lírio

April 13, 2015 § Leave a comment

lírios

Chego sempre atrasada, como se partisse
Lírios do campo, molestas noturnas, purulentas,
Sóis giratórios de estrelas petrificadas

Desabrigada desses guarda-chuvas, sou das bocas
Cálices de refresco, a sombra mofenta das laranjas rasgadas

Chove, para atravessar os campos agora, boiá-los,
Às úlceras pelas corolas, beber a seiva dos caules

Descalça, todos os dias a fuga que me repete,
Entrega molhada à mesma porta que espanco

Não estou para atender-me e isso é triste,
Desconhecer-me assim desnudada, a aldraba

A cor dos lírios esborrata-se no breu dos olhos,
Suco derramado pela quitina das asas, a gema

As flores acenam mãozinhas decepadas nos vidros,
Resvalam gemidos de pele no espelho das jarras

Não abro, sacudo-me

Seguro-me ao napron, palmilho a janela,
A transparência dos dedos trilhados pela casa

Tenho a porta trancada em mim, e essa dor
Deslocada da cor como uma fonte vazada

Dentro, não conseguirei nunca entrar, nunca,
Transpirar o pigmento húmido da terra

Chego, continuamente,
Como se escapasse ao descampado, nele

À porta, ininterruptamente, tinta estalada dos campos,
Os talos, as pernas escorridas de folhas,
Línguas agitadas pelo batente

Chego sempre atrasada como se fugisse uma saia,
Hasteasse uma bandeira, ofegante o ventre,
Tivesse perdido os braços no lanço dos pés e me batesse

Tenho-me amordaçada de flores, rendida,
Chicotes verdes, rasgos de lírios pelos tornozelos

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poro

April 7, 2015 § Leave a comment

oro

Nos dias da pedra sou descalça, orbicular

O coração não pulsa, desfia a ave côncava

Bate uma asa no osso que estremece um coágulo

Os joelhos trilhados no lábio a esgaçar um bico

Uma língua arrastada de vidro pela face curva

 

Por isso não falo, se falar não digo, sangro

Enquanto o rio verte rubro a curvatura das garras

O pio da ave pelo ventre amordaçado, infecundo

Umas asas tolhidas a espancar de poeira o sacro

Where Am I?

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