tempo

April 28, 2013 § 7 Comments

O tempo é uma substância volátil, arredia e mole
Calma e inesperada, que se esvazia e enche como um balão ou fole
Uma substância vaga, desequilibrada e implexa, de alma inconstante
Que se dissipa e brota a qualquer instante

Assim, de mim se afasta se o procuro
Toca-me e arrebata-me, se dele me canso e me despeço
A mim se apega e em mim se enlaça quando lhe fujo
Enrola-me e envolve-me de amor quando não peço

O tempo é tudo o que urge quando sobeja
Tudo o que de mim se aparta, se acaso a vontade almeja

Quando me esfalfo e o quero, de mim se afasta
Quando dele prescindo, em mim se enrola, julga, condena e caça

O tempo é um amante frívolo e indeciso, que prende e embaraça
Uma alma doce, que descubro amarga se me desalenta
Um compasso brusco, se me apraz com pressa e me encontro lenta
È sol quando eu sou nuvem, transparente se sou lodo ou água turva

O tempo é uma maleita, uma cisma sem amparo ou cura
Uma paixão platónica, sofrida e insegura que perdura
Um amor desgarrado, uma intensa vontade de procura

Com ele me estendo, sonho e medito
Baralho-me e contento-me num eterno delito

O tempo é tudo e nada ao mesmo tempo
É uma fantasia eterna que eternamente invento

Um insustentável querer
Um amar aflito

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pensamentos

April 23, 2013 § Leave a comment

Já tenho comigo um mapa preparado e tudo
Estendido ao largo da planície verde da minha ideia
È uma mapa feito de um estranho pergaminho
Não lhe sei bem a cor, porque a textura é um desalinho
Cruzam-se nele sombras e perdem-se a todo o tempo linhas

Talvez seja demasiado fino este meu mapa para que o defina bem
Como a superfície de um oceano calmo que imagino

Em certos espaços, talvez seja mesmo como uma cordilheira
Ou um abismo, onde perco os limites, onde não há fronteira

Acho que o vejo diferente, cada vez que o examino
Talvez seja da matéria de que ele é pensado e feito
Do jeito com que o entendo ou o domino
Da posição que escolho para destino
De um olhar mais certo, de um desejar perfeito

È neste mapa dúbio, feito de matéria estranha
Que a minha ideia e imaginação flutuam
Desenho o medo, a força, a crença, a fé, a manha
Encruzilhadas de certezas e avanços que recuam

É para lá que eu vou a desenhar o meu mundo novo
O sonho da minha verdade mal argumentada
Vislumbro-o assim, nas incertezas das linhas trémulas que recalco
Nas dúvidas dos rios que pelo espaço livre finjo e derramo
Nos sonhos das florestas que imagino e ainda me faltam
Nas cores que sobejam e verto por engano

Talvez, do meu mapa, não seja eu o único e fiel desenhador
Quem da verdade sabe, ordena e determina
Talvez seja apenas nódoa fina, que recompensa e justifica
O desleixo de quem criou e é mau conquistador
Perdido se acha comigo do mundo novo

Do mapa, apenas nódoas floridas e pensamentos férteis
Momentos, ideias elaboradas e produtivas
Movimentos planeados no mapa infinito
Infinitas tomadas a sucumbir no lodo

liquefeito

April 10, 2013 § Leave a comment

não queiram compreender este pássaro de água
segui-lo no seu voo de chuva

o pássaro
apenas espectro de lágrimas
condensação
mágoa num esvoaçar líquido

as asas
distendem-se
abóboda sobre a terra
o bico mergulhado no fundo sólido
do oceano as patas desgarradas
incongruentes sob o sustentáculo

anoitece em tudo
escureço

o pássaro de água agita-se
corpo sobre o que penso
lacrimeja sobre a folha
escrevo, risco
rasgo
irritado esburaca a pasta de papel
mastiga-a, gorgoleja-a
vomita-a seca de encontro ao medo

não queiram compreender tudo isto
as garras
o pássaro, as palavras

tudo é sobejidão, reflexo
planície apenas
pesadelo que atemoriza cedo
dia absurdo e fugidio
luto

talvez o pássaro abdique um segundo
deste voo esqueça as asas
espalme o corpo sobre a planície oceânica
a superfície líquida desapareça

insetos

April 8, 2013 § Leave a comment

Borboletas
manetas
facetas
caretas
bichos dos lixos
bichos das flores
lagartas
odores
asas e amores
formigas tamanhas
mosquitos
aranhas
escaravelhos com manhas
fedes das montanhas
nichos de todas as cores

Roços
caroços
larvas dos ossos
tremoços para todos os gostos

moscas
varejas
melgas
abelhas
traças toscas
joaninhas belas
casinhas tortas
entradas mortas
quartos sem portas nem janelas

cascas
lascas
fruta
musgo e murta
bichos de muito saber
seres de muita labuta

Dai-me tréguas

Dai-me tréguas
que eu nadei léguas
para vir mediar vossa vida curta
refrear o pavio
deter o naufrágio do navio
oprimir o ferrão
o pio do fio
o mio do assobio
o cio do mundo cão

Quero dizer adeus à desumana humanidade

Quero

Quero pedir para que me deixe depressa
que vá bugiar

Quero ficar só,
sem rei, nem dó entre os bichos
na sua simplicidade descansar

Where Am I?

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