January 12, 2014 § Leave a comment

sou capaz de qualquer silêncio,
de qualquer eternidade,
que a minha vida é já de si amordaçada
de todos os ruídos que tenho dentro,
de todos os gestos de mim parada,
encarcerada que sou e triste, de pedra
o leito da corrente habituada, tempo
que me desiste e larga, finge
o espaço que desfalece, ausente
que sou da vida que me consome,
o amor que nego e rogo como uma prece

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escabiosa

January 10, 2014 § Leave a comment

a saudade tem silêncio passeado
de jardins, peso arrastado
de passos, entorpecido de bancos,
granito brunido que embaraça
dentro, de sangue que sou e verto
de chuva a pedra, os lagos
nas escuridões despejadas dos olhos
gradeados, transpirados de branco
e sal no teu rosto bafejado
de aroma e abetos, repetido
de palavras, flores e nomes,
amor oloroso de missivas e génio

A saudade encarcera os corpos
dentro das árvores, submersos
nos troncos dos peitos, dos braços
as mãos atadas de folhas na pele
que me enrosco de casca, o rosto
que deslizo, abraço a saudade
de beijos, o céu anilado
que respira dentro o teu corpo,
inteiro de tronco e de seiva a árvore
que não passa a minha pele,
deambula de jade a falta
sumptuosa das estirpes

diáfano

January 8, 2014 § Leave a comment

do milhafre o grito e o sol
da montanha, os barcos
que voam os deuses,
os astros embarcados nas
naves dos olhos, a ave
na luz da minha lua,
tua no templo do sol
iluminado no meu peito,
das paredes o empíreo, o barro
nas letras levitadas, esculpidas
no sangue das poeiras
inatingíveis do horizonte,
venturoso do amor
imperecível, do fogo a lagarta
que desliza a pedra, nua
que embrandece a pele,
desvenda o âmago, a sede
das manhãs escaldantes,
o horizonte resgatado
no tempo do silêncio
deserto, sonho
das almas geminadas

grandes

January 6, 2014 § Leave a comment

todas as palavras dentro delas
são dos meus olhos as coisas em que penso
da minha alma o tamanho que delas sinto
de mim as casas por onde passo
dos olhos as ruas que não vejo
de morar em mim fechada e fora delas
dentro que sou da alma e das palavras
mapa de outras letras que me escrevem
toada de outras vozes que me evocam
a alma de outro tempo, noutro espaço

absurda em janeiro

January 5, 2014 § Leave a comment

janeiro, e depois?
de que me serve este tempo que é apenas janela que passa,
fração, rio que descansa uma medição inventada?
remorso que dilacera, eternamente?

faz frio e neva, isso sim, é certo

que faço dele? janeiro, que não me faça ele já?
não tenha feito o tempo todo em que o penso?
dele que sou apenas assim mais ou menos espaço
indefinido, esquecível, que transparece,
desvanece e acaba por morrer?

chove e venta, e morre-se, isso é certo

talvez espere que seja o nome a resposta,
tenham as respostas os nomes, e as perguntas
não tenham sido ainda feitas,
esteja eu ainda a tempo de desistir, de querer
perguntar, saber, e ficar assim tudo esclarecido
num nome apenas, o vazio numa voz
que se escuta, diz – ja nei ro -,
e depois recolhe-se a um aquecedor
apenas, um copo de leite e a chuva no vidro,
lá fora o janeiro verdadeiro,
e eu dentro, arrependida de sabê-lo

isso sim, só isto valerá julgar

de que serve um nome que não leio?,
de que chegam as letras que o crescem?
as mesmas que soletro, cobardes e repetidas,
que não mudam o rosto ao mês, o meu,
a chuva, o frio genuíno da hora,
de tudo igual e reposto e os vidros embaciados,
sempre

melhor fosse este mês outro tempo de mim,
dele mesmo, mais original, dos outros aquele, o tal,
talvez um mês de verão deslocado, a acordar a gente,
a pensarmos então no fim do mundo, de alguma forma
uma réstia de começo, outra espécie de cobardia
suada no mesmo nome, uma estalada,
praia em janeiro, acalorada de medo
e bolas de berlim mais cedo na areia,
e provavelmente depois, mais nada de janeiro em janeiro

e janeiro, porquê?
porque mudou um digito na forma, em tudo demoradamente igual?
coração empedernido, mãos dependuradas, bocas caídas?
eu mesma a mesma, do mesmo?

mas nasceu alguém? nasceu?, quem? alguém que não pertence a este mês?
que queira explicar o nome? assim visto de fora a sabê-lo melhor, verdadeiro?

então?
então que se dane! quero lá saber de esperar, disto, daquilo, do mês, do nome!
quer lá saber ele de mim?, dele mesmo?, que nem sequer
sabe que é coisa alguma, talvez já sabendo que é nada
o nome que segura, que ninguém quer saber realmente,
apenas quando doí, a morte chega e depois até
essa é boa, em janeiro, em qualquer mês de qualquer nome

mais vale dizer a verdade de janeiro – que chove, que está frio,
a crise e os rios transbordantes, as casas alagadas,
a humidade pastosa, as pessoas que choram mais, desprovidas de bens,
de trabalho, a fome, a falta de outros meses no mês de janeiro,
as pessoas que choram o mesmo mas parecem chorar mais

mais vale chorarmos todos este mês, a esperança que dizemos,
que não temos, a tremer por dentro de sabemos todas as mentiras,
as cobardias, vaidosos que sofremos, mendigamos

janeiro, e?
não me apetece nada deste mês,
nem sei porque me deu para isto, falar dele

penso nos bichos lá fora, molhados na rua
a tiritar o frio e a fome, a mudez verdadeira do que sabem,
e sabem melhor o mês e os nomes, e estão mais perto das respostas,
vejo-os daqui, como sofrem, como gotejam o sangue verdadeiro
calados, longe dos meus lamentos se penso neles,
enrolo-me numa manta e bebo uma bebida quente, o calor que lhes falta,
a verdade que me falta deles no meu frio

janeiro, e?
e o amor? isso é o que importa aos meses, o amor,
o amor inteiro? que é feito dele?
as árvores balançam e gosto tanto delas,
que o meu amor às vezes não passa disso mesmo,
olhar para as árvores e gostar delas
e imaginar que o amor é um rio
que atravessa o mar em janeiro
desagua quente noutro lado
longe deste frio

janeiro e que mais?
caiu granizo esta madrugada, foi uma barulheira
infernal, meti uma bola tosca de gelo à boca,
talvez devesse ter arrefecido por dentro
a fúria, mas não, foi apenas doce e fria na língua,
o resto ainda arde, e arderá,
não sei apagar estas fogueiras de lumes
desconhecidos

e que mais, que mais digo deste mês?
sou a mesma do mesmo mês
nas mesmas letras a mesma mágoa que me ralha
de não ser e não mudar nada

que se dane, janeiro, me dane eu,
quero é que o tempo passe, depressa,
e a chuva, comigo fora desta medida formatada,
deste amor verdadeiro que falta ao mês,
falta-me a mim e ao mundo, por inteiro,
que mede e nomeia, deslocado

triste

January 4, 2014 § Leave a comment

as meninas às vezes tão tristes,
as meninas do mar o sal e a corrente,
uma fita salgada que agarram nas mãos, estendem,
arrastam o oceano profundo dependurado em pele

as meninas nadam a velocidade da água,
o tempo das pedras, nadam, as meninas exaustas,
os braços velozes e as pernas, os pés
nas barbatanas que sacodem, nadam,
nadam léguas e léguas de sombras aquáticas,
milhas e milhas de coral e plâncton, bichos que fogem
e amam, comem e matam e morrem

as meninas gozam das correntes os rios submersos
que sabem, voam a água e os peixes, os corpos de escamas,
as mãos que atiram e afastam como asas as estrelas,
as algas, os cardumes, as areias esfumadas,
os corpos que escorregam a profundidade que as leva,
as pupilas dos olhos que deslizam vidradas, dos peixes
as lágrimas que espelham os fundos, ocultos
na dor os cabelos as pedras e o mundo

as meninas levam recados luarentos, levam sempre
na pele o desenho dos astros, das rotas, das conchas,
do sol as mensagens despercebidas, nas bocas
que abrem e fecham a água de beijos,
engolem e expelem as letras, léguas
e léguas de pele, sal e sal de palavras

as meninas atravessam o oceano e chegam,
sabem todas as praias desertas, os portos,
todas as rochas e todas as falésias nos olhos
que choram, dependuradas, todas, numa onda
gigante de mar, o leito ancorado nelas que sacodem

e emergem as cabeças coroadas de erva-marinha,
os rostos luminosos de sonhos acalentados de espuma,
e gritam, gritam tudo o que doí o pôr-do-sol,
as asas das gaivinas que tangem o medo planado,
estalam o brilho das conchas reviradas,
escorregam os espelhos dos seixos

e gritam, gritam, os peitos enquanto resistem as dunas,
enquanto as gaivinas pairam a pipilar as vozes,
o silêncio dos recados que decoram, demoram
a contar o sentido da viagem, das meninas tão longe,
de tão longe que choram, chegam,
enroladas nas ondas como focas, deslizadas
dos corpos na orla que desfalece nua a areia,
as meninas deitadas de pele e escamas
e sal que debatem, esfregam os corpos
de peixe que tentam, nadam, mas desistem,
impossíveis que são da distância e da luz

pipio

January 3, 2014 § Leave a comment

lá fora perduram os campos
afundados, a chuva que depura
os caminhos de mim regelados,
a distância mapeada de ruas,
horizontes, nuvens pelas fachadas,
árvores de mãos e braços, nuas
no resguardo dos peitos alvacentos,
das janelas vidradas os olhos que atiro
delas, às asas que passam dentro, voam
léguas, delas que me leva o vento,
delas que quero as luzes
estilhaçadas, vozes que pertenço,
regressada ao mar que sou e tento
a maresia, a gaivota que passa o frio
que me estia, fende o arrepio trespassado,
o pio do mar que me repete louca,
o grito animal de sal emudecido,
triste do bico que arde o silêncio
das palavras puras, que insisto,
demoro na boca, sofro da fome
a ave desgarrada, o sustento desfasado
das ondas longe, a espuma, fantasmas
redesenhados nas asas da água, no arrasto
do mar nas dunas, das veias sangradas
que ondulam de navios a paisagem, redesenham
longe as rochas escavadas, a folhagem
que perpetua, remexida as árvores ancoradas
nos meus olhos, que logram os lagos, o voo,
a gaivota que passa encaixilhada os portos,
despedida traz o mar aberto num postigo
de asas, liberdade que tange, nela
que entrego o peito sangrado, a alma
repetida, sequiosa na face redobrada,
delineada que navega silenciosa
o vapor no vidro, a alma
no pio de uma pena transpirada

Where Am I?

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