September 28, 2015 § Leave a comment

Maura 3

as meninas sangrentas, acordam do nada,
escancaram as bocas no fecho dos olhos,
as línguas ásperas, trémulas da noite,
viajadas e lambidas de espaço,
açoites e mãos de prata

ainda enroladas no pano,
e já na porta,
e já na rua,
e já despidas no descampado,
automáticas

os olhos ainda húmidos de luas,
as línguas ainda ácidas de limas,
os dentes rilhados de lâminas no arado

o morno ainda no pano,
a pele ainda suada, e já elas de peito solto,
glúteos

tremem, tremem e escavam, escavam,
escavam, escavam e gritam e cospem
ais de cutículas e unhas e cabelos,
caranguejos de armaduras e espadas

mais fundo, mais fundo, gritam
as ondas nas costas, chicotes de algas e água,
os peixes os búzios e os lábios

mais fundo, mais fundo
que a ferida, que a pele, que a cova,
até aparecer um deserto, milhafres e astros

mais longe, mais longe que o vento,
mais fundo que os olhos, que as mãos,
mais fundo que o fundo

mais joelhos de ondas e tíbias de areia
e sangue

mais fundo que a medula, que o nada

têm em casa um peitoril de jarras

depressa, depressa, que tarda
caçar, esventrar a presa, trucidar o bicho,
o embrião do medo mal hibernado,
casulos na raiz dos cardos

têm em casa um peitoril de jarras
e nichos enfileirados

é lá que vão afogá-los

se abrirem os olhos na noite
à procura de estrelas e eles lá,
velozes, parados,
relembrarão na remela os espinhos
de acordar mais cedo
afogadas no formol das veias

e chupa-chupas de ossos espumados,
da baba dos deuses nas dunas,
dos fantasmas contorcidos
na areia, a estuprar o mundo na retina

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September 20, 2015 § Leave a comment

Henry Darger

Esta dor, este cá e lá contorcido,
Esta solidão masoquista
De escusados abalos e retornos

Por que parto sempre a mesma viagem?
Por que me repito de nada?

Por que durmo? Se acordo sempre
De nervos noutro lugar, despenteada
E triste do dia em que não fico a luz,
Da pez escalavrada que não zelo?

E se me atiro inteira e nua de sonhos,
De mundos, planícies e dilúvios,
Desfaço de areia, de vento e de rios,
Atravesso de asas súbitas falésias,
Desertos de dunas e manadas,
Oceanos de escamas e sereias, e,
Nem uma estrela, nem uma pedra,
Nem um indício

Por que me arrastam?
De que me levam?

Por que não fico?

Se me consinto de lutas e avantesmas,
Contorço de raiva e de ossos solta de bestas,
Por que não mato?
Desfaço-me de pele, de baba e de sangue
Por que não morro?

Por que não esqueço?
Por que não fico apenas
O esteio quedo da pálpebra?

Por que me canso?

~

September 20, 2015 § Leave a comment

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não minto, mas tento,
ser outra nos dias de vento,
uma tina de chuva numa jarra de terra,
porque não tenho poemas para as horas mortas,
nem portas para trancar o tempo
se dentro me despe a folha e esborrata a tinta,
a avidez da frase que não diz nem espera,
diluí-se e desfaz-se no espaço
de tudo o que esqueci, mas que era

calisto

September 12, 2015 § Leave a comment

calisto

Já não subo ao terraço, ao cosmos,
Espero o disco voador, o anel de Júpiter

Fico no barro, na falha, na folha,
Terráquea pelo fio do pano,
O peito na propulsão recuada,
Duas telhas de sangue,
Um leque de carne nos olhos,
Um mapa alienígena

Desfiro o golpe metálico, um talho
No atraso inútil da nave, das letras
Purulentas, desfocadas, satélites
Na órbita ulcerada dos ossos

Já não subo, que importa?
Já não fico, não escrevo, adormeço
No pó antes e depois da trajetória

Num esgar ainda a luz, ainda a lua veloz,
Calipso que escapa ao olho dos deuses
Mélicos, húmidos na vigia, pingados
De nublosas, fulgências e baba lunar

Já não vêm dentro da minha febre

A minha nave eclipsada

Bebo uma infusão imaginária e aterro,
O corpo numa lesma cósmica, sísmica,
Um labirinto de sangue desgovernado,
Gravítico, transpirado de metal

Num esgar o olho pelo lábio seco,
A fralda espumada de estrelas,
Os dentes rilhados de luz,
Aranhas intergalácticas,
O teto esgaçado de teias e constelações

Sonho? Não, bolso poeiras disseminadas,
Planetas no atraso do sono, do disco,
O verniz estalado na limalha do grito,
As bocas escancaradas no hálito estelar,
Dedos e chupetas cósmicas e golfadas

Se pudesse, asfixiaria a memória,
Perfurar-lhe-ia a língua com um cometa,
Os deuses degolados no reposteiro

Mas não, bebo-os e já não subo ao terraço,
Trilho a pálpebra num satélite desativado,
Um coágulo pela trajetória da boca

Enrolo o vómito em tapetes galácticos
Asfixio-os, liquefeitos na fruta láctea

Where Am I?

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