sangue e soja

October 26, 2015 § Leave a comment

octo

Quem é
o instigador do polvo
dentro, fora da minha cabeça?

Quem vem
sem rasgar, amaranhar a rede do meu sangue,
trespassar a coifa da minha pele,
endiabrar em mim o bicho,
acirrá-lo de fogo
sem mirrá-lo de sal,
sem cegá-lo de fumo,
sem matar-me de sede?

Quem vem
suavíssimo pelo jorro,
sub-reptício pela mufla,
submerso e ébrio pela seiva
tatuar meu rumo?

Quem vem
de longe, do fundo, do fim
estropiar o bicho,
sem estuprar-me a mim?

Quem sabe
a estirpe desse gérmen,
de que dor se alimenta,
de que dor se presenteia,
de que dor se finda o começo?

Quem sabe
a origem, o ovo, a polpa, a pupa,
o ardor, o medo?

Quem determina o parentesco?
Quem determina a presa?

Que interessa?

E a quem,
se a luta é tarde ou cedo?

Se sou,
Se esse polvo existe?

Se o incito e temo?

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astrolábio

October 18, 2015 § Leave a comment

sea

Nos dias fastidiosos, zarpo de mim os navios,
Trepo o mastro e dispo da amarra o vestido

Que me importa o leme, se as velas?
Se mergulho nua, descabelada as marés

Que me interessa o cosmolábio, se o peito?
O farol resvalado no estrabismo da rota

Abalo o meu casco na náusea do berço

Isso, nos dias morosos pela minha pressa

Porque o mar é distante e fundo na minha ilha
É salgado e doce, carnívoro no meu sangue

Porque parto sem saber se aporto, se adormeço,
Se regresso incólume as vértebras na quilha

se

October 13, 2015 § Leave a comment

pássaro

ai de mim

se adivinhasse o sangue dessas flores,
até onde perfuram os ganchos as borboletas,
até onde atravessam as asas a ferrugem dos ossos,
as canoas entre as empenas do meu sangue

até onde rasgo a carne entre a farpa das unhas,
até onde os meus chicotes na órbita dos medos,
até onde tudo perdido por uma nesga de perfeição

até onde me levam estas velas loucas? os mastros?
até quando demora na pele este vento? o cabelo?

se soubesse a música longínqua desse espaço
ínfimo, a forma geométrica velocíssima desse tempo,
talvez adormecesse de vez o meu peito na folha,
a boca apertada num ramo inteiro de uma árvore,
e lambesse longamente essa casca até ao infinito,
molhada de açúcar e fruta explodida de espelhos,
a lágrima da viagem no crescente prateado da retina

e o céu todo um suco vertido no espasmo da língua,
e o mar hibernado um lençol de muco e redes

e saísse por aí a chover o meu telhado num dilúvio de penas,
um bando de casas nas asas breves dos passarinhos,
apenas para esculpir jardins na sebe das paredes
e adormecer amorosa os meus ovos no arco desses ninhos

Planeta 127

October 11, 2015 § 1 Comment

127

Esfrangalha o tule no óleo das madrugadas
Chicotadas de mercúrio, de pele e muco

Talvez seja nesse tempo uma fada verdadeira
Oculta sob o código da saia, uma rameira
Levitada do nada, no firmamento dos ossos
A explodir da boca escancarada uma estrela,
Um planeta habitável na órbita desconhecida
E um chicote de línguas súbito pela galáxia,
Repetido, convulso, escorrido de membros,
Lambido de vidros, cicatrizado nela, estrábica,
Escorrida e húmida de chuva, presenteada,
Estuprada de pele, de túneis e de medos

Talvez saiba já e não saiba ainda, a fórmula
Mágica e bêbada de espasmos e de segredos
Revolva por isso possuída a tara encapelada,
Deleitosa, o mar febril dos gestos que a despem,
As mãos que a estraçalham, depois a tecem

Where Am I?

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