haeresis

November 4, 2016 § Leave a comment

sereia quadrada

tenho sempre de ir buscar alguma coisa
trazer-me alguém

de livre vontade não venho,
de boa vontade nunca escrevo um poema

em verdade detesto-o sempre
como um filho enjeitado a quem perdi o jeito
na heresia da impossibilidade
na inquietude do nome

assim trago-me arrastada pelo cabelo
a pele lapidada e muda

já pedi que me viesse buscar
mas não venho

e isto não interessa a ninguém,
sequer me incomoda esse espaço
porque trago sempre uma pedra para morder,
um escorpião e uma duna com tempo no lábio

descabelada de bichos, guardo a culpa
de areia e vento reprimido,
o deserto inteiro na tempestade do olho,
a língua no remoinho da poeira

mas preferiria a asfixia
a tomar deste vício de lamber-me

assim cuspo o poema como mijo
e viro-me do avesso imediata

o que queria mesmo era o fundo do mar

o que queria mesmo era a ataraxia cósmica,
rebentar um barco solar no peito
uma sereia instintiva nos ossos
e uma viagem inteira sem retorno

queria mesmo era levar-me
alguma coisa sem dono para qualquer lugar

existir por lá sem qualquer estado
sem identidade e em paz não regressar

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