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March 24, 2015 § Leave a comment

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Inspiro a fundura e engulo o pássaro

Oxigenado o ventre, as asas nos braços, as luvas

Voo as mãos, voo o peito morno e repasto-me de janelas,
O horizonte irresoluto que perpassa os ossos,
Às vezes trilha o universo num esgar de chuva,
Alfineteia, derrete o medo, a cera nos bicos

E os dedos tateiam o rasto das garras evaporado,
A humidade quente, e nada

Acontece enquanto mastigam e bebem, e dançam e morrem

Deito-me nesse espaço vazio, lacerada e triste
Na espera um cansaço, um bulício de portas,
A minha mão antes e depois do batente, a cortina

Mirro na berma a mão aberta, o deserto um interruptor de sombras
Até planar o fogo e arder a carne e doer a passagem,
Sentir a velocidade do relâmpago estanque no gemido

Essa ave, chamo-a, de querer-me no pensamento dela,
A impiedade embutida em mim, cega e impossível,
E os pulsos anilhados nas garras aéreas desse pensamento,
Pulseiras entrelaçadas de veias e árvores líquidas

Sou nesse instante petrificado, a sede, o grito, a lava,
O crepitar do pio enferrujado

Ninguém concebe uma ave que não expluda e morra,
Verta dos poros o peito, coágulos extraviados,
Depois invisível gema toda a vida entalada num poço,
A dor desmoronada de paredes fétidas nessa boca

Pela ave tremo a voz, fendo o lábio e dilato a córnea,
Uma língua que deixo descaída no peito, uma pétala,
Uma pele lambida de eternidade pelas raízes rubras

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órbita

March 12, 2015 § Leave a comment

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Meu poema é longe,
Como as aves dos braços e os peixes das mãos

Porque nado o vazio e afundo-me,
Voo as palavras e dissipo-me

Não me leiam então, ou às minhas penas
Embebidas em sangue evaporado,
São astros condenados de um universo estanque,
Estrelas mortas de luz despedida

Nem viajem as lágrimas dos meus dedos,
Cuspo mudo do meu leito infecundo,
Órbita desconhecida

Imaginem apenas que não sou,
Nem ave, nem peixe, sou pedra,
E essa pedra soterrada, um verme que mirrou,
Que agora é úlcera no coração da terra

Where Am I?

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