escrita de verão

July 29, 2013 § Leave a comment

Velozes, brotam e perdem-se no calor das minhas vestes
Ideias faustosas que zumbem, num bailado de bafio e de moscas
Tento preces loucas, sobre escritas suadas, sob o ar abafado
De lugar troco o corpo, do que sinto a janela num mover esgotado

Minhas mãos sufocadas no canastro de uma pena custosa e torcida
Tentam achar o rasgo, descobrir as palavras numa hora aquecida
Hei de culpar a arena, o calor que estrangula o meu ego burlesco
Entre pragas fingidas, o verão que entontece minha escrita despida

Estendo, preguiçosamente uma frase ferida sobre um branco tão fresco
O meu corpo a um canto é apenas enjoo, desencanto funesto
Não decoro a cor, não detenho a linha, o que esboço é apenas suor e intento

É fadiga que pesa no calor que me infesta num querer gigantesco
Tento o ar que demora, culpo a aragem que falta no calor e no medo
O Estio alojado num rabisco suado que azedado transcrevo

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poeta

July 26, 2013 § 2 Comments

Ser poeta é estar aquém, para lá do que se sente
É ser verdade desmentida, da qual não se discerne a cor
È não ter vida,
Viver de cor

Ser poeta é ser mentira o tempo todo
Infiel dor que míngua e tolhe o discernimento
Dos sentidos lodo,
Inglória contradição
Viver permanentemente mascarado
Do mundo forasteiro malfadado
Sem poiso ou segura condição

Ser poeta é ser louco
Amar demais,
Viver pouco,
Ignorar a razão

É ser eternamente infeliz,
Desconjugado

Em descontrolada euforia
É lamentar constantemente,
O fado que não se ressente
Na tão crescente embolia

Ser poeta é ser só,
Mesmo tendo companhia

Ser poeta é render-se à timidez
È viver em cobardia
È tentar disfarçar da alma a pez,
Enfeitar a dor de fantasia

É encolher-se a um canto,
a sorver melancolia
Frívolo de desencanto,
Se lhe tange uma alegria

ventre do vinho

July 17, 2013 § 2 Comments

Por culpa dos socalcos do teu ventre farto
Solo que ao meu olhar se pavoneia imenso
Intenso verde sobre castanho casto
No fresco escondido entre cepas enfartadas
Quero adormecer contigo a sentir-me vento
Deambular por tuas castas refrescadas
Vestir tua saia de parras que ao longe estendo

E o meu olhar tão sóbrio e estarrecido
A procurar em ti entorpecimento
Adormece ao Sol, espreguiça-se no teu colo
Doura sobre as vides espalmadas
Desenha num trago teu ventre em minha tela
Por entre o solo um rumo com sentido
Meus sonhos encarreirados entre os socalcos
Por tuas cepas com bagos esquecidos

E resvalo absorta por teus sulcos de recatos
Sob o verde ávido de ardor e Sol polvilhado
Afogo no Douro meu êxtase de vinho ébrio
Desejo sóbrio de cor calcorreado

Por tua pele doce e fértil, tatuada
Sou do teu ventre a terra, o fogo ou nada
E anoiteço entre as pedras a respirar teu xisto
A sonhar contigo despido numa aguarela
Surriba que me abafa e me revela
Num cálice minha razão de pedra remexida
Meu rosto desenhado num enguiço

E imagino então, palavras sob o encanto do teu pomo
Histórias aos socalcos que resvalam dos meus medos
Navegam junto às cepas sequiosas
No mosto a renascer das lágrimas e das pedras
A desaguar teu corpo por distintas terras

E amorteço minha utopia no teu ventre omisso
Calcorreio longe teu vinhedo afogado num gole imaginário
Sorvo teu sangue meloso que me alicia e inspira
Delineia a tristeza que na tarde desbota cedo
Inventa narrativas solitárias
Gargalhadas, choros buliçosos
Na paisagem anseios copiosos
Uma monda num copo, uma casta que em mim se estira

E o teu ventre verte sobre o levar do Douro
Prantos escondidos do meu querer deposto
Dissimulados no mosto deste meu júbilo triste
Por patamares folheados no teu colo de ouro

Mãos laboriosas sem idade ou rosto
Passeiam meu olhar fosco que desiste

Mas, minha alma esquiva-se sob o folhedo
Metediça, a podar sonhos de Inverno em Setembro
Numa poda a rodar num cálice do passado
Entre cachos numa giga desposados

Troco beijos em teus bagos sumarentos
Na boca guardo um gole açucarado

Quero adormecer contigo a sentir-me vento
Deambular por tuas cepas refrescadas
Vestir tua saia de castas, boa vida e parras

enfartamento

July 6, 2013 § 2 Comments

No calor, as palavras são moles e derretem na folha
Não existe rima que esteja, sentido que abone
Um frangalho inspirado, transpira inteiro uma sopa
Uma frase requentada tresanda a estopa e bafio

Há no corpo fraqueza que tolhe e que mirra o intento
Na boca uma sede de fonte e de bica estalada
Uma frase que definha e distorce na aridez da paisagem
Um tema embutido entre a cútis e o chão ensonado

No momento as palavras repisam as letras que abortam
No abafo a razão é lodosa, escabrosa e falhada
Não há gesto que valha, poema que faça sentido

Socorro a hora com pausas, com banho e nudez
As palavras com água, com gelo, com sonho e com pez
O soneto raquítico e flácido que a molenga me fez

Where Am I?

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