kraken

August 30, 2017 § Leave a comment

não me devo preocupar com os dias
apenas com os caranguejos se ficam longe da costa

regressá-los húmidos ao mar – um objetivo útil,
pensar sobre esse tempo – uma futilidade -, uma vez que imperceptível do cosmos

assim, melhor guardá-los dentro dos gestos plúvios

no entanto, dias há em que me preocupo
percebo o quanto desperdiço a vida a pensar nisto de agir
no tempo em que alguém – na minha ausência -, surripia uma estrela para um lavatório

triste e ridículo – eu sei -, como tudo o mais

que importa?

faço por sobreviver – e sobrevivo -, a esta tristeza de barco no mar
com toda a culpa hasteada de não salvar nada, nem a mim mesma (o que não lamento)

de tudo inconsolavelmente inútil como isto e ainda mais o que não escrevi,
escreverei um dia ou atrever-me-ei a pensar,
igualmente dependurado na humidade do espaço

enfim – bichos, monstros e náufragos –, solúveis velas

resta-me pois, unicamente
a esperança de a meu tempo sucumbir no nada
sorridente e com todos os nomes que não salvei vazios na boca

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missiva para o líquido amor

August 23, 2017 § Leave a comment

Garden of the Words_ de Makoto Shinkai

amor, estou no limite do estio e tudo seca

preciso de ti mais do que nunca,
saber se vens para dizê-lo aos bichos soterrados
aos insetos que agasalho dentro desta humidade amarga que me resta

dantes chovias, era de flores

agora sou côncava e ácida nas tuas vértebras

unto-as com a sombra do meu corpo antigo,
embebido na memória da tua água inquieta

no entanto, reservo ainda no peito a lembrança irrespirável do arco que pulsava a nossa impaciência

e digo-te que assim é, sabendo que não basta,
que descarnas este corpo outrora místico e embriagado da religião da tua boca

não é mais o mesmo

é réplica agora, multiplicidade de significados e estados

vegeto relentos incertos com gestos inábeis
e não sei mais qual de mim sou eu no teu sentido

certo dia, de imensa e dupla, serei por certo uma cidade infecunda e apartada do mar
que desmoronará dentro do teu silêncio com todos estes rostos que construí
antes de qualquer um de nós se aproximar e reconhecer, antes do fim,
da tua chuva respirável e com sentido ainda, humedecer em mim qualquer sopro de vida

preciso de ti agora mais do que nunca
antes de encerrarem todos os portos e partires de vez

no passado, nada disto acontecia ou me preocupava

a vida pestanejava e habitava o imo das coisas
as pedras sem arestas rebolavam nuas as marés sem tempo

pensava em ti com a clareza das fontes e das paisagens
e todas as estações estavam certas dentro dos relógios

agora não
tudo mudou
vesti-me e tornei-me violenta

sou demasiadas de mim agora

no medo, já não te distingo o rosto entre os espelhos
e neste desfasamento triste, sei que conjeturas sobre mim também

qual de nós é o genuíno eu
qual em nós é o genuíno amor

são vãs, estas palavras, eu sei

mas se puderes, ainda, responde-me sem muitas vozes

pois tentarei perceber qual de mim te escuta

se assim o entenderes, revelarás qual de ti me pertence
e aproximar-nos-emos líquidos e desarmados
pela derradeira vez

é que preciso urgentemente de reconhecer-te nesta cidade

se é a tua voz que escuto entre os ruídos
se esta humidade que sinto, tua inquietude

se és tu, líquido amor na minha língua
se eu que me dissolvo entre as ruínas

querosene men

August 17, 2017 § Leave a comment

o querosene men, é dândi e internacional

compõe o pescoço, direciona os olhos
antes de afiar a língua na lâmina da folha para incendiar os mortos
deslizá-los encetados e húmidos pela fibra roxa do lábio
partir deles no sentido dos próprios ossos perfurando-lhes a carne
tomando-lhes as manhas

o querosene men, autoflagela-se e autocontamina-se

olha, treme, cheira, lambe e deglute vagarosamente, ou aceleradamente
ou intermitentemente a partir das suas presas das suas vísceras

depois, vertiginoso e farto
dirige-se ajoelhado para os precipícios do poema
para enforcar-se nos parágrafos da própria alma

assim procede, retrocede e emerge
oleaginoso pela cútis do canal do verso a parecer-lhe que viaja
furtivo até à medula das dores, a remar no sentido contrário do próprio sangue
aparafusando a fé à própria morte

o querosene men é inevitavelmente um sonhador
um condenado, padecente de todas as doenças
todos os ódios, todos os medos e amores

delirante, pulsa continentes e estados submersos a trote de fantasmas galvanizados

encavalitado nos ecos das ininterruptas vozes
enforca-se sobre o cadafalso dos inatingíveis significados

o querosene men martiriza-se
e unha-se em formicações ininterruptas

alimenta as chagas incuráveis que descola da pele para achar-se vivo
sobreviver no código indecifrável da própria dor

é por isso um sádico masoquista
um fornicador seletivo e natural, crónico manipulador da própria casta

é simplesmente a destilação fantasmagórica da própria solidão

orgulhoso, crava os dentes dos outros no próprio peito e ri e entristece-se
e veleja assim escancarado e exposto
ensanguentado o barco de todas as palavras que desconhece
todos os nomes dentro de todos nomes
arrasto de avejões à trela do próprio corpo

mente, finge e maravilha-se

assombrado, ascende à superfície da própria carne
e degusta nas lâminas intermitentes a própria sombra

e aporta
e regurgita no embargo da noite, distinto e intraduzível
uma âncora acocorada no cerne do tempo

o querosene men,
traz o passado suspenso no anzol dos lábios
que coagula e deslaça no cuspo, no álcool da própria bebedeira

o presente, humedecido no canto embriagado do olho

e chora

e quando chora acredita
e quando ri desconfia
e quando é dândi e sério na sua dor, enternece-se e lambe-se,
venera-se escorado de vísceras

cautela com ele,
com o querosene men
pois é igualmente mentiroso e mortificador
um exumador
um incurável e incompreendido morto-vivo desterrado do próprio fundo
um incendiário triste
um ávido usurpador do espaço-tempo
um inculpável contaminador das massas

cautela, com a insanável cura que artimanha
com a insuprível contaminação
com a propagação da fome que apregoa
com os inúmeros e inúmeras compo
e decom – posições da espécie

em pé, sentado, deitado
ele é sempre ele mesmo e os outros,
o constante revirar da prata nos espelhos
o coma no fundo dos lagos
o lado oculto da galáxia,
das caves da terra na exumação dos corpos

no delírio das próprias luzes, sucumbe antes do fumo

o querosene men
é incurável e perigoso,
anoitece insaciado dentro da própria insónia com uma gota de sangue no canto do lábio
que lambe interruptamente no medo de qualquer réstia de açúcar

é impossível caçar, deter o querosene men

no delírio das luzes, sucumbe antes do fumo
com todos os relógios parados dentro do peito

o querosene men
incendeia a própria culpa na cave pura da palavra
e desmorona a saída para arder por dentro

baixa-mar

August 5, 2017 § Leave a comment

o tempo que leva a baixa-mar
é o mesmo da humidade dos teus olhos

assim, mal chego
despeço-me de ti e dos bichos

dormem agora o fundo complexo das horas e das palavras
e resguardam o amor submerso

tenho a impaciência das marés no cálculo impreciso dos baixios
e desconfio-me às vezes presa na rebentação,
outras vezes rebentação apenas

angustio, mas despreocupo-me logo
pois nada é previsível e seguro dentro e fora do mar e do amor
como o reflexo dos olhos e a liquidez das palavras

como tal
provavelmente, quando o mar me descobre calo-me
e tu, fechas-me nua dentro da humidade dos teus olhos
onde sobrevivo na profundidade,
onde ovulo versos por construir

e faço coisas inimagináveis onde nascem e desovam as espécies
que nem eu sei, apenas tu o mar e o amor
quando desço até ti a superfície vertiginosa
no mesmo instante em que te cumprimento e aos bichos
e me despeço

Where Am I?

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