elas

March 8, 2018 § Leave a comment

as mulheres acordam e logo partem para as montanhas mais altas

ainda com os pés nos alicerces da casa
atravessam as planícies entre o quarto e a cozinha,
brotam nuas com a água dos desfiladeiros
nos gestos com que preparam o chá e recebem as manhãs

uma pele finíssima descola-se à medida que correm, atravessam a luz
despem-se no vento das divisões da casa
ultra e supranaturais

as mulheres acordam já montadas em altíssimas e velocíssimas éguas
com a nudez dos cascos pousada sobre o dorso do dia
e cavalgam enquanto estendem a roupa sobre as muralhas fugidas do passado
inclinadas sobre os abetos
com suas bocas esventradas sobre as sementes

as mulheres bruxuleantes
as mulheres mais trémulas
em pontas sobre o arame da vida atravessam as miragens
equilibram-se na vertigem do medo
tão delicadamente que aprumam o fio do horizonte com os desertos
de todas as coisas abandonadas

as mulheres com suas ancas musicais esculpem dunas para embalar os filhos

se alguém as reconhece na alucinação
é apenas porque repetem o futuro
estão na reconstrução do círculo dos relógios parados

e é já noite segura quando chegam nos comboios descarrilados
a pele enrugada da faina e um laço púrpura de sonho na pulsação

e é já noite profunda dentro de todas as horas
quando põem a mesa ainda com as pernas abertas na paisagem
os olhos pelo avesso do mundo

as mulheres

só mesmo antes de adormecerem amarradas à fome
recolhem às entranhas os bichos dos descampados
húmidos e mergulhados na sonolência do sexo
onde mamam luas enormes até nascer a manhã

e enquanto se alimentam e ausentam
as mulheres ainda estendem os braços ao comprido dos rios
salvam a leveza das poeiras e a flutuação das superfícies
escarafuncham as luras dos peixes com que humidificam o ventre
a carne alumiada da noite penetrante

as mulheres são rios e pássaros
nidificam aves contínuas no leito descontinuado das espécies

é delas o destino das longas e incompreensíveis distâncias
correr, resgatar novos e inesperados seres do pó da casa
reconstruir da louça o cristal das cidades inventadas
ordenhar dos próprios ossos o leite sobrenatural

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