nimirum II

March 19, 2018 § 2 Comments

se voltassem atrás as estações,
seria verão ainda

e nós os dois prostrados

e silêncio apenas

esse dialecto puro

e estanquidade apenas
essa natureza inocente

uma tarde inteira demorada e muda

que as palavras são um cadafalso
às vezes

e às vezes um atilho

e os gestos uma demolição precoce,
quase sempre

tenho sombra do telhado pousada sobre o rosto da terra

a mobília segue na decoração das árvores,
verde

um rio de carpete que corre e atravessa um cão

ladro-lhe daqui

do meu respiro não me faço entender

que língua é esta que eu falo?
que palavras descrevem os meus gestos?
de que sono sou feita?

não respirarei tão cedo eu sei,
os pássaros pela estação trocada

a bicharada escarafuncha uma fuga pelos alicerces,

terá de resistir-me depois de atravessar o mundo para respirar

terá de construir uma jangada de um fosso,
uma asa de sangue duma pedra,
um sopro dum sufoco

depois voar lágrimas como se fosse chuva
a minar-me os pés e soltar-me a terra sob a casa

se das cinzas se soltar qualquer nuvem
de qualquer tempo

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inutilidade

March 12, 2018 § 4 Comments

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meu poema é longe
como as aves dos braços e os peixes das mãos
porque nado o vazio e afundo-me,
voo as palavras e dissipo-me

não me leiam então ou às minhas penas
embebidas em sangue evaporado
são astros condenados de um universo estanque,
estrelas mortas de luz despedida

nem viajem as lágrimas dos meus dedos,
cuspo mudo do meu leito infecundo,
órbita desconhecida

imaginem apenas que não sou
nem ave, nem peixe – sou pedra
e essa pedra soterrada um verme que mirrou,
que agora é úlcera no coração da terra

elas

March 8, 2018 § Leave a comment

as mulheres acordam e logo partem para as montanhas mais altas

ainda com os pés nos alicerces da casa
atravessam as planícies entre o quarto e a cozinha,
brotam nuas com a água dos desfiladeiros
nos gestos com que preparam o chá e recebem as manhãs

uma pele finíssima descola-se à medida que correm, atravessam a luz
despem-se no vento das divisões da casa
ultra e supranaturais

as mulheres acordam já montadas em altíssimas e velocíssimas éguas
com a nudez dos cascos pousada sobre o dorso do dia
e cavalgam enquanto estendem a roupa sobre as muralhas fugidas do passado
inclinadas sobre os abetos
com suas bocas esventradas sobre as sementes

as mulheres bruxuleantes
as mulheres mais trémulas
em pontas sobre o arame da vida atravessam as miragens
equilibram-se na vertigem do medo
tão delicadamente que aprumam o fio do horizonte com os desertos
de todas as coisas abandonadas

as mulheres com suas ancas musicais esculpem dunas para embalar os filhos

se alguém as reconhece na alucinação
é apenas porque repetem o futuro
estão na reconstrução do círculo dos relógios parados

e é já noite segura quando chegam nos comboios descarrilados
a pele enrugada da faina e um laço púrpura de sonho na pulsação

e é já noite profunda dentro de todas as horas
quando põem a mesa ainda com as pernas abertas na paisagem
os olhos pelo avesso do mundo

as mulheres

só mesmo antes de adormecerem amarradas à fome
recolhem às entranhas os bichos dos descampados
húmidos e mergulhados na sonolência do sexo
onde mamam luas enormes até nascer a manhã

e enquanto se alimentam e ausentam
as mulheres ainda estendem os braços ao comprido dos rios
salvam a leveza das poeiras e a flutuação das superfícies
escarafuncham as luras dos peixes com que humidificam o ventre
a carne alumiada da noite penetrante

as mulheres são rios e pássaros
nidificam aves contínuas no leito descontinuado das espécies

é delas o destino das longas e incompreensíveis distâncias
correr, resgatar novos e inesperados seres do pó da casa
reconstruir da louça o cristal das cidades inventadas
ordenhar dos próprios ossos o leite sobrenatural

Where Am I?

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