas é a matéria da contemplação

– é um boca redonda por sobre o mundo, um conceito antes do nome
– não é
– o nome é uma invenção e a lua é uma língua enrolada
desentendem-se enquanto juntas e acocoradas observam os astros
discutem o mar, a terra, as constelações e outras coisas aparentemente menores

ou entendem-se
e juntas atiram velharias contra o mundo como casas abandonadas
relógios desregulados, bonecas decapitadas, corações vendados
signos avariados, viagens acidentais
cartas incendiadas e/ou certos poemas desmembrados

– não é uma invenção. é um coágulo em chamas que dói
como as palavras mudas que ardem permanentemente dentro de nós

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

– é uma dor em achas como um deus ultracongelado
– um peixe?
– não. um bode num lugar muito antigo e frio

e concordam que deus bale muito e que arde como o fogo e o gelo
e os cornos
como a dor da carne em florestas longínquas
até ser atirado fora com as velharias

pensam nisto com as mãos espremidas dentro do avesso da carne
à procura de plenitude por dentro e por fora do sangue
de dentro e de fora da dor e da desarrumação,
com os peitos descolados e quentes estendidos sobre o peitoril,
um mapa que distendem para procurar caminhos nas veias que escapam, confundem-se, apodrecem
formam vermes que gotejam sobre os pés num abandono em ruínas

– é aqui o céu. está aqui neste lugar. aqui
e olham todas no sentido interior, depois para cima
e depois fixamente nos olhos e na desconfiança

e odeiam-se e amam-se e acariciam-se e ferem-se
da boca ao ânus e do ânus à língua velozes e ágeis
cada vez mais rápidas da boca ao ânus e do ânus à língua
cada vez mais exaustas
e vazias
desgastadas de perplexidades

– não é uma lua. é o amor que arde como um sol
– como as palavras e os gestos rebentados que nunca deveriam ter acontecido
– como aquela constelação de ser tão clara e pura

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do espaço
– é um bode que ascende o circulo dos cornos depois desce no sentido da terra
– tem um rabo de peixe. deveria de nadar com a luz no sentido do infinito
– as escamas são as estrelas da fuga

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do medo na reedificação do deus
– é um lago escuro onde o amor é irrespirável e desconhecido.

e sacodem as mãos frenéticas para soltar os peixes, as dúvidas, os caminhos
os sentimentos difusos de dentro do pensamento sem quebrá-lo
com os dedos em chamas por sobre a pele, por dentro da noite estilhaçada
mastigando os gemidos por entre as coisas ainda vivas
como as felicidades, os sonhos, a saudade e as doces palpitações

– é o petróleo que arde as palavras que se transformam em árvores transparentes
– como os brinquedos das inconsciências, evaporados
que ascendem e mergulham na lua
– e que fervem no seu interior e que desabarão sobre o mundo

o sangue das meninas sangrentas ferve o caos
dentro da obstipação e dos gestos desregulados como uma lua vermelha

– é um coágulo. é um coágulo. transpira. não olhem que vai rebentar
– é o céu que abre o cu
– viu-nos e cairá sobre nós como as palavras mortas e os deuses falsos
– fechem a janela ao cu celeste depressa
e tapam os ouvidos umas às outras com escuridões cantilenas e gritos

trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, là …

até à contração de todos os espiráculos naturais, de tudo o que pensam
temem e experimentam, que existe de mais cruel, porco e obsceno
até ao derrame do encantamento sobre o esquecimento
com que se erguem as paredes mais fortes e os muros mais espessos
como o passado enfadonho e as ruínas para o futuro mais triste

– vamos comer rebuçados, beber água e fazer chichi
e retiram-se molhadas e quentes para o interior doce e amarelo das coxas

vão baloiçar-se, urinar e pentear-se longamente e à tristeza
com o açúcar que lhes resta,
umas às outras as cabeças doloridas de tentarem tudo
com os olhos dilatados de tentarem a lua de sangue depois fugirem dela

e enquanto chupam e urinam na noite
babam-se e choram os rebentamentos
beijam-se e acariciam-se com os medos

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do esquecimento
de terem acreditado que as coisas que amavam eram para sempre
que era possível reter o amor

– o amor era um rio amarelo e quente que fervia
– era um sol antes de nascer o dia, o amor
– era o petróleo das palavras que ardiam o sentido, o amor

e batem com as mãos sobre as bocas para não dizer mais infelicidades
e batem com os pulsos abertos a arder por sobre o petróleo do peito
para não sentir mais nada
e enterram os dedos duros dentro das vaginas para não deixar escapar as flores
– deixem lá. deixem sair que é um jardim. abram
e distendem os vales por sobre a planície do recolhimento expulsando das entranhas todas as paisagens interiores

– é chichi.
– não é. estamos dentro do sangue. são flores
– e deus é um espiráculo. as bonecas fugiram. ascendem carregadas. cavalgam decapitadas o dorso do signo
– olhem olhem. retornam à pureza da constelação. entrarão na lua com as quinquilharias e os cestos transbordados de flores

– deus vai apanhá-las. vai caçá-las e desfaze-las em pó
e fecham os olhos para não ver as bonecas de encontro ao abismo
nuas, carregadas e cegas, cobertas de flores

– é sangue. a matéria inexplicável do amor – pensam
enquanto o deus sorve, rumina, bafeja, seca, esfarela a carne e os objetos desperdiçados entre as pétalas rubras das flores que deram à margem com as cabeças cegas, escaparam infecundas ao interior espremido das coxas

– é sangue. a matéria inexplicável do amor
enquanto deus arfa, transpira, esfrega tudo com a fricção da loucura
com a excitação e o êxtase supremo da criação

– deus é orgásmico. deus é um sádico que vir-se-á terrífico sobre nós, sobre o mundo
– como as palavras? como o leite? como o fogo?
– como o sangue interior que não cumpriu o seu curso
– como as palavras que não aconteceram, as brancas que ditam o fim
e erguem-se nuas sobre a corrente

– é o fim
– é o início
o sangue das meninas sangrentas é matéria prima indistinta de deus e do amor

a descerram as pernas para absorver a noite, o deus, o leite, o jardim imaginário

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima da reconstrução
trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, lá …

ut

October 13, 2018 § Leave a comment

ai de mim
se adivinhasse o sangue dessas flores
até onde perfuram os ganchos as borboletas
até onde atravessam as asas a ferrugem dos ossos
as canoas entre as empenas do meu sangue
até onde rasgo a carne entre a farpa das unhas
até onde os meus chicotes na órbita dos medos
até onde tudo perdido por uma nesga de perfeição

até onde me levam estas velas loucas? os mastros?
até quando demora na pele este vento? o cabelo?

se soubesse a música longínqua desse espaço ínfimo
a forma geométrica velocíssima desse tempo
talvez adormecesse de vez o meu peito na folha
a boca apertada num ramo inteiro de uma árvore
e lambesse longamente essa casca até ao infinito
molhada de açúcar e fruta explodida de espelhos
a lágrima da viagem no crescente prateado da retina
e o céu todo um suco vertido no espasmo da língua
e o mar hibernado um lençol de muco e redes
e saísse por aí a chover o meu telhado num dilúvio de penas
um bando de casas nas asas breves dos passarinhos
apenas para esculpir jardins na sebe das paredes
e adormecer amorosa os meus ovos no arco desses ninhos

ita

October 10, 2018 § Leave a comment

porque existem aves existem olhos
pés porque existem caminhos
só tem de existir o vento
porque sem respirar não vou
não choro não preencho o corpo
as pedras na dor do espaço

porque existem árvores e sangro
porque existe céu e tropeço
de tudo tão curvo e tão baço
de tudo estar sempre a morrer
tudo o que está sempre a chegar
que apenas quando alguém me pensa
no instante em que alguém me quer
pertenço a algum lugar

autem

September 30, 2018 § Leave a comment

o hálito bafeja os cabelos – quero-te
e as fontes vertem por sobre a carnação – quero-te

é o fim
é o recomeço

enlaça-te em mim Capricórnio de palmas descerradas
o corpo até ao imo da dúvida – quero-te

quero-te desde as raízes submissas às mãos hábeis
peixes doces ou feras desgovernadas
plumagem ou prumos, dentes ou cordas
portos
soturnidades

vem por dentro de mim Escorpião
destranco os ossos e a pele às sedas
o mapa vertebral aos bichos pulmonares

aproxima-te

chegai-vos ambos por sobre e dentro
antes de atingiram o leito as bestas no berço do retorno
enquanto ainda incautas e crédulas
ébrias à tona do susto para respirar

apanho-lhes a língua e pronto
arranco-a das bocas à superfície do deslumbramento
alimento-me dessa humidade mélica do refúgio

porque são as paredes os braços e os gestos aguados
os rios que seguem o sentido puro da aceleração

assim toma-me e observa-me bem
como te deslizo as mãos pela negritude
escorregas-me e ascendo lívida das pinças aos espelhos

sou o teu firmamento de prata agora – olha-me fixamente
estou a galope do teu joelho montada no pasmo
abro os braços – cavalgo selvaticamente
ininterruptamente sou asas – o meu corpo é vento
transpira-me enquanto ascendo ao vértice lunar

galopo no teu joelho
galopo-te

sou uma égua selvagem e uma égua triste
uma onda tresmalhada no alto mar
uma lágrima de espada contra o golpe

agarra-me pelas guelras ou pelas crinas
desde a crista de espuma não me deixes voar
puxa-me com força da montanha
coloca-me por sobre o teu dorso luzidio

cavalgarei nua de fascínios e ideias – juro
entalada na manada das árvores pela correnteza
pelos cumes a plantar margens na berma dos rios
até à costura do medo e dos teus gestos
porque sou uma jangada e sou um barco à deriva

na pulsação terrífica sou o naufrágio
a velocidade a pique do embate do precipício

apanha-me desse lado do mar da areia perdida
e ancora-me às pedras no pulso da ilha
enquanto é tempo e espaço
tão somente eu e tu pelo descarrilamento do amor

abre o peito Escorpião desde os primeiros orifícios
que deitar-me-ei noturna sobre o abandono
embalada sob a pele de todos os silêncios antigos
coberta das imagens embrionárias

sou uma árvore transparente – olha como caminho
desenha-me os frutos desde a partida para a fome líquida

somos primeiramente os bichos depois as luminescências
temos de acender-nos por dentro desde a nudez das raízes

sou uma égua selvagem e uma égua triste
uma onda no alto mar uma lágrima de espada

agarra-me pelas crinas da crista de espuma
não me permitas naufragar
puxa-me da montanha à superfície da manhã
sem nunca me soltares Capricórnio da noite convulsa

tenho esta carta-constelação que te iliba e salva
com que alumiarei o esquife da despedida
suturarei em pranto condoídas deslocações
de termos partido sem termos chegado ainda
aos verdadeiros símbolos dos inóspitos lugares

que incompreensível que triste meu amor tudo isto
não termos levitado a tempo o mar nos braços
erguido os navios a pique da lua e deixá-los lá

não termos pescado naturalmente a leveza
as estrelas de dentro da simplicidade

o que é isto, o que foi, de que somos feitos agora?

tenho o peso do leito mais fundo sob a asfixia

de que ideia se fazem estas descobertas?
onde pouso as mãos neste interregno da manobra?
para que poente esvoaçam as borboletas?
abro a boca para que atrevimento, que asas ou que cores?
quem desenha o arco da ponte para a travessia?

eu sei eu sei, devemo-nos ao recolhimento

somos demasiado rebuscados para estas simples humanidades

descansemos pois Capricórnio-Escorpião ancorados
por sobre o suor das breves pedras
com os pulsos abertos para o futuro
o sangue a verter desde a fonte interior do tempo

e usemos as línguas contra as escoriações

lambo-me agora – vês?
é o meu peito contra os vendavais

lambemo-nos pois
lambemo-nos intermitentemente neste deserto solar
enquanto o sal derrete a vertigem da paisagem
e as línguas secam sob o mercúrio do sonho

ardo no alto da tamareira do amor sou uma vela nua

a minha chama ascende
a minha cera dilui-se a caminho da terra

olha como os nossos bichos além se misturam soltos
como atravessam transviados uma manada triste

é o vento, é o fogo – não – são eles, somos nós

se pudesse a resiliência da forma – segurá-la,
o meu braço um porto, uma foz, uma derrocada,
um deslizamento, lava, núcleo, astro, fim

dar-lhes-ia uma festa daqui tão longamente
tão docemente um coração para deter o instante
tão longe e tão cruel e tão rápido

se fosse terra serena e tu brisa de seda
deitar-me-ia sob os cascos da fuga
para que me ferissem e parasse

seria então mais simples entender as miragens
crescer das perfurações as flores extintas

assim termino

sem despedidas diluo-me no recolhimento
e desisto-me plácida e suavemente por sobre a memória

beijo-te daqui para sempre Muriel – quero-te
abro-te a minha boca – olha – quero-te
é um sol ou um lago ou ar apenas – quero-te
impercetível luminosidade – quero-te

beija-me tu daí Capricórnio do espiráculo do amor – quero-te

que talvez tenha sido em nós a plenitude – quero-te
e a culpa do deserto este inesperado oásis – quero-te

do Escorpião – quero-te

clic

September 21, 2018 § Leave a comment

afinal era amor, vinha atrasado
nas asas fragmentadas do panapaná

agora já está deitado, calado e triste
acordá-lo é talvez rasgar a floresta
tão somente para o deixar fugir
não mais voltar

montis

September 13, 2018 § Leave a comment

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a pedra batia o sino no alto da luz da cabeça da mulher
no tempo em que ela embalava as palavras
cobria-se com a humidade da tarde antes da noite fluorescente
com as mãos cruzadas no peito como árvores antigas
ou lagos adormecidos ou elfos ou faunos ou fadas
com o rosto voltado para o interior da magia das flores musicais
que ele semeava longe, longamente, docemente para ela
pelas margens descerradas da paciência

e a pedra que batia tão alto e tão forte no cume da escuridão
era cada vez mais elevada e inaudível
e o bulício feria e rasgava a noite completa
sangrava constelações pelas horas místicas da espera

e a pedra acontecia desde o homem da montanha
à mulher que corria livre no sentido do rasgo inexplicável
para dentro do futuro ao mesmo tempo que resvalava na luz
torcia os pés nas margens dos poços intermitentes

oh! cairei cairemos – gritava de dentro do eco da cabeça
com a língua gretada no sentido das estações
estendida para a insustentável sede vespertina

oh! essa dor esta dor na saliva do distanciamento
e lambia e lambia as feridas pelas horas da convalescença
para amolecer a carne e humedecer a fome na aceleração

poderei cair cairemos – sabia e dizia certas vezes sorridente
com os braços descerrados em asas ou em peixes ou em línguas
ou em vento pelo dorso luzidio de um potro tresmalhado
ao mesmo tempo que tentava agarrá-lo pelos flancos
puxá-lo para si deitar-se nele ou com ele nos descampados
onde suaria e inspiraria e rasparia os próprios cascos
nos lábios suturados e fragmentados da terra alienígena

poderemos quem sabe quem diz pertencer ao mesmo coração das pedras
bater com elas assim duras dentro da gente desemparedada
abrir estas fontes evaporadas de espuma sobrenatural

e enquanto pensava ou dizia ou fazia tudo isto, temia
e gritava tão terrificamente que brotavam fontes na montanha
do homem entre as pedras fluorescentes a plantar corações
que ficavam a brilhar com as estrelas até não existir mais espaço
entre elas os dias e as palavras no pensamento e no amor
como beijos geminados ou desfalecimentos da quimera

e crescia e crescia tudo abrindo e fechando tudo
abrindo-se e fechando-se como um pulmão magoado
um coração estelar abrindo e fechando as válvulas feridas da noite
com os olhos enfraquecidos das horas solares
estalando tudo nos ossos vibratórios da transpiração do amor

e a pedra batia tão forte tão fortemente e tão dura
que por vezes era tão mole e tão líquida que sangrava areia do peito
na resiliência do amor que nela corria e em torno de si mesma
a rodar a rodar os desertos nos espelhos das miragens

a pedra que trespassava o tempo para ecoar nas paragens distantes
dentro de todos os relógios para cobrir todos os desacertos
das caçadas violentas de encontro à felicidade impossível

vamos cair cairemos falava ela ou cantava ou chorava tanto faz
que é tudo a mesma coisa nesta vida o resto inventamos nós
– enquanto acelerava abria a boca no arco duma clave
para que ele acertasse o compasso da pauta nua do encantamento
entrasse despido pela aragem sincera da respiração
pelos trilhos acidentados do deslumbramento

que a pedra batia batia-lhes tão alto e tão forte nos sentimentos
dele tão longe que o medo um lanho uma porta entreaberta
dele tão perto e dentro de todas as pedras da casa incendiada
dela quase tão antiga quanto uma ruína desde as raízes
uma nuvem ou um lago que levita no vapor que embebe os telhados
pelo ciclo da água transcendental da espécie

tudo isto dele para que ela entrasse desde o dia acidental
por debaixo do ruído da cidade nua e escalasse as paredes
a mulher que procurava e se despia para entender-se
desde os pés do pensamento ao batente do coração

a mulher e o homem e a pedra
uma montanha altíssima que escalavam juntos
tão elevados tão profundamente até ao infinito
para esculpir em uníssono
todas as formas graníticas do genuíno amor

trago flores

August 24, 2018 § Leave a comment

abre
sou eu
trago flores

a solidão tem andado a perseguir-me
e os bichos, cá fora
estão cada vez mais ferozes das horas mortas que lhes tem dado a comer

alguns têm asas nas patas e dão dentadas no céu
sobem o ar pela espinha da fé e chove sangue nos rios

outros têm facas nos ossos e lapidam os corpos
até nenhum inteiro sobre a vida de dentro para fora

a solidão sempre à espreita a desmembrar-me pelas esquinas
olha – já me falta uma perna

o dia chegará em que permanecerei queda
esquecerei também o caminho desta porta
uma pedra sobre as coisas

será no fim das estações quando a solidão desligar o sol
e o avesso do dia uma grande escuridão

abre antes que anoiteça
trago flores
o passado não quis vir acho que são amantes ele e a solidão

vi-os de mãos dadas na floresta
vi-os amantizados de ideias a fornicar arrependimentos
e gemiam, oh como gemiam, suavam inteiras florestas tropicais
um masoquismo que alaga, esparge-se
cria tumores que não curam

a solidão apareceu esgadelhada e levou-me esta unha
deste dedo aqui da campainha – olha, incompleto que já não chama
doí-me desde a vontade à ideia que me trouxe
doí-me tudo a partir deste miserável dedo
o corpo a latejar um relógio onde não estás

olha as flores como murcham
uma já perdeu a cabeça de bater neste pulso
que esta gota de sangue a caminho da terra tem o aroma do fim

sei que tens jarras no centro da casa para alegrar os medos
ouço-os rir agora ou será que choram?

nunca sei de que lado ri a dor de que lado mói o prazer
de que lado ama a morte ou morre o amor
de que olhos em que olhos nos reconhecemos

mas vejo a ponta de um jardim a escorregar do teu telhado
como continuas zeloso e doméstico

no entanto esqueceste-te de limpar os vidros
tão foscos que não vejo para dentro para trás desse interior

no entanto sei que estás que dormes, é com a vida?

essa também tem falhado muito dorme demais ou não dorme nada
tem descorado as cores e está tudo pálido e poluído

trago um saco de lixo que pesa muito
dobra-me a fé pelo arco dos ossos
sou uma ponte por onde não passo
vergo-me sob mim

trago um saco de lixo que pesa muito
que vem a transbordar de medos e exterminações

sei que tens um poço aí dentro para acabar com tudo isto
atiro viro costas e fim
acabou é passado e uma escuridão sem fundo

abre que pesa
abre que doí-me o corpo desde a ponta deste dedo
desde a falta da garra para esventrar o mundo

envelhecem-me as raízes sem retorno por isso abre
que aqui deste lado está tudo entornado
e a solidão vive em contínuos desaterros

em pouco tempo veremos o vazio de um lado ao outro do mundo
o olho despejado do amor

abre abre depressa enquanto ainda o vejo
enquanto ainda o amo
tenho medo destes alçapões tão transparentes que a solidão constrói
destrói ao redor da tua casa

como anda com as horas a tecê-los ou com a vida
ou com a morte

trago flores oh como são tão lindas
se demorares morrerão e nenhuma cor
baterei com o rosto na terra e nenhuma dor
romperei os joelhos nos ossos e sangue transparente
de peito na pedra arrastar-me-ei a chamar o mundo e não virá

está por acaso contigo dessa janela a ver-me assim prostrada?

olha olha a minha boca como beija
olha a minha língua como pende a sede
amo-te quero-te antes que me dilua em sangue
um lago vermelho um mar rubro interior um coágulo

doí-me esta facada nas costas este rasgo enorme
que não sara o fundo

sei que tens jeito para curar lugares amaciares insânias

os teus dedos finos e trémulos curativos pela superfície
torcidos pela espinha adentro

abre agora que faz frio
enquanto a solidão anda em fornicações

fornicaremos também
deitamo-nos no quarto do fundo depois da jarra
o mais escuro para que não nos vejam as corolas
discretos nesta relação

cuidarei do jardim e limparei os vidros
para veremos melhor a vida como fode cá fora

assim terás inspiração para matar mais horas
ainda que sucumba tudo

olha a minha boca lê o meu aviso
o meu silêncio nos lábios como fede

a -mo -te

abre
mostra-me o peito

aceita as flores

nebula

August 22, 2018 § 2 Comments


há um olho no jardim do nevoeiro que vê tudo

vê a linha com que fio o pensamento
vê suas razões costuradas na pedra
desta minha espécie de sono ou caminho
ou sonho intermitente de lã e areia

há esse olho que fia poeiras de um coração dormente
de pequenas pedras com pulsação interior

basta-lhe aceder à cegueira pela porta dos ovos
acender o fundo das cinzas nas franjas do amor
que logo se embriagam as pedras desde as raízes
eclodem veias das fontes de neblina
e eu acedo

e o olho explica-se:
o jardim é invisível e levita
porque é do interior que se harmoniza a luz
germinam e ascendem as flores incandescentes
com suas corolas de indissolúveis cores

e eu acredito
e pestanejo as pedras no jardim do nevoeiro
com um olho cambaleante pela linha cega
pela pulsação ajardinada e líquida do amor

laica

July 26, 2018 § Leave a comment

justtellmeyourheartsdesire.tumblr.com


sem diferença entre as coisas
ver e amar é sempre uma questão de proximidade
superfície e profundidade

assim
importa-me mais a velocidade que inexistentes distâncias
e resilientes matérias

ser amorosamente instintiva e itinerante

basta

rosas de maio

May 1, 2018 § 1 Comment

tumblr.com

as rosas de maio
florescem nas torres mais altas
dos homens mais altos, das sementes mais fundas

por isso,
os homens galopavam rápido,
montavam bestas na perseguição da terra,
desbravavam de cascos a trajetória,
as veias na pulsação da humanidade

e chegavam com bestas nos braços,
os ossos quebrados de cestos de flores

eram tais homens que edificavam o mundo,
martelavam ferozes o futuro na leveza das pétalas,
os caules que sustentavam os saltos,
impulsionavam as subidas

eram eles os plantadores dos jardins mais altos e inalcançáveis
exatamente os mesmos plantadores de hoje

e as torres, essas, fixos planaltos,
balançavam os corações das corolas,
crianças plantadas num vento maternal, embaladas,
o peito azul leitoso na liberdade

porque partiam contínuos, irrefletidos, instintivos e puros

partiam permanentemente ainda que não voltassem

velocíssimos, trabalhavam excelsos essa lonjura
a proximidade da alma à essência da terra

partiam vagos mas seguros, montados no coração das vagas

e galgavam as próprias torres com a carne ferida
aberta de lava, até ao último perfume inocente,
a última gota de sede

e tudo era sanguinário, preciso e belo

a formusura brotada do sangue e da luta

e tudo era corações de fogo a proteger

e tudo por um futuro isento e assegurado

e tudo eram eles
e eles dentro de tudo eram tudo

as rosas de maio nas torres mais altas dos homens mais homens

era assim

e as crianças cresciam das bermas e aproximavam-se

não tinham medo das torres nem dos homens de lume

escalavam a pedra e a carne como botões verdes,
e equilibravam-se felizes,
bailarinas sobre as vigias levitadas,
o corpo imaculado entre as roseiras,
o peito ao longo dos parapeitos de luz

assim penso que era

como penso agora as mesmas as torres, ainda,
só que mais baixas dos homens mindinhos,
das sementes mais deslavadas e desvalidas

os homens
que ainda galgam canteiros espelhados de serranias

ainda os mesmos,
dos mesmos fantasmas,
ainda deles as mesmas torres,
delas o corpo da poeira e da folia

e as bestas saudosas, as mesmas ainda,
velocíssimas, recuadas, retraídas,
a arriscar o retorno por atalhos de melaço

um dia vão encontrar-se lá trás com este futuro

e as rosas ainda delas, fotográficas e sublimes
a ajardinar o passado gigante nos retratos

e as crianças, bailarinas ainda,
mas tristes entre as valas,
as cortinas das giestas,
intermitentes na prata do cascalho

têm os olhos postos nos cascos das bestas
e não os tiram, que elas não mexem

se pudesse regá-las a elas e às rosas sem ser de sal,
pela única, derradeira esperança do derradeiro campanário

a gota ainda latejante do inerte, ainda o mesmo plantador

talvez ainda uma semente que restasse,
uma roseira por brotar na pedra de qualquer torre

remus

April 30, 2018 § Leave a comment

aminoapps.com

porque amamos demasiado o impossível
colocámo-nos céleres na boca do amor,
nus e do avesso para fora da carne
só para beijar na língua o precipício
trilhar o lábio no dente da escuridão
rapidamente desentender essa dor que aguçamos,
descemos mélicos pela escoriação
no fio frágil do sangue

amamos

e porque somos ininterruptos
essa dor masoquista insiste
persiste na aceleração das aves
no prazer delineado pela semente açucarada,
a avidez vertiginosa no bico da quimera

aves pré-históricas, flores carnívoras, feras desenfreadas
somos nós, rápidos

amamos

e porque amamos demasiado a loucura,
de sofrer trajados essa cegueira
guia para as funduras do peito
pelos atalhos das cidades encantadas,
brotamos pássaros azuis dos gestos ávidos
e cardumes fluorescentes da tremura do pânico,
e povoamos o céu com toda a felicidade desse medo

amamos

e assim na fome, pela foz diluída do esquecimento
o coração leitoso atravessa o oceano dentro da espera
sozinho na barca latejante do início
mais tenro que a rendição transparente do corpo
mais doce que a humidade gotejante do amor
mais crente que o amor imagina
que o amor leitoso pelas ondas da invisibilidade

viaja o impossível
ao encontro do amor

no desespero do amor

e imagina tudo possível
enquanto rema

e se

April 20, 2018 § 3 Comments

weheartit.com

e se as flores forem mesmo assim, floridas
e o azul do céu na transparência, verdadeiro
e o firmamento distante e preenchido, infinito
dentro da essência volátil do amor, inteiro

e se os campos foram mesmo planícies
e os mares profundidade, exercício e espuma
e os peixes, as cores que a minha alma insiste
do teu peito ondulado no meu ser de bruma

e se o tempo for miragem da verdade refletida
e se o espaço for coragem num atalho sem saída
e se eu for mesmo eu, e tu fores tu, na hora louca

e se o ar que respiro, inspirar o ar da tua boca
e se o teu corpo for a minha manta consumida
e se o amor for mesmo assim nesta medida

nuvens

April 11, 2018 § 1 Comment

Garden of the Words_ de Makoto Shinkai

vejo cavalos a galopar no céu
desalmadamente avançam impelidos pelo vento
um é mais cinzento que o outro
um é mais claro e mais lento
outro que se lhes junta é escuro como breu

consigo não perdê-los de vista, se me esforço e tento
se me esqueço do que se intromete neste cavalgar etéreo
se busco mais longe que o olhar e me concentro

são cavalos bravos, depreendo
livres, estou certa que são
fogem assustados do escuro que os persegue
temem perder as formas nas bocas da escuridão
vai na frente um branco solto e leve

ora avançam, ora recuam de repente
depende do jeito que o olhar pressente
se a vontade almeja e a alma pode
se contorno as curvas ao redor
se fixo, se espero simplesmente

o que é escuro como pez, levanta de uma vez as patas no ar, brioso
furioso relincha num silêncio assustador e tenebroso
arrebata os companheiros de cavalgada e desfá-los em espuma
depois, como uma duna ao sopro natural, abandona-se
dilui-se aos poucos, triste como o sal do meu olhar a desistir na trovoada
e chove
chove e retumba fortemente

que pena, penso, tanta vontade transformada em nada
tanta água diluída contra a minha cena denodada
tanta história levada num só momento
tanto tempo disperso de cabeça airada
tanta bravura apartada num esparso movimento

chove
azul a um canto que se move
uma nesga de crina de cavalo branco, ainda varre o céu com desencanto
esboça o infinito para lá dos meus ensaios
do meu cinzel despedaçado pelos cascos
agora, meus cavalos são baios, entre raios de sol, perdidos
no deserto azul do meu embuste, absorvidos, já não os vejo

deslindo apenas coxins de algodão suspensos de um lustre santo
do quadro que fiz e desfiz só resta um pranto

que pena, penso, ter-se varrido tudo
não ter sequer ficado uma almofada de espuma
uma duna onde repousar meu pensamento escuso
com que moldar uma ovelha tresmalhada
talvez um campo florido onde ponha tudo
uma montanha de neve onde impera o frio
um rio azul rodeado de algodão
um rosto, de um corpo a mão
um desejo a rodear o sonho com um fio

nimirum II

March 19, 2018 § 2 Comments

se voltassem atrás as estações,
seria verão ainda

e nós os dois prostrados

e silêncio apenas

esse dialecto puro

e estanquidade apenas
essa natureza inocente

uma tarde inteira demorada e muda

que as palavras são um cadafalso
às vezes

e às vezes um atilho

e os gestos uma demolição precoce,
quase sempre

tenho sombra do telhado pousada sobre o rosto da terra

a mobília segue na decoração das árvores,
verde

um rio de carpete que corre e atravessa um cão

ladro-lhe daqui

do meu respiro não me faço entender

que língua é esta que eu falo?
que palavras descrevem os meus gestos?
de que sono sou feita?

não respirarei tão cedo eu sei,
os pássaros pela estação trocada

a bicharada escarafuncha uma fuga pelos alicerces,

terá de resistir-me depois de atravessar o mundo para respirar

terá de construir uma jangada de um fosso,
uma asa de sangue duma pedra,
um sopro dum sufoco

depois voar lágrimas como se fosse chuva
a minar-me os pés e soltar-me a terra sob a casa

se das cinzas se soltar qualquer nuvem
de qualquer tempo

inutilidade

March 12, 2018 § 4 Comments

source

meu poema é longe
como as aves dos braços e os peixes das mãos
porque nado o vazio e afundo-me,
voo as palavras e dissipo-me

não me leiam então ou às minhas penas
embebidas em sangue evaporado
são astros condenados de um universo estanque,
estrelas mortas de luz despedida

nem viajem as lágrimas dos meus dedos,
cuspo mudo do meu leito infecundo,
órbita desconhecida

imaginem apenas que não sou
nem ave, nem peixe – sou pedra
e essa pedra soterrada um verme que mirrou,
que agora é úlcera no coração da terra

elas

March 8, 2018 § Leave a comment

as mulheres acordam e logo partem para as montanhas mais altas

ainda com os pés nos alicerces da casa
atravessam as planícies entre o quarto e a cozinha,
brotam nuas com a água dos desfiladeiros
nos gestos com que preparam o chá e recebem as manhãs

uma pele finíssima descola-se à medida que correm, atravessam a luz
despem-se no vento das divisões da casa
ultra e supranaturais

as mulheres acordam já montadas em altíssimas e velocíssimas éguas
com a nudez dos cascos pousada sobre o dorso do dia
e cavalgam enquanto estendem a roupa sobre as muralhas fugidas do passado
inclinadas sobre os abetos
com suas bocas esventradas sobre as sementes

as mulheres bruxuleantes
as mulheres mais trémulas
em pontas sobre o arame da vida atravessam as miragens
equilibram-se na vertigem do medo
tão delicadamente que aprumam o fio do horizonte com os desertos
de todas as coisas abandonadas

as mulheres com suas ancas musicais esculpem dunas para embalar os filhos

se alguém as reconhece na alucinação
é apenas porque repetem o futuro
estão na reconstrução do círculo dos relógios parados

e é já noite segura quando chegam nos comboios descarrilados
a pele enrugada da faina e um laço púrpura de sonho na pulsação

e é já noite profunda dentro de todas as horas
quando põem a mesa ainda com as pernas abertas na paisagem
os olhos pelo avesso do mundo

as mulheres

só mesmo antes de adormecerem amarradas à fome
recolhem às entranhas os bichos dos descampados
húmidos e mergulhados na sonolência do sexo
onde mamam luas enormes até nascer a manhã

e enquanto se alimentam e ausentam
as mulheres ainda estendem os braços ao comprido dos rios
salvam a leveza das poeiras e a flutuação das superfícies
escarafuncham as luras dos peixes com que humidificam o ventre
a carne alumiada da noite penetrante

as mulheres são rios e pássaros
nidificam aves contínuas no leito descontinuado das espécies

é delas o destino das longas e incompreensíveis distâncias
correr, resgatar novos e inesperados seres do pó da casa
reconstruir da louça o cristal das cidades inventadas
ordenhar dos próprios ossos o leite sobrenatural

~

February 12, 2018 § Leave a comment

Tenho pena da pena da praia fria
da ave desse céu que esfarrapou
agora que a sinto e sei que é minha
molesta-me esta asa que quebrou

Daí este seu céu, meu lar distante
daí este meu mar em desalinho
da praia tão vazia e a ave errante
da pena, meu presídio nesse dia

Se ao menos esta asa e não voar
se ao menos esta dor e não ter pena
ser ave desta areia e naufragar

Talvez a noite e a praia menos fria
a pena, a Lua à vela a marear
do céu o breu na asa em euforia

heart

February 4, 2018 § Leave a comment

joshyeston.com

por vezes o tempo é tão longe
que a distância que meço nos olhos já passou
e eu ainda penso que me alcanço
no espaço em que me vejo e já não estou

iter

January 31, 2018 § Leave a comment

ebaumsworld.com

eis a beleza abrupta do início
pequeno barco na rota dos pés

dá-me a tua mão verde para o aplauso
para navegar o começo
que é do princípio que me dispo
que é da partida que te colho
qualquer palavra muda na faina

eis que partimos, musicais pedras,
espécies intraduzíveis, corais
ao fundo dos peixes das flores

eis muitas ilhas à esquina do amor

escarpado fim

dá-me a tua mão azul magnífica
e não te apresses solar, náufrago
na jangada de luz
na violência feliz de aportar

guardo comigo a obstinação solene de uma árvore
o mastro atravessado no peito da planície
e a quilha ao leme da respirável terra

assim, espero-te
rasgada pela costura do mar,
boca desfraldada, o teu dedo a prumo da paisagem
martelo húmido à vela no cabelo

eis que somos deuses e inauguramos juntos esta miragem

eis o navio à proa do sortilégio das marés

deixa-te inábil, sobreposto
na barcola da pele em que me largo

e que te prenda apenas o vento vertical 
a veia na inquietação do sangue

guio-me pelo fluxo dos teus lábios
pelo pulso dos teus olhos
e emerjo à tona instintiva das vagas com a memória
essa fome espumada no vício da tua língua

assim, cobre-me de cuspo ou espuma ou febre
e estende-me as cinzas em inflamáveis gestos
um braço, um ramo eternamente jovem até à ilha do fim
onde firme os estes dentes no nervo da terra descarnada

que é violenta a planície do amor
e embriagado o arrasto no respiradouro da paisagem

e eu, sou pulmonar no convés da fraga

se respirares devagarinho bem ao de leve
decifrarei no hálito o caminho,
entrarei mar adentro pela fenda nua,
a ferida aberta da largada

quæ

January 28, 2018 § Leave a comment

não estou suficientemente só
não estou suficientemente acompanhada
não estou nem sou definida
serei de qualquer coisa nada

o que escrevo não me pertence
por isso não me releio
não quero pensar que existo
nas pausas em que me odeio

se rimo é porque estou triste
se não é porque me condeno
escrevo o que em mim desiste
no cúmulo do meu veneno

leda

January 18, 2018 § 4 Comments

nos dias gatafunhados
de letras que não desvendo,
não leio
e não escrevo,
desenho numa folha um sonho
de um dia um cavalo negro

e fico todo o tempo assim,
curvada, tombada sobre o esquisso,
a cavalgar de júbilo
a madrugada no meu colo, o peito
na braveza dos cascos,
no batimento alvoroçado,
de tanto que gosto dele
e o vejo belo,
na noite dos meus olhos,
se os tenho ou não fechados
dele cavalo negro,
dele luzidios,
que até lhe cresço ao acaso
umas asas negras,
de serem assim escuras
as minhas penas

mastigação do amor

December 22, 2017 § 1 Comment

todos os dias passo pelo coração chiclete

está esmagado nas traseiras do meu apartamento

se espreitar da janela do meu quarto não o vejo
mas se fechar bem os olhos sei-o de cor
como a memória

na luz, passo apressada por ele como as horas
mas não o calco, sob pena de magoá-lo, obrigá-lo a morrer
mais longe do que a morte e os ponteiros
o meu amor apegado ao granito do amor cada fez mais fino e rápido

passam os gatos ao redor da forma e do meu pensamento
e as pombas contornam distraidamente o coração outrora doce,
umas vezes solar e colante, outras vezes entre estalidos
como o amor dentro dos olhos quando dá um passo e recua
ou se despede

outras vezes é simplesmente molhado e profundo,
mergulha até dentro da pedra e evapora-se
desaparecendo do lado de lá da rua do esquecimento

outras vezes é apenas desistente sob o luar,
geralmente quando anoitece
e as luzes da rua desligam-se com as pessoas
e os prédios enfurecem-se mais altos e incompreensíveis

houve um dia em que os gatos pararam para cheirar o coração
e as pombas para bicarem-no e desfazerem-no

o amor estava bem agarrado e não conseguiram

nesse dia doeu-me muito e não soube bem porquê
se por ciúme se por medo
se por desconfiar da aderência súbita do amor

sempre tive ciúme do instinto e pavor da fome,
desconfiança destas severas configurações,
como os gatos temem as chicletes e as patas ancoradas
e as pombas os bicos atados à teimosia da matéria

ainda assim
julgo certos desses dias favoráveis
enquanto indago o tempo e o abstrato,
o coração límpido e desconhecido,
o granito estendido como um leito desatado e vertiginoso

desconheço a flexibilidade,
a sofreguidão da língua, a violência da fé

está visto,
colo-me à ideia e passo demasiado tempo a mastigar,
a rodear irremediáveis formas

demasiado tempo à procura de granito onde me deitar

sempre que anoitece, demoro a encontrar a consistência

arrumo os ponteiros dentro dos gatos que dormem sobre os pneus, e
entrego às pombas o esquecimento da insónia do amor,
com elas despreocupadas com estas minhas fúteis elasticidades

e enquanto esgravatam frenéticas os ninhos nos beirais
rodo lentamente o corpo e as penas para não me doer,
e desenho corações pelo meio do medo e mio

o granito lá fora escuta-me e geme também,
escala a perna da cama com o coração negro ao peito a latejar

fico a olhá-los,
à pulsação no interior dos olhos verticais do gato

estou deitada sobre a chiclete da noite – penso,
enquanto repito baixinho de olhos fechados que acredito na forma,
que acredito no tempo

que urge acreditar na consistência negra da mastigação
até adormecer

ou até ser dia

domes-ti-cidades

November 10, 2017 § Leave a comment

stoker

stoker


nos dias de mendicidade
limito-me a fazer barrelas do passado
a limpar os vidros do futuro
a requentar o presente com o lume dos outros

dedico-me a domar-me pela tua cidade

com os bichos ao peito
fazer-lhes festas com o pé
lamber-lhes o pelo com o sexo
dar-lhes de mamar a minha língua

estou de passagem
pelas pequenas grandes humidades alheias

prosseguir é masturbar-me com o tempo na aspiração do espaço varrido da casa

como tal, nos dias miseráveis
limpo as cinzas dos cigarros que não fumo
faço nuvens para regar os vasos

mendigo-me
e dou-me esmolas
venho-me no pó e nas sopas da má catadura

~

October 27, 2017 § Leave a comment

plantar barcos de flores em agras de viagem
apenas para singrar nos olhos as marés
içar corolas à boca solar do desconhecido

depois, talvez numa nuvem prenhe
na lambedura espumosa de um mastro
entenda deus um caule afiado de raiz temerosa

e apenas de sentir-se assim desconsiderado
chova enfartado qualquer estrela sobre o convés
retempere o campo do peito semeando-o de luz

e o vento de feição restaure de verde a maresia
a fé nas mãos sinistradas do estaleiro do amor

oh

August 15, 2019 § 2 Comments


tão triste
colher flores no campo aberto inventado das borboletas misteriosas


onde as espécies tão raras desaguam e me desconhecem
desatadas da sede que tento desprovida de nome

voam
imagino que voam
decerto voam os meus dedos nas grades
voam ou nadam tanto faz furam
aperto-os entranço-os e furam e rodam e partem

e que pena e que triste ter asas quebradas e partir
terem asas e eu ter voado com elas daqui estes meus dedos pelas flores desarticuladas

ter conspurcado tudo os ossos a forma a cor o voo a dor
este arame só de mexer-me fundo só de pousar desvirtuada o espaço
tão somente de pensá-lo límpido
querê-lo voar-me por dentro transparente pelo quadriculado

assim
voar-me daqui nesse sentido trespassar-me
e moer-me uma espécie de intraduzível movimentação intransponível grade

não deveria sequer ter lembrado largado as mãos de apenas ter querido soltar-me uma escama ou uma asa ou uma brisa
sequer ter sonhado ou sabido sonhar
sequer saber agora ainda tão apartada e mais cega tão lenta tão sonolenta tão nada

nada mesmo

e agora deste vazio nem pensamento nem jeito nem fora nem dentro nem perto
nem fora nem dentro nem planura um deserto
e eu decerto perdida daqui ou achada dali que nem sei nem importa
à porta decerto desgarrada

que eu nem nelas livres nem a liberdade delas ou minha
nelas puras nelas pássaros da ideia ainda linda
ainda agora nada e tudo lindo
numa teia de flores tão bela e complexa

e logo flores tão tensas
presas tão duras tão próximas que logo tão longe e tão líquidas
daqui das mãos perfuradas no olhar ali além num rio
delas molhadas e escorregadias
tão rápidas e fugidias como o medo

ali além nem distância nem ar nem mãos nem asas puras
medo de perdê-las e um fiozinho simplesmente quebrado cedo
que nem ar nem água pura nem vê-las nem tê-las nem regá-las
ou elas a mim

enfim

nada

mesmo nada
que esta triste sede mais triste de tentar chegar e perder-me
às flores com os dedos gradeados

que sem flores só mãos e eu
a espreitar e nada mais
que nada mais existe