murum

February 22, 2018 § Leave a comment

planetaryfolklore.com

sim
permaneço só por ararate

continuo livre na cidade sem tempo com a mesma bagagem

e sim
podemos encontrar-nos
no mesmo lugar por detrás das grandes muralhas
antes da ruína da cidade

tenho todo o tempo que resta antes do fim
deste e da nossa espécie
para partir das tuas mãos deste lugar todos os bichos
reencontrar-te na fenda da demolição

continuo nua e quebrada
e podes chamar-me do fundo do teu corte

escutarei os pássaros entre as poeiras sobre os telhados
como gritam do alto a tua boca no peito da metrópole
as tuas cordas silenciosas

descerei rápida os pulsos
os passos no sentido da subida
e tomaremos café juntos pelo pescoço do sangue
afogados nas pedras e voltados para o mesmo deserto
até ser húmido o vento e afogarmo-nos
uma vez mais estrangeiros destas veias revisitadas

continuo só

continuemos pois pela metrópole
que a alquimia do espaço não tem dono
sequer se entregou a qualquer estação

continuo nua dentro da solidão
calada sob o teu relógio solar
até resgatar-me qualquer luz
qualquer horizonte desengonçar-me dos gestos
das areias movediças de tentear

assim
descerei o leite no teu sentido enquanto dia
até perder-me de vista na miragem

descerei o corpo sem a alma e sem acenos
desta pedra para dentro de mim mesma
até perder-me de vista a despedir-me
de ararate a sangrar

de ararate ferida
pelo atalho de qualquer outra solidão

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~

February 12, 2018 § Leave a comment

Tenho pena da pena da praia fria
da ave desse céu que esfarrapou
agora que a sinto e sei que é minha
molesta-me esta asa que quebrou

Daí este seu céu, meu lar distante
daí este meu mar em desalinho
da praia tão vazia e a ave errante
da pena, meu presídio nesse dia

Se ao menos esta asa e não voar
se ao menos esta dor e não ter pena
ser ave desta areia e naufragar

Talvez a noite e a praia menos fria
a pena, a Lua à vela a marear
do céu o breu na asa em euforia

heart

February 4, 2018 § Leave a comment

joshyeston.com

por vezes o tempo é tão longe
que a distância que meço nos olhos já passou
e eu ainda penso que me alcanço
no espaço em que me vejo e já não estou

rubídea

February 3, 2018 § Leave a comment

âncoras de pedra
atracam navios
e só é mar quando chove
e só é casa quando cai uma árvore

até esse lugar tudo é fantasia
e as marés trepam às janelas
jangadas de luz

e deixámo-nos nas raízes
de olhos postos no farol
a desenhar planetas que perfuram telhados

vão eclodir longe
por isso ignoramos que somos inabitados

que somos alienígenas
fantasmas da própria casa

e os nossos remos ossos
de nós que não chegamos,
apenas partimos
orbiculares a remar esquinas
a julgar que só por isso
somos construtores

à deriva
orbitamos a próprias ruínas
o vazio das gigantes vermelhas

Where Am I?

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