nefas

August 27, 2014 § Leave a comment

duo

Ainda que a penúria a dor e a míngua, tomo,
Abocanho cacholas de fruta em cestaria de odores,
Desconjunto a angústia do vime no cetim dos legumes,
Trinco a pasta pelo vigor da carnação e das pedras
Pelo frenesi das mesas, dos dentes no reflexo das jarras
Um chá de sangue a arder a pele dos retratos no bule

Quem sou

Pouco me importa o vómito, a convulsão, a injúria
O escárnio das batatas decapitadas na alcofa, a morte
Abro-lhes as bocas assim numa facada zás, um golpe
E nada de piedade simulada, de sentimentos inibidos
Trinco-as cruas de chalaças, palitos, fécula, gosma
O arrasto, a asfixia na impulsão dos dedos, cutículas
A língua de bolhas, detonada pelo ressalto dos olhos

Pouco me importa a dor, o derrame de açúcar na mesa
A língua de pano arrastada de fios pelo céu da boca
Esventro, trituro, degluto cabelos, cadeiras, garfos, fósforos
As mãos à deriva pela ferrugem das horas sanguinárias
Enquanto sacudo estendais de pele no nevoeiro,sal

Quem, sequer implica frio, água

Pouco importa o tempo agora, o espaço ultimado
Os lábios descarnados de linguajares impuros, pragas
As línguas empoladas, flutuadas de caldos e condutos
Gasganetes de sapos em escaladas de molas e visgo,
Membranosos, escorregados de gargantas e azedume

Podem vir, podem, venham daí à propagação da dúvida
À fornicação reiterada, cabida de vitrines foscas, bermas

Tomo o chá na evaporação do sangue e da labareda
A cor levitada pelos joelhos, pelo sexo, pelo peito
Pelo pescoço um coágulo de corda, uma veia de céu
Flúmen vermelho a revirar o cárneo pela embocadura

Vou despir-me já e comer-me por dentro, quem

O instante da cal, do manjar flagelado pelos telhados
Flato de enxofre pelas cólicas vaiadas das goteiras

quê

o saco do chá,
ainda, um pulmão esfaqueado no peito da chávena,
o escalpe explodido de árvores pela parede renascida
e a minha pele retomada na dor de outra planície

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apanágio

August 24, 2014 § Leave a comment

sorvedouro

Conjeturo-me deste tempo estagnado, resquício,
Lura descarnada do fundo, sombra sentenciada

Deixem-me passar, por favor permitam-me o tanque,
O lodo das asas nas pupas dos abetos, o lago purgativo,
O colo rasgado, estanque na comiseração da pedra,
E larguem-me logo dos olhos que salto, larguem-me já
Que salto a descarnar as fístulas, a cronicidade no impulso

Sou dos parapeitos os vasos, as arestas das varandas,
O rumorejar dissimulado dos bichos imaginários,
Sou deles plena, o espírito, o indumento, o estado

Alço-me já e salto a pedra e o musgo, agora
Os olhos lancetados dos sapos, das libélulas,
O peso da pedra na flor, o vento das mãos

Mergulho o lago que sofro dentro, o ralo
Daqui para cá do logro, a mutilação e o insecto
E denuncio-me larva, corpo empolado de goma,
Rendilhado de árvores na prata dos espelhos

Agrilhoem de imediato esta vacilação, a debilidade,
A voracidade aquática e juro que nado, juro,
Entrego-me, a incapacidade de deter-me o voo

Toldem-me a vista no esgar da corrente púrpura,
E deixem-me assim, perturbada pelo ónus do lodo,
A resvalar o fundo, a corrente oculta, promissora

Deixem-me lamber a velocidade dos peixes
Deixem-me juntá-los de membros na boca
Imploro, deixem-me enrolá-los de cuspo
Deixem-me embalá-los de língua, ininterruptos,
Demoradamente, enovelados e doces, convulsos
Asfixiar-me neles, que anoitecem e nadam-me,
Peneiram o lago nas guelras, penteiam-me a alma
O azul numa escova de açúcar, e adormecem-me
O amor no pasmo da Lua, a dor no cerne da pedra,
Na noite dos olhos e dos cabelos, o lago e eles
Uma alcofa de ovos a refulgir sorvedouros

cerca

August 17, 2014 § Leave a comment

fogo

Os meninos rasgam cordilheiras no peito
Azagaias de pedra no rompimento da carne

Torço o linho nesse espaço que acontece

Escorregam vertentes nos talões do medo
Frestas de membros no estridor dos ossos, ar
Resvalam as bocas em avalanches de índios
Facas amoladas de unhas e desfiladeiros

Vêm assistir ao meu impérvio espiráculo

Eles são o céu na penetração das montanhas
Eles são o descerro das tulhas
Eles são a lapidação imolada da minha delinquência
Eles são a catarse dos corcéis de oiro

Ascendam, vá, vindimem depressa a minha desventura
A liquidez do tempo na sublimação da vontade

Rezo, imploro-vos o desejo forjado de ferro e de fúria
A lava borbulhada, diluída dos meus ódios

Chove o tempo que levitam ígneas as almas
Escalam de vidro a garganta de fogo
A serpente reencontrada no sopé da cerca

É o tempo da planície emudecida, do milhafre
É o tempo de desprender o bafo dos cirros
É o tempo de ecoar o silvo do rapto

Cuspo, cuspo até desgarrar a pele dos nervos
Menorreia de aves pelas narinas, coágulos

Disparo o horizonte de línguas, de pássaros vermelhos

Esventrem, vá, lapidem logo de fogo as hastes
Mastiguem a minha boca atulhada de figos

Gozo vulcanizada a sapiência migratória da chacina

lenho

August 8, 2014 § Leave a comment

aranha

A vontade calcinada a carcomer-me os ossos
A escorrê-los de plasma pelas arestas das farpas

Tenho térmites que degustam meus dias desabitados
Contorcem tresloucadas minha dor pelos portos

Sem vela, não descalço os sapatos e desemboco no cais
Sacudo e atiro de debandada as asas e parto
Desacorrento as amarras dos navios pelos telhados,
Desprendo as facas na impulsão do corpo

Ainda costuro a pele na embocadura do quarto
As unhas debruçadas pelos entalhes solares
Mastigo os trevos de poeiras velejadas,
Degustados de sangue pelas gengivas modorrentas
A minha alma no barro escavado da Lua
Amolgada de sombras, labirintos de caleiras
Líquido o meu vestido de fada pelas ilhargas

É o tempo das crateras, dos vendavais e dos findos
Dos olhos e das bocas rasgadas e incrédulas
Quando arrasto ainda os móveis consumidos pelo redil
Disponho-os em porões de nuvens e sopro-os
Sopro mormente as enxergas e as cadeiras
Todo o meu ar estrangulado de ácaros
Até arderem os olhos a perdê-las de vista

Penumbra no brilho da minha varinha mágica
Pelo tempo das aranhas floridas nas fachadas

Não me sento mais de unhas, deito-me de pele ou sémen
Encosto-me de menstruo e qualquer dor que urja

viveiro

August 2, 2014 § Leave a comment

Enrolam-se contigo dentro da parede

Vens encavalitado, seguro nos peitos delas
As unhas nas rédeas oleosas dos cabelos

Estremeço o leito, quando penso o iodo, a exaltação

Cavalgas desvairado a corrente que sustentam
O tempo que gemem as tuas pernas engatadas no dorso

Serpenteio o linho pelo tempo que te nadam

Para lá da janela, o céu é um oceano levitado

Descarno os punhos nos nervos emparedados
Quero estancar os brados das sereias dentro do teu bafo
Cortar-lhes as caudas na demência dos espelhos

Ainda os teus vasos nos anzóis eternos das cornijas

Descolo a pele nas arrestas moídas dos vendavais
Para que se aproximem aquáticas, luxuriosas
Rasguem as línguas nas facas dos meus dentes

Vens encavalitado, escorregadio, lodacento
O tempo que consigo provar-te de maresia
O metal dos relógios a estremecer na tua boca

Eclodirão da parede, elas, oceânicas pelo quarto

O meu medo a latejar a ferrugem gretada nos lábios

Inundarão o meu leito para te deitarem comigo
Depois loucas, trucidadas, saírem da gaiola como aves
Os corpos trespassados de bicos como espadas
Levadas a chover a dor pelos telhados das gaivotas

Ficarás depois do mar partir, cativo no meu deserto de linho

Sangrarei o voo dos peixes para regar os vasos
O tempo que levar a afogar o meu sal na tua boca

sereia quadrada

Where Am I?

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