orbe

October 30, 2013 § Leave a comment

aves promessas, aves descontínuas
cata-ventos e tempestades, missivas e voos
silenciados, penas esvoaçadas,
incomensuráveis no volume possível,
na indução da chama magnificente,
tálamo de voltejares, reflexos

aves na envergadura ilimitada das letras,
do intuito irrefletido do tempo, dos pássaros
falantes, absortos, taciturnos,
estridentes no silêncio do pez,
das estrelas, pulsares, luas suspensas,
voos de desacerto, inexplicáveis,
incandescentes no orbe sideral

bandos, impulsos
dança nublada de desmaios e folhas
cômputo de promessas, minhas,
dispersas na grandeza genuína
fundamento de ave extraviada
labirinto infinito, de céu
exacto nos contrários

pássaros e asas e levitações,
no vento a perscrutar, abrigos
absolvidos, enigmáticos, esbatidos
na migração alterada das falas, dos mares
tumultuosos, planícies de luz

as aves a esventrarem pedras em voos arrebatados,
poalha transpirada no imo dos ossos
bicos e vales esculpidos e rios cavados,
manancial de fontes e planaltos,
penugem num sopro gigantesco,
soalheiro, lêvedo, primário
júbilo de pó estelar

fénix das estrelas explosivas
no círculo ininterrupto das galáxias
dos elementos, amalgamados
no amplexo simétrico, entre,
dentro das minhas asas

Advertisements

cidades brancas

October 28, 2013 § Leave a comment

cidades brancas e mulheres
todas as mulheres e as cidades dentro das cidades, dentro delas
brancas em estendais de breu, roupa, cestos, bacios e crianças
uma sopa inteira de legumes, panos, baldes e papas
e choros, panças, pinças e molas de palavras alienadas, alardes de vento
colheres de batata, cenouras, nabos, grelos e vocábulos, ovos
facas amoladas sacudidas ao vento, atiradas à chuva, ao barro, aos peitos nus
sedentos, esventrados, bocas famintas de contrários, fendas,
mulheres violentadas na saliva dos tachos, panos,
natureza em vendavais de sono, catalepsia e sangue,
estendidas nos leitos, pingadas dos tectos, trespassadas do sol,
sombras, reflexos, as mulheres chovidas das janelas,
dos vidros escorridas, espectros e passos na opacidade reflectida,
fermentada, despejada nas valetas transbordantes,
nas sarjetas entupidas de desforras, promessas de morte,
pias, as mãos na asfixia das fontes, dos panos em parafusos de nervos,
sede e lixívia e barro e lodo

as mulheres e o asco dentro das cidades, o chão, as paredes
as portas das folhas, as árvores de letras e pedras, praças de sangue lunar
legumes, detergente canalizado, nelas, na nudez esvoaçante,
cidades repetidas, tentadoras e diabólicas, bálsamo,
as cidades incorpóreas, delas descalças numa perseguição de folhas,
infinito, nudez em passerelles íntimas, eléctricas
as mulheres e as cidades, brancas, esculturais,
castelos de pejo, pele silenciada, luz
reptilíssimas na estridência do vazio, na mudez das areias,
nos gritos mais altos, sufocados na pureza exacta,
na paixão entalhada, flores em abóbadas ardentes
mastros de fruta, vales nas travessas, desfiladeiros,
rotas, rios, mares e amores embebidos em caldos de gesso
astrolábios e quimeras

a cidade recalcada e as mulheres, ruidosas em passadas de silêncio
as mulheres rapidez e desígnio, a correr a felicidade, o amor,
a cantarem nuas os coros, as pautas nas fachadas musicais,
teclas de cal em telhados impossíveis,
solfejo de dedos e claves translúcidas, sustenidos nas janelas
e elas, bequadros de dedos comprimidos, nelas
cacos a germinar lugares, paisagens povoadas crescidas, metrópoles,
exclusivas, submersas, harmoniosas, elevadas na distância
circulo, lonjura, astral redobrado nas cidades lácteas,
nelas, aéreas, celestiais, únicas, delas,
puras

as mulheres decididas, destemidas e assassinas, claves
nas cidades brancas as mulheres de cal com facas na mão e sorrisos
e sol, a correr, a palmilhar os telhados, felizes, a nadar oceanos de vingança
vestidos floridos, pés descalços, mãos nos cabelos desgrenhados
e amam e preenchem as cidades brancas de movimento e luz e sangue derramado
sorriem a metrópole toda no silêncio que não precisa de palavras
decapitam o barro, diluem-no e pingam-no no gelo,
enterram-no vivo, inteiro nas entranhas das cidades púrpura
exaustas de explanações e retratos

=I~I=

October 25, 2013 § 2 Comments

os escritores têm gatos peludos na cabeça,
gatos com bigodes e garras a escorrer pela testa,
a entrar pela boca, a respirar pelo nariz,
a fazer muita comichão
no pescoço

coçam cada gato, um pensamento, uma letra
tudo a rebentar nas extremidades do pensamento,
nas arestas das unhas, sob a pele desgastada dos dedos
sacodem

os escritores fazem festas infinitas aos gatos
esfolam o peito, no peito dos gatos deitados
nos sofás, cadeiras, almofadas,
estantes, secretárias, carnação,
planície verde de pele, escamação

levantam o braço, a mão, o suor todo para copiar,
pensamentos de gato,
espirram uma letra, uma frase inteira de bigodes,
barba por desfazer e um gato estirado,
os olhos ardentes, rubros,
comichosos, tapete de letras peludas nas órbitas,
fricção de rimas e insónia, patas

os escritores, esticam os braços e abraçam os gatos
apertam-nos com o coração a bater dentro do coração
gatos inteiros, panteras dentro de um coração sofrido de palavras
gatos espalhados, redobrados, teclados

ás vezes, os gatos teclam a palavra perfeita – nmcbiqiufgiebv,
língua de gato, entende-se, sabe-se
o escritor lê e leva uma noite inteira a decifrar, a ordenar tudo,
noite completas, eternas e gatos, esferográficas nos olhos,
pretas, verticais,
postes electrificados em campos verdes

os escritores, leem o que os gatos escrevem no céu e,
teclam – nbhcyiglbvbvkb -, os dedos miados de qualquer coisa
o que os gatos pensam, ditam, os postes,
negros na planície verde, os pelos sacudidos,

ás vezes, a electricidade apontada dilata-se de ideias
o escritor, duas luas negras e redondas,
falas de linguagem felina, possível,
palavras sobrepostas, umas dentro das outras,
e das outras

os escritores pensam muito, muito
cansados, depressa pensam, esquecem, choram,
desemaranham novelos de lua e crescem frases,
puzzles, uma noite inteira de gatos, inteira de teclas

chove, quando os gatos desligam as luzes e,
os escritores ainda a procurar nos campos
verdes, ainda letras pretas alagadas nos pelos
coçam,
esgadanham pensamentos precipitados na chuva negra,
vertidos na língua dos gatos

os escritores, têm água negra nos pés, afogados
no oceano verde dos campos desregulados

certas noites, as palavras, tantas, o firmamento,
escuro, e eles acocorados, acordados a afogar os gatos,
impiedosos, na chuva a procurar o interruptor absurdo

os escritores, crescem, pelagem de gato nos campos,
lagos de mios em curto-circuitos de breu

não dormem, não dormem, insistem
teimam em repisar a noite, vaguear na electricidade,
asfixiados nas luas negras dos gatos invisíveis
tigres que transpõem fogueiras escusadas

estás?

October 24, 2013 § Leave a comment

ave, estás?
tuas asas, estão? estou eu?
nesse teu nevoeiro branco, cego?
nesse teu nevoeiro grande? respirado em mim? de mim, ave?
é luz, dentro desse teu nevoeiro branco? anoitece? morre-se?
diz-me se é luz, se anoitece, se é morte, para que pare, ave, avance
meu voo dentro dessas asas, suspensas, cegas nesse teu voo
franco, possante, sedutor, a suportar-me, a sustentar-me
minha vontade levitada, minha alma no peso todo deste chão
tuas asas leves nessa brisa, todas vento, ar infinito
minhas mãos cativas, minhas mãos soltas, agitadas, folhas, minhas
minhas mãos, minhas mãos, apenas tuas asas, levitadas e em fuga
minhas penas levadas contigo para dentro desse luar submerso
meu corpo suspenso nessa tua escuridão branca
teus olhos de luar que voam, reflectidos
sou eu, ave? estás? sabes? posso?

jugo

October 14, 2013 § Leave a comment

Deambula pelo deserto,
o abraço, pelo horizonte impreciso
Propaga-se pela vastidão das planícies brancas,
vagas, no âmago do silêncio,
do meu cuidado dilatado,
nas dunas incendiado, palpitante,
ofegante, iluminado, pregador, carrasco,
enleado, pulsátil na luz incandescente, de astro,
vago, abraçado à escuridão perene,
Purpurina exata, florescente, sedutora
O abraço dentro do silêncio dos olhos, advento
na mudez das palavras, virginais, aquosas
O abraço, casto na escuridão vital,
quase fogo, perfeição, prenuncio,
meu, meu instigador sob o peso vasto,
das planícies francas, demoradas, complexas,
devotas na fosforescência permitida,
Deus, o abraço na compleição do verso, do apego
do abraço preciso, absoluto,
do abraço quase, ambíguo de interregno,
fôlego, lume, fascínio
O abraço dentro do deserto, forasteiro, hábil,
ousado, genuíno, perdoável, derramado, frívolo,
primitivo, abraço desertor, invasor, pulsátil
Da minha noite, púlpito, chama
Abraço no sonho projetado, ardiloso
na extensão do deserto, na fluidez da noite,
na geminação das areias sob o firmamento
Abraço refletido, quente, irrespirável
Deserto abraçado, sufocado, escaldante
Sussurrado sobre a imensidão vigilante
Abraço copioso, respirado, transpirado, sopro
Prenuncio na lonjura do deserto, réplica,
entre pedras sobrepostas, entalhe
Abraço capaz e inesperado, possível
Na noite, só braços e um infinito jugo,
Curvado, possuído, entrelaçado,
prisioneiro, executor
Eu, desse abraço singular, pacto,
presa noturna, cúmplice
Desse aconchego apenas,
desse abraço, fragmento, jubilo
Num instante, liame,
eternidade dentro de um segundo
O deserto, a noite, o silêncio
O vislumbre axiomático do amor
Zelo absoluto, incontestável, justo
Rasto pelos caminhos despovoados
Lácteos nas palavras indizíveis
Um abraço, labareda, caligem
Impulso insigne, inevitável,
mastodôntico

uma árvore

October 6, 2013 § Leave a comment

Escreve uma árvore
Escreve-me uma árvore e desenha-me um poema
Escreve-me uma árvore,
Folhas, letras, manuscritos de palavras
Uma sublimação esverdeada, livre e espontânea

Escreve-me umas asas, uma montanha
Uma montanha elevada e uma árvore tamanha,
Frondosa, alta e recortada
Uma copa farta, à deriva num vendaval de letras
Um pincel de palavras deslavado em calhetas

Vá…, desenha-me essa árvore,
Desenha-me um poema, uma pauta musical de chuva
Aves abrigadas no arvoredo,
Ninhos, versos, telhados espelhados na brisa

Apanha-os e descansa-os
Coloca-os na segurança do refúgio assinalado
No teu mapa escorrido, nessa árvore
No meu universo plantado na ramagem

Escreve…, escreve
Escreve-me um livro,
Rematado, complexo
Escreve-me um trilho, uma estrada
Sentida e gigante, que entenda
Verso a verso, folha a folha, aguaceiro de verde e sombra, matizado

Escreve-me uma árvore
Descreve-a alteada, cavada em mim, submersa
Na minha tempestade de abetos e silêncio

Vá, desenha-me, escreve-me
O caminho, o firmamento pintalgado
Estrelas, Sol, vazio e luar
A árvore acordada na noite, delineada e vigilante
A tua mão em desatino na escuridão

Escreve-me uma floresta de livros e de sossego
Uma fuga repentina das prateleiras e das frases encasteladas
A árvore, tempestade de folhas e neblina
Um tapete de terra molhada e mansidão, nervos
Cores e purpurina
O mapa das estradas, estreitos e nadas

Escreve-me essa árvore
Escreve-a e desenha-me um poema
A árvore que eu quero, que adivinho, seiva
A árvore pungente, inadiável,
Verde, alta, arreigada no teu nome

Escreve-me um poema, colmatado, perfeito, arborizado,
A tua ausência entrelaçada nas raízes
Pingentes meus, volteados na copa

as minhas horas

October 6, 2013 § 1 Comment

As minhas horas, são feitas de espaço e de paisagem
Não há medida nas minhas horas, não há aragem
Os ponteiros são passos, as anotações esquissos
As minhas horas, são feitas de letras e estrupícios

Não há espaço nas minhas horas, não há medida
Nas minhas horas não há chegada, não há partida
Sei de cor o tempo do meu espaço, sei de cor a hora
Sei de cor o tempo de cada ausência se chegar demora

As minhas horas, sequer são minhas, sequer são tuas
As minhas horas, são apenas letras, são apenas vento
Não há mistério nas minhas horas, não há loucura

As minhas horas sequer existem, sequer as tento
As minhas horas são almas livres, são argumento
Não há urgência nas minhas horas, só conjuntura

Where Am I?

You are currently viewing the archives for October, 2013 at Lector.