ocre

February 28, 2014 § Leave a comment

agora que a chuva amainou,
a hora dissecou este espaço,
sou do imaginário morto o rosto,
a carpideira louca do meu pecado,
semeadora inopinada de girassóis
na ira do firmamento esparso,
de mim o peso deposto, que não sinto
os ossos, raízes na rega entumecida,
que levo o meu luto enterrado de braços,
a pele caiada de primaveras cegas

que os girassóis sofrem o chão permitido,
o infinito cristalino e inconsistente

que as luas e os sóis, são crateras e entrudo,
medo luminescente que arremesso,
campos sofridos, jogados de escóis,
girassóis afogados na água da minha boca,
arquejados na asfixia do meu peito,
astros contorcidos na minha sombra,
desvairados na minha alma, tingidos
de cor desesperada, esvaída,
pavor desfalecido e ocre

que a hora decepada de mãos, esmaecida
na minha culpa desnudada, vai louca,
que mereço sem morte a vida lapidada,
o amor na planície pura, iluminado,
nos girassóis do meu campo que passa
a minha treva seduzida e condenada

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éter

February 24, 2014 § Leave a comment

sou absolutamente
serva desse espaço furtado,
deste contágio tangente e geminado,
que do corpo estremeço a cerca,
sangro de vidro a mordaça,
que de longe é a proximidade,
a longitude residente, desmedido
o agravo desgovernado,
de impossível debelar-se a combustão
papagueada, a corrente electrocutada,
pululada de sangue, licores
escorados, que só derramando
ou sucumbindo, aquieto

clara

February 20, 2014 § Leave a comment

às vezes a felicidade é clara,
de júbilo entendível e perfeita

não durmo, repito-me na noite,
no tempo das aranhas repito-me,
sonho-me de traças, repito-me
vertiginosa pelas tochas luminosas,
luas, girassóis nos barcos e nas asas

e o leito azul, atracado nas veias,
leva-me de gaivotas e beijos aos portos
descerrados de vocábulos, desprendidos
ancoradouros no vapor da hora,
de mim que chego, de mim que parto,
continuamente tremo os lemes que ardo,
respiro ofegante as vagas que latejo,
as palavras flutuadas nos olhos,
embarcadas que respiram a bagagem vítrea,
as mãos, o gozo e a carnação que velejo,
nado de beijos e repito

osco

February 18, 2014 § Leave a comment

o meu rio de veludo
desce barcos de seda e dias patéticos,
errados de entrudo e dissipação
pelas fontes que aleito, que me deito
e cuspo de gosma o pejo dissimulado

que os meus dedos são fósforos
que ateiam desgarrados as pedras,
destilam o lodo da minha boca
cuspida de impropérios coalhados,
sangue, pelo caminho garranchoso,
rastejado de carne e de osso
pelas entranhas lapidadas das valetas

que o meu espírito vai nu, de mim despido,
de velas e espelhos, impávido e sereno,
metalizado pelas ínsulas, pelas ruínas entalhadas

e os meus olhos marejados de luas e vagas,
a tatear atalhos pelos fundos desfeitos,
tortuosos, das mãos escabulhadas
pelos desfiladeiros do peito, do amor
o ódio perfeito, cavado e facínora,
alienado na cera da divindade vulcanizada,
ascendente, explosiva de lava e de sangue
pelo meu rio transbordado, afundado de pranto,
barcos incandescentes, lava atulhada de facas,
cinza e penas, balsas condenadas, vísceras
pela levada púrpura

imploro

February 16, 2014 § Leave a comment

imploro
o silêncio incólume,
exijo-o

como tal, calem-se todos – já,
cessem os gestos que me enlouquecem,
esse bulício alienado que mal me vejo
e escuto agora, reconheço nos vultos
e nas conversas abocanhadas,
arrastadas de horas e olhares abstractos
sobre a molenga das coisas reiteradas,
mortas, que me sorriem letárgicas
na lentidão que sangram, no trago azedo
desse alvoroço na asfixia dos ossos,
arame farpado enrolado nas vísceras,
na moedeira das danças mórbidas
escorregadas de línguas e tempo,
descamadas de palavras automáticas,
ásperas e ferrugentas de rimas

imploro, imploro
quero a seda já dentro de mim,
depressa, essa água pura, silenciada e azul,
esse deserto, esse amor de pele, cálido e doce,
antes que anoiteça e esqueça que existo,
que valho ainda o que procuro, as mãos,
e me desfaça cedo dentro do corpo, do medo,
evaporada e triste, bolorenta
na perseguição que me faço, fastidiosa
na ascendência da tinta que escrevo,
cuspo nestas palavras acidadas e estrábicas

imploro pela sincronia do esforço,
a vossa rendição ao meu tempo desfasado,
desperdiçado na vossa culpa inconsciente,
entediante e estridente no meu desespero
de ferro, catalepsia e queixume,
extenuado

do amor

February 13, 2014 § Leave a comment

todos os dias sou do amor

do amor a chama a perseguir-me,
dele sempre, ainda que de mim queira morrer-me,
do medo que vivo as estações resolvidas,
os dias regulados, desconjuntados dos meus

que careço na alma a perfeição momentânea do amor
na irritação dos dias cinzelados para as coisas,
as coisas penhoradas nos dias inexistentes,
as invenções felizes nos calendários tristes

sou do amor quando penso o nome,
o amor que tange os meus dias irresolutos,
contraditórios e acidentais,
o amor nos dias incompletos e imprevistos,
o amor verdadeiro que me encontra,
reconheço-o e desfruta-me, torcionário,
suave na morte que me aplica,
terno da minha efémera serventia

este poema

February 11, 2014 § Leave a comment

é para o fazedor de bailarinas,
que escreve mulheres na dança dos peitoris
e gatos tímidos que lambem portas
de beijos, miam livros de vento
revestidos de abraços e temporais

Where Am I?

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