crono

September 26, 2014 § Leave a comment

crono 001

Nos dias acromos, ela deita-se lívida sobre as palavras
Porque as palavras são vultos dissipados na luz,
São penumbra líquida, abainhada de prata

E as frases, essas, são pensamentos vãos, descontinuados

Nesses dias, ela desentende o mundo e a si mesma
Observa, devora e degusta o desajuste arremessado,
A equimose da alma transbordada, o cromatismo ressoado

Nesses dias, desafia o inteligível na intuição dos sentidos,
Denuncia o dialeto submerso no linguajar simplista

Discursa, nesses dias, a mudez dos gestos desarticulados
A tortura transpirada na repetição dos nomes inventados

Ela quer, ela deseja, ela percorre os sinais
Ela é apenas o instinto primitivo da espécie

Ela rejeita o dialeto hermético dos homens
Ela cansa-se das palavras esgotadas e carcomidas
Ela apenas reclama a tradução da origem
O significado primário e mudo dos objetos

Uma pedra, uma folha que pranteia outro nome
Que ela leva pela mão, na boca para casa
Beija e enrola na língua pela noite dentro
Até descarnar a pele, sangrar de dor os vocábulos

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periódico

September 15, 2014 § Leave a comment

azul 001

Sucumbem poemas, pássaros implumes,
Embriões em cada repetição vindoura

Ainda assim, o folguedo na condenação

Como se deita ele, o azul pleno, frígido
Como dormita amoroso, bichana a dor,
Espia, repete-se, adormece e delira
Bolhas cavadas na rebentação da carne

Ainda assim, o inconcebível, pétreo, crível

Sucumbem gestos no esquartejar dos ossos
Um rendilhado anil na explosão dos olhos

Como erguem as pálpebras, melificam a luz
E perecem as almas, nado-mortas, piedosas,
Em cada semblante vindas, idas, condenadas,
Perturbação,úlcera, hematoma reiterado

Ainda assim, o unguento da fé pelo desígnio das vísceras
Aves pelas trincheiras detonadas, larvas, ovos

Ainda assim, tencionar o quase, a dubiedade
O amor radicado na obstrução antecipada

Sobrevém um soro de pranto célico e amor,
A conjuntura um rio, balaústre sem grade,
Unhas esfiadas no vento, mãos presas de vazio

Ainda assim, o amor, o masoquismo do amor

E o céu desfeito em aves, esqueletos solares

Ainda assim, bailarina, fada, sereia, feiticeira
Imolação no estigma dos astros, gozo

Levitação, prestes no transpor do quase,
Quase o amor, quase a beleza, quase
A perfeição a resvalar a alma no céu

Celeste o azul, hematoma que descarna e chove

Ainda assim o amor e a eternidade,
O amor e o entorpecimento

púrpura

September 11, 2014 § Leave a comment

derrame

Isto não é um poema é prurido
Por isso mariposas salgadas e ardor
Por isso tuas mãos contorcidas de sargaço,
Pontes de sal em arcadas de espuma
E o teu peito o amor e um rio submerso,
A palpitação de uma gruta sepultada, júbilo

Agora o oceano perfurado na minha boca
E o teu dedo um mastro a revirar uma vela,
A revolver a folha de um livro ondulado,
A minha língua ávida, convulsa na promessa,
O teu dedo firme pela humidade do meu lábio,
A lâmina demorada da tua unha um anzol,
Um arco-íris de sangue pelo céu da minha boca
E o mar um fluxo doce, incendiado de pele,
Teus olhos flamejantes na noite dos meus

Morro, sei, porque adormeci para ver-te,
Demorei-me no prazer de sentir-te e matei as asas,
E matei uma flor e trouxe uma pedra com um laço,
Uma oferenda que tomei do mar, rejeitada

Mexi e transformei o mundo na pedra, leviana
A parte que tomei do pensamento desprecatado

E agora, desfolho as memórias pelas páginas,
Âncoras na cadência do espaço sequencial,
A temporaneidade descarnada pelas travessias

Sou recoletora, tu sabes, mais ninguém
Ninguém tem de saber o que sou, pouco importa,
Apenas a mim aceitar, como ler-me, apenas tu,
Uma espécie de exalação desapercebida

Agora chove, depois do sol e do mar a chuva,
Eu, depois de escorregada pela bainha nervosa,
Levada de areia e cabelos e pele, dói-me

Por isso escrevo peixes e palavras aquosas, para que nadem,
Repitam a rota do cardume que palpito e danço,
Penso e durmo no tempo da cor pela corrente imaginária

Pouco importa isto também, a tonalidade, se desenho,
Se escrevo, se durmo, digo-o a mim, porque só eu me falo
E sinto, apiedo de temer esquecer-me como esqueço tudo

Leio e esqueço, escrevo e esqueço, esqueço-me

Não consigo ser recolectora de mim mesma, perco-me
Ainda que subsista de fragmentos dispersos,
De memórias desconexas e incongruentes, elementares,
Aos bocados por aí, muitas, algumas vezes no mar
Como hoje escorrida pelo medo, a morte na ondulação,
A encontrar-me comigo para encontrar-me contigo,
Um instante irrespirável de força, intimação,
Logo desmoronado, a ponte e eu a perder-me,
Rendida e plácida, púrpura, as mãos, tuas

Hoje não posso escrever sem medo, sem ossos
Por isso este poema que não é um poema,
Um quadro apenas, sem data, convulso, aflito,
Amor e dor, pelos dias possíveis e tangíveis

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September 7, 2014 § Leave a comment

mão

Não me impeças que chegue, peço-me
Sou eu que venho de dentro, aproximo-me
Tenho de prender-me os braços para não afugentar a ave
A menina de tranças a correr-me no escuro

Ainda não sei como regresso, mas acontece, assim, inopinadamente
Ela e o pássaro e eu, um
Nunca deixaram de voar-me, correr-me, agora sei, no escuro
Sempre fui o desfiladeiro,
Sempre fui o pátio, a pipa, a boneca, o vulto

Talvez nunca me tenha chamado como agora e por isso,
Isto de chegar
Porque só agora me aproximo de dentro do negro mais fundo e vejo-me
Onde estive até agora,
Dormiria?
Estaria a voar outros mundos longínquos, inalcançáveis?
Estaria a fazer casinhas noutra galáxia, recolectora de estrelas?

Sempre me chamei, sempre, não sabia esta velocidade
Ainda me assusta o esvoaçar suspenso,
A criança e os braços esticados pelo meu abraço

Sou eu, deixem-me passar breve, o recreio, as copas das árvores
Deixem-me pelo atalho, a casa

Como tremo de ver-me
Bato as asas na sombra do cabelo infantil pela planície da ave
Dedos, língua, cócegas, coração

Nunca falo daqui comigo, impede-me a carne, a altitude, a cegueira
De que me vesti, vestiram,
Fui eu?

Nunca me falo no medo da profundidade e agora este eco,
E o pensamento louco, tantas vezes essa ave negra, oculta

Onde clareava a luz? Como podia alcançar-me a criança?
E a vontade tantas vezes infantil e doce, escavada, aflitiva

Como só agora me escuto, reconheço, amo?
O grito abafado nas grades das minhas veias

Ergo os braços tombados e em pontas de bailarina
Venho menina, vem
Voa

De olhos fechados vejo os olhos da ave, escuto o pio

Como só agora esta lucidez?

Sobrevoa o breu onde todas as coisas existem
Só no breu desenho o contorno
O rio serpenteado, a envergadura, o bico, os sapatinhos

Sou eu, e agora a doer-me essa ave levitada
A fénix da minha noite a alumiar o caminho

Sou eu,
E agora a doer-me a velocidade da criança
A renda do vestido sacudida de fitas e bonecas

Sou eu que venho de dentro,
Chamei-me tantas vezes, surda, quieta

Só agora a ave a tanger-me a pele, chegada do fundo
Só agora os meus olhos no espelho dos olhos da criança

Transpiro as penas no suor esvoaçado, comichoso
As tranças pelos meus ombros, pela minha boca
E o bico é quase a unha dela pelo meu pescoço
O esboço deleitoso de um segredo esquecido

E as asas, manguitos dos meus braços
E as mãos pequeninas as minhas luvas regressadas

Pousou,
Assentou em mim a ave, sinto-a, sinto-a
A velocidade na correnteza do sangue, o peito
As penas sacudidas pelos meus ossos, respiro

A qualquer momento expludo e morro, sei

Dispo-me da pele gasta para vestir a criança
Desenho-lhe um balão de um coágulo que levita

Sou eu menina, sou eu, vem cá, abraça-me

Tanto tempo, e o rosto dela pousado no meu rosto
A boca quente, aconchegada como uma asa no meu lábio
E o meu beijo doce no seu peito suave de ave

Já ninguém nos separa, ninguém, prometo
Nada mais afugenta este nosso voo, a lágrima

Sou só eu e tu e a ave e o mundo e o amor
A sobreposição, a proximidade, o infinito
A verdade irrepetível

Voltaremos apenas para dentro após o fim
Ambas desencarceradas da carne então
Da prisão desta temporária pele, desta superfície

carne

September 1, 2014 § Leave a comment

corcel

e se as minhas mãos o vento, um corvo
bico pelas veias do teu pensamento, corro
varro, porque gosto de varrer as penas, varro
o tempo que amarguras o medo, as asas, o sangue
porque sou esse lugar que não descansas, vertes
a minha tarde ensonada no teu dia cedo

diz-me depressa meu amor, diz-me que temo
qualquer dança, qualquer música e cavalgo e beijo
nos teus braços, diz-me um peixe, diz-me o medo
que sorrio, cravo-o no mar junto ao peito e nado
o tempo que sonhas e desfaleces comigo as letras
eu que fujo a tua dor na minha língua que dança um rio,
uma rua que chego de corcel na tua cabeça, uma onda

diz-me só o lugar que cavalgo, que varro, que escreves
é esse amor, é esse o dia que te aflige o caminho,
é esse o mar, essa a ave negra nas mãos longe que morro

Where Am I?

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