rosas de maio

May 8, 2016 § 2 Comments

rosas de maio

as rosas de maio
florescem nas torres mais altas
dos homens mais altos, das sementes mais fundas

por isso,
os homens galopavam rápido,
montavam bestas na perseguição da terra,
desbravavam de cascos a trajetória,
as veias na pulsação da humanidade

e chegavam com bestas nos braços,
os ossos quebrados de cestos de flores

eram tais homens que edificavam o mundo,
martelavam ferozes o futuro na leveza das pétalas,
os caules que sustentavam os saltos,
impulsionavam as subidas

eram eles os plantadores dos jardins mais altos e inalcançáveis
exatamente os mesmos plantadores de hoje

e as torres, essas, fixos planaltos,
balançavam os corações das corolas,
crianças plantadas num vento maternal, embaladas,
o peito azul leitoso na liberdade

porque partiam contínuos, irrefletidos, instintivos e puros

partiam permanentemente ainda que não voltassem

velocíssimos, trabalhavam excelsos essa lonjura
a proximidade da alma à essência da terra

partiam vagos mas seguros, montados no coração das vagas

e galgavam as próprias torres com a carne ferida
aberta de lava, até ao último perfume inocente,
a última gota de sede

e tudo era sanguinário, preciso e belo

a formusura brotada do sangue e da luta

e tudo era corações de fogo a proteger

e tudo por um futuro isento e assegurado

e tudo eram eles
e eles dentro de tudo eram tudo

as rosas de maio nas torres mais altas dos homens mais homens

era assim

e as crianças cresciam das bermas e aproximavam-se

não tinham medo das torres nem dos homens de lume

escalavam a pedra e a carne como botões verdes,
e equilibravam-se felizes,
bailarinas sobre as vigias levitadas,
o corpo imaculado entre as roseiras,
o peito ao longo dos parapeitos de luz

assim penso que era

como penso agora as mesmas as torres, ainda,
só que mais baixas dos homens mindinhos,
das sementes mais deslavadas e desvalidas

os homens
que ainda galgam canteiros espelhados de serranias

ainda os mesmos,
dos mesmos fantasmas,
ainda deles as mesmas torres,
delas o corpo da poeira e da folia

e as bestas saudosas, as mesmas ainda,
velocíssimas, recuadas, retraídas,
a arriscar o retorno por atalhos de melaço

um dia vão encontrar-se lá trás com este futuro

e as rosas ainda delas, fotográficas e sublimes
a ajardinar o passado gigante nos retratos

e as crianças, bailarinas ainda,
mas tristes entre as valas,
as cortinas das giestas,
intermitentes na prata do cascalho

têm os olhos postos nos cascos das bestas
e não os tiram, que elas não mexem

se pudesse regá-las a elas e às rosas sem ser de sal,
pela única, derradeira esperança do derradeiro campanário

a gota ainda latejante do inerte, ainda o mesmo plantador

talvez ainda uma semente que restasse,
uma roseira por brotar na pedra de qualquer torre

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ma

May 1, 2016 § Leave a comment

irises in the garden_Claude Monet 1900

pergunto-me algumas vezes
sobre os teus jardins aí no céu

se ao fundo ainda têm bananeiras
dum continente passado

se abrigam os morcegos que sobressaltam a noite,
põem asas nos nossos cabelos espantados

e nós rimos, rimos muito,
rimos ainda
a semente que plantaste de açúcar,
a gotejar rodada de ananás nas nossas bocas,
a tua eternidade doce no eco da nossa voz

e levantamos o rosto à tua procura,
continuamente,
o espelho dos teus olhos soltos pela casa,
os teus gestos depois da janela da cozinha

perguntamo-nos ainda, com quem falavas, mãe?
falas ainda?

e as tuas mãos a mexer a banca, a revolver a louça,
os talheres, cardumes de peixes perfumados,
e pombos verdes,
mais verdes ainda

a retocares as cores de tudo, eterna,
o oceano dos nossos sonhos nos lábios

quando fechamos os olhos, ainda somos nós
no sabão, e ainda és tu, mãe
quente

e as nossas mãos pelo corpo da tua presença
escorregam-nos para dentro do peito

seremos por quanto tempo ainda,
os nomes desconhecidos nas tuas preces

não sabemos

mas sabemos,
quando te ajoelhas a perfurar uma nuvem
a plantar uma flor desconhecida no teu céu novo,
o teu cão a inquietar os afazeres dos anjos,
porque afinal era branco,
nem era lavrador nem nada,
mas quis ir contigo na mesma semana,
no coração guardar a fúria das flores da tua saia,
trepar raios solares como trepava janelas

dizia,

– bem haja cão, que foste amado -,

que chove aqui mãe,
do teu jardim

chove o suficiente,
uma chuva miudinha que quase não se sente

mas sabemos que és tu que andas a regar,

e abrimos a boca para a tua nuvem,
e refrescamos de chuva a nossa sede

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