e,

June 29, 2014 § Leave a comment

tantas árvores para abraçar, tantas
tantas e quietas e caladas
tanto espaço e uma praça de pedra
tanta cadeira para esperar o tempo

e o tempo que não existe,
nem a mesa, nem o chão
e a certeza, tão triste, triste
e a loucura silenciada
e a loucura que é nada
e o espaço comigo em vão

que o vento leve e eu traga,
a pedra para a árvore, e eu fique
fique para ali sentada
e o meu desejo que insiste
qualquer árvore que não medra
morto na raiz do chão

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pupa

June 24, 2014 § Leave a comment

Tenho este poema sobre bailados que não digo
Não digo o ferro nem o tule nem a pele

Trata do tempo das fadas e dos vestidos
Trata do guarda-roupa engomado de açúcar
Trata do vapor, do sangue e do cuspo
Trata do veludo das paredes, do lacre
Trata da caixinha trilhada nas asas

A bailarina da caixa de música, ela, puas
Roda o plástico no espelho das borboletas
Roda a eterna pupa silenciada, a corda
Roda a roda, a impiedade do eixo, roda
A perfuração no trilho das palhetas, roda

O poema geme, geme, geme grave o esquife
Geme os dentes amolados na pedra, a língua
Geme o veludo cor-de-rosa, desgrenhado
O poema pela cintura da bailarina tonta
O poema pelas pernas da bailarina tonta,
As unhas pelos cabelos, pelo tule, tonta

Agora, em pontas o dorso do corcel, tonta
O corcel na sombra das borboletas adormecidas
O corcel nos olhos voados, espelho profundo
Prata descarnada de vidro e lábios, pupa

São as asas, não voam, mas são as asas
São os retratos repetidos, as penas, os voos
As asas, os pregadores memorizados de paredes
As asas que não voam, batem retratos

Não crescem, não crescerão jamais, as asas
Não mais da pupa amedrontada nascerão fadas
Não mais de morrerem ainda os versos

É tudo da bailarina apenas, insânia e sonho
Uma caixa e um corcel e um bailado

Os cantos são as janelas crucificadas
Os cantos são os poemas, são os atilhos
São as asas das bailarinas nas borboletas
São e não, as asas

sacada

June 21, 2014 § Leave a comment

Respiro das estrelas o fumo das varandas,
o tempo invisível das osgas pela faina dos relógios
São elas as ampulhetas dos desertos contínuos,
os passos cambaleados de auspícios cegos
São elas as vísceras desajustadas da demência,
o delito expelido de anais por estreitos óbvios

Há o desespero níveo, assim, deslizado de cera,
tingido de sangue pelo chão, degustado de pânico, sôfrego
A condenação descarnada e húmida, apaziguada e lenta

São as madrugadas excelsas de tristeza, castigadas de sede,
a alucinação evadida de silêncio pela exaustão ardente

Se as letras raiassem tempo sobre as asas, éter
Se o tempo derramado inflamasse tudo, a solidão
As varandas algemadas ao corpo navegassem mares
A osga de novo no sonho repetido das paredes,
Luar pela maré dos ombros e dos braços, beijos

Talvez a noite pernoitasse inteligível a manhã,
Desvendasse as sombras na luz, adormecidas
Talvez alcançasse alguma lucidez noturna o dia
De cor o mundo insondado de tempo e varandas
A certeza das palavras pela indubitável dúvida

proa

June 15, 2014 § Leave a comment

São os dias perniciosos, estagnados como carcinomas, vícios
Moem o relento oleoso no sarro dos portos, varejas e larvas
que escorregam velhos reumáticos nas portas, trôpegos,
ajoelhados de docas e postigos, olhos embaciados nos vidros
fugidios, sombras pela maresia dos gatos escoriados

Doe-me esse estaleiro de velhos e gatos, esqueletos e embarcações
Doe-me essa viagem de porões e náufragos, repetida de âncoras

São eles, os velejadores, culpo-os, aos velhos que vivem as frestas,
perfuram as mãos nos mastros dos navios como cateteres, anzóis,
lágrimas de soro vertido de velas, assoado de muco e de peixe,
Mentem, tudo o que sabem iludem e aliteram, fingem nos dentes,
dentaduras automáticas de sal, prurido e terços, necrologias

Um dia, matá-los-ei a todos por este desacerto, persistirem em mim,
Rezarem-me templos de navios e vagas que não passam, que não quero
Trucidá-los-ei na raiva do meu pranto, um bolo de sangue e espinhas

Os velhos sabem o que dormem e mentem, fingem desbocados o silêncio
Pervertidos degustam a morte que mastigam no tempo viciado, aquoso
Debicam-na no prato esgotado dos tremoços, no fumo, nos jornais

E partem, partem continuamente as mãos pelo petróleo crepitado de dedos
Zarpam os mastros nos palitos, a fazenda dos joelhos, as gengivas, findos
O medo escarafunchado de baralhos e lambuças, prescrições e vinho,
ossos na pedra, nos dominós desolhados da batota na hora das tabernas
E olham, e comicham o sexo nos bancos no pasmo da inércia, comprimem

Digam, digam logo a ilha que moram, o naufrágio que habitam, teimam
As veias sarnentas e varicosas das soleiras polidas de olhos e esquinas
Cuspam esse medo verdadeiro, esse coalho sobre o meu tempo parado
Parem de lamber as chávenas nas pausas simuladas dos cigarros
Morram de vez o muco e soltem de mim a morte nas amarras

entroncamento

June 8, 2014 § Leave a comment

As meninas sangrentas ainda dormem, gravíticas,
e já estão a pé, e já estão na porta, e já estão na rua,
e já estão nuas no entroncamento

Abruptas, fendem a noite, o sangue, dilatam as córneas,
estalam o gesso no tecto, as veias nas pupilas cegas, os ossos

Quebram, esfregam, ardem, descolam a cera, a pele do corpo,
bafejam lábios de gretas pelas paredes, álcool, eléctricas,
castanholas lascadas de dentes, gengivas descarnadas,
as narinas rebentadas de hálito nocturno,
as línguas sangradas de farpas e punhais

Estão sempre odiosas, famintas e vingativas, nuas

Ai de quem tentar dormi-las – caçam, unham, ferram, e demoram

As meninas sangrentas não desprendem, estão condenadas a doer
As meninas sangrentas, acordam e cospem logo, silvam, silvam
inflamadas, reptam sujas, doentias, loucas, estrábicas, genitais
cospem a madrugada nos bocejos, escorrem ácidas, fétidas
transpiram cólera, crepitam bolhas, coágulos pelo granito

Ai de quem tentar detê-las, esse lume – prendem, cortam e ardem

Elas, ainda lesmas no leito, e já vísceras nas lâminas verticais,
cortinas de carne, de unhas, de olhos estilhaçados, ruas

As meninas sangrentas ainda dormem, ressonam os símbolos,
e já estão a pé, e já estão no candeeiro, e já estão no livro,
estão no relógio, na fotografia, no tapete, no rodapé, na janela,
já na porta, na dobradiça, trilhadas

E já estão nas escadas afiadas de arestas, anavalhadas,
e já estão corcundas na rua, já estão infectas na berma,
já levitam o corpo da lama, erguem remoinhos esfarelados,
Já estão nuas e inflamadas no entroncamento

Lá fora há um frio que fende, uma pedra estalada que mói,
lá fora há uma rua sem senda, o ódio puro numa esquina,
lá fora há sebes de ampulhetas esvaziadas, olhos,
lá fora há um espaço lindo e debruçado que fede

As meninas sangrentas nunca serão mulheres, nunca, nunca,
Já morreram as bonecas, o mênstruo nas facas, o sal,
Já saltam às cordas as cabeças, chicotes de cabelo, lava,
as costas flageladas, nevadas de grutas profundas

As meninas sangrentas ainda dormem plásticos, os ossos, gravíticas,
ainda serpenteiam o quarto, desmontam os móveis, arrastam a casa, a rua,
e já estão nuas no entroncamento

Ai de quem tentar chegar-lhes – gritam, cospem, trespassam e infectam

Lá fora sangram os escalpes, martelam a loucura, martelam, martelam,
lá fora chicoteiam os cabelos, o corpo exangue e juram, prometem,
cravam e rodam as unhas, escorrem nuas e lambem

Lá fora, levitam as línguas, silvam, silvam, gotejam, chupam os dedos,
Lá fora impulsionam o corpo, o ódio, vibram e rodam, gritam,
descerram as pernas e voam

Where Am I?

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