mas,

December 31, 2013 § Leave a comment

fica-me o amor

que esse é eterno
ainda que eternamente
dele eu seja a presa
ainda mais de mim
dele a fugir-lhe

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inevitável

December 31, 2013 § Leave a comment

a ilusão da mudança
na mudança que existe mesmo
de nós eternamente outros
no incontornável espaço
que não mente

~~

December 29, 2013 § Leave a comment

pudesse eu dizer a grandeza do meu frio
na estrada de fogo que me percorre,
o rio que desagua o sangue
do sol espelhado nos meus olhos

que arderia o mundo,
e no deserto, alumiariam reflexos
os poços transbordantes de oceanos

e seriam peixes e areia
as sombras da lua no meu peito,
e as tuas mãos dentro da minha boca,
meu leito remexido de sal
quente na luz da minha sede

senda

December 27, 2013 § Leave a comment

e são os cavalos brancos que passam velozes
a seda, as veias dilatadas pelos telhados dela,
a pele cavalgada e os cabelos deles céleres, refletidos
no zinco dos corpos suados, azuis no orgulho dos ossos,
dos cascos resvalados, dos corpos salgados que avançam,
batem luminosos as casas, velas e silvos,
galgam os ventos do sul pelas sombras enevoadas, dela
o imo, dela as asas, dela que os chama, vento e chuva,
míngua na boca escancarada de gritos que sopra, dela jorro
de terra pelas fachadas, dela mergulho de chamas nas cavidades
mortas, a vida nas entranhas das paredes ocas, de línguas
e sangue calcinadas

e batem os cascos, batem, fustigam ferro sobre prata,
raspam lascas de limalha sacudida, lâminas de chuva
metalizada que mata, cravam nela desgastada a carne, película
tatuada num chicotear que mói, bate, esmerila a alma
rendilhada, golpeia-a impiedosa pelos telhados escorridos
de tempestades, a passagem desdenhosa
na fúria dos galopes que chegam e passam,
trespassam os abrigos silenciados, vazam
de sangue o corpo, o peito quente, dela a distância dos olhos
brancos, revirados, deles o sol esmorecido na veleidade
dos membros dela desmontados

e são os cavalos brancos que implora e são eles que atendem,
e são eles que avançam esbaforidos de espuma,
peito e suor, saliva, sal na sede amargurada, dela os freios, a paciência
da chuva, o medo pastoso, das unhas riscadas o zinco prateado
dos telhados, das ruínas dos cantos desprovidos,
fendidos dos raios fulminantes

e são eles que chegam e batem, amolgam o zinco, riscam a noite
e raiam os olhos dela desertos, cegos do corpo que levita,
lança dos braços as mãos, as unhas furiosas às crinas
e monta o galope de seda que bate, nela que parte agarrada
pelos telhados abraçada à morte, de saltos o caminho da sina,
do rio pela noite fora, farta e fria que aguarda
relampejada e triste o embarque dela,
que deles parta

e são os cavalos e ela e as nuvens nas noites rasgadas,
longas na tempestade eterna dos sonhos redobrados,
sobrepostos, nela um rio largo de chuva que espera deitado a terra,
desliza a lua nua no cavalgar infinito e desesperado das areias
das margens ensonadas, que chegam e enterram
as bestas, afogam o despeito das tropas

e são os cavalos que batem, que ficam, dela o tempo que parte,
dela a canoa e o coração que arde, bate nos braços que aperta
e beija, engole o peito na distância cavalgada
dos corcéis despedidos, dela apeados na margem,
dela abandonada, o zinco dos telhados
dela que parte triste, sozinha os rápidos,
o amor no sangue chicoteado, submerso da corrente
que empurra o rio que dela foge,
nela que bate turva e louca a água que galopa
o fundo e as pedras, das mãos o corpo que entrega
e renuncia, à espuma que tange os pescoços
dos cisnes que a perseguem, cavalos que arriscam tristes
a correnteza abandonada que afastam e morrem

«

December 25, 2013 § Leave a comment

agora, o infinito é
o espaço mais estreito

e o silêncio,
o grito mais alto
do meu peito, mais fundo
na distância mais dentro »

magma

December 24, 2013 § 1 Comment

nos dias diferentes dos dias normais,
ela revolta-se e espalha-se frívola pela planície e estrebucha,
chibata montanhas, planaltos inteiros, todas as ilhas do corpo,
uma cordilheira rasgada de membros feridos, peito golpeado,
leitos de braços em rios secos, mãos gretadas num espancamento
de desfiladeiros e ossos, fraturas sacudidas, espalmadas,
esventração, eminente presa

ela, o coração da terra que ameaça e pulsa o oceano que separa,
ela, o vulcão incendiado, extermínio, dela a garganta ferida que lateja
a chaminé de fogo, o coração explodido de húmus fermentado,
vento, língua, areia e lodo

ela, pele e silêncio, iodo, saliva na vertigem da ferrugem,
vendaval de medo, dilatado, que consome a vontade dos leitos,
dela o corpo sangrado, dela a boca de sal, dela a espuma,
dela a caverna cega de luz, branquidão e lava, carne
na contagem espessa do sangue que mora,
nela que circula e tange veloz o metal

ela, mudez e catalepsia, convulsão e arrasto,
reptação num rasto sangrado de fogo, sub-reptício pelos leitos
incendiados, detidos dos gestos, do fundo da alma impedida e louca,
dela coração latejado, magma, boca
esgaçada de céu inspirado, nela ventre e limite,
nela profundidade vertiginosa, abismo solar
de outra esfera, falésia, despenho

ela eixo e rotação, dela continente e leito,
lume, ascensão bombeada e impossível, dela
corpo oceânico chicoteado, nela cone,
nela contenção, vórtice na ascensão solar, fuligem
propagada, nela penetração, trespasse

ela planície candente de terra agitada, marmoto, chama
angustiada de lume e lava, chaminé azul, pele
abrasada que ascende, brota, rasga a pedra
incendiada da terra infinita que sobe, saliva
numa garganta de água que cresce e explode,
vulção de cinza e plasma, lava de peixes e sargaço, dela
projetados, tombados sobre a terra, mergulhados
sobre o deserto que cobrem de mar,
nela que é sal e fogo, água consumida,
pedra delimitada, oceano dentro

pertinácia

December 23, 2013 § Leave a comment

As meninas crescem e semeiam sorrisos pela cidade
Elas, chegam para brilhar as coisas com um simples olhar,
Elas chegam, e estão logo de partida, a partir

As meninas, carregam cestos de sementes e crescem flores,
Elas levam fitas verdes que crescem dos cabelos, arrastadas pelas ruas,
As ruas que são todas os cabelos das meninas, fitas de veludo verde e cor,
esvoaçadas de água que se move, balança e abandona

As meninas partem, partem sempre e não voltam
Elas estão sempre a partir, sempre a partir,
Um movimento eternamente repetido como um vinil riscado,
uma estrada aveludada de flores, de olhares e fitas,
uma cidade inteira, continuamente renascida

As meninas partem porque habitam as almas descuidadas,
As almas que se esquecem delas que passam e fazem grandes festas
na cidade descolorida, parada,
delas que semeiam flores pelas bermas e crescem jardins,
delas que sobem escadarias, campanários onde dependuram fitas
verdes como sinos, cânticos nas fachadas ressuscitadas

As meninas, dançam e crescem e florescem árvores nos passeios
que batem nos vidros, batem nas portas, batem nas janelas e entram,
invadem e esvoaçam os corpos de ramos e folhas e flores pelo interior das casas,
dependuram vida nas telas das paredes, duplicam os reflexos dos espelhos
dos vivos, sentados nas poltronas a ler nas paredes o que as sombras dizem,
o que não foram no tempo das meninas passarem, delas partirem
deles no tempo as asas que demoraram a ler, a entendê-las sacudidas de risos,
deles distraídos e apáticos delas voadas

As meninas, esvoaçam o compasso dos pássaros que partem,
os bandos eternamente duplicados,
delas que urgem na direcção do mar que respiram

As meninas deixam a cidade florida e verde de mãos e abraços,
as casas que inspiram o coração que cantam
as almas, as janelas que são os olhos e as paredes
que são os peitos que sentem, as ruas os passos doces
rodeados nas casas dilatadas

E as meninas partem nas cantigas, estão sempre a partir
Elas estão sempre a partir,
E levam os cestos aliviados de flores,
e levam as mãos descansadas de fitas,
e vão leves e nuas

Deixam tudo na cidade, no tempo todo que a cidade
precisa para que regressem com flores e fitas,
ou outra coisa qualquer que cresça e habite,
sonhe os habitantes da cidade,
que esperam eternamente as meninas que passam,
deles eternamente obstinados

Where Am I?

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