iter

January 31, 2018 § Leave a comment

ebaumsworld.com

eis a beleza abrupta do início
pequeno barco na rota dos pés

dá-me a tua mão verde para o aplauso
para navegar o começo
que é do princípio que me dispo
que é da partida que te colho
qualquer palavra muda na faina

eis que partimos, musicais pedras,
espécies intraduzíveis, corais
ao fundo dos peixes das flores

eis muitas ilhas à esquina do amor

escarpado fim

dá-me a tua mão azul magnífica
e não te apresses solar, náufrago
na jangada de luz
na violência feliz de aportar

guardo comigo a obstinação solene de uma árvore
o mastro atravessado no peito da planície
e a quilha ao leme da respirável terra

assim, espero-te
rasgada pela costura do mar,
boca desfraldada, o teu dedo a prumo da paisagem
martelo húmido à vela no cabelo

eis que somos deuses e inauguramos juntos esta miragem

eis o navio à proa do sortilégio das marés

deixa-te inábil, sobreposto
na barcola da pele em que me largo

e que te prenda apenas o vento vertical 
a veia na inquietação do sangue

guio-me pelo fluxo dos teus lábios
pelo pulso dos teus olhos
e emerjo à tona instintiva das vagas com a memória
essa fome espumada no vício da tua língua

assim, cobre-me de cuspo ou espuma ou febre
e estende-me as cinzas em inflamáveis gestos
um braço, um ramo eternamente jovem até à ilha do fim
onde firme os estes dentes no nervo da terra descarnada

que é violenta a planície do amor
e embriagado o arrasto no respiradouro da paisagem

e eu, sou pulmonar no convés da fraga

se respirares devagarinho bem ao de leve
decifrarei no hálito o caminho,
entrarei mar adentro pela fenda nua,
a ferida aberta da largada

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quæ

January 28, 2018 § Leave a comment

não estou suficientemente só
não estou suficientemente acompanhada
não estou nem sou definida
serei de qualquer coisa nada

o que escrevo não me pertence
por isso não me releio
não quero pensar que existo
nas pausas em que me odeio

se rimo é porque estou triste
se não é porque me condeno
escrevo o que em mim desiste
no cúmulo do meu veneno

leda

January 18, 2018 § 4 Comments

nos dias gatafunhados
de letras que não desvendo,
não leio
e não escrevo,
desenho numa folha um sonho
de um dia um cavalo negro

e fico todo o tempo assim,
curvada, tombada sobre o esquisso,
a cavalgar de júbilo
a madrugada no meu colo, o peito
na braveza dos cascos,
no batimento alvoroçado,
de tanto que gosto dele
e o vejo belo,
na noite dos meus olhos,
se os tenho ou não fechados
dele cavalo negro,
dele luzidios,
que até lhe cresço ao acaso
umas asas negras,
de serem assim escuras
as minhas penas

Where Am I?

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