mastigação do amor

December 22, 2017 § 1 Comment

todos os dias passo pelo coração chiclete

está esmagado nas traseiras do meu apartamento

se espreitar da janela do meu quarto não o vejo
mas se fechar bem os olhos sei-o de cor
como a memória

na luz, passo apressada por ele como as horas
mas não o calco, sob pena de magoá-lo, obrigá-lo a morrer
mais longe do que a morte e os ponteiros
o meu amor apegado ao granito do amor cada fez mais fino e rápido

passam os gatos ao redor da forma e do meu pensamento
e as pombas contornam distraidamente o coração outrora doce,
umas vezes solar e colante, outras vezes entre estalidos
como o amor dentro dos olhos quando dá um passo e recua
ou se despede

outras vezes é simplesmente molhado e profundo,
mergulha até dentro da pedra e evapora-se
desaparecendo do lado de lá da rua do esquecimento

outras vezes é apenas desistente sob o luar,
geralmente quando anoitece
e as luzes da rua desligam-se com as pessoas
e os prédios enfurecem-se mais altos e incompreensíveis

houve um dia em que os gatos pararam para cheirar o coração
e as pombas para bicarem-no e desfazerem-no

o amor estava bem agarrado e não conseguiram

nesse dia doeu-me muito e não soube bem porquê
se por ciúme se por medo
se por desconfiar da aderência súbita do amor

sempre tive ciúme do instinto e pavor da fome,
desconfiança destas severas configurações,
como os gatos temem as chicletes e as patas ancoradas
e as pombas os bicos atados à teimosia da matéria

ainda assim
julgo certos desses dias favoráveis
enquanto indago o tempo e o abstrato,
o coração límpido e desconhecido,
o granito estendido como um leito desatado e vertiginoso

desconheço a flexibilidade,
a sofreguidão da língua, a violência da fé

está visto,
colo-me à ideia e passo demasiado tempo a mastigar,
a rodear irremediáveis formas

demasiado tempo à procura de granito onde me deitar

sempre que anoitece, demoro a encontrar a consistência

arrumo os ponteiros dentro dos gatos que dormem sobre os pneus, e
entrego às pombas o esquecimento da insónia do amor,
com elas despreocupadas com estas minhas fúteis elasticidades

e enquanto esgravatam frenéticas os ninhos nos beirais
rodo lentamente o corpo e as penas para não me doer,
e desenho corações pelo meio do medo e mio

o granito lá fora escuta-me e geme também,
escala a perna da cama com o coração negro ao peito a latejar

fico a olhá-los,
à pulsação no interior dos olhos verticais do gato

estou deitada sobre a chiclete da noite – penso,
enquanto repito baixinho de olhos fechados que acredito na forma,
que acredito no tempo

que urge acreditar na consistência negra da mastigação
até adormecer

ou até ser dia

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