louça

January 2, 2014 § Leave a comment

nos dias deslocados de travessas,
copos, bocas, mastigação,
são de mim enjoo os bolos, tentação as facas,
dos vinhos a gula na fome que atiça, empalha
o mundo de farsas, os versos carcomidos
num amarfanhado de migalhas,
que pouco mais valem que escritas falhas,
de mim que não as escrevo do tempo
que me doí, o espaço cozinhado que me calha
de vozes mastigadas, engolidas, mudas de palavras,
desfasadas dos sentidos escorridos dos olhos,
das letras desprovidas, polvilhadas de açúcar,
canela, risos e gargalhadas de rabanadas,
lá fora às vezes a chuva nelas rebatidas
e o vento à janela melhor que paredes ressoadas,
corpos imaginados de louça que são da esponja
tretas, os gestos de outra coisa qualquer
que a água tenta, afoga e alastra, arrasta mouca,
mas fica a rebater no sangue ainda a fonte,
a forma na louça estilhaçada que repasta
buliçosa a boca, no poço da banca ensaboada
do corpo e da alma exausta a monte

e é no detergente que escrevo os versos,
esfrego-os, torço-os, afogo-os, assassino-os
nas travessas escorridas que vão de espuma
escorregada, mortos no sangue transvasado,
desaparecidos que vão pelos canos contorcidos,
a ecoar na noite os gemidos das horas abafadas
que os penso, invento, dito, para deixá-los ir
assim de mim perdidos, na água despedida
que componho enquanto tento, as mãos
na forma da comida em verso de onde cresço
as letras, na fome que me tenta a despedida,
na arrelia de outra fome que sustento

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