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March 27, 2014 § Leave a comment

moro a água antes da reminiscência
dos peixes, das terras e das ilhas,
que levo dentro, desertas nas veias,
nas escamas da corrente desaforada
do limbo, das esferas habitadas
ainda no tempo exclusivo dos nomes,
do princípio arrebatado da carne
no fogo castigado das águas, nos ossos
esculpidos nas pedras, nos corpos
usurpados na espécie, no espaço
metamorfoseado do barro, ainda
habitáculo luxurioso, espírito
no testemunho das palavras puras,
na ereção ambígena do cosmos,
na insulação aquosa e confiscada,
no espiráculo em mim ausente

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Pele

March 26, 2014 § Leave a comment

depois, nos dias cavernosos,
Pele ascende à alma dos vulcões,
às montanhas que nascem estomas,
lava regurgitada, atravessada de planícies,
desaguada de rios, rasgada pelo caminho
das ruas, das achas pela cidade mergulhada,
delas que aguardam nuas, debruçadas
a rendição à janela, os cabelos folheados,
soltos, incendiados, lambidos de cinza
pelas paredes mortas como penas,
labaredas, ainda no sorriso dos lábios,
ainda no sal esmaecido nos olhos raiados,
ainda na deusa que passa, nelas
que olham e morrem

e correm as ruas esbaforidos, ainda,
os homens, de pernas e braços,
mãos sobressaltadas e olhares perdidos
nos peitos delas, níveos, dolorosos
na pedra, despedidos e findos

e sofrem o lume no corpo, ainda,
os homens fugidios no caminhar da lava,
delas debruçadas nas janelas, ainda,
paradas a soprar as dores,
belas e mortas, deles que gritam,
fustigam o corpo, agarram
nas mãos, unham a carne, rasgam o
peito e mostram o amor, a dor
que guardam, que brindam
de desejo, montanhas trajadas de fogo,
de tempo crescido de desertos

e batem, e batem, e choram
os corações sangrados nos ecos
incendiados que bradam, livram
os meninos que eclodem da carne,
doem e correm, dos peitos levitados,
descalços as pedras ardentes,
o leite coalhado das asas, ainda,
esvoaçadas que soluçam, embatem
nas janelas e agarram de garras
a pele nívea, maternal, que perfuram
os peitos descarnados, abertos
que invadem, neles se encerram,
nelas que os guardam e beijam,
e sofrem, eternamente as crianças
infinitas que permanecem, ainda,
castigadas, que amam e oram

liber

March 23, 2014 § 2 Comments

se não sou dos dias preenchidos,
sou sombra do homem-pássaro,
sou onda na praia onde levitou,
do espaço e do tempo confinado,
onde ainda permaneço e sou, tez,
olhar na quietude arrebatada,
na contrição remexida e retocada,
que o homem-pássaro é livre e do mundo,
que o homem-pássaro sequer é meu,
é nos sentidos e no instinto, de ninguém

que o homem-pássaro escapuliu-se
da garimpa dos deuses falaciosos,
que as amarras fazem-nas os homens,
que com elas prendem os corpos,
absolvem os deuses, quebram as asas
e atafulham as bocas de preces,
flagelam o espírito de pecados,
gárrulos, sequer se entendem,
loucos, sequer se encontram, procuram,
sequer sacodem das mãos os espinhos
com que se coroam de símbolos,
fraudam, iludem, mortificam

por isso, sou nos dias brancos
apenas o céu plástico do meu voo,
a breve consciência ressoada,
o movimento convulso do homem-pássaro
na propagação do voo beligerante,
do passado, da angústia e do lamento
do verme a contorcer-se na orla,
à mercê da coragem da preia-mar

cotovia

March 14, 2014 § Leave a comment

a ave sabe de cor as asas,
a vontade que levita as manhãs,
o canto estremunhado das palavras
entrelaçadas, que a noite pariu
num átimo o amor, acendeu-o
de sangue e de chamas, voou-o
de versos pelas madrugadas

poalha

March 12, 2014 § Leave a comment

as meninas atravessam o deserto
quase invisíveis, que a pele delas é de ouro
e o movimento de raios solares
e o traje transparente de poeiras e vertigem
e as areias reflexo da pele delas que passam
e as pedras ondas que dobram as dunas
e os cabelos leitos de rios secos que pisam
delas montanhas e vales que arrastam cidades

as meninas cantam no deserto os ecos ocultos
quase inaudíveis, que a voz delas é vento e brisa
e a melodia de silêncio e tempestades mortas
e os pássaros beijos delas que assobiam e sopram
e os répteis passos delas que enaltecem sombras
e o eco o coração delas que lateja de mãos
as terras que foram verdes e morreram a lava

que as meninas, sou eu nelas que me levam presa
que o meu peso é terra e abandono, delas fado
que as meninas são elas que me respiram loucas
despem-me e lavam-me e sacrificam-me

jirau

March 9, 2014 § Leave a comment

sou desconsolo, fraude,
mimetismo nos momentos venturosos,
que se choro, mal se entende
o lamento, o rio de lágrimas que demoro,
sequer dos lábios a torção do riso,
de estéreis as fontes da minha sede,
o brilho cristalizado dos poços
rasos, os prados secos, a paisagem
de porrigem e desterro, a quimera
risível, de mim veleidade informe,
que insisto cobarde a eterna muralha
ressuada de penas e de medos, a calma
prometida da morte habituada, cercada
de silêncios e heresias, engenhos,
na letargia por onde delineio estrábica,
um coreto aplaudido de avantesmas

asseio

March 9, 2014 § Leave a comment

caliginoso este estado sóbrio, liberto
de mãos e braços, imaginado,
que o tempo repete e o espaço
persiste no engano as cores,
o reflexo púrpura salgado nos olhos
submissos, cristalizados nas ondas
respiradas de prata

que os lúcidos teimam,
pálidos em banhar os dias, assassinar
os loucos, lavá-los do sangue e da vida,
fazer deles jardins coloridos, asseados,
preenchidos, a cada água mais descarnados,
brancos e nus

que a clareza é feita de mais enganos
que a sombra, a noite dos despercebidos,
e a morte a maresia doce nos sonhos
distantes dos astros quadriculados,
multicolores nos vitrais rezados, nos altares
garantidos de condenados, recompensas

que os deuses seguem fingidos
as promessas precisadas, os danos
das pegadas felizes dos tristes, patéticos
a banhos cada vez mais trôpegos,
enfraquecidos que vão insatisfeitos,
cansados, de tanto lavarem o mundo,
deles porcos

Where Am I?

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