inumação

May 30, 2014 § Leave a comment

Tenho medo das flores, dos acenos
Pavor da beleza tépida e traiçoeira das cores

Lá fora há um galho partido, ulcerado e triste, enfermo
Empurrado de chuva e nós pelas sargetas, gangrenoso,
a tentar a coragem de uma fresta granítica na crosta
Não imagina a formusura da jarra, a macieza da seda,
a distância envernizada na lapidação dos abetos

A memória dos braços dorme lápides nos atoalhados,
um prenúncio vidrado nos olhos espelhados, insidiosos

São as mesas decoradas que sorriem os pulsos exangues

Odeio os sorrisos afectuosos e perfumados, postos, cansam-me,
Fingem o espaço desarticulado dos gestos na doçura triste

As algemas denunciam as facas, dedos submersos em guardanapos

Já sangrei a mesa de unhas, trucidei as flores, as pétalas,
Esfaqueei-as na raiva polida do prato

Já fiz dos tampos portas, pernas das janelas, cruzes nas paredes,
Já morri arranjos floridos na ferrugem das lâminas

Não quero baixelas nem vasos de interior, nem retratos vestidos

Quero a tempestade límpida na enfermidade pura

Ainda goteja da mesa a água do galho lá fora afogado em sangue
Ainda escavo a campa sobre o tampo na reza das flores, sepulto
Ainda asfixio guardanapos na dobra engavetada do peito
Ainda descarno a mandíbula na raiva reprimida

Qualquer paz que arrisco, é amarga e negra, contorcida e nua

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May 27, 2014 § 1 Comment

Os loucos são mais loucos de serem lúcidos,
sinceros dos mundos que intuem, velam,
dos deuses os ângulos sábios das paredes

Por isso conquistam a morte nos muros,
empedram a serenidade na promessa exacta,
mastigam pêssegos infinitos na tremura da língua,
reviram os olhos de caroços que rodam e rodam

E babam e babam, escorrem a terra de lábios que lambem e lambem,
chupam na fruta a seiva profunda, o suco da carne alienígena,
espancam os dentes frenéticos na precisão demente do açúcar

Oh! quero um espaço vazio e uma mesa para escrever-lhes

São os eleitos da criação, elucidados e absolvidos,
o entendimento na alucinação das orbitas gustativas

Mostram os lábios sangrados na repetição das unhas,
porque a árvore dedilhada reside-lhes dentro
e irrompem fundo os dedos na boca para trazê-la,
arrastá-la de sangue, desmembrada de braços e raízes,
os deuses pelo veludo descarnado dos pêssegos

Tenho beijos e beijos na boca para esses loucos,
para o tempo que respiram e vomitam as vísceras

Mãos para pentear-lhes os cabelos, demoradamente,
suavemente deslizar-lhes a pele de lábios e línguas

Passa um pássaro, olham e seguem, os ossos

já não voltam

Que tempo e asas levam

Desenham mapas contínuos na migração das aves,
podem a felicidade nessa abalada ininterrupta,
a alma alheada pela loucura apaziguada e livre

Como planam doces as pedras na polpa da fruta

Oh! quero um espaço vazio e uma mesa para escrever-lhes,
cartas e mais cartas, cestos e cestos de melaço

Quero os dentes dos loucos que trincam e trincam, sempre
as línguas geminadas que lambem e lambem e torcem,
a saliva urgente com que serenam os olhos, expurgam o sangue,
a loucura das asas saciadas, brancas, soltas pelo granito

Preciso banhar-me na polpa, no suco dessa demência sã

nado

May 25, 2014 § Leave a comment

Componho a paisagem lúbrica na parede,
um peixe nas brânquias lapidadas das janelas

É tempo de descansar os anzóis nas cortinas, o vento,
seduzir a correnteza debruçada de olhos,
a luz na tangência dos poços esvaziados

A transparência esbate a opacidade, a película,
a água subtil circundada de palavras turvas e debeladas

Nado esse peixe nas veias, estremeço o corpo, o sangue,
deleito-me na seda das escamas que atravessa nu,
golpeia a vermelhidão das luras, o fundo escavado

A infusão respira qualquer sentido dilatado nas órbitas,
náufragos no êxtase dos cardumes estarrecidos e sitiados

Soletro uma carta no quadro, abispo uma lesma no leito
Seguro-me à seiva da carnação e expludo o vidro

Chove lá fora esse instante fusiforme que alago dentro

Delineio na paisagem a têmpera deste gozo afoito,
Liberto e denuncio a ova no pingalim do nado

É precioso o meu aquário particular, repentino e edaz

Reabilito a alma no desassossego desse templo líquido
Cresço da língua um girassol humedecido de pétalas,
um fluxo de escamas embebidas nas paredes afogueadas

São os peixes que sanam as janelas do meu calendário

cevo

May 18, 2014 § Leave a comment

Diluo o peso solitário do fundo dos lagos, ainda
Porque o tédio é esse tempo exaurido e lento,
qualquer arrasto de lodo e profundidade que dói

Correrão já as bestas os caminhos? Sonho
Quando passarão elas as árvores?

É por aqui a minha água, venham, cheguem-se

Os peixes atravessam rápidos os olhos líquidos
Sinto-lhes o açúcar na correnteza que apressam,
o vestígio do passado na memória da minha língua

Cavalgarão já o meu destino? Lambo

Ajoelho-me no coágulo de sangue do meu vestido,
ergo os braços que a Lua já de lá vem, caí

São os cardumes os pássaros do meu céu
Rodam pulseiras de escamas nos meus pulsos,
algemas madrepérola que costuram, doí

Hão de acercar-se de mim cegas, da minha margem, elanguescidas

Já tenho lâminas nas unhas e chamas no olhar, venham

Terão passado já as árvores?
Quando pularão elas a cerca? Anseio

A Lua já pousou a bandeja de prata sobre água

Espero as cabeças, tremo, puxo

Larga-me!
O lodo estreita-me a cintura, doí

Os corais cortam-me e perfuram-me a carne

Terão já pulado a cerca?

Já tenho o luar dentro do meu peito e emerjo
Já se soltou de mim o limo e respiro

Já lhes pressinto o ferro, sinto os cascos na borda
Já lhes vejo os beiços, as línguas dependuradas, sorvem

Escancaro a boca cavernosa, doí
A úvula hipnotizante e ávida, tremente

Dilato o meu peito de lago açucarado, salto

Já lhes cego os olhos, o sentido que sofrem

Agora o meu vestido despido é uma caverna funda

Já lhes mordo as línguas e gritam o sangue e fogem

Já não as largo mais, bestas, nunca, dispo-me
Já saltam a cerca desvairadas, tortas, doí-lhes
Relincham o caminho do fim, quebradas de ossos

Largarei esta sede apenas quando passarem as árvores, os dentes
Quando os peixes do meu fundo tiverem asas e ninhos e voarem
Tiver vomitado todo o coalho, as raízes

A Lua é agora o domínio do meu sangue, este vestido de folhas

espiráculo

May 13, 2014 § Leave a comment

Há um rancor que brota das coisas paradas
Tenho esse germe comigo, epidémico e impune

Tudo é mais belo de dentro deste cárcere, as asas
Tudo é lá fora qualquer espécie de desígnio, largueza

Em mim, é o musgo, são as mãos impossíveis e gradeadas
Rodam parafusos de fungos, larvas escorregadas de unguentos

Cravo essa humidade sangrada no ferro das avantesmas,
o cárcere insalubre que ascende trespassado o pus

O tempo avança recuado de paredes eternamente fuliginosas
Ascendo-as de unhas pela insipiência granítica dos ossos

Talvez lá fora qualquer luar de veludo e as minhas asas, portas
Talvez qualquer sonho varejado de mariposas livres, espiráculo

Arrisco as fachadas, as evasões e os mortos que recobram
Deito-os em mantos de areia na esperança das vagas, cubro-os

Insistem o sal, os urinóis fétidos esvoaçados de traças

Fundamento a temporização desse voo oblíquo e sulfuroso,
o deslizamento dos telhados pelas poeiras levitadas

Ide-vos, fujam

Os símbolos descrevem a repetição pelas miragens apegadas,
as sombras que resvalam caleiras dissecadas e titubeiam nomes,
teimam ampulhetas coaguladas de gestos, chaves

Ficam

Os sons das asas escrevem em mim certos nomes contínuos
Insisto-os pelas lápides descarnadas, minhas frases de pássaro
Talvez um dia voe e saiba ler-me sem palavras, flutue

Tudo é mais sentido de dentro deste cárcere, o vento

Urdo gritos de lã no coração das gárgulas e pereço a pedra
Morro em cada dia as larvas pelas travessias sepultadas

Sofro estas gaiolas eternas nas asas dos meus braços, o ferro,
os alfinetes perfurados nas córneas que ditam as estrelas

Sofro o estigma das paredes invisíveis, o firmamento, as luas
A distância entre as asas e os gestos, o chão da minha água

risível

May 4, 2014 § Leave a comment

Ela é risível, por isso é estrábica e louca

Os loucos têm esse direito de ser belos, ridículos
É um ridículo silencioso, doce e virginal, crescido de pavores,
pautas estilhaçadas num fado acetinado de pianos,
dedos trucidados no marfim cataléptico dos gestos

Por isso, ela contorce-se, embate nua a dança espelhada,
Escorrega a pele acesa pela prata dos deuses pendulares,
a carnação lapidada de teclas, aspergida de sangue e lava

Há uma delinquência pura, maléfica e levitada nela

Ela é risível de si mesma, nesse pranto derramado de arenas

As papoilas de mênstruo são mais rubras nas pálpebras
O silêncio lapidado dos pássaros que plana, são bocas e imprecações
Todo esse silêncio voluptuoso de penas e esgares soterrado de paisagem

Os pés dela dançam golfadas de dor delineada, é instintiva e louca
Alisa os cabelos, peladas resvaladas na amolação dos punhais
Tem esse privilégio asseverado de padecer e segredar às gavetas

Ela é louca, irreversivelmente doentia e sóbria

nitro

May 2, 2014 § Leave a comment

Elas são pálidas, mélicas, vaticinas nocturnas,
atravessam o oceano em pontas,
bailarinas nas traves ferrugentas dos baloiços,
a lamber luas revoltas no açúcar das línguas

São fadas levitadas, tentadas nos anzóis das unhas que remam

Em cada onda, as tíbias são asas, sabres cruéis sobre as vagas,
lapidação arrastada de membros, escamas e silvos

Olha-as, eléctricas e nuas,
decapitam peixes na seda dos cabelos e gritam

Elas, a chibatar a velocidade nos cadeados que voam,
a raiva nos astros trucidados na cerca das galáxias

Histéricas, fazem pinos, sangram fuligem dos dedos lacerados

Sublimes ao luar da maré, fingem mariposas e planam navios

Das garras, crescem-lhes dialectos mar-de-perola e búzios,
pragas das mandíbulas desfeitas de coral cortante

Amorosas, afagam a pele profunda fustigada das sereias,
e choram, choram muito e riem a demência cristalizada,
o tempo de deter, abraçar esqueletos salsos

E gritam, escorregam as mãos pelo rosto e gritam,
desmaiam crustáceos de sangue nas coxas que sofrem

Elas amam, adoram, baloiçam e gritam e gritam,
esventram léguas e léguas, velozes no estridor da noite

Where Am I?

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