amigo

May 19, 2013 § 5 Comments

Tu que te escondes e eu que me esqueço
Guardo na minha memória as tuas histórias multiplicadas
As palavras que me ditas, em silêncio
Com ternura de mestre
Do teu isolamento distante feito de letras
Acompanhado quando me procuras
Quando me escreves empenhado um poema
Sentimental e translúcido, que me despe

És talvez o amigo que procuro
Que mereço
Um fragmento esculpido no gesso de uma folha
E as palavras que imaginas ainda faltam nos meus olhos
Para revolveres minha impaciência
Deliciar meu sonho
Trilhar teu caminho regalado, comigo

Adivinho-te para lá de um supor enfadonho
Sob as palavras soltas no teu confiante resgate
Libertas-me da prisão terrena para fugir contigo
Para o espaço celeste

Viajamos juntos tantas vezes no mesmo egoísmo
Alheado de tudo
Juntos dentro de um livro pesado e carrancudo
Uma capa ao acaso sobre um mundo fantasioso e contagiante
De mãos dadas com as letras pelas paisagens imaginadas
A recriar cores e formas copiosas do passado
Rostos espiados,
Incitando meu interesse, esfaimado

E eu descubro nas páginas relidas uma amizade entendida
Reencontros fora da medida temporal do espaço acostumado
Uma cumplicidade silenciosa e desentendida
Um brio caloroso que mantém apetecida a conivência

Então
Pouso a minha mão na tua paciência de papel
Minha mão na tua mão espalmada e quente
Numa dormência lisa, segura, agradecida
Reluzente sobre uma mesa batida pelo sol da praia
Ausente do mundo e da gente por momentos calada
E és só tu e eu no vazio
Um volume e mais nada

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chuva

May 9, 2013 § 2 Comments

Lá fora chove
Uma chuva mesquinha e indiferente
Vejo-a da janela que se move
Desprendida do meu desejo de ver tudo asseado
Calmamente arrumado, enxuto e ausente
Encerrado e dissoluto
Afastado da água livre acumulada
Distante da minha fonte
Do meu monte de nada

Lá fora chove
Uma cortina desfraldada que mal se move
Uma aguarela de sal, pintada no luto da paisagem
Camuflagem alada sobre um retiro
A rua está molhada e fria, envolta em passos que chapinham
Caminham para lá do atalho da minha carência
De encontrar um respiro entre compassos de ausência
Fracassos cinzentos em forma de nuvens
Sombras no cinzento-escuro dos pensamentos tristes
Porque já me basta a chuva que guardo sem desejo
Sem querer, e que me alaga a alma
Inconsolada e coitada

Há na cidade uma mesquinhez húmida que me ignora
Uma calma vizinha que se demora para lá da vidraça
Uma fada madrinha que me ilude e enlaça
Quando eu me aborreço com ela
Quando ela me aborrece e não se comove comigo
Porque ela aborrece-me quase sempre
Mesmo dali, distante e indiferente
Colada à transparência da janela baça
A iludir meus medos
A disfarçar minha tristeza agasalhada
Molhada e presa a segredos

Chove
Uma chuva de beleza fingida e demente
Que me obriga a uma calmaria inocente
Porque fico parada a olhar a cidade
Afogada em arvoredos
Penedos entre cachoeiras sem montanhas
Sem rios de verdade para soltar minhas mágoas
Para desviar a banalidade dos sentidos
Para misturar as manhas da chuva com meu sal
Com o mar que avisto solto pelo ar
Livre, a gozar com o meu dilúvio verdadeiro
Entalado e contido
Inteiro
Desmedido

Lá fora chove
Uma chuva mesquinha e indiferente
Vejo-a da janela que se move
Que apenas se demora a hora que o Sol se ausenta
Que o azul verdadeiro permanece, se evidencia e sente
Que o céu estrelado concede
Dependurado numa transparência desconhecida
Que não quer saber disso
Não conhece a minha chuva nem quer saber dela
Não quer misturar fantasias afins
Talvez porque assim lhe apetecesse chover mais
E a água inundasse tudo
E o chão não aguentasse mais
A chuva, a verter
No meu dilúvio

Where Am I?

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