epidémica

November 30, 2014 § 1 Comment

elas.jpg

Posso reescrever o poema, infetar,
Depositar na folha a larva premeditada,
O germe desnudado e falacioso, embrionário,
Para apenas sonhar esse espaço realizável,
Garantido no branco como um fadário,
A nudez pela refutação da ausência

E saber-me assim, exibida, comprometida,
Nua a reinventar-me pela existência, as mãos,
As veias pela menorreia, os ossos, o fado
E ainda assim tentar as mariposas do verde
Pelo mercúrio das papoilas sangradas no medo,
Regressar as pupas luminescentes, tontas,
Ávidas pela equimose rendilhada e negra

E talvez uma teia, uma aranha solar e um beijo
Vibrado pela prata inconsequente e frívola,
Pelo prurido histérico do grito afogado no pus
De tão crescido, tão desmesurado, mudo
E a vontade morta na boca, cratera lunar
Porque a voz cristalizada, tartamuda na fome
Arrolada na língua pelos trilhos do abismo,
E as unhas pelos ossos, galáxias trémulas,
E as córneas, estrábicas de sal, barcos,
Velas pelas luminárias encandeadas

O poema, uma condição aguda, gangrenada,
Um fungo pelo músculo da alma epidémica,
Asas pelo campo alucinogénico da vontade
Precária, a fazer-me crer real o que digo,
Omissa pela espiral cíclica dos arcos,
Pelo anseio de qualquer limite apenas,
Tentá-lo já desistida e sentenciada ao vazio,
Uma cobaia por exemplo, um ensaio por exemplo,
Um contágio a contestar a conjuntura,
Uma hipótese no tempo, por exemplo

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paul

November 9, 2014 § Leave a comment

mão

As meninas, trá-las
Traz-mas já
Traz-mas depressa, facas presas nas mãos
Lascas de vidro no bordado dos bibes
Farpas de sebes nos braços

Traz-mas já, frenéticas, histéricas, loucas
Chicotes de arame nos cabelos

Tenho um corpo para desmembrar
Um escalpe para levar num cesto
Olhos para adornar vestidos
Vísceras para costurar bainhas

E ainda, e ainda, muito
Ódio para debruar estreitos
Varicosos, coagulados e tristes
Para atulhar leitos e fundear ilhas

Estou exausta desta pedra, estou mesmo, venham
Meu corpo metade terra, metade vento

Será que são elas além que chegam?

Temo a humidade do pântano entranhada no peito
Sinto o lodo, célere pela berma do lábio, desliza
Uma bolha de enxofre a explodir num olho

Já não vejo, ardo, já não vejo, traz-mas, traz-mas
Antes que abafe a língua no lameiro
Já não vejo nada, já não vejo

Já sinto na palma dos pés a lava
As veias pelas coxas como látegos

Se ao menos elas, agora, já
Os meus ossos lascados pelos dedos pequeninos
As unhas enterradas nesses joelhos
A minha língua enrolada num tornozelo gracioso

Talvez, talvez levitasse nelas ainda, esta raiva
E uma lágrima que fosse, fétida

Talvez, talvez uma renda a erguer-me o queixo
Uma bolha respirável na dobra de um pé
E um calcanhar mimoso, isso, isso, puro
A trilhar-me de sangue uma orelha

Talvez uma cantilena assim a adornar-me o medo
Uma voz doce, embalada, piedosa, imediata
A descolar-me os pulsos da pedra
O corpo do golpe rombudo de outra lâmina

finados

November 2, 2014 § Leave a comment

finados.jpg

Hoje,
As castanhas na cor dos olhos dos mortos
Engelhadas nos ossos, nas olheiras noturnas
E um lanho na boca, pela casca do fruto silenciado,
Escorrido de cuspo

Ardem e fervem e tatuam
a cinza pela memória, o sal cristalizado
Sulcos de pele na quietude das veias soterradas

Talvez,
beba um copo de vinho a brinde uma vela
A arder-me os olhos na boca, a cera enterrada no rosto
Talvez na língua,
a lividez de um corpo pela polpa da fruta

Hoje, porque as castanhas têm os lábios gretados
Os dentes descarnados pelas achas como chumbo

Talvez brinde à morte de receber-nos,
sempre
Deguste a fruta pelos nomes nas lápides,
Um aroma solto de jornal a falar-me de finitude,
De pupas mortas ocultas na polpa minada
Mariposas esventradas

A um trago de terra antes do mosto, brindo
A uma ardência na boca antes do barro, brindo

Brindo

Brindo aos mortos sob a pele,
E às castanhas desse ouriço no peito,

Brindo

E masco um castanheiro inteiro numa bebedeira de sangue,
e brindo
A um magusto de ausências, incandescido na fruta

Where Am I?

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