dejetos

October 11, 2014 § Leave a comment

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são detritos estes meus poemas
são detritos no alívio das cólicas e das penas

desgosto-me deles por isso, de dejetos e espasmos

não os leio de entrevados, frívolos, vomito-os
não lhes repito a demência paraplégica no corpo,
o relance dos olhos na viciação do espírito

como tal são vísceras em mim, deles mesmos gosma
compressas de abandono, remorsos, gaze, éter
ao acaso das feridas, das secreções, das lambeduras

se ao menos neles me evacuasse inteira, os ossos
de dentro para fora o meu avesso no esqueleto da prosa
a casca, o pus, o jorro descompensado da lástima
se ao menos a minha morte nessa sombra trágica

e nesse instante a dor a reconhecer-me nua,
algum fedor da essência no rilhar do verso,
mais funda, fundamentada, legítima, sóbria,
talvez relê-los valesse qualquer estupro
o instante de pari-los ao abandono real
apartados do contágio dos olhos e da memória
esculpi-los em mim de outras identidades
inseguros de serem a minha palhaçada infértil

e então no ventre sequer a tentação do fruto
sequer o pomo, o fundo, o sangue, o escarro
sequer o remorso de cruel progenitora
sequer o refolgo do excremento transpirado

antes a morte, antes a incontestável culpa
antes a dor de parir e adormecê-los,
junto de tudo em mim que desconheço
longe do que encarcerado embalo, findos

eles livres de mim, isentos desta tatuagem
apenas placenta, raspagem escusada e tinta

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