mares

June 26, 2013 § 2 Comments

Abalroares me levam, num barinel em que parto só à desventura
Embocadura de desengano e feitiço, é este navio de maré e papel
Navego milhas num sonho, sobre um casco roto a transluzir o fundo
Mergulho num mundo de coral com favos de esplendor e mel

Escrevo um enredo complexo no peso que me arrebata no escuro
Num muro deposto, vejo um véu de sais que brilha como um segredo
Tateiam minhas mãos o plâncton, num céu intruso de estrelas movediças
Nas amarras fronteiriças por onde procuro a furna que me aniquila o medo

Os peixes coloridos, serpenteiam como aves na liberdade dos ares
Volteiam baleias os mares em bailados intensos de incertezas e rotas
Os navegadores passados assombram ainda o caminho das águas
As mágoas e mistérios desfeitos ainda coabitam nas frotas

Como espelhos, superfícies disfarçam mistérios que atentam das margens
A coragem de outrora que adorna o presente sonolento e folgado
Existências perdidas, tesouros esquecidos no fusco da profundidade
Claridade submersa no sal que ampara o porvir ao flutuar do passado

Mares, que navegadores embalastes num berçário de promessas
Corsários desfraldaram tuas ondas, saquearam aventuras, realezas

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alba

June 22, 2013 § Leave a comment

O silêncio da manhã é mais calado
Que o silêncio da noite
Tomado de sentidos que nascem
Das paredes como espasmos
Dos tetos como espaventos
Cantos do escuro, exagerados
Surdinas de medo e de vento

É da manha que se despe esta destreza
Da noite o sonho escuso e inventado
Proeza de ínsulas e de desertos
Dubiedade de sombras nos armários
Tecidos do que somos desfocados
Incertos os rostos conhecidos
Dos vivos e dos idos, possíveis vestes
Balbúrdias improváveis e passados

O silêncio da manhã é mais atento
É fiel, é mais amigo é mais alento
Arremessa devaneios ressentidos
Transpira de odores já resolvidos
Dos espelhos as sombras mal dormidas
Dos cantos o sumiço das ermidas
As suspeitas já desfeitas e banidas

É da manha que nasce este meu cedo
O brilho promissor de uma resposta
Na noite, deixo o susto esqueço o medo
A vida contorcida, manca e torta
A hora do que penso, a quimera
No cedo, uma estrada e uma porta
Serôdio, o que fui e o que não era

inépcia

June 17, 2013 § Leave a comment

Encosto-me à vidraça, e
As palavras despenham-se na chuva
Do firmamento descem, silábicas
Pautas aprumadas numa melodia indecorosa
Incompreensível, sufocada, soluçada
Ouço-as daqui, do interior, despidas
Aflitas, chorosas, ilegíveis
Escorridas pelo vidro, atropeladas
Curiosas por detrás do sopro
Reconhecem-me para cá do impedimento
Tépida, diáfana
Instigadora

Tentam-me
Tento-me
Nasce-me na boca um beijo
Fresco e escorrido
Uma tentação transparente feita de vidro
Hálito vaporizado e pó
Sabor, náusea, lonjura
Amálgama de letras e miuçalha

A seguir um dedo
Um desenho de água
Ideia refletida, redonda
O Sol omisso, debuxado, derretido, recuperado
Subitamente estrábico na minha tela
Tinta aquosa e pranto
Doçura e sal

O céu está ressentido
Atira cascatas sobre a terra
Furiosas, rejeitadas
Uma enxurrada de água, vento, vocábulos
Obscenidades simuladas
Um estendal aliviado sobre a folha viva
Grita-me
Diz-me o que não leio
Gesticula-me
Tudo o que não entendo
Aflijo-me
Detenho-me e escrevo
Um texto desesperado
Sem adjetivos
Sem significados que importam
Tento alcançar, reproduzir
Sobre uma folha como a chuva sobre a terra,
Aceleradamente
Propósitos que o mundo absorve
Todos chapinhados de sentidos dispersos

Porque nada tem nome
Nem as coisas que apalavro
A água é apenas
O mundo é apenas
Eu,
Tudo apenas
Memória visual, impressão

Podia ficar aqui a contar letras embriagadas, uma eternidade
A escrever orações na água oblíqua
Ensaios em lagos movediços
Canaviais de ideias numa claridade embriagada
A descer borrifada sobre a terra
Gotas, letras, uma censura estendida sobre um leito vivo
A terra e os nomes que o mundo absorve
Significados chapinhados nas coisas
Água cultural transformada
Lixo

Podia ficar aqui, assim, uma eternidade
O tempo todo da história
Da minha história, e
Perceber o mesmo

Conheço as palavras
Mas as coisas terão outro nome que não existe,
Que não sei

Podia ficar aqui, a juntar sílabas alagadas, uma eternidade
Escrever textos volúveis como bruma
A desenhar cidades submersas
Ficar simplesmente aqui, a ler a planície espelhada
A desconhecer tudo
Alienígena
A chuva entranhada no lodo
As letras contorcidas no sal
A minha vontade liquefeita nos sentidos
Chaga, tradução
Ferro forjado sobre branco
Renda preta inflexível, intransponível
Deitada

Existe um parágrafo para lá dos caminhos
Como existe um sentido para cá da superfície alagada
Uma escrita na chuva que se ausculta
Um código indecifrável
Repisado na hora de reler
Nas letras uma tentativa aérea
Um texto disperso na paisagem
Comigo horizonte fechado
Eterna revisão literária
Rendilhado de caracteres sobre folhas
Escrita errante
Desnecessária
Fútil

Dane-se

mimosas

June 11, 2013 § 2 Comments

Mimosas, são as almas das crianças
As faces das rosas desfolhadas
Bonança que com jeito conquistamos
Vontades e esperanças que alcançamos
Mimosas, são as mãos entrelaçadas

Mimosas, são conquistas que sonhamos
Mimosas, são carícias maternais
São beijos e abraços de petizes
Ternuras que nos fazem mais felizes
Mimosas, são amores que ficam mais

Mimosas, são histórias infantis
São fadas e princesas encantadas
São forças que se enleiam como um nó
São almas que se unem numa só
Mimosas, amizades prolongadas

Mimosas, são as artes fascinantes
São as tintas, são as horas, são as telas
São escritas, mensagens melodiosas
Poesias desfolhadas como rosas
Mimosas, são as aves sentinelas

Mimosas, são as árvores sequiosas
De frescura perfumada que deleita
No solo as raízes que dominam
Nos ramos sois que brilham e fascinam
Pompons dourados que a luz enfeita

Where Am I?

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