Ode-ic-atória de ló

July 22, 2017 § Leave a comment

Tenham ló,
Tenham ló irmãos, tenham ló
Tenham pão irmãs
Tenham dó
Tenham de fantasmas, forasteiros e fãs

Tenham de ló e de cá
Desta diversificação de gente
De suas vãs euforias tristes
Suas alegres fornadas

E fé, tenham fé também
Muita fé
E deixem-se de pé à ré da cozedura
Que a vida mura – e trolaró -, é de muitos nadas
Que a vida é dura e cresce e empurra
E a morte é cura fina que mirra e mata
E a poesia floresce e o sonho jura

Calma que vamos
Já vamos
Já vamos de saída e de má catadura
Vamos por onde viemos
Vamos pela mesma rua

E calma
Muita calma que sorrimos, ainda
Que a pressa entontece mas não derruba

Não nos empurrem, vá lá
Vá ló, calminha
Não nos desliguem o forno, a alma
Que ainda vai morno, e ela dobrada no livro
A aquecer docemente a poesia
A fervilhar na boca

Olhai só como vibro
Olhai ló como chovo
Escorro um poema
Como ri e carpe a hora louca

Calma

Comemos e sabemos que faz falta o pão
Faz falta a boca para comer
E o sonho para mastigar
E o corpo para foder
E a poesia para abraçar
Beijar na boca e morrer

Vamos, mas vamos de coração escancarado
Ao colo folheado e quente dos sentimentos
A poesia na chucha da mama a mamar o mundo
A babar semente
A apertar a gente num botão que liga e desliga o sangue
A prosa, o verso, a rima, o branco da folha
A tinta que expande

Calma
Calma que vamos
Prometemos e vamos
E vamos já

Já sentimos as mãos e o caminho
Os passos de mansinho
A poesia no sopro da respiração

Não sentes?
Ora apalpa lá

Já somos dessa mão o friso no desamparo
Já refreamos o riso para parecermos sérios
Já reprimimos tudo e abalamos

E nada disto é partir, sabemos
parece mas não é, é música

Somos de ferro e de fogo
Temos sangue de bicho e água no pelo
Babamos o ranho na levedura do pano
Na ranhura do lábio
Na dobradura do sexo

Vamos erguer ramos para outras árvores
Vamos povoar outro campo de raízes
Vamos ser e não ter de ser felizes

Tenham dó do ló do pão
Dó da casa do ló do chão
Ló do dó
Dó do só
Dó de sermos eternos petizes

Ai que nos dói à vela os cozinhados
Moí-nos ainda os ossos pelo crescente do rosto
Tudo que basta para crescer a gente da massa crua
Da mesa nua ainda a balançar a casa
Os náufragos de rebuscada fantasia
Nos espelhos baços da flostria

Porque se levamos no cós a poesia
Que comprime brava a tripa
Solta da palavra a voz
É porque nos permite a ousadia

E os berros são cá do fundo do peito
Do alto do pensamento
Do desaguar da perna

Mas não falemos mais disto
Levemos no sangue os nós e o pó na asa
O pó que voa e tem distância
Que o tempo hoje é de benzedura

Vamo-nos ló
Que a vida é dura
E a poesia é raça
E a vida mura
E a vida mirra
E a vida acesa
E a vida caça
E a vida é uma birra do caralho
Vamos teimá-la e sê-lo
Desabrochar de qualquer ira
De qualquer fuso, de qualquer uso
Vamo-nos com ela e o orvalho
Trovar para outro lado
Despejar os ventos
Rebentar as águas
Afugentar as mágoas

Cabisbaixos fermentar no bucho o pão
Da gente por aqui ainda emparedada
Dos fantasmas na fôrma do coração
A fermentar nos olhos a massa de estrelas

Tenham ló da hora metalizada,
Estilizada, alheia, nua, crua, de panaceia
Da casa pelo telhado de lua prateada
Que é tempo de sairmos despidos
Nus para a rua dos presentes e passados
Fazer pão na esplanada doutro tempo
Com tempo cozer pão noutro lado do fado
Mastigar outras fontes de levedura
Que a vida é aço e a mão ainda pelo crescente
Tanto chupa como cresce a gente
A salivar o ovo aromático
A forma untada na banca
Inclinada da gente enfarinhada
A espirrar de mansinho à porta

Tenham ló
Tenham lá ló desta fraqueza de ser pão
Que arrota de ser doce por dentro e por fora
Que o mundo é da gente que parte amarga
E a arte a ilharga pelos caminhos de lume e fôrma
Que vai no forno do coração a dar à corda

Vai agora

Tenham ló de mim, de nós, da poesia fofinha
Derretida nas bocas salivadas do sonho ocre
Dos fantasmas do tempo no branco da linha
Na linha do bicho torneada

Ó que medonho, tremo, fedo – sei ló -, cago-me

Tenham ló da casa dos dias fartos
Da fartura dos nossos dias de pão temperado
Dos nossos corações amarelinhos e fofinhos,
E parvos, e risonhos e magoadinhos
Ou esquentados, corações de ferro e brasa

Céu prateado e lua e cinza
E cotovelos pousados no riso dos dentes da música
Trauteados de enlevamento

Ó que belo
Assim nós amalgamados, unidos no fermento da mesma massa

Tenham só, de ló os queijos espalmados
Na tábua deste forno ao relento da madrugada
De peitos escancarados e as línguas transparentes
Vocábulos fatiados de açúcar

E contamos o tempo desta hora emparedada e livre

Alapemo-nos irmãos de ló em ló o nosso germe
Apalpemo-nos de palavras e rimas e desalinhos
Apalpemo-nos de papel em riste, lábios nos lábios
A nossa saliva misturada

Apalpemo-nos de peito e espada e pensamento
Aos fantasmas encavalitados nos cavalos destas paredes
Que descem sobre nós inclinados
As frontes enrubescidas
A memória num ombro descaído
Um projétil na vértebra irrespirável
Da nossa mama ainda presa no fogão

Mamemos agora todos juntos nesta despedida de irmãos
Uma, duas mamas, as que houver bem cheias, transbordantes
O fim da festa, a algazarra na parra do leite, ainda
Pela derradeira hora de ló
Dispamo-nos da casa de mansinho
De preconceitos
E saiamos de prato devagarinho para a rua nua
Para o outro lado do espaço gemer as dores, as cores
O calor da inacabada cozedura
A massa mole e a fôrma nos bigodes da farinha
E a mó a remoer a boca fora da pedra do tempo

Apalpemo-nos irmãos sem palavras
Obscenamente perfurados de dedos
De ló em ló de gestos, música e palavras
Os peitos e os cus nus ao vento da esplanada
Sentados a aplaudirmos as lâminas da despedida

E respiremo-nos boca a boca no retrato da casa
O barro saudosista em castelo de estrelas

Olhai-as lá em cima, olhai
A resistência a tostar-nos o crânio desenformado ainda
Os testículos na tinta resiliente a fervilhar meninos
Os óvulos no brilho dos olhos acocorados

Já somos crescidos

Olhai as estrelas
Como brilham

Olhai-as e abri as asas – já
Eclodi do ovo
Escancarai as pernas
Poetas de copos entornados ao peito

Vertei a ultimíssima seiva
Abri-vos obscenamente
Um pão em brasa
E gemei o ultimíssimo gemido da vida desnudada

O corpo ao léu pelo ló da casa

*

(para Ismael Calliano)

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