zaru

July 26, 2014 § Leave a comment

Os macacos dançam ainda as pedras e a areia nos trópicos,
erguem os peitos, as dobras dos braços, as clavículas,
sóbrios tremem os beiços, rilham os dentes e babam

Chorosos reprimem a memória dos desertos e dos lagos,
os sóis no cio dos deuses, as constelações, o plasma,
nos peitos a lonjura saudosa do infinito, contemplam,
o esvoaço da águia no sopro da poeira estelar

E sabem a profundidade nos olhos, negros e remotos,
se ainda pasmam, diáfanos, espontâneos, abstractos,
uma unha atirada, lânguida, trilhos unidos de estrelas,
teoremas, esboços pela indolência tranquila do espaço

Há uma pedra deserta onde me deito, revejo e sinto

Enquanto os homens vertiginosos futuram, negam os símios,
repelem os sentidos no vazio das nublosas e urdem,
prometidos de solstícios pela génese entorpecida,
descorada da pelagem a desaprender os ciclos

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noturnas

July 19, 2014 § Leave a comment

As meninas noturnas são os meus dias fartos, exangues,
O meu peito anestesiado de pedras, folhelho e líquenes,
Sarna pelo linho do meu sono de cardos, centopeias e pupas

Demoram-se,
Recoletoras, lentas, acocoradas o musgo, o orvalho

E cobrem-me, correm, resvalam os pés pelo barro, quebram,
Riem calcanhares rasgados, trilhados de caleiras, fendas
Gritam histéricas a chuva, os telhados, os tetos, o ferro,
Estalam o granito, o soalho, sorvem cotão agasalhado e vomitam,
Enxugam os cabelos pelas sombras dos corredores, o nevoeiro
Lambem as feridas pela forja arqueada dos corrimões, acres

Demoram, o musgo lá fora, param
Lânguidas o medo, deliciadas e húmidas os trevos

As meninas noturnas passam a velocidade dos vidros lunares
Rangem, dançam, bordam carcinomas, arritmias, mutilam
Mastigam, rangem ramos de árvores pelas paredes, lambem,
Unham parapeitos, sobressaltos de mármore nas janelas

As meninas noturnas sangram os sonhos, crepitam,
Resvalam as pálpebras, transpiram-nas de luar
Pregam-nas às bainhas dos vestidos e puxam, esgaçam,
Perfuram as córneas nos pregos dos retratos, ardem,
Quebram os ossos no gesso dos lábios, grudam,
Lapidam os braços levitados, os pulsos, púrpura
Tomam as mãos, os meus dedos alinhavados,
Peladas de festas, tremuras nas nucas enregeladas

As meninas laceram pele na dor lenta do sonho e riem,
Cantam noturnas o palco dos terraços alagados
Gritam, torcem cutículas, unhas pelos cabelos,
Falanges trilhadas na ferrugem dos ganchos

Chove, chove muito, que parecem línguas, prata

E o meu corpo roda, delira, torce mantos intimidados, olhos
Nelas febris que suturam, prendem, terçolhos de insónia,
Lantejoulas de pus na renda das bainhas, farpas, suor,
Bocas de tecido, gargantas de algodão, larvas e ninhos,
Delas vestidas, delas descalças, delas nuas, delas loucas

Chove tanto nelas, dissecadas

As meninas em fato de banho que riem as horas e saltam,
Atiram os corpos, os braços, as bocas, as línguas, a noite
Mergulham noturnas a lua cinzelada no meu peito e regressam

preia-mar

July 5, 2014 § 1 Comment

Fujo dos baixios

Descanso da maré os fossos mais fundos
Porque é lá que habito, a vasculhar o mundo,
a escarafunchar íntima a fundura

O céu, dali, é mais longe, por isso é mais puro e intocável,
Por isso eu sou, mais venturosa e esquiva, no vazio
Sou mais quente quando dói, e o frio é mais noite

E os peixes agasalham-se nos sulcos, modorrentos

Sou da maré-alta, apenas o tempo da lua-cheia,
A hora em que o mar travestido sai e me possui,
Emperiquita-se todo de corais e pagode e fitas
E atira-se sobre mim, esgrouviado

Oh! mar!

Durmo ainda a escuridão e já ele atrevido, chega-se,
agarra-me inteira do fundo cavado, levanta-me numa vaga,
sacode-me de espuma e atira-me excitado às ondas

Oh! mar!

Vou nua nesse abraço, ímpeto, desprevenida e solta,
Vou desprendida e despenteada e esfoliada de areia

Talvez, vislumbre além em terra firme, uma mecha de cabelo,
O meu cabelo de árvore esgadelhada, azul, flutuado nas bóias dos olhos

Oh! mar!

Quando ainda em braços, de esguelha, descerro um olho de sal,
só para espreitar a paisagem, cravar o instante que arde

Então, estrebucho nas ondas, arrasto-me, cuspo o limo na praia,
anémonas e conchas, lesmas e carcaças,
corpos escorregados de goma nas moscas afiançadas

Maré-alta!

Quando chegas assim, mar, atrevido sobre o meu corpo incauto de luas,
léguas de segredos antigos que não contas, náufragos,
És a vela da minha âncora

E falas-me dos peixes, do aquário na passagem dos cardumes

Leva-me pois, neles, guarda-me no vidro
Pertenço-te gravítica, submersa e enfeitiçada

Maré!

Tenho ainda os braços esgaçados,
os dedos trilhados nas rochas, mexilhões de unhas,
a saia presa num fosso, e já te fazes nu sobre o meu corpo

Tenho ainda o peito sob as dunas submersas, a palpitar labaredas
E já te insinuas, exorbitado pelos meus sulcos gravíticos,
os teus membros sôfregos

Sinto o teu êxtase espumado e ávido, transpirado de sal,
Cardumes que ventam a velocidade das correntes,
intransigentes agitam o meu corpo de vagas,
destorcem remoinhos de pulsos, meus dedos de anzóis

Guarda-me maré-alta, mar travestido de Deus
Reserva-me um aquário no fosso mais cavado, doloroso
Um pendente de lua na bainha encrespada da tua onda

E ampara-me, sempre
Ampara-me dos baixios inquinados

Where Am I?

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