azo

February 14, 2015 § Leave a comment

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sei do grémio secreto, evidentemente

tenho um guarda-chuva e uma mão,
que tremo, desfaleço e morro,
fujo do tempo que já fui, asinha

não regresse sobre mim mesma, igual,
e me persiga, eu cega, desgovernada,
sequer perceba que sou eu que me espio,
ameaço e molesto e estupro,
arrasto de carne e génio pelo caminho,
a verter os meus sucos pelas sarjetas,
as sombras derretidas dos meus fantasmas
nessa cera, nesse odor que amordaça,
rasga da boca as mãos, desune a língua,
de perguntar-lhes por mim, apenas,
se me viram, se me escondo, onde?
antes que anoiteça, esqueça que me procuro,
esqueça a raça que me algema,
antes que seja e não me reconheça,
encontre e desconsidere

talvez tragam com eles a chave, a rua,
atempadamente o código secreto,
aquele que descerra a dor da minha cela,
revela o caminho deste lugar esconso,
e eu possa descerrar os gestos e largar,
partir deste zoo enfeitado e triste,
para ser um antílope numa savana,
onde a chuva é desejada, é sangue,
os leões têm a ferocidade do Sol,
têm lagos profundos diluídos nos olhos

então,
então não precisarei mais de vestir-me,
fazer-me de domesticada e pura

poderei descolar as unhas, a pele do ferro,
descerrar o corpo e chover nua,
derramada do céu sobre a poeira, uma ave,
um oceano de mim, desabrigada e solta,
ser do amor esse estado, esse horizonte,
uma língua explodida de terra destravada,
um nome sem freio

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February 14, 2015 § Leave a comment

gato

não estou suficientemente só
não estou suficientemente acompanhada
não estou nem sou definida
serei de qualquer coisa nada

o que escrevo não me pertence
por isso não me releio
não quero pensar que existo
nas pausas em que me odeio

se rimo é porque estou triste
se não é porque me condeno
escrevo o que em mim desiste
no cúmulo do meu veneno

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February 14, 2015 § Leave a comment

Se escolho um instante para ser,
É agora, carnação enriçada e húmida
Para um gato solarengo de olhar perdido,
Uma mão quente e pesada sobre a pelagem,
Uma língua áspera e lenta dentro de mim,
Um janelo solar sem aldraba ou vidro,
De bicho, acercar-me e verter-me assim

E esse gesto infinito, reiterado, inaudível,
Resvalar transpirado a carne sob a pele,
Minha exaltação reconhecível, singular,
A desumanização da consciência,
A deslocação da forma e dos nomes
Presenciar apenas o estado espontâneo,
Sem legado, a desvendar-me primitivo

Ser um gato, infinito sobre uma pedra,
Isso – preto, pesado, só, despido -, e aí,
Reconhecer-me no esquecimento,
No regozijo que medra inconsciente
A proximidade da dimensão pura,
Do gato, de existir apenas nessa condição,
Na intuição de ser involuntária e nua

Where Am I?

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