diluvium

December 27, 2016 § Leave a comment

bab´aziz

um dia fui a Ararate
fui na arca de Noé
ainda as montanhas submersas
ainda um oceano verde
ainda o levitar das vagas
ainda o sonho na quilha
ainda o cume no pé

um dia fui a Ararate
e falava todas as línguas
e eram salgadas e verdes
e eram de sal entendíveis
e eram de âncoras e fé
balançavam e subiam as vagas
afundavam e desfaziam as mínguas

um dia fui a Ararate
na música da alquimia
na rota da eternidade
e era de ouro e luzia
e era o princípio da hora
e era o avesso do dia
e era só eu que eu remava
e era só eu que lá ia

um dia fui a Ararate
à cidade que lá havia
que era de vento e ruía
que era de carne e doía
que era de tudo e de nada
que era de sangue e vertia

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December 8, 2016 § Leave a comment

giphy-2

visto-me de palavras e o poema veste-se de mim
geminado numa pele só que cresce sozinha
de vestes inventadas de mim nua, corpo e malha
escrevinhada, alma miudinha e rabiscada

dispo-me de palavras e tenho de fingir-me adornada,
não posso despojar-me assim de todas as letras e dizer-me
branca, desguarnecida, desconhecida em mim a reconhecer-me
a lerem-me nas minhas letras, a alma triste e despojada

sempre me aborrece escolher a roupa que vestir
sempre me afadigam os poemas de letras quaisquer

geralmente pego no que está mais a jeito,
geralmente no amor que é da míngua o meu peito

teria sido bem melhor ter nascido vestida
de roupa e de poemas e de feitio,
não ter de estar sempre a escrever-me
a ler-me e a mentir-me, a aquecer-me
de palavras rasgadas e de frio

melhor ainda seria viver descoberta, não ter de fugir-me,
andar sempre de mim a esconder-me, nem sol, nem lua,
de mim constantemente a procurar-me e a vestir-me,
de achar-me sempre só e sempre nua

meninos

December 3, 2016 § Leave a comment

141991-this-gif-has-everything-black-and-white-nature-wind-fieldTodos os meninos esperam

Todos estão sentados na sebe com os pés dependurados
Todos desesperam o tempo completo da tarde
Todos estão descalços, balançam o vento nas pernas
Deslizam as mãos espalmadas pela macieza
Envernizada dos troncos, escorregam as bocas

Todos os meninos estão calados mas sorriem
Todos os meninos exclamam, fazem caretas de medo
Todos de olhos perdidos na paisagem que passa
O corpo pintalgado de sol nas abertas do folhedo

Todos os meninos sorriem, murmuram segredos
Todos, fantasias de barcos que navegam planícies e rochedos

Também eles navegam sentados papelões rasgados de areia
Também eles sacodem dependurados na sebe as blusas de velas
Os pés a escorregar no sebo do tronco as asas

Todos os meninos escutam longe o apito do comboio
Cheiram e encostam as faces à madeira amornada e lustrosa,
Agitam as mãos, deformam as pintas solarengas no corpo,
Sacodem o rosto nas falas uns dos outros, chamam,
Mastigam pontas de palha nos lábios gretados e gritam

Os meninos esperam que passe qualquer coisa cedo
No campo onde apenas passam eles o tempo do sonho
Um burro, um cavalo, um touro, uma cabra, um estorninho
Uma borboleta de cores para espalmar num livro
Uma corrida de pedras e terra no caminho

Where Am I?

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