as meninas no descarrilamento do amor

June 20, 2017 § Leave a comment

as meninas sangrentas
esbofetearam-se uma noite inteira por culpa do amor

até caras cósmicas gigantes vermelhas
no sangue incandescente do amor

as mãos esventradas, esferas espalmadas no súbito impacto
da estepe árida sedenta do amor

dobradas nas cervicais da culpa
tremeram
até golpearem as línguas na faca das palavras interditas

amor
amor
amor

acidentais na velocidade

primeiro no medo, enroladas e húmidas
depois nos gestos, bafejadas e tímidas

íntimas e íntimas e mudas e rápidas

as meninas sangrentas
acordaram antes do sono antes da estação do amor
por culpa da culpabilidade do amor
e tentaram recompor-se
à cabeça dorida, vergada sobre o ombro descarrilado do amor
um comboio estropiado na penumbra a gotejar óleo no linho

gemeram e bocejaram no unto a carne
o sangue
a dor

e depois
de mãos soltas, verteram o tédio no mijo

ohhhhh – demoradamente, muito longamente, elas
quentes na noite!

no mijo desnatado da noite
das cabeças quebradas
dos corações forasteiros
dos comboios descarrilados nas planícies profundas

nocturnas como o sangue
abafadas como o sangue
verdes como o nada

as meninas esvaziaram-se completamente

depois perfuraram o corpo deitadas sobre a linha da viagem
até atingirem a rendição sem retorno

as mãos para cima e para baixo no descarrilamento
as mãos para fora e para dentro do descarrilamento
as mãos para cima e para baixo pelo descarrilamento
as mãos completamente descarriladas – Oh!
desvairadas pelo arrasto estremunhado da paisagem nocturna

noite acima, noite dentro
como traças baças e vento

e deixaram-se assim gemer uma noite inteira entre as estações
a tentar recompor a dobra dolorosa do pescoço,
levitá-lo do vinco, alinhá-lo no farelo dos ossos

depois pentear as riças do cabelo antes da estação enervante do amor
antes se enervarem mesmo
antes do amor nervoso na estação
antes delas lá, na estação nervosa
elas e o amor
uníssono nervo estacionado

um pescoço um mastro, o cabelo uma vela na transpiração
lambida do amor alinhado

até lá, uma noite inteira inchada e infinita
um comboio latejante na tempestade

e nelas um pente pela dobra da coxa, um lanho pelo fundo do ventre
a acenar ainda a velocidade pretérita
imparável no espaço atravessado da noite descarrilada
das palavras ulceradas da terra por descobrir

e a íris rasgada no vidro da máquina despedaçada
desfocada sobre a paisagem
a língua golpeada na trepidação do dente nocturno
do dente feio no recorte da vontade por concluir
amarelo linho, amarelo lua, amarelo bexiga, amarelo larva

amarelo tempo

as meninas sangrentas ergueram-se ácidas e amarelas e esfarrapadas
e arrastaram-se remelosas e ajoelhadas para o descarrilamento

trôpegas
foram lacrimejar húmidas na linha
desfalecer o rosto dormente e comichoso no ferro

Oh! É frio o amor? – entreolharam-se e morderam-se

os pescoços inclinados no vértice do ombro da viagem
a escutar de orelha o leite da coxa a trepidar pela linha
a travessia da noite a escorrer pela veia do carril

vem aí! deitem-se!
às pernas pelos tornozelos aguilhoados do amor

e
noite dentro, noite fora, dor por dentro, dor na hora
pensamento, tempo-hora, sangue dentro, leite fora
no pensamento impaciente do amor

no ferro frio da linha quebrada do amor
pelos círculos distendidos do amor

no amarelo mijo do amor

do comboio descarrilado na obstrução coagulada do amor

sangue vivo do amor
sem estação

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