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November 28, 2013 § 2 Comments

Escrevo para expurgar o inexplicável,
folgar o preenchimento, legitimar a causa,
esbater em palavras o efeito escravo
do silêncio, o voo enclausurado das asas
nas velas de cinza, no entalhe da folha
algemada a castiçais de preces

Escrevo na submissão do espaço, os sentidos
mudos do diálogo amotinado,
a estridência de clamor infinito, no movimento
ininterrupto, íntimo de espectros

Escrevo dentro dos contornos burilados,
o cansaço incabível do sono, o pavor da vigília
desprovida, desconcentrada, assaltada
de delitos

Escrevo-me e respondo-me, sucessivamente,
na demência encastelada de arrumação secreta,
encavalitada de arestas e de cumes,
no volume lascivo do fôlego

Escrevo-me e rescrevo-me, e resigno-me
ao silêncio revezado de gritos,
embezerrados

Escrevo-me e deito-me,
na amplitude pontuada, a cabeça
apenas, repousada nas virgulas,
a repisar as cismas nas pausas,
o clamor incandescente, tatuado,
na exaltação luminosa dos espelhos

E são as letras os meus sentidos
E são as palavras a minha música
O texto gradeado sobre branco
o meu avesso desgastado,
sulco e sombra

Assim, sou e impeço-me, desnecessariamente
verto-me, no decalque da tinta, neste dialecto
lácteo, insondado
que escrevo, leio, mas não domino,
ouso

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fluxo

November 27, 2013 § Leave a comment

Ela, ainda sob a circunferência das aves,
O corpo balanceado na intermitência do peito
acelerado, os pés lavrados,
sulcados, no leito
árido na direção oceânica, evasiva,
acelerada na vastidão desértica,
na divisória arrastada do desejo, da náusea
no silêncio perseguido no trilho dos cães
enraivecidos, nas babas dentadas
a gotejar no encalço a sede
pastosa, condensada no sal
emparedado dos estreitos,
deles auspiciosos

E os pássaros, asas nas penas
dela, sobrevoados num planar esférico, perfeito,
redobrado de mãos espalmadas nos astros,
gadanhas fixas na rotação suspensa
do empíreo, escalado de membros, pernas
e braços alternados, resgate lúbrico
na escadaria aérea

Ela vento, calmaria na composição
improvisada, escapada ao caos
ciclónico, aleivoso
na perseguição dos despojos da cidade
morta

As bestas velozes na passagem
louca, enraivecida, largada e cega
dos vendavais de breu,
dos estilhaços encenados

Ela, levitada das feras
obcecadas no avanço dos lombos,
a embaterem velozes os troncos, resvalados
no peso, refreados nos ódios tardios
no atraso inevitável do fim,
do precipício prometido

Nacos de carne e vértebras,
cascos bestiais, rebolados, atirados
no tingimento líquido, sanguíneo
das rochas nas arestas tatuadas

E ela, corpo polinizado e cabelo de ave,
braços estendidos,
dependurada no Sol, o colo
incendiado,
suspensa na aragem inquieta dos pios,
macambúzia e serena
no avanço do presságio,
a descer o corpo de penas,
embalado de luz e filamentos,
escamas sobre as dunas

As ondas, ainda a resgatar
os ossos nas falésias, e ela
a mergulhar intrépida na submissão
dos pássaros metamorfoseados,
cardumes na profundidade livre dos peixes,
volteio aquático na convocação da metrópole

e se

November 24, 2013 § Leave a comment

E se as flores forem mesmo assim, floridas
E o azul do céu na transparência, verdadeiro
E o firmamento distante e preenchido, infinito
Dentro da essência volátil do amor, inteiro

E se os campos foram mesmo planícies
E os mares profundidade, exercício e espuma
E os peixes, as cores que a minha alma insiste
Do teu peito ondulado no meu ser de bruma

E se o tempo for miragem da verdade refletida
E se o espaço for coragem num atalho sem saída
E se eu for mesmo eu, e tu fores tu, na hora louca

E se o ar que respiro, inspirar o ar da tua boca
E se o teu corpo for a minha manta consumida
E se o amor for mesmo assim nesta medida

premonição

November 24, 2013 § Leave a comment

Um dia, vai agarrar nos fósforos e imolar-se,
avançar em chama sobre o asfalto,
o negrume da noite inflamado, erguido nos braços,
no silêncio aceso das unhas,
sequóias de dedos ateados, apontados
ao céu na expurgação da cidade,
dos trilhos, das horas quietas, caladas,
vadias dos cães,
do Sol explodido no coração das luzes
coadas, dos espaços mortos,
envidraçados, das montras lunares, recuadas
dos passeios refreados, na enseada
da calma retocada, das fachadas recolhidas
aos telhados

Veloz, vai embater as mãos sobre o concreto,
desabar a arquitetura alçada, respirá-la de areia,
trespassar de lâminas as praças, as estátuas
asiladas nos olhos ajardinados,
carbonizados, distantes da foz,
da nascente lídima, das vestes devolutas aos pés,
da intempérie inflamada e nua,
distante dos detritos desabitados, estilhaçados
dos rebanhos espantadiços, nos cascos resvalados,
cobardes da cidade tresmalhada, vingada,
a escalarem fugidios as cordilheiras,
as carnes rasgadas nas frestas da ruína,
trilhadas nas fendas dos terramotos

Mergulhada de luz, vai atravessar alva a planície
ensanguentada, desenhando dunas de lume
no vento do deserto pacificado, submerso
no leito solar da cidade nova

quando

November 22, 2013 § Leave a comment

Às vezes, escrever é puro sofrimento
Um estado compulsivo, e instantâneo
A tinta a dizer a alma, num momento
A alma a desdizer a tinta, em simultâneo

Às vezes, insustentável ser, apercebida
Sensata neste meu adágio, beligerante
Meu coração premência, na corrida
Nos freios de outra causa, meu instante

Às vezes, nesta guerra a que me faço
Parte da miscelânea tosca, repartida
Não sei se sou razão, se me desfaço

Não sei se achada assim, sou entendida
Se embuste provocado, se alma provada
Serei causa ou efeito, ou dor cativa

ela

November 21, 2013 § Leave a comment

debruça o olhar sobre o campo branco,
a mulher calidez e geada,
levitada a mulher, peitoril madrugado,
soterrada a mulher, entardecida,
a mulher barranco, a mulher horizonte, seara,
a mulher eterna de braços solares,
abertos, enlaçados, as mãos travessias,
no corpo dos lamaçais,
cilícios nos varandins, desertos,
corações despedidos e chacais,
a mulher, nos umbrais do segredo,
cedo a balançar a hora,
ósculos incendiados na distância, rara,
caprichosa na demora, aura e poeira
dos dias iluminados, das noites à janela,
sobranceira, nas madeiras estaladas, achas
incendiadas, nas estações do peito,
das horas modeladas ao sonho,
medonho, duplicado e perfeito,
nela,

volátil

November 18, 2013 § Leave a comment

A mulher, desorientada,
abespinhada no sentido dos tetos,
fustiga o deserto pelos telhados
enviesados, deslocados lá fora,
emperrados de areia e de vento

Irrita-se, e chove uma caterva de aves,
um tornado de penas migratórias,
uma floresta de casas, um quarteirão
de esquinas, precipitadas nas raízes
enferrujadas, das escadas,
persianas, cabeleiras oxigenadas,
serras e mesas flutuantes,
cadeiras e maples vulcanizados,
curto-circuitos de pregos,
candeeiros num diluvio de carros,
buzinas laminadas de frio
no dia madrugado, requentado

A mulher, fermentada de membros,
nos cortinados do brio,
num avental oleado,
reflecte uma mesa de cotovelos
no tempo, uma cama, uma almofada
de esponja, linho e alfinetes,
penas depiladas nas facas

A mulher, desentendida,
debruça-se na janela,
retoca uma praça inteira,
vitrinas de postais e louça,
expositores de roupa, calçado
Entulha uma rua de autocarros,
semáforos encarnados,
uma autoestrada de mato
desbravado, e lava

A mulher, extraviada,
galga muros encastelados
nas dobras dos passeios,
claraboias no peito,
o luar ritmado no pranto
das calçadas, encruzilhadas
nas passadeiras achadas,
nos postigos emperrados
das paredes questionadas,
grades de elevador, contorcidas
no penteado, numa trovoada
de nervos e ganchos, filamentos
desarranjados na aparição

Aligeira-se,
e os cães, enraivecidos no caminho dos dentes,
atiram-se e desfazem-se na lã da camisola,
da mulher amalgamada,
que prossegue, abstracta,
na hora das aves,
seu voo esfumado, de montras e néones,
sangue, na carnificina luminosa das letras,
trucidadas

Where Am I?

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