cibus

November 30, 2016 § Leave a comment

gif-vento

Como se não fosse por ti
de caminhos crescerem as árvores e as casas e o universo respirável,
e não chegasses para explodir o mundo depois dos beijos,
de tudo tão enlevado e triste e supremo e verde
com cães nas ruas a ladrar às fadas

Que nos fazes depois da luz, da carne, da semente, da ave no cabelo
à bomba que nos pões no bolso?

Treme-me a mão a latejar-me o peito

Para onde te arrumas depois de ofegares, explodirmos,
e aos destroços, o pente, os olhos nas feridas?

Já não eram eu sei, nunca fomos, seremos, depois de despidos
os relógios impossíveis tão só a tua liberdade licenciosa,
musgo e sarna na pedra a martelar as línguas
até desfazer-se a pele, azedarmos o leite na perna
o dialeto menstrual avançar exércitos silenciosos

Trazes-nos já estupradas com valas no peito?
o teu perfume na baba ainda? a lamber-nos o joelho,
as mamas em cataratas de fogo no júbilo do teu sémen?

Estou à mesa e uma toalha de sangue,
cotovelos e um garfo no olho impaciente
Para onde olhas? Que enxergas debochado?
as nossas bocas quentes, quase? o mundo afogado
a mastigar-nos ronceiro, açucarado nesta festa quente?

Somos húmidas no teu celário, sei sinto
pulsar a costura das planícies contínuas,
lagos parados e tu a mexer-nos as cavernas
as folhas escuras no útero

Ainda assim dás-nos de comer sob os incêndios?
nem que fome e espinhas sempre? e a sede inflamável?

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nimirum II

November 25, 2016 § Leave a comment

orion-nebula

nos dias brancos tudo de mim está despejado
não me leio nos dias brancos,
não me escrevo insisto-me, desentendo-me e fujo-me
nos dias brancos
e perco-me nos estados dos meus desertos desertos
de alguém pelos desertos calados cedo
na branquitude, longe no desassossego,
aqui no vazio perto, indefinido na resposta impossível
de mim a perguntar-me, a ignorar-me de saber-me interna
extrínseca nos dias brancos a procurar-me em tudo,
nos outros em silêncio a procurarem-se em mim

sou deles o silêncio todo do meu silêncio
sou deles os dias brancos dos meus dias brancos,
das minhas perguntas nas perguntas deles
brancas nos dias em que temo não regressar

temo sempre a demora que temem de mim em não voltar

elas

November 18, 2016 § Leave a comment

elas

chegam do esquecimento
e é só subir-me a terra à unha
escalar-me um caracol no osso

são elas embrionárias atiradas às veias
um balancé de teias e andaço
um chicote de carne que não medra

elas de árvores incendiadas nos bolsos
dos aventais a roer caroços
na cinza
a bolsar metais

arregaçai cotão dobrai o aço
afiançai as meias no traço dos dentes

e estendo-lhes a perna o braço
a sombra
mordei-me
fazei-me lá depressa esse ninho

e que mais?

e levam o tempo todo da viagem
no cuspo do itinerário
a escavar-me um leito
até que lhes dou um jeito
até que lhes consigo e respiro
uma cordilheira num fosso
um horário no peito estacionado
e deito-me
e gritam-me de o ver parado

não entendem a estação
querem mesmo é tomar-me à força
a pele
sacudir-me de mãos
rodar-me parafusos de dedos no cabelo
e lamber-me as entranhas do coração
e babar-me de lava demoradamente
demoradamente um quisto por dentro
um penteado novo
um laço para a viagem com mãos de sangue
e um pente em cunha
e um travessão de ferro
calmamente transpirado a descer-me um rio
de ferrugem a planície no rosto
com pássaros dentro e um ovo
e pedras encalhadas

por quem me tomam?
por quem me dispo
a penugem?

e tomam-me o gosto contorcido
e penteiam-me as águas
e é só deitar-me nelas de espelhos
o amor breve e desconchavado
a lama num bafo molhado num mamilo
e um rio de leite

feridas no tempo que mamam
e chichi desassossegado
num lago tranquilo

acoplar

November 8, 2016 § 2 Comments

jason-decaires-taylor_redemption

nos dias desassossegados desato a profundidade,
desamarro os peixes dos pés para soltar as aves
e os barcos ascendem cardumes velocíssimos ao firmamento

nesse tempo,
se me morde uma pedra engulo uma árvore
e orbito endoidecida os ninhos do mar a levitar-me
a pele pulmonar na prata dum espelho
até desaguarem pássaros nas estrelas,
romper um coágulo num navio

como é? rasgo agora o peito
já que o chão mordeu-me o pé?

o mar na maré da coxa é uma lua húmida,
sorve-me a água por dentro das marés,
jorra-me o sangue pelas narinas
descabelo-me de bichos

se respirar fortemente sangrarei um monte? uma planície? um cavalo?
planetas acoplarão no avesso destas ilhas?
serei habitável sem ardis e velas?

sinto sede,
uma anémona a latejar no arco da boca
fendida na fonte das papilas a crescer um lago,
a língua a tremer um cometa no vazio

será um ovo?

como é? engulo agora? desaguo a espécie agora?

arrasto o lábio via láctea acima?

haeresis

November 4, 2016 § Leave a comment

sereia quadrada

tenho sempre de ir buscar alguma coisa
trazer-me alguém

de livre vontade não venho,
de boa vontade nunca escrevo um poema

em verdade detesto-o sempre
como um filho enjeitado a quem perdi o jeito
na heresia da impossibilidade
na inquietude do nome

assim trago-me arrastada pelo cabelo
a pele lapidada e muda

já pedi que me viesse buscar
mas não venho

e isto não interessa a ninguém,
sequer me incomoda esse espaço
porque trago sempre uma pedra para morder,
um escorpião e uma duna com tempo no lábio

descabelada de bichos, guardo a culpa
de areia e vento reprimido,
o deserto inteiro na tempestade do olho,
a língua no remoinho da poeira

mas preferiria a asfixia
a tomar deste vício de lamber-me

assim cuspo o poema como mijo
e viro-me do avesso imediata

o que queria mesmo era o fundo do mar

o que queria mesmo era a ataraxia cósmica,
rebentar um barco solar no peito
uma sereia instintiva nos ossos
e uma viagem inteira sem retorno

queria mesmo era levar-me
alguma coisa sem dono para qualquer lugar

existir por lá sem qualquer estado
sem identidade e em paz não regressar

Where Am I?

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