a que horas te incendeias?

March 30, 2017 § 2 Comments

Não me leves a lançar papagaios se não te incendeias

A propósito, quando te incendeias?
Quando é o vento sul?

Já lancei demasiadas luas contra esta demolição

Por isso, tens lume contra esta ruína?

Vens ordenhar as marés? a humidade pelo sopé da montanha?

Tremo o rastilho na reconstrução e o sexo arde na mão incendiada

Vá lá,
quero explodir estes campos antes do vento norte,
ordenhar uma lua inteira na noite e doer-me

Trazes lume para parirmos depressa esta ave?

É que é urgente incendiar,
acertar as horas no fósforo da língua

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March 21, 2017 § Leave a comment

alvarelhos

se voltassem atrás as estações seria outono ainda,
mesmo na canícula do dia

e nós os dois pousados numa esplanada de silêncio,
chávenas e cadeiras apenas

esse dialecto puro antes da boca

e estanquidade apenas

essa natureza inocente

uma madrugada inteira demorada e nua

seríamos nós
que as palavras são um cadafalso
às vezes

e às vezes dois atilhos ou um punhado de areia

e os gestos quase sempre uma demolição precoce

assim tenho o telhado pousado sobre o meu rosto de terra
e a mobília flutua a casa, verde na decoração das árvores

e um rio de carpete fria atravessa um cão

ladro-lhe daqui uma espada
rápida

responder não me responde, já se foi

não morre
que do meu respiro não me faço entender

que língua é esta que eu falo?
que palavras descrevem estes meus gestos?
que gestos são estes que desconheço?

de que sou feita agora? de onde me chega esta permanência?

não respirarei cedo, já sei,
porque reservo-me um tempo de hibernação para as estações inóspitas

aquelas de pássaros invertidos por paragens líquidas

e tenho medo que gele e tenho medo da alquimia do espaço

assim, a bicharada escarafuncha frenética uma fuga pelos alicerces,
velocíssima

terá de resistir-me depois de atravessar o mundo inteiro para respirar
terá de construir uma jangada de um fosso e atirar-se

soltar uma asa de sangue duma pedra,
um sopro de dentro da humidade de um tronco

que eu terei de ser novamente árvore ou casca
depois voar as lágrimas como se fossem chuva para beber

munir os pés de tempestades e soltar-me da terra sob a casa

mas só se das cinzas explodir qualquer folha,
qualquer nuvem de qualquer memória,
qualquer telha intacta ainda

encarnada

autem

March 1, 2017 § 1 Comment

gif

a felicidade tem uma luminescência tua que dança comigo
campos rodados de flores e árvores nas minhas carnes noturnas
lagos que perfuro embriagada das tuas mãos

todas as madrugadas cuido
todas as madrugadas são solares e deito-me na tua calma,
lavro o teu tempo no meu campo orbicular de flores

são as estações pelo júbilo transpirado e circular,
circunscritas,
de ti circunspecto como o sonho a infância e a tarde

e todos os lobos interiores sitiados neste lume ululam,
celebram para lá das fronteiras clareiras novas

e se me assustas
construo depressa uma casa e largo-lhe dentro um sol,
solto a pelagem da matilha e estremeço por dentro

porque sou quase gente quando mordo ou quando agonizo,
injurio-me e entristeço-me

sou simples, é isso

simples como tu
quando demoras o tempo exato de eu engolir o que sinto

o mesmo que levo a apaziguar qualquer padecimento

o amor

o amor trespassado de trilhos e feras tresmalhadas

caçamos ou fugimos?

todas as madrugadas festejo-te e danço-me
enquanto te interrogo sobre como vão os campos

e respondes-me sempre com o teu silêncio
que vão bem e que estão preenchidos de códigos e flores

e grito reconstruída essa felicidade num contorno de lágrima
o projétil perfurado no meu peito inaugurado de vítima

porque existires às vezes basta-me

e do telhado cresço uma janela espontânea que não vês
de onde me vejo escancarada numa ave que chega daí,
às vezes um inseto desgovernado na luz que me tange,
morre logo depois como a lonjura

um movimento que morre como eu morro

são as tuas mãos que me fecham me perdoam e salvam,
tremem o contentamento e ressuscitam-no do medo
enquanto descerro os lábios para beijar-te

acho que me conheces bem e ao meu paladar

somos velocíssimos nesta dança obscena
e a felicidade esta fera amestrada e amedrontada,
e as nossas línguas lavradas pelo mesmo lanho ferido

e evaporamos campos e lagos néones, etéreos
e voláteis que quase perecemos neles

nus inauguramos a espécie
e nada mais importa que esta embriaguez sobressaltada

desfalecer para reconstruir de novo

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