primavera

March 24, 2013 § 2 Comments

Olá Primavera
E adeus
Porque vens já de mim a despedir-te
Porque vens iludir-me com flores
Decorar o meu sonho de amores
Retocar minhas cores
Enfeitar meus amargos humores
E deixar-me no fim

Mas vem Primavera
Mesmo assim

Quero sorver dessa fugaz quimera
Que à tua passagem me seduz
Antes iludir-me com tua efémera luz
Que desconhecer a força que me reduz
Ao teu breve encantamento

Sê minha
Que eu serei tua
Por um só momento

Olá
E adeus
Da minha janela aceno, estando à espera
De rebolar contigo pelos tens tons
Sossegar-me com os teus sons
Porque ai de mim
Se não fosse assim
Tudo o que de ti digo
Primavera

Parte
Mas antes vem
Envolver-me com tuas artes
Deixar-me inspirar do teu doce assopro
Ainda que fugaz
Inebriar-me com o movimento frívolo de todo o espaço
Que se refaz

Acerca-te
Quando eu digo adeus
Penso e repasso
Digo olá e me despeço
Mas não me esqueço
Que voltas sempre Primavera, ao recomeço

Olá Primavera
E adeus
Digo ao tempo que marca o teu compasso
Dissimulado
Feito de ilusão e de mestria
Sob o hibernar gélido com que me enfado
A despertar subtil e doce
A terra fria

Vem
Cálida e perfumada
Como um esgar breve
Feito de aves, flores e odores
E amores
E alvorada
Invade tudo
Mesmo te insinuando
Ingénua e afogueada

Tens um seduzir mudo
Uma hora enfeitiçada

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largo

March 22, 2013 § Leave a comment

Talvez assim, neste momento
Saiba o que quero dizer
Que nada está preso a amarras e tudo se estende pelo avesso das coisas

Nas cores, uma primavera qualquer inspira o que vem
Nos passos, uma cidade iluminada perdida na pressa

Caminho
Deixada submersa num choro de Março

Nem sei o que faço, por que rio,
Por que vou
Onde
Talvez no impedimento afigurado procure um curso

Nada do que sou me faz rir
Talvez a ironia do destino seja afinal uma animação torpe
Um faço qualquer quê, mesmo quieta
Uma perpétua identidade
Daquelas comédias com palmas e risos gravados
Tudo fantasiado e alegremente triste
Drama dentro de um musical orquestrado
Metrópole deserta
Um carro que passa rente e chapina
Vento gelado que aquece
Falésia por detrás de uma passadeira gasta
Cubo de calcário que escorrega, buraco solto

Talvez assim as palavras sejam pouco mais que ruídos
Digam mais que aquilo que sei de mim
Exista algures um piano quieto a um canto
Teclas de marfim e mãos que não tocam
Uma partitura por experimentar
Apenas solfejo e horas sem sentido
Um banco para sentar
Braços para debruçar sobre uma tampa encerada
Eu sobre pausas
Solista
A dobra de uma folha
Uma palheta despegada
Com sorte, um gemido de semicolcheia
Musica,grave
Clave
Um improviso desnecessário
Tempo
Impaciência

Palmas

privação

March 16, 2013 § Leave a comment

Entre isto e aquilo, existe um habitáculo ambíguo
Um espaço que povoa o vazio,
Um oco que manipula um qualquer quê de indefinido
Que aglutina, circunda,
Possui, submete
Coage

É para aí que vou, sombria
Onde estou
Na aldeia evasiva
Dentro do destino indecifrável, sem retorno
Numa cubata de intenções desgastadas
Enredadas numa condenação

Dispersa na umbrática selva
Não há medida genuína para o disseminado
Acesso ou debandada
Apenas recurso,
Porção, fórmula
Matemática, geometria
Plano inclinado, indistinto, obtuso
Poalha
Nada que conceba volume, delineie, forme, agite
Tudo uma ocupação instigada
Um espaço preenchido por indelével ordem

Nada do que sou,
Faço e desfaço, coabito, perduro
Distingue-se na cor, matéria, intuição,
Nesta cela entalhada

Uma vontade flui apenas, tresloucada,
Remoinho que penteia um campo desfolhado
A sorte que dissipa e dispõe perceções
Sacode intenções entre varreduras
Frenéticas, estrábicas, freáticas, abrasivas
Esparge conteúdos por estantes de hipóteses insondadas

Entre isto e aquilo, talvez exista tempo dentro do nada
Medida válida no âmago intangível
Um sentido dentro do desentendimento
Neste habitáculo incompreensível, fátuo, difuso
Impertinente, hostil

Entre isto e aquilo, este todo inútil, talvez o tempo
Preencha a privação entre as coisas, o espaço embutido
O lugar onde habita a minha medida
Onde presente, inevitável
Em indigência
Constato conteúdo
Uma certa validade transitória
Fleuma

Where Am I?

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