Shishi

September 22, 2016 § Leave a comment

koma_inu

Koma-inu
lamento Koma-inu
ter falado das nossas cidades,
agora vanidades loucas,
agora estrangeiros as visitam,
ninguém no templo,
ninguém nas vigias,
paredes trôpegas com luas nos pés
trepam às janelas ruas

lamento sob as pálpebras
ter falado das nossas cidades

abre a boca e morde os navios,
depressa os teus dentes nas velas
um soluço trespassado de mastros

abre a boca e lambe-me Koma-inu
abre a boca e sorve-me
quente e húmida os olhos oblíquos,
raridades no peito

tudo tão simples como o medo,
anzóis ao fundo das ruas,
a cidade costurada de veias,
a cidade um frangalho de redes,
raízes e peixes no oco das árvores
a espreitar florestas

lamento, Shishi, Koma-inu
olha as minhas mãos nuas,
olha a minha boca cerrada

se abrir novamente, cedo,
leva-me a rasto dos templos
no teu dorso azul assim mesmo,
nas mandíbulas traçada e vadia
a ganir nua as penas
as escamas e um rio num atilho

puxa-me numa laçada só
o pescoço,
o cabelo Koma-inu

água

os teus dentes de vidro
uma quilha nos ossos

depois sacode-me e larga-me,
larga-me longe e sem lamentos

muito longe
muito longe de ti e dos templos,

das metrópoles

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