canícula

June 9, 2015 § Leave a comment

canícula

Importa resgatar
o bafo das ervas e dos bichos,
dilatar os lagos no peito,
espelhos pulmonares

Deus sonolento, alonga-se,
languidamente incendeia e lambe

Talvez durma, talvez finja, babe
sob o manto, ressonos pela paisagem,
a língua espreguiçada sob o astro,
a boca atravessada, absorta,
o assédio inflamado num bocejo,
um vidro trémulo derretido de cuspe
e cores, dele carnívoro pela canícula,
ébrio, um enxame purulento,
formigas empolhadas

Ambíguo esse tempo da divindade
pelo estio, meu olho gravítico, vomitado
pelo rasgo da pálpebra,
de esguelha uma renda dourada
de aranhas vibratórias e poeira

Ei-lo, e
aplausos de patos na lagoa, palmas
levitadas da palha e asas nos cabelos,
meu lábio fendido na fivela alada,
no impulso lancetado das larvas
na margem, comichosos de credos
e suores, ovos e sémen

Talvez adormeça luras nessa melopeia,
a humidade sombria dos escorpiões
nas dobras da carne, trilhe a pele
ao Deus entre as queimadas
desafogue a mordaça e borrife
a embocadura escovada de terra,
um grito sacudido de insetos, cuspe
acidulado

Se puxar o corpo talvez incite e sangre,
solte os pulsos das fitas entrincheiradas, os rios,
as algemas sacudidas e arraste uma montanha,
desfiladeiros e escarpas, margens
para os vales do corpo

Entupir-me de árvore e raízes, isso,
uma galáxia até ficar um fosso do avesso,
uma mão inteira funda na minha boca,
um planeta descido num braço

O Deus inquieto, ancorado no osso
antes das veias, antes da superfície,
antes que diga, tente
transpor o espiráculo,
expire

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