orbe

April 29, 2014 § Leave a comment

Ela esventra cavalos na noite,
Um alinhamento de corpos e de facas

Fá-lo continuamente, serena,
Delicadamente, de lâminas e mudez

O céu afinal é de areia, cabelos que chovem

Choverá para sempre esse sangue implorado,
o sal cristalizado dos membros desconjuntados

Parecerá uma chuva estelar, lágrimas de carne,
farrapos de lava a carpir do chão a pele,
as bestas na poeira do deserto, descarnadas,
dela contorcidas, descomposta de trilhos

As pedras levitam corações e perecem

Já não existe esse tempo, sequer os ossos,
mas ela sabe de cor esses gestos, os dedos,
Ainda sacode da mão a areia no vento, as línguas,
corre a pele, respira essa velocidade parada de cheiros,
os tapetes suados e as lonas salgadas, os guizos,
pelo caminho bafejado das dunas os dentes

Os olhos deitados das bestas serão luas eternas,
Continuarão assim prateados no sangue,
dela vazios e esgazeados, docemente

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soberano

April 24, 2014 § Leave a comment

Descarno a montanha branca

Despe-me tigre, descola-me os olhos

O vestido é selvagem,
o espelho amoroso marfim

Rasga-me a pele, a neve, o vidro

Tenho frio e danço-te a prata nos olhos,
as línguas afogueadas do dorso

Tenho unhas loucas, cravadas de árvores

Quero matar-te docemente as pedras, devagar

Lamina-me,
eu sangro-te os ossos,
o teu sangue matinal nas escarpas do vestido

Tenho um piano estripado aos pés,
o teu bafo entrincheirado nas sombras

A neve é o tempo que passas a boca, o sal

Sou maestrina nas veias da carnação,
dor na velocidade caprichosa e branca

Cega-me tigre, esventra a montanha,
a clemência da besta no marfim

murta

April 19, 2014 § Leave a comment

as meninas sentadas nas escadas

à porta, elas vestem blusas novas

o sol bate-lhes luz e flores sobre a pedra,
nelas as faces coradas de pétalas

que a rua passa a velocidade dos olhos,
a fragilidade dos brincos-de-princesa,
delas que não sentem os degraus,
delas que fixam as bocas, o riso e o açúcar

e gracejam clarões de bolos perfumados,
tremuras de ferro no tempo da levedura

as meninas cristalinas, atentas à voz da casa,
o coração de fogo na palidez da lua que dilata

das escadas, elas sabem de costas os batentes e as janelas,
de cor o cabelo, a nudez das bonecas sobre a cama

as meninas e as blusas com pombas desenhadas nos telhados,
aves celestes que bicam de sonhos o pescoço,
delas que seguram felizes os sinos no peito

a rua corre um sonambulismo de carros e acenos

as meninas pulsam o mesmo sangue,
elas riem nos olhos o mesmo sal que suam,
batem umas nas outras as veias dos joelhos,
escorregam na pedra as saias plissadas,
as mãos pegajosas de doces e promessas

há um corrimão de gestos que sobe a casa,
um manto de murta que invade a sombra,
lá dentro uma fada num avental de tule

as meninas deslizam o granito de corpos,
sapateiam os sonhos numa birra feliz

musicais, aguardam o instante do beijo

há um telhado que passa de gatos pelos beirais,
no tempo silencioso das meninas eternas que olham,
delas as aves no vidro, o açúcar e a lua

a rua no tempo das escadas, da fada e dos brincos

minuto

April 14, 2014 § Leave a comment

não sou do poema
a poesia é que me toma
por isso não tenho tema, não tenho hora
apenas expiro, que a inspiração é poeira
sai de qualquer pedra que eu escrevo
e pode ser de amor
e pode ser de ódio
e pode ser apenas um olho
e pode ser apenas uma perna
metade do corpo ou inteiro,
ou me dou, ou me tiram do poema
o que importa é que sinta e que seja verdadeiro
seja bonito ou seja feio
não tenho qualquer meio, qualquer poema em mim
sou apenas se ela me quiser,
vou mesmo sem de mim saber,
a arder a poesia que levar
que nada escrevo que não seja o que expiro
depois dela inteira me inspirar,
e só não deito fora este poema
que é uma merda, porque escrevi-o a seu mando,
o tempo da caneta e sem pensar
agora quem o ler, que fique a aplaudir, a desdenhar
que de mim pouco importa, não tenho pena
se acharem qualquer merda que calhar
que agora vou sentir a poesia
fazer outra merda de cheirar
e se ficarem aqui escandalizados,
que se lixe, estou-me a cagar,
há dias que não tenho jarras
nem tenho flores para enjarrar,
nem velas, nem vontade de rezar,
só me apetece dizer merdices
que chega de rosas e sonhar
e agora até mais ver, vou trabalhar
espero que com outra inspiração
aquela qualquer uma que me achar
tchau! miau, au,au, uma erva e um bacalhau
não tenho saias para puxar
toc, toc – é agora
até qualquer hora, plim
uma joaninha no capim

derme

April 12, 2014 § Leave a comment

caminhas o fundo da água,
uma pedra no peito repetida,
um vestido que trazes para cobrir-me,
desnudar-me do mundo, ainda

por isso estou na praia regelada,
eternamente a atirar-te os braços,
o coral da minha sede,
a minha boca de anémona

e o teu peito cristalizado de sal,
aquário, nos olhos dos peixes sangrados,
dos búzios gotejados do nariz

e este espelho, este vidro espesso,
que fungo de pele a face

vejo-te os cavalos sobre as ondas,
latejam bátegas de marés, resfolgam,
o manto de água a fugir-te das mãos as rédeas,
o meu vestido nesse cuspo, quase

estico os braços, tanto, tanto,
que desisto do corpo para alcançar-te,
ser da tua passagem superfície de escamas

olho depressa as escarpas,
não vejo onde prenderes a velocidade das bestas,
como cobrires esta nudez desesperada

e a areia que já te devolve os cascos

nem com chibatadas regressas antes da maré,
regressam-te ao colo os cavalos de espuma e sargaço

estou nua e fria, e os meus anzóis de dedos sempre prontos,
tu eternamente repetido nas minhas unhas, quase,
sempre atiradas tarde,
e o meu vestido um nó desfeito no teu pescoço

aí dessas bestas que as mato,
que não te trazem,
mostram-te apenas para saber-te,
ler-te incapaz as pedras

paradigma

April 7, 2014 § 1 Comment

Talvez os pássaros,
Aplique aos pássaros esta amorfia,
Que careço a seda da ave que falho,
o deslizamento migratório que escapa

Sou a bruma que encobre,
mas eles, o sol negro que alucinam,
Que o meu fantasma no lago, tem olhos,
Passa os dias a contemplar a treva

No limite, resta a superfície a espelhar-me a face,
a paisagem aquática,
Essa, é o prenúncio geminado

Talvez, o fazedor saiba o metal das aves,
Já que sabe de cor pedras e valas,
Lê os lodos e as sedas e as miragens,
Nada disso o intimida

Talvez saiba de mim qualquer vertigem,
compreenda esta bruma irrespirável,
a faca contínua na atmosfera,
o metal que transpiro

Falo do resvalar laminado,
da luz lacerada na carne da fronte,
Porque depois, só o rosto,
ainda mais indecifrável, submerso,
A ferida aberta sem língua

Os pássaros debicam fruta na árvore,
enquanto planam o tempo da descida,
Escorrem o doce dos bicos antes do voo

Careço desse açúcar,
Logram o meu olhar desfocado de crosta,
adocicado de sangue,
Orbes sem pálpebras na desfocagem do bando,
no afogamento do suco

Se atiro os braços agora, esta dor contorcida,
Desce a sombra condoída sobre o espelho,
E a minha boca húmida, ávida, cresce um poço,
Abandono a cabeça

Vejam só as aves, como voam, contorcem-se
naquela velocidade negra, tão suave, melodiosa
Dançam como a paz e o silêncio da morte,
Um maná de penas, de ossos e de força,
O bando inteiro, o céu

Vejam só, como dançam, seduzem

Tu, açulador de sentidos, sente-me,
a garganta e os pássaros,
Que vivencias? tomas da minha boca rasgada

Como voam, ondulam negros as lanças,
Como lhes espero as asas

Alguns, ainda pelo canto do olho,
debicam bagos na árvore, serenos,
Antes da chuva dentro das minhas mãos,
Antes da acidez do medo adormecer

Não tarda nada, nenhum na árvore,
Todos dentro de mim

Não tarda nada, outra massa

Outra massa que ondula,
E este vestígio de sangue no lábio

revólver

April 6, 2014 § Leave a comment

O quadro é a noite, a cerca electrificada do espaço, a penitência circular

Quando a hora é do quadro, o mundo é apenas esse instante
A paranóia dessa atenção sobre o quadro nas trevas em trajes menores
E eu, sou a crucificação, porque ele existe,
a cama, os cavalos, o pigmento

Na profundidade impossível sou o sono atirado, o disparo dos olhos, as mãos, os sentidos extenuados, selváticos, indomáveis,
Pólvora

Adivinhem a pólvora, quente. As pedras.

Quando ninguém vê, e eu sou só a vigília, as paredes e o quadro no átomo
Encosto a porta e cresço dentro, ainda mais quarto, mais trevas, mais tela
Sou posse desse espaço, o derrame que queima

As minhas mãos sacodem as paredes na perseguição do frio, do odor da pedra, da boca nocturna, da face, do bafo, do corpo, do fio, da areia, até desnudar-me no quadro, a tentar despida o sono, a quietude dos cavalos na paisagem funda

Quero
Os meus dedos tentam

Sou dos cavalos o dorso, as festas onduladas,
Os dedos pelo negro, pelo ocre, pelo ouro das poeiras

Súplico. Sono.

O quadro dói-me uma festa nua de lâminas pelo corpo,
Demoradamente fundas,
Dói-me um rio de sangue, um lençol gélido de néones sob as pálpebras,
Relâmpagos púrpura e ácido
Dói-me o gotejar repetido na distância, a carne, os nervos, a voz,
Uma mordaça de lama que não cala

É o mundo todo dentro do sono, inquieto, revolvido de nomes
Estirpe no sopé das montanhas submersas, invertidas,
Uma fresta vulcanizada, oceânica, virgem, inalcançável, bolha

E eu, flutuante no vazio do cosmos, astronauta acidental
Asfixia cúbica, antimatéria, mercúrio, órbita

E a tela
A tela sempre lá, abóboda, epiderme cerebral, colagem
Cavalos intermitentes no plasma, no enquadramento exacto da tortura,
No cálculo preciso da dor

Percebo-os. Galopam. Também lhes dói a criação
Também estão presos na tinta, no gesto, na invenção, na planificação
Assistem ao linchamento da espécie,
Suicidam-se no óleo, no linho, no formato

Talvez me suicide neles, nasça noutra tela qualquer, de sangue
Uma paisagem verdadeira e bárbara, de adormecer

Suicidam-se no óleo,
Oferecem-se à perfeição intocável do desgaste, à miragem carcomida,
À avidez na violência dos limites, à lã

Não lhes consigo a explanação
E persinto-lhes a raiva, o amor, os dentes
Possuem-me e torturam-me pela noite fora, seca
Eles, os pinceis impossíveis pela noite dentro, acesa de facas

A minha mão pela boca adentro,
Unhas numa tentativa de veias – um peixe, um anzol, um bisturi

Opero-me

A minha mão cirúrgica, a penetrar irrespirável a boca, a estrangular as vísceras, a puxar, a puxar o medo, a descolá-lo lentamente – casca, pele, película

A minha mão anémona, a sorver o musgo, o lodo, o leite coalhado, visguento, acerbo

Puxo, puxo, sangue, nata
O quadro – outro embrião

São os cavalos e os cascos a dilacerar a paisagem
São eles, que me levam, executam
Vêm para dentro de mim pelo olhar, insistem desde o início
E agora, são sempre, estão sempre, mesmo depois do sono, do esquecimento – eternos

Gosma, mênstruo, vómito, presságio, insónia

Atiro-os de novo. Contínuos. Devolvo-os,
De raiva e de crinas, e cuspo, e cinzas

Estão na tela permanentemente, equidistantes, vingativos
Arrastam-me o corpo, os pés entalados nos estribos
Os músculos, o pelo, o galope suado no compasso dos cascos permanentes,
As ferragens em brasa perfuradas na língua imprecisa da miragem

Os cavalos não sabem a velocidade que são,
Sequer imaginam a forja que galopam, a paisagem que lapidam de ferro
Não sabem a velocidade que são,
Não sabem de mim parada que corro a camara-lenta que fujo
O tempo que demoro e imploro, estremeço

Os cavalos não sabem a infinidade que são,
Porque desconhecem a tinta, o cárcere enquadrado da paisagem
As cerdas cortantes na água evaporada do hálito, a serpe orbicular,
As fezes

Os cavalos não são peixes, são desertos, não compreendem a água
Não percebem as escamas, a descamação da insónia, as fontes,
O vislumbre que provoca a inevitável possessão do instinto que fazem

Vejo-os. Sequer sabem isso – que os vejo, que os escuto – o estrupido ensurdecedor dos cascos na asfixia insurgida e ocre,
a poeira que resfolgam pela noite acesa do quarto,
sequer sonham as cortinas escorregadas, o gesso pantanoso
do tecto, os ossos acolchoados, a pele exangue

Tenho um revólver e mato-os
Mato-os já
Não os posso mais saber, deixar cavalgar o silêncio

Tenho um revólver contínuo, e mãos, e um quadro
E mato-os já

E depois, o quadro, um horizonte de sangue, uma veia, um derrame,
Uma culpa, uma condenação

Que se dane. Que se dane, isso, isto

Não posso mais este ruido silencioso de gritos
Sequer o quadro, odeio-o

Talvez os cavalos sejam um bom alvo e eu atire bem
Talvez atire a falhar as traças nas pausas das paredes,
na intermitência das luzes, nos espelhos prateados das asas

Talvez atire aos estribos, acerte o meu cabelo e falhe,

ainda assim, talvez queira esse alvo
os cavalos são uma mancha negra no cansaço
Em determinada altura, enterrados na areia, talvez a sombra de uma duna
Uma assinatura putrefacta de olhos e nomes, ardência e petróleo

Atiro. Não espero mais
Consigo fazer um poço na paisagem viva e dormir depois

Tenho um revólver contínuo, e mãos, e um quadro, e uma mancha de cavalos
Nada que me impeça esta nudez, esta pureza, este gozo assassino da luz

Ou, talvez, atire antes à morte deitada na minha cama,
Ela que é luz e sofre tudo,

Faço-lhe uma caridade

Ela que sofre o quadro, sofre-me a mim, à minha insónia
Ela que corta os pulsos e morre continuamente
a quintessência inquestionável da obra, ela que morre impossível

Sinto pela morte da morte uma espécie de condolência
Pelo peso que humildemente transporta
Uma espécie de fardo de amor incondicional que treme
Treme e vacila e arrasta de carne a eternidade,

Não,
a morte não.

Atiro aos estribos

Where Am I?

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