hausto

January 3, 2014 § Leave a comment

porque é da chuva a boca
das lágrimas o mar
é doce a minha sede
salgada de chorar

de sal a minha alma
de lua a minha dor
de sol a minha noite
de insónia o meu amor

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mo

January 2, 2014 § Leave a comment

sou das rimas o momento
insalubre dos versos, quadriculados
que tudo encarceram, empapam,
de pasta e de gosma as línguas
travadas, as cismas, as cruzes
que são da terra as letras na míngua
enfartada, o silêncio que pesa,
arrasta o meu corpo custoso de leito,
o rio numa sacola, as luzes, o fio
de sangue à fonte que medra
o poema, mudo que corro desfeito,
nevado de mãos, enfermo
de peito, a curar ao monte
as palavras que não digo
de sal que são e de pena,
de sabê-las puras, temer
dizê-las, desvirtuá-las
nas veias tristes, perdê-las,
longe da alma sã, oculta
da carne fria, mo
deste poema

louça

January 2, 2014 § Leave a comment

nos dias deslocados de travessas,
copos, bocas, mastigação,
são de mim enjoo os bolos, tentação as facas,
dos vinhos a gula na fome que atiça, empalha
o mundo de farsas, os versos carcomidos
num amarfanhado de migalhas,
que pouco mais valem que escritas falhas,
de mim que não as escrevo do tempo
que me doí, o espaço cozinhado que me calha
de vozes mastigadas, engolidas, mudas de palavras,
desfasadas dos sentidos escorridos dos olhos,
das letras desprovidas, polvilhadas de açúcar,
canela, risos e gargalhadas de rabanadas,
lá fora às vezes a chuva nelas rebatidas
e o vento à janela melhor que paredes ressoadas,
corpos imaginados de louça que são da esponja
tretas, os gestos de outra coisa qualquer
que a água tenta, afoga e alastra, arrasta mouca,
mas fica a rebater no sangue ainda a fonte,
a forma na louça estilhaçada que repasta
buliçosa a boca, no poço da banca ensaboada
do corpo e da alma exausta a monte

e é no detergente que escrevo os versos,
esfrego-os, torço-os, afogo-os, assassino-os
nas travessas escorridas que vão de espuma
escorregada, mortos no sangue transvasado,
desaparecidos que vão pelos canos contorcidos,
a ecoar na noite os gemidos das horas abafadas
que os penso, invento, dito, para deixá-los ir
assim de mim perdidos, na água despedida
que componho enquanto tento, as mãos
na forma da comida em verso de onde cresço
as letras, na fome que me tenta a despedida,
na arrelia de outra fome que sustento

Where Am I?

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