sádico

October 27, 2014 § Leave a comment

sádica

Imperativo, torturar o poema para que regurgite
Esquartejá-lo impiedosamente para que confesse
Intimado, todas as incongruências dos sentidos
Réu sob esta censura incontornável

Falará – confesso -, estripado, enlouquecido
Espumará esquizofrénico, urdiduras, cólera
Meu êxtase assediado, gozo pela dor escavada
E um cadafalso de papel sob o delito do corpo

Confessará tudo no desfalecimento dos sentidos
A lucidez irrespirável nos contornos do quarto tenebroso

O poema, agrilhoado a uma cadeira, esventrado e cego
E o meu júbilo – rio -, doentio e histérico
O meu júbilo frenético, tortura esgazeada de asas

Tão próximo e inalcançável, o vento, a água, o sangue

Tens os olhos incendiados, fendidos, púrpura
Golpes na acidez do meu hálito
O pânico latejado de facas pela chacina noturna

Vá, fala-me poema, diz-me
No tempo deste rasgo famélico de unhas e dentes
Desta pele descolada, latejante na sarna da língua

Exijo a lâmina amolada, bem funda e retorcida no teu peito,
Uma mentira gaguejada no pavor da carne, seja
Qualquer mentira, cospe

Por que tenho de matar-te, escrever-te?
O poema subjugado e um jorro de sangue

Ignoro, cospe já
Sou de ti estilhaço, um acaso da carnificina

Confessa-me as patranhas, diz-me agora
Diz-me para que esgace depressa este breu e voe
Diz-me estes dedos – assim -, a desfazer-te o peito
Este peito fendido e esta mão bem dentro, funda, lume

Dói? Arde?

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fátuas

October 19, 2014 § Leave a comment

fatua.jpg

As meninas noturnas desenham cartas
Fecham os olhos e degustam e engolem a tinta
Histéricas, emaranham folhas, o pensamento na boca
Os dentes bem fundo nos lábios, e mordem e gemem

Elas, descerram nuas a noite, húmidas pelo linho
Elas tremem lívidas a língua na lua, pêndulos
E o amor frenético, trôpego sobre um fio de prata
E o amor agitado, endoidecido de mariposas tontas

São as traças anoitecidas nos cabelos delas
São as luas amarelas no bafo dos lampiões
São elas que amotinam as palpitações nos espelhos

As meninas nas janelas, as meninas nos parapeitos
Do cimo a descerrarem os braços vertiginosas
Crucificadas de fachadas, escorregadas de grutas
Elas pela chuva enfeitiçada, o calcário do sono

E revolvem os olhos no leito e contorcem o corpo
E reviram a língua açucarada no dialeto amoroso
E lambem essa dor, a escassez pelo branco do teto
E os pés nus atirados, e uma janela e uma falésia

E um corcel veloz, atravessado no hálito do vidro
E um peixe num aquário trespassado de estrelas

As meninas incendiadas, despertam dentro do sonho
Eclodem das larvas num quarto oceânico e gritam
Sentam-se na noite a parir furibundas, a escrever
Porque escrevem e escrevem e por isso imploram

Nuas pelos resguardos, resvaladas no mármore
Nuas pelos veios da pedra, inevitáveis como raízes
Elas, bailarinas extasiadas pela lâmina das calhas
Em pontas pelo dorso pétreo, arqueado das gárgulas

As meninas noturnas, ávidas nas pausas do amor
Elas que aguardam lentas, profundas e mornas
Elas que aguardam nuas, molhadas e maníacas
Elas desesperadas no compasso silencioso

Aguçam o tempo, a língua nas facas verticais
Deslizam-na trémula, gotejada sobre a prata,
Sangram um polvo tentacular no pânico da carestia

dejetos

October 11, 2014 § Leave a comment

dejetos.jpg

são detritos estes meus poemas
são detritos no alívio das cólicas e das penas

desgosto-me deles por isso, de dejetos e espasmos

não os leio de entrevados, frívolos, vomito-os
não lhes repito a demência paraplégica no corpo,
o relance dos olhos na viciação do espírito

como tal são vísceras em mim, deles mesmos gosma
compressas de abandono, remorsos, gaze, éter
ao acaso das feridas, das secreções, das lambeduras

se ao menos neles me evacuasse inteira, os ossos
de dentro para fora o meu avesso no esqueleto da prosa
a casca, o pus, o jorro descompensado da lástima
se ao menos a minha morte nessa sombra trágica

e nesse instante a dor a reconhecer-me nua,
algum fedor da essência no rilhar do verso,
mais funda, fundamentada, legítima, sóbria,
talvez relê-los valesse qualquer estupro
o instante de pari-los ao abandono real
apartados do contágio dos olhos e da memória
esculpi-los em mim de outras identidades
inseguros de serem a minha palhaçada infértil

e então no ventre sequer a tentação do fruto
sequer o pomo, o fundo, o sangue, o escarro
sequer o remorso de cruel progenitora
sequer o refolgo do excremento transpirado

antes a morte, antes a incontestável culpa
antes a dor de parir e adormecê-los,
junto de tudo em mim que desconheço
longe do que encarcerado embalo, findos

eles livres de mim, isentos desta tatuagem
apenas placenta, raspagem escusada e tinta

elas

October 5, 2014 § Leave a comment

sangrentas.jpg

As meninas sangrentas,

Vivem dentro dos bolsos dos aventais, bailarinas pelo rebordo da louça,

As meninas,
Fazem casinhas nas gavetas dos panos, rodas nas paredes, festas
Cantilenas pela berma dos tachos e dos talheres

Tum, pilim, tum, tum, e aplaudem

Inflamam os bicos e batem, batem, batem, estridentes no silêncio

Escuto-as,
Escuto-as e doem-me,

São elas que me doem o tempo, os arranhões, as fístulas, o remorso, o desalinho

São elas,
São elas, que sobem de gatas o armário, descarnam os ossos e gritam

Gritam, gritam,
Gritam,
como gritam!

Gritam os vidros e o metal, atentam a banca no desequilíbrio dos copos,
e gritam

Ai!

Ai, as minhas mãos que não podem, já não lhes conseguem a boca,
a cintura esquiva,
A estalar o cristal, a encaminhar a lâmina da faca para a carne, a perfurar

Doem-me, torcem
E o vício de pensá-las ainda mais demorado, tortuoso, febril

Por que não as esqueço? Por que me perseguem? Por que continuam?
Até quando elas, este sempre delas,
Delas na sala, delas na cozinha, delas no quarto, delas dentro? fundas

São elas,
Elas que me desviam o cuidado e distraem-me os gestos,
Cospem-me óleo nos olhos e defecam nos canos, entopem-nos e não respiro

Terei de morrer para encontrá-las? reavê-las?

Porque estrebucham o sangue adormecido no frenesi da lide?
Vergastam-me as entranhas impiedosas como peixes,
Cardumes de chibatas na corrente a fender-me o peito

Choro, e desfocam o vidro e lacrimejam irónicas e vingativas

Por que as deixei no passado?

Esqueci-me delas em qualquer jardim,
Dentro de qualquer brinquedo,
A boneca sem cabeça, sem braços

Que já nem me toco, escorregada de espuma, espremida de nervos e esfregões

Ai,
Ai meninas, ai! Como doem, sangram ainda, dentro,
Ainda,
Ainda laços no cabelo de prata e uma colher de lua entornada de sopa

São tão frágeis, não são?
São tão subtis,
São tão, tão queridas,
Como pude?
Tão doces

Festas de gato numa cadência de gestos
E agarro-me, e tento-me nelas o espaço que habitam

Rastejam desfalecidas, trôpegas, ascendem nuas o corpo,
Espreitam as franjas dos tapetes, passadeiras onduladas,
Nadam e flutuam,
Nadam e levitam

Tropeço, e um golpe, e uma unha na couve e um dedo no lábio e uma língua trilhada

Lindas, tão lindas que são, que estão dentro, profundas, inocentes
Ascendem, lesmas, lânguidas, línguas, silvos, saliva pelos tornozelos,
coágulos e rebentam

Desculpem-me,
E elas vêem-me dentro e fogem-me, dentro dos olhos fechados, chamam
Vêem-me e escapam,
No escuro, rápidas, vultos, gargalhadas para não ouvirem, hesitarem

E logo,
Elas serenas como o fogo, silenciosas,
Línguas na ascensão da pele, das pernas no tempo dos tachos,
Da torneira, das couves laminadas,
Pelos joelhos reboladas, pelas coxas, pelo sexo,
Aranhas dedilhadas, aranhas vibratórias

Ah, como bolem, arrastam-se, emergem das ondas do peito enroladas de sal
O pescoço, a orelha,
Murmuram chupa-chupas no cabelo, línguas melosas que primem e colam,
Primem e puxam, primem e arrastam e doem,
As raízes numa ardência cinzelada nos olhos

Lindas, ainda assim lindas, lindas,
belas
Longe, impossíveis e puras, ardentes
A blasfemar a prece, a convulsão do fígado, engolidas no vómito,
ácidas

Lamento,
Quero dizer-lhes isso, que lamento,
Que lamento,

Se ao menos me escutassem e morressem
A chama na renda do vestido ainda a tempo,
A tempo de recuar e minha morte, ou avançá-la

Lamento,

Até elas ainda, efémeras, instantâneas
Até colidir comigo e a extinção

Como lamento que já não me saibam
Como me lamento

Where Am I?

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