elas

October 5, 2014 § Leave a comment

sangrentas.jpg

As meninas sangrentas,

Vivem dentro dos bolsos dos aventais, bailarinas pelo rebordo da louça,

As meninas,
Fazem casinhas nas gavetas dos panos, rodas nas paredes, festas
Cantilenas pela berma dos tachos e dos talheres

Tum, pilim, tum, tum, e aplaudem

Inflamam os bicos e batem, batem, batem, estridentes no silêncio

Escuto-as,
Escuto-as e doem-me,

São elas que me doem o tempo, os arranhões, as fístulas, o remorso, o desalinho

São elas,
São elas, que sobem de gatas o armário, descarnam os ossos e gritam

Gritam, gritam,
Gritam,
como gritam!

Gritam os vidros e o metal, atentam a banca no desequilíbrio dos copos,
e gritam

Ai!

Ai, as minhas mãos que não podem, já não lhes conseguem a boca,
a cintura esquiva,
A estalar o cristal, a encaminhar a lâmina da faca para a carne, a perfurar

Doem-me, torcem
E o vício de pensá-las ainda mais demorado, tortuoso, febril

Por que não as esqueço? Por que me perseguem? Por que continuam?
Até quando elas, este sempre delas,
Delas na sala, delas na cozinha, delas no quarto, delas dentro? fundas

São elas,
Elas que me desviam o cuidado e distraem-me os gestos,
Cospem-me óleo nos olhos e defecam nos canos, entopem-nos e não respiro

Terei de morrer para encontrá-las? reavê-las?

Porque estrebucham o sangue adormecido no frenesi da lide?
Vergastam-me as entranhas impiedosas como peixes,
Cardumes de chibatas na corrente a fender-me o peito

Choro, e desfocam o vidro e lacrimejam irónicas e vingativas

Por que as deixei no passado?

Esqueci-me delas em qualquer jardim,
Dentro de qualquer brinquedo,
A boneca sem cabeça, sem braços

Que já nem me toco, escorregada de espuma, espremida de nervos e esfregões

Ai,
Ai meninas, ai! Como doem, sangram ainda, dentro,
Ainda,
Ainda laços no cabelo de prata e uma colher de lua entornada de sopa

São tão frágeis, não são?
São tão subtis,
São tão, tão queridas,
Como pude?
Tão doces

Festas de gato numa cadência de gestos
E agarro-me, e tento-me nelas o espaço que habitam

Rastejam desfalecidas, trôpegas, ascendem nuas o corpo,
Espreitam as franjas dos tapetes, passadeiras onduladas,
Nadam e flutuam,
Nadam e levitam

Tropeço, e um golpe, e uma unha na couve e um dedo no lábio e uma língua trilhada

Lindas, tão lindas que são, que estão dentro, profundas, inocentes
Ascendem, lesmas, lânguidas, línguas, silvos, saliva pelos tornozelos,
coágulos e rebentam

Desculpem-me,
E elas vêem-me dentro e fogem-me, dentro dos olhos fechados, chamam
Vêem-me e escapam,
No escuro, rápidas, vultos, gargalhadas para não ouvirem, hesitarem

E logo,
Elas serenas como o fogo, silenciosas,
Línguas na ascensão da pele, das pernas no tempo dos tachos,
Da torneira, das couves laminadas,
Pelos joelhos reboladas, pelas coxas, pelo sexo,
Aranhas dedilhadas, aranhas vibratórias

Ah, como bolem, arrastam-se, emergem das ondas do peito enroladas de sal
O pescoço, a orelha,
Murmuram chupa-chupas no cabelo, línguas melosas que primem e colam,
Primem e puxam, primem e arrastam e doem,
As raízes numa ardência cinzelada nos olhos

Lindas, ainda assim lindas, lindas,
belas
Longe, impossíveis e puras, ardentes
A blasfemar a prece, a convulsão do fígado, engolidas no vómito,
ácidas

Lamento,
Quero dizer-lhes isso, que lamento,
Que lamento,

Se ao menos me escutassem e morressem
A chama na renda do vestido ainda a tempo,
A tempo de recuar e minha morte, ou avançá-la

Lamento,

Até elas ainda, efémeras, instantâneas
Até colidir comigo e a extinção

Como lamento que já não me saibam
Como me lamento

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

What’s this?

You are currently reading elas at Lector.

meta

%d bloggers like this: