quod

July 28, 2016 § Leave a comment

Silent-evolution _ Jason deCaires Taylor

Silent-evolution _ Jason deCaires Taylor

trouxe do mar as tuas lágrimas
e agora são cardumes dentro dos teus olhos
a fazer as marés
e as tuas mãos de estrelas a explodir doiradas
as minhas festas de algas e bichos
nos teus cabelos profundos que hoje penteei longamente
no tempo das ondas e das laminárias
fora do tempo dos teus gestos

talvez isto queira dizer que está tudo certo

e

está tudo certo

e o mundo é equilibrado mesmo triste

e a espuma nada mais que uma nuvem pousada no teu lábio lacrimoso

vem um peixe e come-a
e uma onda na borda da gruta que as tuas mãos apanha

é o deus ao sabor das águas e das marés

hoje não trouxe pedras comigo para não mexer na casa

não mexi

e os peixes na correnteza certa

e a tua boca esfaimada o teu destino

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carapaça

July 6, 2016 § Leave a comment

The-Void-Jason-deCaires-Taylor

o mar leva-me

tenho essa impressão de que vou

a minha vontade inventada de lugares dentro dos olhos,
o movimento na correnteza do sangue

penso docemente e verto-me em direcção à foz

temos sempre a mania de trazer pessoas arrastadas nas coisas para o pé de nós,
uma mesa, uma cadeira, um leito, e elas

cada coisa que falta uma mordaça sobre o tempo

deitámo-nos e adormecemos de corpos,
umas costas, uma cabeça, um ombro inclinado, uma mão
e até parece que regressam perfumados à nossa culpa

é assim o mar dentro e fora da cabeça aos abraços, às facadas

e nada sabemos sobre as coisas, se querem vir, imensas

que lhes interessa nós? contrariadas dentro dos nossos bolsos?

e toda a gente perdida a lamber a palma suada da mão, até ao osso,
beijos de achas, até largarmos a memória, sacudirmo-nos da dor masoquista

e toda a gente a correr livremente em direcção à água, ao rasto húmido da medula

os mortos já não nos querem, recomeçam algures sem nós

ainda assim insistimos,
ainda assim da minha janela um binóculo invertido
fecho os olhos e atiro a minha rede esfarrapada de línguas

um mar sorvido num segundo com tudo dentro
nem sei como consigo um oceano inteiro pelo canto do olho

arrastar um gigante para dentro de um peito tão pequeno

o mar a espancar os pés rua acima comigo de balde ao peito,

truca, truca, truca, truca
o granito a martelar-me as veias

uns chinelos de praia, um robe e uma pá
é suposto doer-me?

as coisas que pensamos e mexemos de saudade e culpa
as nossas mãos que atravessam tudo de varandas e jazigos
os nossos dedos pregados de nuvens e açúcar inventado
que chupamos de facas

depois, quando anoitecemos besuntados de invenções
o lábio desfalecido, cortado de libélulas, fuzilado de dentes-de-leão

a língua quase a tanger-lhes o voo, o espaço
até adormecermos a crosta de uma lua distante

somos crucifixos mais pesados que pedras enterradas no tempo

truz, truz,
– quem é?
(é o mar)

– se quiseres recuo,
posso um deserto também, de um cavalo marinho uma manada seca

chamamos coisas demasiado grandes para nos afogarmos nelas
riscamos trilhos demasiado estreitos para desentendimentos
e as coisas gigantes dentro de nós pequenos

não abro nem fecho a porta e o mar nem dentro nem fora

sabes, bato palmas e chovo búzios do avental ainda
e as crianças ao colo das ondas têm corações de espuma

– um dia vais fugir-me e deixar-me seca também?

e o mar no meio da sala com peixes abertos nos braços

já moravas cá dentro nos meus castelos, eu sabia

um caranguejo súbito de pinças na cortina
de faca na colher da mão,
– corto-te a língua!

isso pode acontecer, isso é o futuro

teimamos viver em longínquas casas submersas

– corto-te o sexo, corto-te um dedo

os caranguejos sabem coisas vitais que desconheço,
por isso temo

um peixe maior no reposteiro
– não cortas nada, e não cortou

fodam-se as carapaças!

e urinei sem que soubessem amarelo limão

eu quase guelras, quase barbatanas, quase caranguejo
e o caranguejo a fugir, quase gente

estou na casa submersa

reconheces-me?

Where Am I?

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