madrepérola

January 29, 2014 § Leave a comment

pela noite, correm
os meninos na praia
os corpos lácteos,
nácar e lua em movimento,
esquecidos que crescem
as tardes adormecidas
de risos e maresia,
búzios nos ouvidos
uns dos outros, tempo
tropeçado de passos
e areia, os peitos
nas ilhas e nas árvores
que fintam, abraçam
no molhe solarengos
a alma que sangram,
afogam os sonhos
salgados, as apneias
de joelhos nas dunas,
os corpos aninhados
na fé do sargaço,
os olhos que espreitam,
descobrem nas conchas
os brincos das sereias,
os rostos quadriculados
que assustam nas redes
os gatos que bufam,
afugentam a noite,
as asas dos meninos
morcegos na alma
das dulcineias

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escuro

January 24, 2014 § Leave a comment

só me apetece o silêncio
só me apetece a solidão
o tempo vazio do que penso
e as vozes caladas
que clamam dentro,
apavoram-me,
que corro depressa
a boca a calar-me,
o corpo a deter-me
de mim que me fujo
e não consigo alcançar-me,
noite que sou no escuro
que não me enxergo,
sequer o corpo pressinto
no espaço que passo,
a distância infinita
que sou de mim o tempo
esparso que durmo,
de achar-me assim de mim
tresmalhada na vida
perdida e louca e triste
a morrer-me viva,
suavemente

patena

January 22, 2014 § Leave a comment

não há paz, não há paz
nesta traquitana que me faz,
nem quando desta guerra
sou capaz, dela injusta
a razão desassossegada,
que mal se ajusta
ao bem que erra,
à dor na condição feliz,
que custa à alma triste
a graça desventurada

caranguejola

January 21, 2014 § Leave a comment

às vezes deito-me
de folhas e nado uma floresta
de papel, um oceano branco
de espuma que flutua infinito
de peito e de ventre, de mim
nua, deserta que me deito e arrasto
longa, à deriva que me estiro
de tronco e de pele mergulhada,
a alma de tinta na água dos braços
que atiro, arrasto e deslizo, deles
que sou louca o rasto demorado
que alongo, arrasto e deslizo
de carne e de letras,
arrasto e afogo na boca o sal
que bebo, respiro de penas
o sargaço que ondulo das frases
a língua, a saliva respirada
de salitre na maresia das ondas,
nos olhos chorados que fustigam
as marés, escondem as ilhas
que aporto, encosto ao peito de terra
as margens galgadas que sorvo,
guardo das viagens as orlas
inundadas das rotas perdidas,
o desejo dos corpos nas veias
transbordadas, navegadas
na servidão dos barcos, na alma
ao desnorte dos nomes, dos navios
a perfuração da carne soçobrada,
os mastros e as quilhas na pele
golpeada, o marulho no nevoeiro
denso, tatuado de sangue e papel,
no silêncio que penso das frases

leda

January 17, 2014 § Leave a comment

nos dias gatafunhados
de letras que não desvendo,
não leio e não escrevo,
desenho numa folha
um sonho, de um dia
um cavalo negro

e fico todo o tempo assim,
curvada, parada sobre
o esquisso, a cavalgar
de júbilo a madrugada
no meu colo, o peito
na braveza dos cascos,
no batimento alvoroçado,
de tanto que gosto
dele e o vejo belo,
na noite dos meus olhos,
se os tenho ou não fechados,
dele cavalo negro,
dele luzidios,
que até lhe cresço
ao acaso umas asas
negras,
de serem assim escuras
as minhas penas

culto

January 15, 2014 § 2 Comments

Serei porventura
do culto a cadência,
o tempo da luz
no movimento angustiado
dos templos,
das aranhas o espaço
do veneno,
a dormência da teia
na veemência da prece

Serei porventura
do casulo emudecido
a dança das poeiras
na lonjura das lianas,
as caudas dos macacos
no alvoroço dos gritos,
o instinto voraz
na metamorfose
dos credos

Serei porventura
tua, do sol
e do deserto a alma
completa na singeleza
do barro, o espaço
castigado do linho,
a pele ajoelhada
de poeiras,
veleidade
despedida de rajadas,
destroçada de dunas,
trémula
nas tempestades cegas,
assobiadas,
nas faces despedidas
das areias

móbil

January 14, 2014 § Leave a comment

nos dias severos, ela arroja sol
pelas janelas, porque ela é noite fora
e a cidade toda os olhos dela
pelos quarteirões do medo
anoitecidos, cimentados de infernos,
escadarias, dela dentro, ferro,
clarabóia eletrificada, ignescente,
debruçada na luz quadriculada,
ocre, geométrica e ordenada,
quente nas vísceras incendiadas
das fachadas trôpegas, dos clarões
estriados de lua ensolarada,
dela iluminada, dela noite, lume
deslizado de lábios enfurecidos,
escorregados de línguas ascendentes,
descendentes nas sombras alucinadas
dos corpos no alinhamento frívolo
dos recantos, dela desejo resvalado
de vidros bafejados, dela interna,
dela hulha e fósforo, tórrida
nas mãos abertas, espalmadas
das paredes, barro no mercúrio
das lamparinas cegas,
dos pavios oxigenados

Where Am I?

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