querosene men

August 17, 2017 § Leave a comment

o querosene men, é dândi e internacional

compõe o pescoço, direciona os olhos
antes de afiar a língua na lâmina da folha para incendiar os mortos
deslizá-los encetados e húmidos pela fibra roxa do lábio
partir deles no sentido dos próprios ossos perfurando-lhes a carne
tomando-lhes as manhas

o querosene men, autoflagela-se e autocontamina-se

olha, treme, cheira, lambe e deglute vagarosamente, ou aceleradamente
ou intermitentemente a partir das suas presas das suas vísceras

depois, vertiginoso e farto
dirige-se ajoelhado para os precipícios do poema
para enforcar-se nos parágrafos da própria alma

assim procede, retrocede e emerge
oleaginoso pela cútis do canal do verso a parecer-lhe que viaja
furtivo até à medula das dores, a remar no sentido contrário do próprio sangue
aparafusando a fé à própria morte

o querosene men é inevitavelmente um sonhador
um condenado, padecente de todas as doenças
todos os ódios, todos os medos e amores

delirante, pulsa continentes e estados submersos a trote de fantasmas galvanizados

encavalitado nos ecos das ininterruptas vozes
enforca-se sobre o cadafalso dos inatingíveis significados

o querosene men martiriza-se
e unha-se em formicações ininterruptas

alimenta as chagas incuráveis que descola da pele para achar-se vivo
sobreviver no código indecifrável da própria dor

é por isso um sádico masoquista
um fornicador seletivo e natural, crónico manipulador da própria casta

é simplesmente a destilação fantasmagórica da própria solidão

orgulhoso, crava os dentes dos outros no próprio peito e ri e entristece-se
e veleja assim escancarado e exposto
ensanguentado o barco de todas as palavras que desconhece
todos os nomes dentro de todos nomes
arrasto de avejões à trela do próprio corpo

mente, finge e maravilha-se

assombrado, ascende à superfície da própria carne
e degusta nas lâminas intermitentes a própria sombra

e aporta
e regurgita no embargo da noite, distinto e intraduzível
uma âncora acocorada no cerne do tempo

o querosene men,
traz o passado suspenso no anzol dos lábios
que coagula e deslaça no cuspo, no álcool da própria bebedeira

o presente, humedecido no canto embriagado do olho

e chora

e quando chora acredita
e quando ri desconfia
e quando é dândi e sério na sua dor, enternece-se e lambe-se,
venera-se escorado de vísceras

cautela com ele,
com o querosene men
pois é igualmente mentiroso e mortificador
um exumador
um incurável e incompreendido morto-vivo desterrado do próprio fundo
um incendiário triste
um ávido usurpador do espaço-tempo
um inculpável contaminador das massas

cautela, com a insanável cura que artimanha
com a insuprível contaminação
com a propagação da fome que apregoa
com os inúmeros e inúmeras compo
e decom – posições da espécie

em pé, sentado, deitado
ele é sempre ele mesmo e os outros,
o constante revirar da prata nos espelhos
o coma no fundo dos lagos
o lado oculto da galáxia,
das caves da terra na exumação dos corpos

no delírio das próprias luzes, sucumbe antes do fumo

o querosene men
é incurável e perigoso,
anoitece insaciado dentro da própria insónia com uma gota de sangue no canto do lábio
que lambe interruptamente no medo de qualquer réstia de açúcar

é impossível caçar, deter o querosene men

no delírio das luzes, sucumbe antes do fumo
com todos os relógios parados dentro do peito

o querosene men
incendeia a própria culpa na cave pura da palavra
e desmorona a saída para arder por dentro

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