missiva para o líquido amor

August 23, 2017 § Leave a comment

Garden of the Words_ de Makoto Shinkai

amor, estou no limite do estio e tudo seca

preciso de ti mais do que nunca,
saber se vens para dizê-lo aos bichos soterrados
aos insetos que agasalho dentro desta humidade amarga que me resta

dantes chovias, era de flores

agora sou côncava e ácida nas tuas vértebras

unto-as com a sombra do meu corpo antigo,
embebido na memória da tua água inquieta

no entanto, reservo ainda no peito a lembrança irrespirável do arco que pulsava a nossa impaciência

e digo-te que assim é, sabendo que não basta,
que descarnas este corpo outrora místico e embriagado da religião da tua boca

não é mais o mesmo

é réplica agora, multiplicidade de significados e estados

vegeto relentos incertos com gestos inábeis
e não sei mais qual de mim sou eu no teu sentido

certo dia, de imensa e dupla, serei por certo uma cidade infecunda e apartada do mar
que desmoronará dentro do teu silêncio com todos estes rostos que construí
antes de qualquer um de nós se aproximar e reconhecer, antes do fim,
da tua chuva respirável e com sentido ainda, humedecer em mim qualquer sopro de vida

preciso de ti agora mais do que nunca
antes de encerrarem todos os portos e partires de vez

no passado, nada disto acontecia ou me preocupava

a vida pestanejava e habitava o imo das coisas
as pedras sem arestas rebolavam nuas as marés sem tempo

pensava em ti com a clareza das fontes e das paisagens
e todas as estações estavam certas dentro dos relógios

agora não
tudo mudou
vesti-me e tornei-me violenta

sou demasiadas de mim agora

no medo, já não te distingo o rosto entre os espelhos
e neste desfasamento triste, sei que conjeturas sobre mim também

qual de nós é o genuíno eu
qual em nós é o genuíno amor

são vãs, estas palavras, eu sei

mas se puderes, ainda, responde-me sem muitas vozes

pois tentarei perceber qual de mim te escuta

se assim o entenderes, revelarás qual de ti me pertence
e aproximar-nos-emos líquidos e desarmados
pela derradeira vez

é que preciso urgentemente de reconhecer-te nesta cidade

se é a tua voz que escuto entre os ruídos
se esta humidade que sinto, tua inquietude

se és tu, líquido amor na minha língua
se eu que me dissolvo entre as ruínas

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