sabes

September 29, 2013 § 3 Comments

Tens nas tuas mãos o meu silêncio
A minha distância nos teus olhos tristes
Talvez me procures porque sabes que existo
Talvez eu descanse porque sei que sabes que existo
Talvez seja a minha tristeza a pairar nos teus olhos
Talvez seja o espaço das minhas mãos a pesar sobre as tuas

As tuas palavras dentro do meu silêncio
Eu apenas olhos que lêem, alma
A distância maior que o universo
Porque na distância mais breve
Eu mais leve que o vento
Mais antiga que o tempo
Mais feliz que a luz
Mais impossível que o céu

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todos os outonos

September 25, 2013 § Leave a comment

Todos os Outonos saboreio as mesmas súplicas
Desvendo-me entre campos castanhos e lameiros
Projecto arco-íris e desejos amarelos
Encosto o meu rosto ao passado e esboço um sorriso
Ainda há tempo, medito
Ainda há tempo, mendigo, consentindo o que sinto
Deslizando sobre castelos de folhas
Voando sobre ar bafejado de cheiros

Todos os Outonos sou campos matizados de carmesim e tinto
Folhas que reluzem caramelos
Nesgas de sol envergonhado
Eu e o vento e a chuva aos beijos
Eu e a natureza e o passado omisso

Todos os Outonos sem pressa nem recato
Sou eu entre as brechas dos passeios matizados
A correr com a água e os meninos
Coloridos de promessas e boatos
Eu, fadas, duendes, gambozinos

Todos os Outonos eu renasço
Numa aparente primavera de tenra idade
Parece-me ter andado à deriva, perdida e deslocada
Esquecida das fainas entre as flores, o calor e a água
Ao sol, na minha indolência que cresce como mato
Preguiçosa, a adiar o tempo
Aluada a sacudir folhas e pó, e a esculpir em nada

Todos os Outonos, aborrece-me e conforta-me este estado amiudado
Esta imbecilidade que demora…, esta luz que ainda vem
Embrulho-me em pensamentos num lençol de sonos
Culpo a ansiedade frouxa de que padeço
Embrulho monos numa trouxa
Despreocupadamente ofuscada pelo riso

Todos os Outonos me arrependo e festejo
Do tempo perdido, do que fica aquém
Avanço como uma sombra redobrada
Eternamente eu, sempre mais alguém
Mais cor, mais lucidez e mais sentido
Castanho que se desprende e se retoca
Parece-me este Outono a ilha que procuro
Está delineado no meu desejo uma árvore desprendida
O meu esforço matizado a brotar de tudo

Todos os Outonos me envolvo comigo
Me descubro e reconheço nas cores
Desperto a alma e os sentidos
Deliciosamente estou cada vez mais perto da paisagem
Do fulgor da estação que desfruto e vivo

mergulho

September 22, 2013 § Leave a comment

É da areia que me tento, impávida
Quando sou ainda vacilação, sol
Lassidão e desencanto
Afrontamento, desalento,
Frágua

É da areia que me ergo e vou
Caminho passos enterrados, comigo dentro
Numa infinita pressa de nada
Num querer encorpado de tempo

Salto, corro, imagino
Uma onda… e chego-me
Uma onda… e afasto-me
Uma onda…, uma onda
E vou
Envolta na nossa ousadia,
Desmedida, líquida, eterna

É na água que me solto e dou
Uma onda… e entrego-me
Uma onda… e entrego-te
Meu gemido feito de tudo,
Minha procura nos teus lábios de sal
Eu, apenas remos nos teus braços

Uma onda,
Pás nas minhas palmas, a sacudir teu fundo
A tua pele, a nossa cidade infinita
Alma, silêncio, bulício
Uma alga, um seixo, um caramujo

Uma onda
E a minha mão na tua
A nossa conversa completa em palavras submersas

Juntos, apenas enseadas
Tu, remexido e turvo, nas vigias dos meus olhos
Dentro da minha ventura dissolvido

Ondas e nós,
Oceano

É na areia solta que exerço a minha dança
Revolvida em ondas, branco e espuma
Solitude,
Na reminiscência, promessas

É na correnteza oculta que rastejo os olhos
Tateio a tua alma numa onda
Procuro-te e encontro-te
Seguras-me, possuis-me
Depois, emerjo

coração entre palavras

September 19, 2013 § Leave a comment

Ficam atadas as minhas palavras no teu olhar
A minha voz retalhada, emudecida na tua presença
Sou toda alma, sentença, coração com asas a palpitar
No espaço ausente, amor, que se funde e que se adensa

O sentimento acelera numa corrida desenfreada e louca
As mãos agitam-se e hesitam, confusas no seu canto
São só palavras difusas e mudas na minha boca
Achadas nos teus gestos, onde me enleio e me encanto

Quero fugir e não quero deste meu momento
Envolto em certeza e efémero desassossego
Perco-me de encontro ao medo entre as tuas vagas

Quero falar e não quero neste meu momento
Com se fosse tarde, sendo entanto cedo
Encarcerado vive, meu coração entre palavras

ainda

September 15, 2013 § Leave a comment

Sei de ti, criança
De mim, contigo nos meus braços
O teu sorriso franco nos meus lábios
O meu coração nos teus abraços

Ainda sei
Ainda encontro
Ainda entendo, posso
A tua mão repetida sobre a minha
No teu cabelo as fitas dos meus laços

Vives comigo, sei, és
Sabes, ainda
Sempre às escondidas no meu quarto
Tu, em cada espelho
Na minha boca o teu sorriso farto
A candura da tua voz entre o meu sopro

És comigo, ainda
Leveza e alvura, encanto
Beijos e enleios, alma e pele
Fulgor, flores, fadas e fé
E tanto
Ainda

Sonhas, sei
Sinto-o contigo
Alva, colorida, montanha, mar e primavera
Ao colo dentro das minhas sombras
Pelas minhas florestas duplicadas

Ainda corres sozinha
Ainda o fazes comigo
Recalcas o carreiro que me esquece
Tu, para mim que alcanço
Os teus braços estendidos, rectos
O teu olhar ávido e sereno
As minhas mãos nas tuas,
No teu corpo delicado, tempo
Ergo-te, seguro-te e aperto,
Ainda
Respiras
Dentro do meu infinito

Where Am I?

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