kama

June 28, 2016 § Leave a comment

Rati and Kamadeva

por onde andas amor?
por que caminhos principescos nos cruzamos de contas coloridas?

são tantos os teus templos e tão vastos os teus retiros

tão amplos os teus domínios

tão floridas as tuas vestes e refulgentes

pergunto-me muitas vezes, qual é a tua cor no meu cabelo?
somos de que jardim, de que ave e de que tempo?

não deste, tenho a certeza

mas reconheço-te nas preces
teus gestos de seda desfraldada que esvoaça
qualquer sopro de vela quando zarpa o mar na despedida
e a minha boca engolida de espuma,

aberta ainda

que sabor reconhecível de bicho no gosto dos teus dedos?

misturámo-nos como?

de onde vimos que não chegamos ainda não chegaremos nunca?

e sempre a tua mão instintiva à minha porta
teu corpo desabotoado na minha língua

e o meu sono, o silêncio nas tuas asas

um dia saberei quem és, o teu nome inteiro

quando já tiveres partido de flor na mão
a tua corola um sol aberto sobre o navio

a cúpula preenchida de um templo novo

é que, não és deste reino

não és deste reino

só por isso

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vezes

June 22, 2016 § Leave a comment

dejdetritos.jpg

às vezes é tão escusado tentar o poema
que proveitosamente vou estender a roupa

nunca as palavras descem tão docemente o pano,
mascam tão suculentas as molas

assim fosse inocente a minha velocidade no verso,
uma veia de arame na língua aquosa da lã

mas não é
nem eu sou esse líquido

sou um estendal emperrado e ferruginoso,
um arame varado de ovos na passagem súbita do eco

porque tenho comigo a inutilidade de esculpir os ossos
na estreiteza da vala uma vontade assassina
porque toco e morro,
morro e continuo entre os mortos

mortos empolados encadeados no meu pescoço,
achincalhados de vento para colher vertigens,
assediar o passado e escrever sobre o inatingível
e quase na asfixia entendê-los

mas que engano que engano
como perco tempo a imaginar assobios
a imaginar que aconteço

tão escusado isto que tento, tão supérfluo
incitar qualquer palavra que só diz o que quer
sequer uma malha

antes varrer clareiras longínquas a imaginar entendimentos

assim estenderei roupa e varrerei clareiras longínquas
perfuradas de vazios, rodeadas de delitos

eu

quero expulsar os poemas de todos os cantos
sob o mobiliário abrir-lhes a boca dentro do pó,
pernoitar a língua nesse espiráculo seco

matá-los, esquecê-los, deixarem-me, sucumbir

é que ando de facas na mão a assassinar sentidos

se ao menos um golpe no lábio e sangue
e a dor a única verdade confiável

vivo de apalpadelas dúbias de flatulências sóbrias

assim não acreditem em nada nem nisto porque minto
velocíssima à tangência do medo e temo tudo
e a minha mentira uma deslocação veloz

sou pó

mas antes chovesse artérias pelo tecido

Where Am I?

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